segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Faiança da Fábrica de Sto. António do Vale da Piedade: Museu do Açude, no Rio de Janeiro

O nosso seguidor Fábio fez-me o favor de enviar um álbum de fotografias das colecções do Museu do Açude, no Rio de Janeiro, que é uma das mais completas colecções de faiança e azulejaria portuguesa no Brasil. O acervo foi reunido por Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968), um empresário e coleccionador brasileiro.

Está situado na floresta de Tijuca, no Rio de Janeiro, numa mansão neo-colonial, que serviu de cenário à popular telenovela Roque Santeiro, que em Portugal toda a gente viu (apesar de haver gente que não o confesse publicamente) e era nada menos nada mais que a casa da célebre Viúva Porcina, a Regina Duarte.

Mas não foi para falar de novelas que comecei a escrever estas linhas. Na realidade, entre muitas obras de faiança das fotografias do Fábio, houve três peças da Fábrica de Santo António do Vale da Piedade que me encantaram e que correspondem às três primeira fotografias deste blog. Tratam-se de duas taças e uma pinha, obras de faiança cujo uso era associado à arquitectura, tal como os azulejos e que foram concebidas para adornar os remates dos edifícios, os pilares que ladeiam um portão ou para decorar os jardins. Normalmente não reparamos muito nelas, pois estão lá no alto dos edifícios ou no resguardo dos jardins, mas é pena que são lindíssimas.

A Fábrica de Sto. António de Vale da Piedade foi fundada em 1784 pelo Genovês Jerónimo Rossi, vice-cônsul da Sardenha no Porto, na quinta de Vale Piedade em Vila Nova de Gaia e teve um período inicial de grande desenvolvimento industrial, exportando grandes quantidades da sua produção para a América.
No início do Século XIX, tal como todos os fabricantes sofreu um importante golpe com as perturbações causadas pelas invasões francesas e pela posterior abertura dos mercados nacional e ultramarino aos produtos ingleses.

Em 1814 a Fabrica está decadência. Rossi morre em 1821, mas as suas filhas continuam a explorar a fábrica e pedem renovação do alvará que obtém em 1825. Depois dessa data, a fábrica passa a ser explorada por Francisco da Rocha Soares, de Miragaia, até 1833.

Em 1852 encontra-se na posse de João de Araújo Lima, um dos industriais mais dinâmicos da sua época, fundador da Associação Industrial Portuense e acolhe muitos operários especializados que deixaram a unidade de Miragaia quando esta encerrou. À luz do que se expôs nestes dois últimos parágrafos, percebe-se porquê é que muitas produções Miragaia se confundem com as de Sto. António
.
Uma taça existente em Portugal, na Quinta do Chão Verde, Rio Tinto

Posteriormente à morte de Araújo Lima (1861), já sob a direcção de João do Rio (seu cunhado e administrador até 1886) introduziram-se modificações que levaram à produção de peças de ornamentação em relevo para interiores e exteriores. Provavelmente estas peças são da época da administração João do Rio, pois apresentam as marcas estampilhadas a azul tipícas desse período, conforme se pode ler no Itinerário da Faiança do Porto e Gaia. Lisboa: IMC, 2001, p 290

A Fábrica continuou a sua existência até 1930.

27 comentários:

  1. Luís, quando abri o seu Velharias, esbugalhei os olhos perante as peças incrivelmente belas, que aqui nos mostra. Por isso, um grande obrigado a si e ao Fábio, que nos permitiram ver semelhante beleza.

    As três peças que seleccionou, Luís, são extraordinárias.Estou deslumbrada com todas, mas não sei porquê, a pinha, acho-a fabulosa!
    Pena, entre nós e o Brasil, haver um oceano pelo meio... fala assim, quem tem medo do avião:(
    Um abraço.
    Maria Paula

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  2. Fiquei sem palavras com tamanha beleza...

