quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ratinhos: um prato falso

Todos nós já lemos nos jornais ou revistas histórias acerca de falsificações de obras de arte. Normalmente, são as pinturas de grandes artistas como Picasso, Van Gogh ou Rembrandt, cujos valores no mercado de arte atingem milhões de euros, que são objecto de cópias, contracções, falsificações e outras trafulhices.

Nós, os coleccionadores amadores, achamos que essas histórias só acontecem nos mercados de arte de Londres, Paris e Nova Iorque e que por cá, ninguém se vai dar ao trabalho de falsificar e vender peças cujo preço anda na casa das dezenas de euros, ou quanto muito numa centena.

Porém, as falsificações também são comuns nesta fatia de mercado das velharias e o meu amigo Manel foi recentemente vítima de um logro, ao comprar como genuíno um prato ratinho de figura, que eu mostrei aqui no blog, no passado dia 2 de Fevereiro.

Foi uma Senhora de Coimbra, uma coleccionadora de faiança, que graças à sua intuição, que muitos anos de experiência conferem, quem detectou que o prato era falso. Esta revelação deixou-nos um pouco desorientados, pois o prato estava esbeiçado e parecia-nos antigo, mas quer o Manel, quer eu, temos por hábito tomar em conta a opinião de quem já lida com antiguidades há muitos anos e ficámos desconfiados sobre a autenticidade do Prato.

Esta Senhora de Coimbra, que já tem colaborado com este blog, mostrando algumas peças suas, voltou-me a escrever para repararmos se na frente do prato, existiam as marcas feitas pela trempe. Para quem não saiba, a trempe é o um pequeno tripé de cerâmica, que antigamente se usava entre os pratos, postos em pilha no forno, evitando que se colassem uns aos outros durante a cozedura. As trempes deixavam sempre pequenas marcas no prato, cerca 6,5 e 7cm de distância entre cada ponto, formando entre si um triângulo e são visíveis em 99% dos pratos que medem entre os 29 e os 32 cm.

Uma trempe. Cortesia do http://artelivrosevelharias.blogspot.pt 

Ora o prato do Manel não apresentava nenhuma marca de trempe, mas enfim, podia ter sido o último da pilha e não apresentar as referidas marquinhas.

Depois, esta Senhora de Coimbra, habituada a consultar muitos catálogos de leilões e livros de arte, lembrou-se que normalmente quem copia loiça antiga fá-lo a partir de peças que já foram reproduzidas em publicações e deve ter desatado a folhear os seus livros e de facto encontrou num leilão do Cabral Moncada de 2009, o prato que serviu de modelo à cópia, que o Manel comprou.



O Manel e eu ficámos então perfeitamente convencidos que o seu prato era de facto uma boa cópia de um prato antigo.

Entretanto levamos o prato a casa de uma outra coleccionadora de faiança portuguesa, aqui de Lisboa, que muito gentilmente se ofereceu para nos dar de jantar e ajudar-nos nesta tarefa quase policial de desvendar uma falsificação. Quando chegámos a sua casa, a primeira coisa que vimos foi o Ratinho com o tocador de guitarra, que tinha servido de modelo ao prato do Manel. De facto, tinha sido esta Senhora e o marido quem tinham comprado o prato que esteve a Leilão no Cabral Moncada.

Pudemos então comparar os dois pratos lado a lado, a cópia e o original. Como acontece muitas vezes a quem reproduz uma obra a partir de uma fotografia, a pintura foi feita muito mais lentamente e de forma mais cuidadosa do que no original. Os artistas que faziam os ratinhos tinham uma pincelada rápida, pois havia muito prato para pintar e não havia tempo a perder com pormenores. Por outro lado, o prato falso apresenta o chamado craquelé, termo francês que designa uma superfície estalada. Ora, os Ratinhos tem um tipo de vidrado que nunca apresenta craquelé. O tardoz do prato original também é rústico cheio de imperfeições, ao contrário do prato do meu amigo, que foi lixado propositadamente.

Não sabemos se quem executou o prato do Manel, o fez já com intenção de o vender no mercado como original. Também não sabemos se o vendedor estava consciente que estava vender uma falsificação. Pessoalmente, acho muito bem que os ceramistas actuais encontrem inspiração nas peças antigas de faiança portuguesa, mas tem o dever de marcar as suas peças, para evitar que o consumidor compre gato por lebre.

Espero que esta pequena história seja útil a todos os amadores de faiança antiga portuguesa, para não serem vítimas de um logro. Quero também agradecer em meu nome e do Manel, às duas coleccionadoras de Coimbra e de Lisboa que nos ajudaram a desvendar esta falsificação.

16 comentários:

  1. Caro Luís, de fato vi o post e não comentei porque na verdade não gostei do exemplar-, nomeadamente das calças, havia ali qualquer coisa estranha...mas vi o esbeiçado no limite do covo e as cores, na verdade nada suspeitei julguei se tratar de um exemplar mais recente, embora ratinho.

    Sobre as falsificações há muito que vagueiam pelo mercado.
    Já vi loiça de Estremoz, e de Coimbra.
    Costumo sempre analisar e tirar várias fotos quando mostro as minhas peças do ,em abono da verdade nos dão muita informação.

