domingo, 16 de fevereiro de 2014

Caneca Massarelos com a bandeira da monarquia proveniente do Solar de Outeiro Seco

Produzida pela Fábrica de Massarelos, esta Caneca em faiança está na casa do meu pai e veio do solar de Outeiro Seco, no Concelho de Chaves. Não é de modo nenhum uma grande antiguidade, mas tem um valor simbólico e sentimental, já que no tempo em que foi comprada, a família Montalvão era convictamente monárquica. A bandeira da monarquia esteve hasteada no Solar até ao final dos anos 30 e só dali foi apeada por ocasião da visita do Presidente Carmona, que era muito amigo da família. Eu ainda me lembro dessa bandeira, que por volta dos anos 70, 80 estava exposta naquilo que pomposamente de designava o museu da casa.

A marca da Caneca consta com o nº504 do Dicionário de marcas de faiança e porcelana portuguesas / Filomena Simas, Sónia Isidro. - Lisboa: Estar Editora, 1996 e segundo essa obra terá sido usada entre 1912 e 1920. No catálogo Fábrica de Louça de Massarelos: 1763-1936, editado em 1998 aparece reproduzida uma caneca igual a esta, com mesma marca C&W e também atribuída ao período entre 1912-1936.

Ora, tudo isto é bastante estranho, já que a República foi proclamada a 5 de Outubro de 1910 e a nova bandeira verde e vermelha foi aprovada por decreto de 19 de Junho de 1911. Parece-me pois muito inusitado, que em em 1915 ou 1920 Massarelos andasse ainda a produzir canecas com a bandeira real.

É certo quem em 1919 houve uma insurreição no Norte, que restaurou a monarquia no Porto, por duas breves semanas, mas não me parece que durante esse período os patrões de Massarelos arriscassem a sua relação com o governo de Lisboa vendendo canecas com a bandeira azul e branca. Até porque durante a década de dez, muitos monárquicos foram perseguidos e exilados. O meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, outro monárquico convicto teve que fugir para Espanha depois da segunda incursão de Paiva Couceiro. Portanto, a época não era de tolerância.

Em suma, parece-me mais lógico que esta marca de Massarelos já seria usada antes de 1910, embora também é verdade, que a vida decorre sem obedecer às normas da razão e lógica e o período da Iª República Portuguesa é um exemplo eloquente de como história evolui às vezes de forma insensata.


18 comentários:

  1. Boa tarde, Luís.

    De facto, não tem qualquer sentido a comercialização de um produto monárquico depois da implantação da República, nem é lógico que durante as incursões monárquicas tenha havido tempo para produzir tais peças durante os breves episódios de 1911 e 1912.

    No entanto, durante as breves semanas de Janeiro e Fevereiro de 1919 em que a Monarquia do Norte esteve declarada houve tempo até para emitir selos e bilhetes postais... Não será de todo impossível que tal caneca tenha sido produzida então...

    O catálogo da exposição de 1998 no MNSR apresenta uma peça similar, existente no acervo da Casa Museu Teixeira Lopes, com a mesma marca.

    Saudações!

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  2. Caro MAFLS

    De facto em todo o lado esta marca, é referida como sendo usada depois de 1912 e eu também achava que sim, até olhar com mais atenção para esta caneca com a bandeira monárquica.

    Mas, como referiu há sempre a hipótese de a canequinha ter sido produzida depois de 1910 para um público saudosista, como era a minha família. Talvez até depois o golpe de 1926, pois afinal de contas Salazar seria um simpatizante da monarquia, se não se tivesse afeiçoado tanto ao poder.

    Mas, em todo o caso, é estranho a caneca ter sido fabricada depois de 1912.

    Um abraço e obrigado pelo seu comentário pertinente

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  3. Caro Luís,

    Esta caneca está a deixar-me curiosa. Não sei se é da minha vista,mas não consigo perceber se ela apresenta um pequeno orifício bem debaixo da ponta direita da bandeira, e se assim for, qual a utilidade do mesmo.
    É uma peça que representa uma época, e que está carregada de toda uma simbologia e história familiar.
    Desde muito cedo considero que a bandeira monárquica é muito bela,contrariamente à da República.
    E por falar em monárquicos e republicanos,deixo-lhe um link para a Cinemateca. Nos últimos tempos têm sido colocados online alguns filmes restaurados que são autênticas preciosidades. Espero que sejam do seu agrado, pois reparei que há umas coisitas de Chaves.

    Beijinho

    Alexandra Roldão

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    1. Alexandra

      O orifício é uma esbeiçadela. Não sei como foi provocada.

