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No centro encontra-se o Francisco Manuel de Morais |
Recentemente, por causa da identificação de um retrato antigo da família materna, os Morais, das terras frias de Vinhais, reabri as caixas com documentos, que trouxe de casa do meu pai, após a sua morte. Alguma delas já as tinha visto com atenção, mas uma caixa de tosca madeira, provavelmente daquelas coisas onde antigamente se vendia o sabão, tinha-me escapado. Nelas estão muitas cartas de família, pagelas, facturas e outras caixinhas mais pequenas de papelão, onde alguém um dia, talvez há 50 ou 60 anos, guardou uns botões, uma fivela, um resto de linha, peças de qualquer coisa que se escangalhou, na esperança de virem a ser úteis novamente.
Dessa caixa de madeira, constam muitas cartas do meu tio-avô, Francisco Manuel Morais, que morreu num acidente de caça a 4 de Outubro de 1916, apenas com 25 anos. Era um jovem bonito e prometedor, que estudava medicina no Porto.
Aos 16 anos, quando eu estava a desabrochar e a deixar de ser um patinho feio, a minha tia Lalai, mostrou-me um retrato do Francisco Manuel, dizendo-me que eu estava a ficar parecido com ele e eu fiquei envaidecido, pois este tio-avô com o seu penteado de risco ao meio parecia um galã do cinema mudo, daqueles que a Ilustração Portuguesa publicava tantas fotografias, de modo que desenvolvi desde dessa altura uma empatia por ele.
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O Francisco Manuel de Morais |
Entre as cartas, que escreveu à sua mãe e irmã, encontrei um envelope com uma madeixa de cabelo e um lenço de homem, que presumo, que lhe tenham pertencido e que alguém guardou depois da sua morte.
Mas, antes do fático dia de 4 de Outubro de 1916, dois anos antes, o Jovem Francisco Manuel encontrava-se a estudar no Porto e estava perdidamente apaixonado pela Estela, conforme conta numa carta à sua irmã, a minha avó Adelaide, numa carta datada de 8 de Marco 1914.
É uma carta muito longa (a minha mãe tinha também o hábito de escrever muito nas cartas), em que o Francisco Manuel conta que vai passar uma hora com a Estela todos os serões e que são namorados, mais do que isso, noivos. A felicidade é muita, mas o ambiente em casa da Estela é tenso. A jovem vive com a mãe, a D. Maria e há ainda a Palmira e Augusta, talvez suas irmãs. Presença também da casa é o Silvério, que namorará uma das jovens. Mas, mas há um padrasto que parece ser um homem intratável. O Francisco Manuel conta nesta carta uma cena, em que o homem berrava como um doido e tentou atirar com um grande copo à D. Maria, mas a Estela interpôs-se e o Padrasto acabou por atira-lo a ela, magoando-a no ombro. O homem faz ameaças brutais, há um revolver e as cenas repetem-se todos os dias com mais ou menos variantes.
Depois desta cena, a D. Maria pensa fugir com a filha para Vinhais, terra do Francisco Manuel e só não o faz, para não o atormentar este, na época de exames.
O Francisco Manuel vê a sua Estela definhar. Vejo-a sofrer, vejo-a doente, magríssima, abatida e a isto continuar durante anos, eu vou desposar um cadáver, vou abrir a vala onde pode sumir-se a minha felicidade.
A solução para o terrível problema e para a qual pede a colaboração da irmã, é depois de terminar os exames, levar a Estela para Vinhais, casarem discretamente e depois disso a jovem ficará a viver com os pais e ele regressará ao Porto, para terminar o curso de medicina. Nessa altura a Estela ficará a chorar com minha mãe a minha ausência, acariciando-a, dulcificando-lhe o mais possível os dias da velhice e a desanuviar o espírito do meu pai com a sua abnegação, o seu amor de filha. A Estela será também uma irmã extremosíssima para a Adelaide, aquela que veio a ser a minha avó. Enfim, todos viveriam como Deus e os Anjos.