    É sempre bom ter pessoas habilitadas no assunto e atentas que desvendam mistérios com êxito-, fácil foi entender de quem se trata, quer em Coimbra, quer em Lisboa...acho eu!

    Deixo um lamento para o Manel, pela perda e tristeza.

    Há tempo vi um caso de venda semelhante com porcelana chinesa da Companhia das índias que está em voga a falsificação também.
    No caso um chinês habitual nas feiras comprou uma peça por 700€ em que a vendedora atestava ser verdadeira...eles até costumam morder...depois na semana seguinte apareceu de novo com a GNR e a vendedora teve de devolver o dinheiro, porque na verdade o tinha enganado.
    Quando se vende e não se tem a certeza tem de se dizer ao cliente, depois cabe a ele a decisão ou compra ou não, ao assumir o fato aceita as consequências.

    Grata pela partilha que nunca é demais!
    Bjo
    Maria Isabel

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  2. Cara Maria Isabel

    Concordo consigo plenamente quando afirma que o vendedor deve informar o cliente que não tem certezas quanto à autenticidade do prato, a sua origem e fabrico. Ainda para mais na faiança portuguesa, onde temos todos tantas incertezas.

    Já tinha visto muitas réplicas de faiança de Estremoz à venda na feira como autênticas. Nesta cidade há aliás uma loja onde as vendem e até são bonitas. Mas claro, está nessa loja vendem-nas como réplicas e não tentam enganar ninguém, O Jorge Saraiva também copia faianças antigas, mas assina-as e não as vende como originais.

    Enfim, este post serviu para nos acautelarmos todos com as cópias.

    bjos

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  3. Lastimo que tenha adquirido uma réplica.
    Não pela réplica em si, porque até gosto do prato (apesar de gostar, não o compraria se soubesse ser réplica), nem pelo preço que dei, que não foi elevado, mas pelo facto de ter o prato na mão e não conseguir perceber que se tratava de uma réplica.
    Entretanto, uma senhora (e agradeço-lhe muito, a esta senhora), seguidora do blog do Luís, olha para a fotografia (!) do prato e descobre logo tratar-se de uma réplica!
    Fico deprimido e inconsolável por constatar o quão pouco sei destas lides e como, apesar de ter visto centenas de ratinhos, em coleções públicas e mesmo privadas, terem-me passado pela mão, em antiquários ou feiras de velharias, e até ser possuidor de alguns (espero que os outros sejam verdadeiros ... ), não consigo perceber que não se trata de um original.
    Enfim, mas o que realmente me interessa é que a situação esteja esclarecida, pois temos todos responsabilidade sobre o que publicamos na net (no meu caso por intermédio do Luís), e qualquer erro ou informação errónea é propagada como verdadeira de uma forma muito fácil.
    O público leigo, curioso sobre estes assuntos, mas menos informado, que, quiçá constituirá a grande maioria, facilmente pode ser levado a acreditar nestes textos aqui publicados.
    Fico, por isso, sempre muito incomodado pela informação errónea que se publica, e neste caso não me refiro só à que sou, de uma forma ou outra, responsável, mas toda a que pulula pela "Santa Madre Internet", pelo erro que propaga e pelo mau serviço que presta a toda a comunidade global.

    Quanto à trempe que se utiliza para separar a loiça, quando vai ao forno, creio que possuem um espaçamento entre os picos de cerca de 7 cm, e, ao consultar o blog da Maria Andrade sobre este assunto, reparo que é igualmente a dimensão que ali é referida.

    Disto tudo, alivia-me o esclarecer da situação, e tenho a agradecer o facto de me ter permitido conhecer pessoas muito interessantes e agradecer-lhes toda a informação prestada.
    As pessoas que conheci, gente cuja dádiva é fora do comum, pela generosidade que demonstram, constituem uma base intelectual e artística de um país; estas pessoas, pelo que conhecem e pela partilha que generosamente fazem desse conhecimento, são não só enriquecedores, como também indispensáveis para quem quer saber mais.
    Um meu sincero agradecimento pela disponibilidade, pela generosidade e pela partilha do seu conhecimento.
    E a ti, Luís, um pedido de desculpas porque afinal, e apesar de ter sido um acaso involuntário, publicaste uma peça que não era verdadeira (por mim, ainda bem que assim foi, pois doutra forma não teria capacidade de deslindar este imbróglio).
    Com o erro, quando assumido, aprende-se muito!
    Manel

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  4. Manel

    Todo este episódio acabou por ter um lado positivo, pois a experiência que dele retiramos deu-nos um maior conhecimento de faiança. Claro, o lado negativo foi o dinheiro que gastaste numa peça falsa.

    Pessoalmente, acho que partilhar a experiência aqui no blog será útil às pessoas, que consultam este blog no desejo de identificarem as peças que tem lá em casa ou para poderem comprar no mercado de uma forma mais sabedora.