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  3. Estas peças são realmente de tirar o fôlego, Luís! E que pena eu tenho de não ter sabido há mais tempo da existência deste museu no Rio de Janeiro! Ainda bem que fez um post com estas faianças porq eu não consegui aceder a elas através dos links deixados pelo Fábio Carvalho.
    Nunca vi nada de parecido nos nossos museus, só as do tipo Miragaia a azul e branco, mesmo marcadas Fábrica de Sto António Porto. Também vi peças destas num antiquário do Rio, uma pinha e um vaso da Fábrica de Sto António, em azul e branco, mas os preços eram proibitivos, milhares de reais, não me lembro quantos... Assim coloridas têm outro impacto visual, talvez por serem mais raras...A de Rio Tinto também não fica a dever nada às outras em beleza.
    Muito obrigada ao Luís e ao Fábio por nos proporcionarem o desfrute, ao menos virtual, destas maravilhas.
    Abraços
    Maria Andrade

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  4. Obrigado por nos contar a história da fábrica. Achei bem interessante as semelhanças e variações da 1a. peça do post com a peça na Quinta do Chão Verde.
    abraços!
    Fábio

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  5. Depois de agradecer o contributo do Fábio, que, para além de simpatia, deixa aqui testemunho da sua sensibilidade e duma cultura que não é fácil encontrar, não quero deixar de tecer as minhas considerações sobre as peças apresentadas.
    Todas elas, por serem destinadas a apoio à arquitectura, são de grandes dimensões e exageradas na sua parte superior em detrimento da inferior, porque eram destinadas a serem vistas de baixo para cima, por força do seu posicionamento.
    Nunca tinha visto uma pinha aberta pela sua parte superior, mas, pensando bem, se estiver aberta, o seu cume terá maior hipótese de ser visto pelos transeuntes que lá em baixo passam, o que não aconteceria se estivesse fechada.
    Será pois por uma questão prática de preocupação estética que a pinha aparece aberta? Como acontece com os desnivelamentos e desproporções aparentes criados propositadamente, por exemplo, nos edifícios da antiguidade clássica para corrigir erros de paralaxe (de que um dos exemplos, por demais estudados, é o Parténon)?
    É deveras interessante verificar os cuidados com que os criadores das peças as revestiam, consoante o seu posicionamento relativamente ao olho humano.
    Os vãos da Baixa Pombalina que alteram a sua proporção consoante a altura a que estão destinados, para criar uma sensação de harmonia ao conjunto!
    Cuidados que parecem de todo esquecidos hoje, pois pululam pelo país extensas colunatas e aberturas semeadas ao acaso, feitas sem quaisquer regras ou respeito pela proporção ou regras de equilíbrio conhecidas muitos séculos antes do nascimento de Cristo e já estabelecidas por escrito por Vitrúvio!
    Número, rectângulo ou triângulo de ouro, proporções pitagóricas, sequência de Fibonacci, o célebre "homem vitruviano" de Leonardo da Vinci, são tudo estudos conhecidos desde há séculos, mas que parecem ser completamente desconhecidos, ou pelo menso ignorados, pelo vulgar construtor de hoje em dia.
    Os cuidados pelo estudo da harmonia e equilíbrio revelados, por exemplo, no desenvolvimento destas urnas ou pinhas não são visíveis nos abortos e mamarrachos que por todo o lado aparecem como cogumelos (que me perdoe a Maria Andrade, mas eles surgem da noite para o dia), cada um mais feio que o anterior!
    De volta ao que interessa, a primeira urna é lindíssima, aparentada com a última, e, mais uma vez, fiquei perfeitamente rendido ao formato da pinha, que mais me parece uma couve-flor.
    Manel

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  6. Apreciei muito as peças da Fábrica de Sto António do Vale da Piedade. São admiráveis.Penso que tenho uma peça (prato) que, pela delicadeza do desenho e pelas cores deve ser da mesma fábrica. Gostava de saber a sua opinão. Como o poderei fazer?

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  7. Cara Maria Paula

    Estas peças fabricadas em Vila Nova de Gaia e que estão no Rio de Janeiro são mais vulgares do que pensa nas nossas cidades e vilas. Como estão colocadas no topo dos edifícios raramente damos por elas e não são fáceis de fotografar. Eu até pouco tempo também nunca reparava nestas peças e faiança, mas agora começo a andar de olhos mais abertos.

    Aproveito para lhe lançar um desafio, a Maria Paula como é uma fotógrafa com tanta sensibilidade podia tentar descobrir nas casas da sua região urnas, pinhas e taças como estas e posta-las no seu blog. Aposto que com o seu talento fotográfico conseguiria bons resultados.