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Francisco Manuel, os seus pais e a irmã, minha avó Adelaide |
Mesmo, não conhecendo os pormenores de como esta história se desenvolveu é óbvio que os pais do Francisco Manuel foram contra a ideia. Ter um filho a estudar no Porto era muito caro e com efeito li umas quantas cartas dele na diagonal, em que está sempre a pedir dinheiro à mãe. Certamente que lhe terão dito que a prioridade dele seria terminar o curso e terão também seguramente feito as contas, do que lhes custaria sustentar na sua casa uma nora e a talvez até a mãe na nora, enquanto o filho estudava, sem trabalhar e ganhar dinheiro. Terão também pensado, que enquanto o filho estivesse no Porto, poderia conhecer outra moça e depois que faria eles com aquela nora. Além do mais, o meu bisavô Clemente da Ressurreição teve a ambição de estudar medicina na juventude, mas a mãe, que queria que ele fosse para padre, não autorizou, de modo que filho estaria a realizar aquilo que ele sempre desejou, ser médico.
O que é certo, é que o Francisco Manuel Morais nunca casou com a sua amada Estela e morreu num acidente de caça em 1916, sem se ter conseguido formar. Segundo a tradição familiar esta caçada tinha sido organizada pelos amigos para se despedirem dele, uma vez que tinha sido recrutado para ir combater na Grande Guerra. Se não tivesse sido morto neste estúpido acidente teria talvez perecido dois anos depois em La Lys. Parece que havia uma fatalidade a pesar nos destinos deste rapaz tão bonito.
Por conhecer o desfecho trágico da vida deste tio, confesso que a leitura desta carta me impressionou. Pareceu-me que estava a ler as linhas de um daqueles livros ultrarromânticos do século XIX, em que já sabemos que tudo aquilo vai acabar mal. Fiquei com a ideia que o Francisco Manuel seria um rapaz ingénuo, criado numa vila interior, com a imaginação alimentada pela leitura de demasiados romances, sem um sentido realista da existência. Talvez por essa razão, a sua mãe, a Graça Pires de Morais, depois da morte deste jovem tão bonito e promissor tenha mandado queimar todos os livros do filho, todos aqueles romances, que moldaram este pendor para paixões irrealistas, mas isto são suposições minhas.
Em todo o caso, na tradição familiar era conhecida a existência de uma jovem no Porto, pela qual o Francisco Manuel se teria perdido de amores e esta carta comprova a sua existência. Diz-se também que houve um filho desta ligação, mas para comprovar isso, terei que ler todas as cartas dele e o tempo foge-me a cada instante.
Transcrevo na íntegra a carta, a pensar naqueles que gostam de ler cartas
Porto, 8-3-1914
Querida mana
Hoje vai para ti, mesmo porque quero abordar um assunto muito importante que comuniquei só à mãe e, se quiseres, à tua amiga D. Inês. É bom que esta tenha conhecimento do conteúdo da minha carta porque está em condições de poder apreciar os factos.
Vamos ao caso. Como sabem (as três) eu vou todas as noites passar uma hora com a Estela e, claro, nessa hora, dois namorados, mais do que isso, dois noivos, temos sempre que dizer um ao outro. Terceira pessoa que venha meter-se-lhe de permeio com conversas aborrecidas sem interesse, é um obstáculo que com muito custo se tolera. Esse obstáculo, de mais a mais propositado, é o padrasto da Estela. Porque às vezes não estou para o aturar e me conservo mudo, vendo passar os minutos sem poder trocar com ela duas palavras, ele tem em a aborrecer, em lhe querer mal. A causa verdadeira, porém, de tal atitude é muito outra: é que ele vê que, quer eu quer o Silvério podemos dar um pouco de de felicidade ao futuro das filhas da D. Maria, que não são dele e, alem disso, ver os primores que saem das mãos delas e nada que as dele protejam e aprendem. E não julguem que esta animadversão se limita a palavras ou maus modos.
