terça-feira, 28 de abril de 2026

Uma cabeça de carneiro em bronze



Já aqui escrevi sobre o meu gosto por comprar nas feiras de velharias ferragachos antigos com funções indeterminadas e então se apresentarem vestígios de dourado melhor ainda. Quando os compro, sinto que estou a levar para casa um fragmento de um tesouro, guardado durante centenas ou até milhares de anos no túmulo de um rei cita, merovíngio ou visigodo. Claro, se chego a descobrir a sua função original, a maior parte das vezes são afinal objectos do século XIX ou início do XX e desirmanados de um conjunto original, sem qualquer valor comercial.

Na última vez que estive na Feira de Estremoz, encantei-me com esta cabeça de carneiro em bronze dourado, que foi produzida até com qualidade. Obviamente um fragmento de qualquer coisa. Na base apresenta duas pequenas concavidades, que permitiriam à peça assentar em qualquer lado e no fundo há um buraco, onde se encaixaria outra coisa qualquer. Como a encontrei numa banca misturadas com torneiras antigas, pensei que talvez fosse o manípulo de uma e também coloquei a hipótese de ter feito parte do batente numa porta.




A base apresenta duas concavidades e o extremo, um orifício, que um dia conteve qualquer coisa. 


Mas a internet é uma coisa maravilhosa, carreguei a imagem no Google e num minuto encontre num sítio de venda de velharias um carneiro igual a este, mas assente num pedestal de mármore e identificado como pisa-papéis e atribuído ao início do século XIX. Já era alguma coisa, no entanto para pisa-papéis continuava a apresentar um inestético buraco na extremidade e a explicação não me convenceu.



Imagem encontrada no site Chairish, onde a peça é identificada como pisa-papéis


Copiei a imagem do suposto pisa-papéis no Google e descobri então como ela foi originalmente. Estava realmente assente numa base de pedra e no orifício tinha uma espécie de jarra de vidro e era uma peça para funcionar com um par. Uma garniture para decorar um móvel. E estes carneiros em bronze foram aplicados em mármores distintos, brancos ou com veios coloridos, por vezes apresentando um friso em bronze dourado e os vasos em vidros poderiam ser de várias cores, alguns feitos até em cristal de Baccarat. Encontrei todas essas variantes à venda em sites de antiguidades, normalmente identificados como sendo franceses. Alguns deles, atribuem ao início do século XIX, mas duvido. Parece-me mais coisa estilo Império, mas fabricado no período de Napoleão III, portanto da segunda metade desse século.

Par à venda no e-bay


Ormolu and Marble-Mounted Cornucopia Vases, à venda em 1stDibs


Mas quando vi como era originalmente este carneiro, assente numa base de mármore e com um vaso em vidro lembrei-me que já tinha visto esta forma no passado e veio-me a memória uma exposição maravilhosa, no Museu Gulbenkian, os tesouros do Museu Nacional de Teerão, onde se mostravam várias peças em ouro, copos reproduzindo a forma de cornos, com um animal na base. O Metropolitain Museum de Nova Iorque tem na sua colecção um destes copos, também originário da antiga Pérsia e muitas civilizações antigas usaram esta configuração, como por exemplo os trácios na Bulgária.

Cabeça de Carneiro, do Reza Abbasi Museum, Teerão


Obra Aqueménida, do século V, do Met museum de Nova Iorque


No fundo, este fragmento revela a moda que as grandes campanhas arqueológicas do século XIX introduziram nas artes decorativas desse tempo.