sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vue de la nouvelle décoration de la Foire Saint-Germain


Recentemente, encontrei esta estampa do século XVIII por um preço irrisório na Feira de velharias de Estremoz. Representa a Feira de St. Germain e fiz algumas pesquisas para saber mais sobre gravura em que personagens galantes se passeiam tendo por detrás um cenário de edifícios característicos do classicismo francês.

Num site sobre história do teatro, http://cesar.org.uk//, baseado na tese de doutoramento de uma senhora, uma tal Nuria Aragonès Riu, encontrei a explicação para esta imagem curiosa. A Vue de la Nouvelle Décoration de la Foire Saint-Germain é uma vista óptica mostrando a nova feira de st- Germain, em Paris, reconstruída após o incêndio de 1762. Portanto, a estampa pode ser datada a partir de 1763, ano em que a feira reabriu as suas portas até mais ou menos aos anos de 1780, a julgar pelas toilletes das personagens.



Quatro versos alexandrinos lêem-se no rodapé da gravura Des cendres d’Ilion renait une autre Troye/Vesnés de toutes parts livrés vous à la Joye/Un prince bienfaisant our recréer Paris/A rétabli ce lieu digne séjour des Ris”. Esta alegoria poética compara a nova Feira de S. Germain com a destruição e reconstrução da antiga Tróia.


A feira é representada com uma arquitectura neoclássica, idealizada. Os transeuntes são em número reduzido e pertencem à nobreza, como nos indicam os trajes sumptuosos.


A fidalguia e grandes burgueses passeando-se na feira

Esta imagem simétrica e regular contrasta com as descrições que as fontes da época fazem dela, caracterizando-a como um evento bem popularucho, como aliás são sempre as feiras em toda à parte do mundo. Também não se sabe e esta gravura representa com fidelidade a arquitectura da feira, já que esta foi novamente destruída em 1779, penso que por outro fogo.

A gravura apresenta uma curiosidade suplementar, no centro está representando um teatro, o chez les Nicolet, que pertenceu a um dos mais célebres comediantes populares franceses, Jean-Baptiste Nicolet (1728-1796).

As personagens da Commedia dell’arte:Cassandro, Pierrot, Isabel, Arlequim e Colombina. No topo das porta o monograma do Rei Luís

No balcão do teatro encontramos os personagens típicos da Commedia dell’arte, o velho Cassandro, Pierrot, uma personagem feminina, sem dúvida, Isabel, Arlequim e ainda uma outra figura que é possivelmente Colombina. Era hábito, os actores destas companhias fazerem umas representações gratuitas no exterior, para atraírem o público ao interior do teatro, onde se desenrolava o verdadeiro espectáculo e esse claro, era pago.

Julgo que esta estampa seria talvez uma forma de a companhia popular de Nicolet arvorar-se ao estatuto de uma grande companhia de teatro, frequentada por um público saído da nobreza ou da grande burguesia e sedeada num edifício clássico, o que não correspondia à verdade, pois era uma companhia de feira, em que os momentos cómicos se misturavam com números de malabarismo e espectáculos de marionetas. Em todo o caso, a popularidade de Nicolet foi tanta, que em 1772, o Rei Luís XV viu o espectáculo e apesar de ser um homem blasé, gostou e a companhia pode então intitular-se pomposamente La Troupe des Grands-Danseurs du Roi.



A estampa saiu da casa editora Basset, na rua de S. Jacques, em Paris, conhecida impressora e loja de estampas de temas populares, cuja existência de prolongou pela primeira metade do século XIX fora. Esta editora era um negócio familiar, que passava de pais para filhos e é mais provável que esta estampa tenha sido dada à luz no tempo de André Basset (1749?-1785?)


Na nossa Biblioteca Nacional existe uma estampa assinada por este André Basset, representado uma vista idealizada de Lisboa reconstruída depois do Terramoto e que também apresenta o título principal invertido. Julgo que se este artifício se destinava a que a gravura fosse vista através de um espelho, já que na decoração das casas francesas do século XVIII era costume usar 4 espelhos colocados simetricamente, um cada canto da sala.