      Concordo consigo. A bandeira da monarquia é muito bonita. Apesar de não ser de todo monárquico, não me conformo com a escolha infeliz de cores que fizeram na bandeira republicana. Aquele verde e vermelho não me convencem de todo. Se tivessem tirado apenas a coroa, a bandeira portuguesa seria das mais bonitas do mundo. Mas agora, o disparate já está feito.

      Irei espreitar os links

      Bjos

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  4. Aqui fica o link:

    http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Video.aspx

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  5. Caro Luís,

    Pelo que me foi possível aperceber, entre o período que medeia o golpe de estado republicano de 1910 e o afastamento de Salazar do governo por razões de doença, a Monarquia parece ter sido mais do um simples saudosismo já que muitos nela acreditaram como solução de compromisso para a passagem do governo ditatorial da 1ª República para o Estado Democrático. No entanto esta solução não veio a concretizar-se, creio, por falta de apoios económicos dos grandes lobbies, que se apoiaram desde o primeiro momento na solução republicana. No norte de Portugal a Monarquia manteve sempre muitos apoiantes e durante esse período foi sendo produzido (clandestinamente) pelas grandes fábricas e pelos grandes mestres de então memorabilia monárquica da mais diversa natureza.
    A República foi instaurada de forma muito atabalhoada e Dom Manuel II depois de sair de Lisboa, a bordo do iate Amélia, ainda procurou desembarcar no Porto, para organizar reger o reino a partir daí, mas o comandante do iate, por não se tratar de um navio de guerra, desaconselhou a sua entrada na barra do Douro com receio de que o mesmo fosse bombardeado, pelo que daí partiu para Inglaterra.

    Os meus trisavós presenciaram estes momentos.

    A bandeira azul e branca, pelo seu arranjo e pelas cores é muito mais elegante que a actual e tem presença onde que que se encontre.

    Os momentos revolucionários nunca dão os melhores frutos..

    Abraço,

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    1. Caro Sandro

      Sem dúvida que entre 1912/1920 e 1912/1936, as datas apontadas para o fabrico desta caneca, existia clientela para comprar esta memorabilia monárquica. No entanto, não deixa de ser estranho, que uma fábrica grande como Massarelos se arriscasse a arranjar problemas com o governo de Lisboa por causas de umas canequitas. Todos nós sabemos que as grandes empresas gostam de estar bem com o poder. Em todo o caso, o período republicano foi tão instável, com governos com orientações políticas tão distintas, que é possível que em alguns momentos fosse possível fabricar canecas com a bandeira monárquica.

      Um abraço

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  6. Na verdade foi uma pena que a bandeira tivesse sido alterada. Tanto mais que esta, republicana, é uma ofensa a qualquer forma de bom gosto, para não falar da letra do hino, de Henrique Lopes de Mendonça!
    Quanto ao orifício até parece ter sido produzido por uma bala, por ser tão circular e bem feito.
    Creio que o comentário do MAFLS dará uma data plausível para a produção desta peça, não que não tivessem existido sempre saudosistas, que sempre os houve, mas não seria muito popular para qualquer fábrica produzir peças destas, quando afinal a situação política republicana não deveria ser muito propícia a estas manifestações, a não ser que a situação se tivesse alterado, como foi o caso da Monarquia do Norte.
    Se fosse hoje, seria uma situação completamente banal, algo extemporânea ou mesmo anacrónica, mas não digna de nota.
    Lembro-me que, quando era miúdo, fui encontrar, na minha casa de família, uma moldura que ostentava uma gravura representando a família real logo após o regicídio, pois estão presentes a rainha D. Amélia, D. Manuel II, Maria Pia de Sabóia e Afonso de Bragança, todos em luto carregado e com faces funéreas, pelo que penso ser aquela de cerca de 1908. Quando a retirei do baú a minha avó ia-lhe dando um chilique! Agarrou no quadro e retirou-mo da mão e disse-me que esta gravura não se podia mexer, nem colocar à vista.
    Claro que era absolutamente ridículo, na época em que isto sucedeu, nos inícios dos anos 60, mas a minha avó estava arreigada à tradição dos seus pais, e a gravura, que deveria ter estado em lugar de destaque, foi, após o 5 de outubro de 1910, guardada religiosamente (creio que os meus bisavós, apesar de gente rural, devem ter sentido qualquer agrado especial pela monarquia).
    Hoje está comigo e, apesar de ser uma peça de má manufactura, para consumo de uma ruralidade pouco exigente, deixa entrever um encanto nostálgico muito especial.
    Manel

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    1. Manel

      Uma amiga minha húngara, a Marianne, achava o nosso hino nacional uma coisa sinistra, pesada e terrivelmente nacionalista. Dizia que pior que o nosso, só o hino russo ( os húngaros, que viram o seu país invadido duas vezes pela União Soviética não suportam os russos).

