sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Registo de Azulejos: Nossa Senhora da Paz em Montemor-o Novo


Estes últimos tempos no blog tem sido muito dedicados à azulejaria, mas que hei-de eu fazer se o azulejos estão por toda a parte? E depois habituei-me a andar sempre com a máquina fotográfica na mochila e ando sempre de mochila, todos os dias, invariavelmente, de tal maneira, que as pessoas em Lisboa me perguntam muitas vezes se vou acampar.

Encontrei em Montemor-o-Novo este painel de azulejos na fachada da Ermida de Nossa Senhora da Paz, um pequeno templo, com uma cúpula de sabor mourisca, no centro histórico de Montemor-o Novo e que faz parte do percurso do Senhor dos Passos.
Representa a Nossa Senhora da Paz, está datado de 1729 e o desenho é de muito boa qualidade, quer da figura, quer da cercadura. Julgo que poderá ser classificado no chamado ciclo dos grandes mestres, que abrange precisamente o primeiro terço do Século XVIII.
Este período da história do azulejo português é caracterizado pela existência de desenhadores notáveis como António de Oliveira Bernardes, Policarpo de Oliveira Bernardes ou o Mestre conhecido pelas iniciais PMP. É também uma fase da azulejaria portuguesa em que o azul é uma cor absolutamente dominante.
É também interessante reparar que em termos iconográficos esta imagem se confunde facilmente com Nossa Senhora da Conceição, por causa da meia-lua, do globo terrestre, da auréola com as doze estrelas e dos querubins. O que no fundo as diferencia é o Menino Jesus, pois a Imaculada Conceição, representa a Virgem antes de dar à luz. Penso sempre que alguém se deveria dedicar a fazer uma iconografia sistemática da arte cristã em Portugal. Eu não me importaria nada de fazer parte de uma equipa que fizesse esse levantamento. Seria uma belíssima variante aos grupos de trabalho parvos, task forces e outras tolices de que tenho feito parte.

7 comentários:

  1. Luis,

    Só se pode congratular por ter passado por Montemor-o-Novo, sem dúvida uma das mais belas Vilas de Alentejo, e arriscaria de Portugal. Sei que já tem a titulatura de Cidade, mas para nós continua a ser vila. É de lá que vem parte do sangue da família, é lá que estão os ossos da família e é lá que moram muitas das nossas memórias.
    A riqueza da terra é monumental, património construido, musical, etnográfico, gastronómico, tauromáquico, em termos de artesanato e humano. A importância da sua história liga-se à própria história nacional. Aparentemente uma vila no coração do Alentejo sem grande relevo, mas na verdade uma terra com ocupação humana desde o Neolítico. Só referindo a obra de referência do perído pré-histórico, podem sitar-se as Gravuras das Grupas do Escoural.
    Importante interposto entre Lisboa e Évora, é passagem obrigatória nos caminhos que conduzem à Andaluzia.
    A conquista do seu castelo foi determinante para a tomada de Évora no processo de Reconquista. Pela sua imponente álcáçova se demoravam os reis de Portugal e a sua corte. Lá D. Manuel reuniu as Cortes que o fizeram aclamar e fez aprovar o já projecto de D. João II da viagem marítima à Índia.
    A vila onde a melhor nobreza do reino fazia construir palácios na cerca do castelo ou nos arrabaltes, que chegou a contar com oito conventos só no perímetro urbano e que via elevar-se uma igreja quase a cada esquina, só pode, portanto traduzir essa riqueza.
    O exemplo que apresenta, é apenas um, do melhor que Montemor-o-Novo tem.

    Abraço
    C.

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  2. É verdade, Luís, temos magníficos painéis de azulejos em abundância em Portugal. E nem quero pensar no q se tem perdido, sobretudo no último século. Digo isto, porq por exemplo em Condeixa estavam referenciados pelo menos 5 painéis de azulejos do séc. XVIII, q representavam os passos da paixão de Cristo, aplicados em paredes exteriores de casas particulares, e agora, só lá existe um. Tinha-o fotografado mas deve ter sido uma das fotos q estava no computador e perdi recentemente. Tenho q o fotografar de novo. Este painel q nos mostra é de uma enorme qualidade artística, é pena estar tão degradado. O pormenor do rosto da senhora está belíssimo.
    Quanto ao seu sonho de se dedicar à elaboração de uma iconografia, se não o conseguir fazer antes, é um bom projecto para a idade da reforma. Bem sei q ainda falta muito tempo, e o pior é q falta cada vez mais tempo, mas as pessoas com o cérebro bem treinado conseguem manter as suas capacidades intelectuais até bastante tarde e têm q se ocupar com algo de interessante nessa idade de ouro... :)
    Um abraço