    Abralos

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  8. Caro If

    Se quiser pode enviar-me uma fotgrafia da peça através de um e-mail, cujo endereço está identificado no meu perfil e se souber alguma coisa sobre ela, terei muito gosto em ajuda-lo na sua identificação, muito embora eu seja só um amador.

    Abraços

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  9. Caro Manel

    Obrigado pelo teu comentário, que muito ajudou a explicar o formato particular destas peças, que foram concebidas para serem vistas ao longe e de cá de baixo da rua. Eu nunca me lembraria de pensar nisso, mas tu como és arquitecto, completaste o conteúdo deste blog com uma explicação muito completa sobre a influência da perspectiva na concepção destas faianças.

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  10. Maria Andrade

    É verdade. Nos nossos museus estas peças não aparecem assim tanto como deviam. Creio que estão um bocadinho desprezadas, além disso, tenho a teoria de que com as demolições sistemáticas de prédios e casas do século XIX muitas delas foram parar ao lixo, porque estavam lá no alto e ningué lhes deu qualquer valor.

    Como disse à Maria Paula. A partir de agora vou andar de pescoço esticado e sempre que vir taças, urnas e pinhas vou tentar fotografa-las..

    Beijos

    Luís

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  11. Caro Fábio

    Obrigado por nos proporcionar o envio de imaqens, em que vemos como a cultura brasileira e portuguesa se entrelaçam. O que começa em Portugal acaba no Brasil e do Brasil chegam modas a Portugal, que são adaptadas e reexportadas novamente para as terras de Vera Cruz.

    Abraço

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  12. LuisY, boa tarde. Moro em Botucatu, e neste fim de semana tive a oportunidade de conhecer a sede da fazenda do Conde de Serra Negra. No portal da entrada, existem duas estatuas, aproximadamente 1m de altura cada, de porcelana, sendo que no barrado está escrito: Fábrica de S.TO Antonio porto.
    Acho que deve ser essa que você fala no seu post. Qualquer coisa, me mande um e-mail e eu te mando as fotos das estatuas. Uma curiosidade, é que em uma esta escrito também "ASIA" e a na outra "AFRICA", gostaria de tentar descobrir qual seria o significado de colocar estas estatuas no portal de entrada da fazenda. Att João Gimenez
    gimenezcad@yahoo.com.br

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  13. Caro Gimenez

    Ficaria encantando em receber fotografias dessas estatuetas, que parecem ser de Sto. António de vale da Piedade. Na altura era muito vulgar as pessoas encomendarem essas estatuetas para decorar jardins, topos de casas e entradas de portões. Muitas dessas estatuetas eram alegorias e representavam a indústria, o comércio, a agricultura e as artes ou então eram também vulgares figuras femininas representando os continentes. Provavelmente, nessa fazenda existiria outra entrada onde estariam colocadas outras duas estátuas, uma representando a América e a outra a Europa.

    Abraços e fico a aguardar as imagens das referidas estatuetas. O meu e-mail está no meu profil

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  14. São muito bonitas. Eu reparo sempre nelas e nos azulejos pois são duas coisas que adoro nos prédios antigos de Lisboa.

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  15. Obrigado Cláudio

    O século XIX produziu peças admiráveis nas fachadas dos prédios

    Abraço

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  16. Olá Luis,
    Acabei de ver em um site de leilões aqui no Brasil uma pinha da Fábrica de Sto Antonio do Porto à venda, e achei que as fotos poderiam lhe interessar para arquivo. É uma bela peça.

    http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-186346310-pinha-santo-antonio-do-porto-_JM

    abraços

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  17. Opa! Há outra, do mesmo vendedor.

    http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-186346939-pinha-santo-antonio-do-porto-_JM

    O mais curioso é ver uma pinha portuguesa pintada com o que parece uma variação do tema "cebolinha" (blue onion). Ou talvez seja apenas uma coincidência.

    abraços

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  18. Obrigado


    Caro Fábio. Estas fotos só confirmam que o Brasil foi um óptimo mercado de exportação para as faianças portuguesas.

    Pena as fotos terem pouca definição, mas los sites de leilões são mesmo assim.