    Um abraço

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  5. Caros Luís e Manel,

    Este tipo de situações pode suceder a qualquer um que, como vós, aprecie as velharias e antiguidades.
    Para que vos sirva de consolo, ainda há bem pouco tempo fiquei a saber que, uma mesa que adquiri como sendo um original bem ao estilo romântico, era afinal uma réplica...e esta não foi adquirida numa feira...portanto não foram os primeiros e,infelizmente, não serão os últimos.
    O Luís tem toda a razão ao afirmar que todos ficámos a saber mais acerca das características dessas loiças. Por exemplo, eu desconhecia por completo que esses pratos não poderiam apresentar o famigerado craquelé!
    Portanto, e agora dirijo-me em especial ao Manel, não fique deprimido com o ocorrido, e pense apenas que,devido ao facto acabou por conhecer pessoas interessantes, conviveu, aprendeu, mas acima de tudo partilhou os conhecimentos com todos os que, como o Manel, gostam de aprender!
    Lá diz o povo e com razão:
    - Há males,que vêm por bem!

    Um beijinho aos dois

    Alexandra Roldão

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    1. Cara Alexandra

      Tinha que obrigatoriamente fazer este post. Neste blog tenho procurado na medida das minhas possibilidades (não sou de todo um investigador), escrever sobre faiança, gravura ou mobiliário com algum rigor. Portanto, o este post serviu para repor a verdade e ajudar a não cair em esparrelas quem anda neste mundo das velharias .

      Um abraço

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  6. Luís,
    A marca da trempe é uma novidade para mim. Aprendemos sempre quando passamos por aqui.
    Há coincidências extraordinárias como a de poder comparar o velho prato com o novo..

    Um abraço.

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    1. Cara Ana

      A pensar em si e nem outras pessoas menos familiarizadas com a faiança, resolvi publicar uma foto de uma trempe, que pedi emprestada ao blog da Maria Andrade. Deixavam sempre 3 marquinhas na faiança.

      Bjos

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  7. Obrigado pelo seu comentário Alexandra. É verdade que se aprende, e esta é a parte melhor, mas é igualmente verdade que custa perceber quão pouco se sabe destas lides da cerâmica ....
    Terei efetivamente de estudar e pesquisar mais, pois é este o verdadeiro caminho.
    Atirar atribuições para o vento, como tanta gente faz, é a forma menos correta de estar dentro deste ramo do saber e das artes decorativas.
    Mas volto a agradecer-lhe o cuidado. Passará o incómodo, claro, e, com certeza, um destes dias voltarei a ser enganado, quem sabe, mas não será por não estar mais atento :-)
    Manel

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  8. Pois é Luis,

    Salve.
    Nem deu tempo de parabenizar Vcs pela aquisição.
    Até parece que foi uma criação machadiana (do nosso mais famoso escritor). Como se sabe ele apresenta peças que ao final se encaixarão perfeitamente. Mas sei que Vc não está romanceando esta história e se fez tem todo direito. Um Blog se faz com acaso e criação...
    E Vc observou muito bem sobre a intenção do falsário ou copista do “prato do folião”. Nem toda cópia tem a intenção de lesar (em Arte Sacra, quase sempre). Uma vez participei de um leilão de um grande espólio no Flamengo- Rio . Havia muita louça, sobretudo Cia das Índias e francesas (Ruão). E havia também muita cópia destas. É que a antiga proprietária tinha um atelier e muito pendor artístico, sobretudo quando se tratava de providenciar o segundo elemento deste ou daquele “par” de vaso, prato... Mas era tudo muito bem feito, lá pelos anos 40 -60. Até comprei alguma coisa. Mas bem que eu podia ter me esforçado e pegar alguns originais tb. Lembro de dois grandes vasos de Ruão que nem saíram tão caros...
    Quando der vou fazer um post com mais alguma pecinha portuguesa que tenho. E se quiser ver uma Santinha baiana que me deu tanto trabalho de uma olhadinha no meu pobre Blog:
    http://velhariasdomaurinho.blogspot.com.br/
    Um abraço.
    Amarildo.

    PS. Minha mania de não revisar.. Desculpe por ter apagado este para corrigir

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    1. Cara Amarildo.

      De facto, já vi peças de arte sacra, que são nitidamente cópias.

      Também já ouvi falar de gente que usa estes pratos ratinhos antigos e lhes pinta uma figura no centro, porque os pratos com figuras humanas são mais valorizados.

      Mas, enfim, pensamos que estas coisas só acontecem aos outros.

      Irei espreitar o seu blog.

      Um abraço

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  9. Cara Margarida

    Muito obrigado pelo seu comentário simpático.

    Um abraço

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  10. Caros Amigos colecionadores de Faiança
    Tenho alguns pratos ratinho, uns com figura e outros com flores e gostaria de ter uma ideia dos valores de venda e quem me poderia ajudar a identificar se algum é falso.
    Obrigada, Inês Albuquerque

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    1. Cara Inês

      Não sou nem avaliador, nem negociante em arte. Para saber preços experimente consultar as leiloeiras on-line, embora aí os valores sejam sempre inflacionados.

      Quanto a serem verdadeiros ou falsos, poderei dar-lhe uma ajuda, se me enviar fotografias para o meu e-mail, tiradas quer da frente, quer da parte de trás dos pratos.

      Um abraço

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