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  3. Quem passa pela via principal de Montemor, e confesso que durante muitos anos só esta conheci, a qual me pareceu sempre descaracterizada e sem qualquer encanto, não dá conta da riqueza que reside no seu interior, na qualidade das construções chãs, palacianas ou religiosas.
    É verdade que, passando por aquela via centralizada, descaraterizada, após aquela acabar só se quer sair e seguir o destino que, raro, é Montemor!
    É um local obrigatório de paragem nas viagens de autocarro que se dirigem para nascente, e nas proximidades daquele malfadado sítio nunca consegui comer decentemente ... por consequência, durante muitos anos nem sequer tentei explorar este local, e bem me arrependo, pois, quando o fizemos, foi um deslumbre, e ainda que nos fosse difícil encontrar local para almoçar, quando o conseguimos, fomos amplamente recompensados ... :)
    O passeio pelo interior foi irresistível!
    Muito bonito. Este foi só um dos belíssimos exemplos que nos foi dado ver, pois muitos mais houve que nos fizeram parar em contemplação! Como entendo o que escreve o comentador C.
    Temos uma riqueza muito diversificada de revestimentos parietais! E, ainda que muitos destes revestimentos sejam comuns pela Europa fora, este em particular, o azulejo, distingue-nos!
    Manel

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  4. Caro C

    Já temia que o “C” tivesse desaparecido para sempre no espaço virtual, pois aprecio muito os seus comentários bem escritos. Tem toda a razão, o centro de Montemor-o-Novo é muito bonito e está bem conservado, como aliás o da maioria das vilas e cidades alentejanas. Uma das coisas que também me impressionou na cidade e esse é um mérito da Câmara Municipal foi a sinalização impecável dos monumentos, capelas, palácios e ruas. Há por toda a parte umas placas verdes, assinalando todos os pontos de interesse, com texto um sumário muito bem feito, que ajudam o visitante a fazer uma visita cuidadosa, sem precisar de um guia de viagens. Já tinha visto essas plaquetas verdes noutras cidades, mas normalmente restringem-se à igreja matriz, castelo e pouco mais. Em Montemor-o-Novo elas estão sistematicamente em todo o lado.

    Abraços e volte sempre

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  5. Olá Luís.
    Mais um eloquente post sobre um Registo de azulejos. Corroboro o que os comentadores disseram sobre Montemor o Novo.
    Comecei por conhecer a vila na paragem do autocarro de excursão a caminho de Évora.Nos últimos anos programei itinerários um deles direito a Alcácer do Sal para o interior almocei numa aldeia S,Cristovão, fui para ver a Gruta do Escoral, debalde nesse dia o funcionário não estava, desforrei-me em Montemor o Novo. Estacionei e percorri a vila a pé, escadinhas e mais escadinhas a caminho do terreiro do castelo. Não achei graça nenhuma a um convento ter sido transformado em discoteca ou coisa que o valha. Percorri todo o morro com muitas ruínas, encontrei muitos "caquinhos de faiança" que trouxe comigo.A vista lá do alto é fenomenal.Muita riqueza patrimonial por metro quadrado.À saída do auto estrada irrompem penedos de granito, muito interessante o filão estreito de paredes meias com o xisto. Sem dúvida uma terra com muito património histórico, embora inferior o Crato também é uma delícia calcorrear as ruelas, tantas portas em ogiva...

    Os azulejos sempre bonitos, fizeram-me deambular nessa terra onde encontrou o Registo, deteriorado com o tempo, a merecer restauro urgente antes que se perca de vez.
    Beijos
    Isabel

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  6. Cara Maria Andrade

    Fico à espera de um post seu com o registo sde azulejos de Condeixa. Poderá até ser interessante compararmos as produções do Centro e do Norte e depois com estes postsw vamos também chamando a atenção para o património. Tive uma vez uns comentadores muito comovidos, porque eu descrevi aqui uma capelinha encantadora perto de um Soure, de uma aldeia, que ninca tinha sido mencionada em lado nenhum. Pelo menos antes de a demolirem, haverá duas ou três pessoas que se poderão opôr, porque sabem, que aquilo é velho, bonito e tem valor

    Abraços

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  7. Cara Maria Isa

    Visitei o Escoural há uma eternidade. Com vinte anos. Foi numa excursão da faculdade, acompanhado por uma namorada de que nem gostava muito. Na altura aquilo não estava musealizado e a leitura que se podia fazer das obras de arte rupestres era confusa, mas impressionou-me foi a a continuidade da permanência humana no local. No Neolítico tinha sido usada como necrópole e em cima à superfície havia uma jazida do Calcolítico, uma tholos e umas fortificações creio eu.


    Tenho que lá voltar com olhos de ver

    Beijos

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