      Eu nunca tinha pensado até então se o nosso hino era feio ou bonito. Mas de facto, talvez ela tivesse razão, pois os húngaros, tal como os austríacos são um povo com um grande gosto musical, que já deram ao mundo compositores famosos como Liszt ou Bella Bartok.

      Mas como eu tenho fraco ouvido musical o hino não me aborrece. É bom para os mundiais de futebol. Agora, confesso que não consigo engolir a actual bandeira nacional. Aquele verde e vermelho berram um com o outro.

      A monarquia do Norte ou o chamado Reino da Traulitânia durou entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919 e não me parece que houvesse grande tempo para lançar canecas com a bandeira da monarquia. Mas a República é mesmo assim, os acontecimentos são sempre rápidos, está sempre tudo a mudar e a maioria de nós tem dificuldade em entender a sucessão de factos daquele período. Talvez num desses muitos governos que houve entre 1910 e 1926, houvesse tolerância para produzir merchandising monárquico, como diríamos hoje.

      Um abraço

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  7. Luís

    Gostei imenso da peça que mostra. Realmente, a bandeira da Monarquia tem uma cores lindas,
    divergindo frontalmente da actual.
    Um exemplar igual ao seu, como já foi dito aqui num comentário anterior, esteve patente na exposição promovida pelo MNSR, em 1998, O período de fabrico está balizado entre 1912 e 1936. O saudosismo da Monarquia, mais presente no Norte, levou a estes desfasamentos. No entanto, é esplêndida, e tão actual.
    Viva a Monarquia!
    if

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    1. Cara If.

      Há uns cinco anos visitei a Casa dos Patudos, de José Relvas, o homem que proclamou a República a 5 de Outubro de 1910 e embora tivesse gostado, achei a colecção e a casa com um gosto um bocadinho duvidoso. E na altura apercebi-me que aquele gosto ou falta dele é exactamente o mesmo que está presente na bandeira nacional. É a época quem que os prédios de Arroios e da zona do Chile se enchem de frisos de azulejos com combinações de cores demasiado berrantes.

      Enfim, não sou saudosista, mas se mandasse, mudava o raio da bandeira...lol

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  8. Não existe razão de ainda se discutirem assuntos tão desgastados. Os monárquicos deram provas de que não serviam, por isso o regime caiu faz cem anos. Para quê insistir nestas matérias!!!!

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    1. Caro Anónimo ou Anónima

      Este blog serve como uma agradável e informal tertúlia onde se pode conversar sobre tudo. Eu não sou de todo monárquico, mas muitos dos seguidores deste blog gostariam de ter um Rei em Portugal e não lhe posso levar a mal por isso.

      Pessoalmente, veria como muito bons olhos o regresso da monarquia a Portugal, se a Carla Bruni fosse pretendente ao trono...

      Um abraço

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  9. Luís,
    Gosto da sua caneca. É curioso o orifício que ela contém.
    Na minha família também há monárquicos, uma tia e um avô.
    Provavelmente o duque de Bragança seria melhor figura do que o actual presidente...
    Não sou monárquica mas gosto muito da história da realeza. Aprendi a ser tolerante.
    Quanto ao registo, achei interessante.
    Um abraço. :))

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  10. Caro Luis

    Esta sua caneca não é modelo único. Em casa de uma tia minha octogenária no Norte de Portugal, no quarto de hospedes existe um conjunto de salva/lava mãos, gomil, saboneteira e se salvo erro guarda joias com este mesmo motivo. Segundo a minha tia conta foi prenda de casamento de seus pais.
    Um abraço
    E.T.

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  11. Caro Mano Del Tajo

    De facto pouco tempo depois de escrever este post vi no catálogo de uma leiloeira um conjunto de peças de Massarelos com este motivo da bandeira monárquica. Julgo que eram umas travessas e mais outra coisa qualquer, que não me lembro. Seria interessante saber a data de casamento da sua tia, porque continuo com dúvidas sobre o período de fabrico desta peça. Um abraço e desculpe só agora lhe responder

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    1. Caro Luis

      _No caso seria interessante tentar saber sim da data do casamento dos pais desta minha tia pois segunda ela afirmava o conjunto teria sido prenda de casamento de seus pais...
      Mas (apesar de carecer de confirmação) presumo que ter-se-ão casado nos princípios do seculo XX...

      Cump.

      E.T.

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    2. Se conseguisse essa data, seria ouro sobre azul. Naturalmente que não tenho pressa em obter essa data e se um dia a conseguir, deixe aqui um comentário ou escreva-me um pequeno e-mail.

      A minha dúvida é se estas canecas foram ou não fabricadas no período da República, embora a marca aponte que sim.

      Um abraço

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