Não; há dias chegou a vias de facto. Mas eu conto: depois de eu sair de lá, ficaram na sala a Palmira, Estela, D. Maria, Augusta, Silvério e ele. Principiou a gracejar com o Silvério dizendo-lhe que tinha que ajuntar dinheiro para as prendas que havia de oferece-nos. De repente, porém, por qualquer palavra que a Augusta disse, contradizendo-o, ele armou em terrível e perguntou se queriam bater-lhe dizendo que já uma vez o José lhe insinuara não lhe dever obediência. A D. Maria, em face do desproposito e da mentira, porque ele berrava como um doido, desmentiu-o e o homem pegou num grande copo (a primeira coisa que encontrou à mão) e preparou-se para atirar. A Estela, vendo aquilo, correu a cobrir com o copo alcança-la da mão, e o estupido e desalmado, reavivando o ódio que lhe tem, atirou e deu-lhe num ombro. Se o Silvério não o domina atirava mais ferindo-a talvez gravemente visto que o alvo dele era a cabeça.
Imaginem o resto atendendo a ameaças brutais e ao facto de ir procurar um revolver e digam-me com franqueza se isto não é um inferno, que se repete todos os dias com mais ou menos variantes. A D. Maria queria, logo no dia seguinte, fugir com ela para aí, se não o fez, foi por minha causa, para não me atormentar nesta ocasião de exames. A Sra. D. Inês, que conhece bem esta família, pode dizer-te e à mãe se isto não é ódio velho, agora reacendido pela inveja.
Pergunto: como fazer terminar este estado de coisas? Como arrancar a Estela, única mulher de quem eu espero felicidade, única a quem confio a realização das minhas esperanças de ventura porque me compreende e porque lhe conheço o génio, a este martírio que me dá cabo dela?
Só vejo uma solução: leva-la daqui, faze-la minha mulher, dar à minha mãe uma filha que a adora e a ti uma irmã extremosíssima. Ainda hoje, falando com ela cerca do futuro, eu lhe perguntei: se consentirem que nos casemos, sujeitas-te a ficar com minha mãe, velha, doente, a aturar o génio sombrio de meu pai e a ver-me partir para os meus estudos? Chorou a pobrezinha, e respondeu-me com ardor que seria para ela um prazer o ir chorar com minha mãe a minha ausência, acariciando-a, dulcificando-lhe o mais possível os dias da velhice, o ir desanuviar o espírito do meu pai com a sua abnegação, o seu amor de filha; e que vida de aí, da nossa casa, que eu lhe mostrei nitidamente a adoptaria de bom grado pronto em mim a única esperança de melhores dias.
Contigo conta ela como amiga e como irmã como eu conto também. Se o não fizesse, eu, não serias tu a primeira a ter estas palavras
Admitamos agora que estão de acordo comigo. Nesse caso eu mostro o meu projecto que é o seguinte: logo após os meus exames de Julho iríamos para aí e, sem barulho, sem festas, muito humildemente nosso padrinho uníamo-nos para sempre. Passávamos as férias juntos e, em Outubro, ela ficava na sua nova vida e eu viria continuar os meus trabalhos.
Que felicidade se eu pudesse contar contigo! Com que redobrado ardor eu pegaria nos livros para conquistar o consentimento e as boas graças do pai que bem sei ser o principal obstáculo! Por estes dias espero dar-lhe um pouco de alegria com o bom resultado do meu exame que deve ser entre os dias 16 e 20. E digam-me, se no fim do ano eu lhe aparecer com tudo feito não quebrarei o gelo que o envolve, não conseguirei que ele aceite como filha esta que é o meu estímulo? Digam-me alguma coisa, deem-me a sua opinião; mas de manifestarem em desacordo, mostrem-me, pela amizade que lhes tenho, razões fortes a para procederem assim. Não me venham dizer que é melhor esperar o fim da minha formatura porque isso já eu sei Eu bem compreendo que era melhor. Mas Santo Deus, vejo-a sofrer, vejo-a doente, magríssima, abatida e a isto continuar durante anos, eu vou despois um cadáver, vou abrir a vala onde pode sumir-se a minha felicidade. Por tudo isto e confiando muito que me querem, espero que a resposta a esta carta me traga esperanças e não a mais amarga das desilusões. Recomenda-me a todos. Beijos ao Zeferino e à Miquinhas e tu aceita um saudoso abraço do teu irmão muito amigo.
F. Morais
PS. Diz à mãe que recebi o vale e que naturalmente não torno a escrever sem fazer exame porque tenho muitíssimo que estudar.