    Desculpe só agora responder, mas ando com menos tempo

    abraços

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  19. Belas peças, de facto. Sou coleccionador de faiança das fábricas de Gaia e Porto e tenho das mais raras. Da decoração da minha casa fazem parte algumas peças que penso serem de Santo António, mas não têm marca, lamentável... Atribuo-lhes a origem, baseado no facto de o último dono daquela unidade fabril ter casado com uma Senhora lá de casa e ter usado uns anexos da Quinta como depósito e um recanto como "lixeira" de cacos, de onde extraí centenas de fragmentos que pela textura me permitiram aproximar a uma identificação daquelas peças. Também no Arquivo de Casa tenho a última documentação da Fábrica: correspondência de fornecedores, encomendas, contas correntes, cheques e contas bancárias, contratos e correspondência de exploração, empréstimos para tesouraria, etc. Correspondem a um período totalmente desconhecido dos historiadores de arte que a descrevem, geralmente, até à gestão de António José da Silva, capitalista, no princíopio do séc. XX, ignorando o que se seguiu depois. Documentação muito interessante com que penso divulgar mais um pouco da história da cerâmica no círculo do Porto.

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  20. Caro Anónimo

    Apreciei muito o seu comentário.

    A comparação com os cacos de uma das lixeiras da Fábrica de Santo António é sem dúvida um bom método para identificar as peças de faiança que vão aparecendo no mercado sem qualquer marca. Eu adoria ver esse caqueiro.

    Eu e os outros amadores que não dispomos desse recurso vemo-nos gregos para identificar as faianças que não estão marcadas. Presumimos que são do Norte, Porto, ou Gaia, mas houve tantas fábricas nessas duas localidades ao longo no século XIX. Claro, há coisas de Miragaia que são fáceis de identificar, sobretudo depois que saiu o catálogo da exposição no Soares dos Reis, algumas coisas Bandeira também são muito características, mas o resto é uma incógnita. Algumas das peças que tenho atribua-as ao Porto porque vieram de Tras-os-Montes e é mais natural que na região brigantina usassem mais faiança do Porto ou Gaia do que Coimbra ou Lisboa.

    Felicito-o por divulgar a documentação que dispõe da Fábrica.

    Um abraço e espero poder contar com mais comentários seus neste blog

    Um abraço

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  21. Existe Um velho SOlar na cidade de Quissamã, o Solar de Mandiqüera, que possuia mais de 40 destes jarros ornando as fachadas, desta mesma fábrica. Hoje infelizmente restam pouco mais de 10.

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  22. Caro Mateus Fragoso

    Se quiser enviar imagens dessas 10 que sobram teria imenso interesse. O endereço do meu e-mail encontra-se indicado no meu perfil.

    um abraço

    Luís

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    1. Luís,
      Fiz esta semana fotos na Chácara do Viegas, um solar belíssimo no bairro de Santa Teresa, onde há várias figuras e peças decorativas vindas da Fábrica de Sto Antonio. Espero poder postá-las o quanto antes, mas é tanta coisa para fazer! Estou salvando um catálogo IMENSO de azulejos holandeses que já me está sendo imensamente útil. Até mesmo para a Chácara do Viegas, pois alguns azulejos que estão lá, aparecem neste catálogo.
      Infelizmente uma das figuras ficou fora de foco; estava muito sol, e eu não percebi isto na hora, no visor da máquina.
      Há lá também uns leões de faiança, mas nestes eu não vi marca, então não sei se seria também desta fábrica.
      abraços!
      Fábio

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  23. Caro Fábio

    És imparável e estou muito curioso para ver essa nova postagem. As Devezas e Sto. António fabricaram Leões. Até já me enviaste uma imagem de um deses Leões.

    Abraços e estarei atento aos novos posts

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  24. gostaria de saber se ainda existem fabricas no brasil com pecas decorcomtivas.vc poderia me ajudar?marcelofashiondesigner@hotmail.com.obrigado

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  25. Ola boa tarde!
    Sou antiquario e recentemente adiquiri algumas telhas dessas de uma antiga casa em Sao Cristovao , telhas de porcelana da fabrica de Santo Antonio do Porto , gostaria de saber se alguem se interessa pela compra , estao em bom estado .
    Peço em cada unidade 3.500 , em caso de interesse meu email francisco.freitas13@hotmail.com

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