Já aqui escrevi sobre o meu gosto por comprar nas feiras de velharias ferragachos antigos com funções indeterminadas e então se apresentarem vestígios de dourado melhor ainda. Quando os compro, sinto que estou a levar para casa um fragmento de um tesouro, guardado durante centenas ou até milhares de anos no túmulo de um rei cita, merovíngio ou visigodo. Claro, se chego a descobrir a sua função original, a maior parte das vezes são afinal objectos do século XIX ou início do XX e desirmanados de um conjunto original, sem qualquer valor comercial.
Na última vez que estive na Feira de Estremoz, encantei-me com esta cabeça de carneiro em bronze dourado, que foi produzida até com qualidade. Obviamente um fragmento de qualquer coisa. Na base apresenta duas pequenas concavidades, que permitiriam à peça assentar em qualquer lado e no fundo há um buraco, onde se encaixaria outra coisa qualquer. Como a encontrei numa banca misturadas com torneiras antigas, pensei que talvez fosse o manípulo de uma e também coloquei a hipótese de ter feito parte do batente numa porta.
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| A base apresenta duas concavidades e o extremo, um orifício, que um dia conteve qualquer coisa. |
Mas a internet é uma coisa maravilhosa, carreguei a imagem no Google e num minuto encontre num sítio de venda de velharias um carneiro igual a este, mas assente num pedestal de mármore e identificado como pisa-papéis e atribuído ao início do século XIX. Já era alguma coisa, no entanto para pisa-papéis continuava a apresentar um inestético buraco na extremidade e a explicação não me convenceu.
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| Imagem encontrada no site Chairish, onde a peça é identificada como pisa-papéis |
Copiei a imagem do suposto pisa-papéis no Google e descobri então como ela foi originalmente. Estava realmente assente numa base de pedra e no orifício tinha uma espécie de jarra de vidro e era uma peça para funcionar com um par. Uma garniture para decorar um móvel. E estes carneiros em bronze foram aplicados em mármores distintos, brancos ou com veios coloridos, por vezes apresentando um friso em bronze dourado e os vasos em vidros poderiam ser de várias cores, alguns feitos até em cristal de Baccarat. Encontrei todas essas variantes à venda em sites de antiguidades, normalmente identificados como sendo franceses. Alguns deles, atribuem ao início do século XIX, mas duvido. Parece-me mais coisa estilo Império, mas fabricado no período de Napoleão III, portanto da segunda metade desse século.
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| Par à venda no e-bay |
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| Ormolu and Marble-Mounted Cornucopia Vases, à venda em 1stDibs |
Mas quando vi como era originalmente este carneiro, assente numa base de mármore e com um vaso em vidro lembrei-me que já tinha visto esta forma no passado e veio-me a memória uma exposição maravilhosa, no Museu Gulbenkian, os tesouros do Museu Nacional de Teerão, onde se mostravam várias peças em ouro, copos reproduzindo a forma de cornos, com um animal na base. O Metropolitain Museum de Nova Iorque tem na sua colecção um destes copos, também originário da antiga Pérsia e muitas civilizações antigas usaram esta configuração, como por exemplo os trácios na Bulgária.
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| Cabeça de Carneiro, do Reza Abbasi Museum, Teerão |
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| Obra Aqueménida, do século V, do Met museum de Nova Iorque |
No fundo, este fragmento revela a moda que as grandes campanhas arqueológicas do século XIX introduziram nas artes decorativas desse tempo.




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