sexta-feira, 27 de março de 2026

Um tinteiro arte deco transformado em candeeiro


Adoro candeeiros de todos os tipos, lustres, apliques, candeeiros de mesa e são objectos que se encontram à venda nos mercados de velharias por quase nada. Já ninguém os quer. Os apartamentos modernos têm todos focos nos tectos ou mesmo que sejam velhos, rebaixam os tectos com uma placa de pladur e lá instalam essas luzes desengraçadas. Os que não têm ainda esses focos dirigem-se nas suas viaturas a uma dessas grandes superfícies nos subúrbios, do género IKEA e compram uns globos de pano para o tecto ou coisa qualquer em plástico para a mesinha de cabeceira.


Como já tenho a casa cheia de candeeiros, quando encontro peças engraçadas compro-as para oferecer, como este candeeiro de mesa, em estilo entre arte deco, com uma bonita tulipa em vidro fosco, que foi a minha prenda de anos para a minha sobrinha Maria.

Na base, há dois orifícios que se fecham ou abrem com uma tampinha

Contudo, ainda antes de a oferecer, houve dois pormenores que me chamaram a atenção. Na base, havia dois orifícios que se fechavam ou abriam com uma tampinha, o que não fazia sentido nenhum num candeeiro. Suspeitei então, que originalmente este objecto tenha sido, um tinteiro, ou mais exactamente aquilo que se designava antigamente como escrivaninha, isto é, um suporte, para conter dois recipientes em vidro ou porcelana, um para a tinta e outro ainda para o areeiro e ainda um pequeno orifício para pousar a pluma.


O candeeiro foi originalmente um tinteiro


Fiz então umas quantas pesquisas no Google e encontrei à venda num site checo de velharias uma escrivaninha igual a esta, mas ainda com a função original e marcada MADE IN FRANCE. No centro, há pequena imagem de um barco com uma inscrição onde se lê Ile de Ré. Ré é uma pequena ilha ao largo de La Rochelle, em França. Provavelmente foi um souvenir comprado nalguma lojeca por alguém, que visitou aquela ilha francesa e quem sabe se o candeeiro, que ofereci à Maria, no sítio onde actualmente está o interruptor, teria uma pequena gravura de algum monumento de França, o Sacré Coeur, a Basílica de Lourdes ou o Arco do Triunfo.

Made in France


Mas isso são especulações e o certo é que este candeeiro foi originalmente um tinteiro, fabricado em França talvez nos anos 20 ou 30 do século XX. Depois com o tempo, as canetas de aparo foram caindo em desuso, generalizaram-se as canetas de tinta permanente e finalmente as esferográficas, que dispensavam o reabastecimento manual de tinta e este objecto tornou-se obsoleto e nesse entremeio alguém teve a ideia de o transformar em candeeiro de secretária, electrificando-o e o resultado até foi muito feliz.

Este candeeiro é exemplo de como as objetos ao longo do tempo vão sendo adaptados, transformados, perdem a função original e ganham uma nova.



Ligação consultada:

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma terrina Miragaia



Recentemente cometi mais um disparate e comprei esta enorme terrina de Miragaia. Foi barata, mas falta-lhe a tampa, as pegas estão partidas e está toda gatada, mas tenho uma paixão por esta louça decorada com o chamado motivo País. Não aparece muito no mercado, mas sempre que vejo uma com um preço aceitável compro e além desta já tenho outra terrina mais pequena, um covilhete e um prato de sopa. De modo que esta terrina continua uma pequena colecção.

Marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 


No tardoz esta peça apresenta a marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 e corresponde ao segundo período de laboração da fábrica, entre 1822 e 1850, em que predomina a cor azul e o já referido motivo País, uma adaptação livre e imaginativa de uma louça inglesa da Herculaneum Pottery, View in the Fort Madura, como já aqui referi em Maio de 2014.

Marcas Miragaia usadas entre 1822 e 1850. Reprodução da obra Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


No já referido catálogo, consta uma terrina com as dimensões da minha, mas está completa, com a tampa e as pegas intactas.

Um terrina com as mesmas dimensões da minha, com em bom estado de conservação e com a tampa. Imagem reproduzida de Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


Além da beleza da decoração azul e branca com flores e da paisagem com o casario de longínqua inspiração na Índia, o que me impressionou também nesta terrina foram as enormes dimensões. Só de comprimento tem 33 cm e ainda 25 cm de largura. Era uma peça destinada a servir à mesa uma família grande. Como tenho também um prato de sopa desta série País, tentei perceber quantos pratos serviria esta terrina, enchendo-a de água, mas como está tão velhinha e maltratada pelos seus quase duzentos anos de existência, começou logo a verter e minha experiência caiu por terra.


Esta terrina está em mau estado, incompleta e como tal não tem e nem nunca terá grande valor comercial, mas eu compro por prazer e pelo valor evocativo. Esta peça recorda-me as refeições de uma casa grande de família, que ainda conheci, servidas numa grande mesa de jantar de nogueira, à beira da qual se sentavam 10 ou 14 pessoas, enfim uma época irremediavelmente perdida.



Bibliografia:

Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008