11 comentários:

  1. Admiro sinceramente o seu trabalho de recuperação de informação. Vê-se que trabalha na área! Só assim se compreende que tratando-se de uma actividade que faz apenas no tempo livre, consiga , aparentemente de uma forma fácil, reconstituir a história das peças que dão origem aos seus post's. Pela parte que me diz respeito, muito obrigado pelos ensinamentos que me transmite.
    Ana Silva

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  2. Toda a cena parece ser a repetição do que se passa na varanda, só que em escala maior.
    As edificações em redor parece ser toda ela um cenário para outro teatro maior, como que explicitando melhor que se trata de um teatro dentro de um teatro.
    Esta ideia sobre a vida idealizada, e controlada, de uma sociedade, é reforçada pelo próprio desenho, produzido segundo as regras da representação cónica, com um único ponto de fuga/vista central, como acontece com o espetador de teatro, que vê a cena desta forma.
    Um desenho normal, representando a vida comum das pessoas (quando representada por Bruegel, por exemplo), utiliza vários pontos de fuga, como que apontando para o lado aleatório e inesperado da variedade da vida humana do dia-a-dia.
    São duas formas distintas de ver a vida: uma de uma sociedade controlada, sempre previsível, e outra do inesperado e da riqueza que podem tomar todos os cambiantes do dia-a-dia.
    O facto da gravura estar colorida confere-lhe um lado mais humano, no entanto, o colorista não deveria ter possuído mais que duas cores na paleta!
    Esta gravura seria ainda mais "fria", não fora o facto do papel da gravura ter envelhecido e desenvolvido outros cambiantes fantásticos, como só o papel com centenas de anos pode possuir.
    Manel

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  3. O Luís tem prestado aqui um serviço muito importante na divulgação da gravura, uma arte tão pouco conhecida e tão pouco valorizada atualmente, sobretudo desde que a fotografia a destronou e passou a ser omnipresente na ilustração de livros e noutros contextos.
    Com os seus conhecimentos e disponibilidade para a pesquisa, consegue, a partir dos poucos dados ali presentes, transportar-nos a mundos passados, com os seus códigos, costumes, figuras-tipo...
    Foi total novidade para mim a prática de escrever os títulos em espelho e embora o Luís avance com uma explicação possível para isso, não posso deixar de me interrogar se não haveria outra razão, mas qual?
    Enfim, resta-me acrescentar que me deliciei a apreciar os pormenores das gravuras e a desfrutar de toda a informação que reuniu.
    Um abraço

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  4. Cara Ana

    Muito bem vinda a este blog. É bem verdade que sendo bibliotecário movimento-me com um certo à vontade na gravura ou no livro, mas sobretudo pesquiso muito bem na internet. Levei muitos anos num serviço em que fazia pesquisas na net em inglês, francês ou português sobre as coisas mais inacreditáveis. Aqui no blog, resolvi colocar essa experiência de pesquisa ao serviço do meu próprio prazer e ainda bem que os resultados são úteis e agraváveis aos outros.

    Abraços

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  5. Manel

    Foi muito bem observado. Há um teatro, com um cenário teatral à volta e tudo isto encaixado numa pespectiva perfeita. Quem fez a gravura queria transmitir dignidade e simetria.

    Abraços

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  6. Maria Andrade

    Também desconheço a razão exacta de os impreessores innverterem os títulos das estampas, mas de facto o gosto pela decoração com espelhos dos interiores poderá explicar esta particularidade.

    Abraços e obrigado pelas suas palavras

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  7. Pois a mim, se me permitem, parece-me apenas uma questão de inversão da impressão...tenho uma gravura igual, também pintada manualmente e que «sofre» da mesma particularidade. Mas não creio que na decoração de interiores do sec. XVIII se fosse a esse ponto de trocar as voltas às gravuras para se verem nos espelhos... Salvo o devido respeito pela opinião contrária!

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  8. The title above the engraving is inverted for use in a peep box or optical machine. Vue d’optique views were a very popular print published in Europe in the 18th century and they were considered a form of entertainment. These prints were one of the only ways the public could look at a wider world and they were exhibited by traveling showmen throughout Europe. The views emphasized a linear perspective which further intensified the appearance of depth and illusionistic space when viewed through an “optique."

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  9. Welcome to my blog

    Thank you very much for your explanation. Now I understand why the letters are inverted.

    Cu

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  10. Caro Pulo.

    Bem vindo ao meu blog. O nosso amigo estrangeiro deu uma explicação muito plausível para estas legendas invertidas.

    Abraços

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