terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Relógio de bolso Billodes

Montre de poche en argent Billodes

Este relógio de bolso em prata foi-me oferecido por um amigo, o Vasco, que conhece este meu gosto por coisas antigas e com efeito, estes objectos, que medem o tempo, que se desfaz a cada instante, encaixam-se muito bem numa casa cheia de velharias, tornadas inúteis por esse mesmo tempo.

Billodes não é uma marca conhecida de relojoaria. Na verdade, este relógio de bolso foi produzido pela fábrica do senhor Georges Favre-Jacot, na localidade suíça de Locle, na rua de Billodes, que se tornou célebre pela fabricação de uma marca de prestigio e que ainda hoje existe, a Zenith.


Este Senhor Georges Favre-Jacot (1843-1917) fundou a primeira fábrica moderna de relógios em 1865, em Locle, na Suíça. Até então, no fabrico de um relógio participavam 4 ou 5 artificies diferentes, cada um com a sua oficina numa parte distinta de uma cidade. Existia o ourives, que executava a caixa de prata, o marceneiro a quem cabia fazer a caixa em madeira, o cinzelador, que trabalhava os bronzes, o esmaltador para o mostrador, o relojoeiro propriamente dito e ainda um desenhador, autor da concepção geral da obra. Na moderna fábrica do Senhor Favre-Jacot, todos estes ofícios foram reunidos no mesmo espaço e na mesma empresa e começaram a produzir relógios numa escala industrial, que rapidamente conquistaram todos os mercados. Contudo, esta produção industrial da Georges Favre-Jacot pautava-se sempre por critérios de grande qualidade e precisão. A modernidade desta fábrica manifestava-se também na utilização da publicidade, como também pela preocupação da internacionalização dos seus produtos. A Georges Favre-Jacot apresentava-se sempre nas grandes feiras mundiais, como a na grande exposição universal de Paris de 1900, onde os seus produtos foram premiados e abriu sucursais em Paris ou Varsóvia, tinha negócios frutuosos na América e concebia relógios destinados a mercados específicos, como o Império Otomano ou Russo. As caixas dos seus relógios em prata eram concebidas por artistas como Georges Mucha  ou René Lalique, porque o Senhor Georges Favre-Jacot foi um dos membros fundadores do Werkbund na Suíça de expressão francesa. Este movimento pretendia conciliar indústria, modernidade e estética e aplicar a arte aos produtos industriais.


A decoração floral do relógio é de inspiração arte nova. Georges Favre-Jacot acreditava que os produtos industriais podiam ser ao úteis, precisos e ao mesmo tempo estéticos.

Normalmente os relógios eram comercializados com a marca Georges Favre-Jacot, mas para o mercado de exportação usavam nomes como Billodes ou Serkisoff. A partir de 1898, a marca Zenith começa também a ser usada progressivamente, até que a partir de 1911 torna-se o nome oficial da fábrica.


Quanto, a este meu relógio em particular, ele ostenta no interior uma referência ao prémio na exposição universal de Paris de 1900, portanto foi produzido depois de 1900.



Apresenta na tampa interior da caixinha a marca de punção suíça, usada entre 1880-1933, isto é, uma figurinha incisa, representando um galo montez ou tetraz. Portanto, o relógio terá sido fabricado depois de 1900 e antes de 1933.
A marca de punção suíça, usada entre 1880-1933


O número 0,800 refere-se à percentagem de prata usada, que obedecia à norma estabelecida.

Tabela retirada de https://sites.google.com/site/zenithistoric

Quanto são número de série ou movimento, uma espécie de bilhete de identidade do mecanismo, é o 1282097. Procurei numa tabela da Zenith, que equipara os números do movimento de série com os anos do início de fabrico, mas o ano de 1909, que corresponderia aos números 1200000 está em branco.


O número de série ou movimento do mecanismo é o 1282097

Enfim, presumo que o meu relógio terá sido executado entre 1900, ano da exposição universal de Paris e 1911, data em que se passa a usar em exclusivo a marca Zenith.


Algumas ligações consultadas:

https://fr.wikipedia.org/wiki/Georges_Favre-Jacot

https://sites.google.com/site/zenithistoric/

http://www.zenith-watches.com/fr_fr/icones/georges-favre-jacot

10 comentários:

  1. Fico sempre impressionada com a história e a informação que o Luís consegue trazer aos seus leitores, por cada objeto que aqui expõe.
    E este relógio é muito bonito. :)

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    1. Luisa

      Muito obrigado pelo seu comentário. A pesquisa que faço por cada peça, que aqui mostro é um passatempo muito divertido e um treino para o espírito.

      Como sou bibliotecário tenho alguma facilidade em encontrar as informações, que preciso na internet. No fundo a internet é uma biblioteca gigantesca e as técnicas de pesquisa por palavras-chave não são muito diferentes daquelas que se utilizam no catálogo de uma biblioteca para encontrar um livro. Neste caso pesquisei pelos termos "Pocket Watch Billodes e "montre de poche en argent Billodes".

      Um abraço

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  2. Esta informação toda é interessante, e tanto mais o é, quanto difícil é obtê-la. O mercado de antiguidades está a abarrotar destas peças, fabricadas nos mais variados cantos do mundo, e pelos mais diferentes fabricantes, pelo que, conseguir saber tudo isto é algo de extraordinário e fruto de bastante tempo de pesquisa.
    Porque o relógio de bolso que tenho tem uma marca muito conhecida, foi relativamente fácil descobrir-lhe a informação necessária e até o próprio ano de fabrico.
    Mas não deve ser nada fácil noutros casos.
    A caixa é gravada com desenhos muito bonitos, como os produzidos neste período da história da arte.
    E como foi bem limpo está neste momento muito bonito
    Manel

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    1. Manel

      Se o relógio fosse americano seria bem mais fácil data-lo pelo nº de movimento, pois nos EUa colocam toda a informação na net, mas como este relógio é uma marca europeia o trabalho foi um pouco mais complicado, mas julgo que acertei mais ou menos na datação. A decoração com motivos florais ao gosto arte nova é muito feliz. Num dos lados há até há uma pequena cartela, onde o proprietário poderia mandar um ourives gravar as suas iniciais.

      O restauro foi caro, mas valeu a pena. É um investimento para o futuro.

      Um abraço

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  3. Caro Luís
    Tenho andado ausente nos comentários mas sempre com a leitura do seu blog atualizada.
    Lindíssima a caixinha que mostrou no último post e o registo de Santa Teresa de Ávila. Também acho que aos atuais registos falta alguma "finesse" nos materiais escolhidos e muito teriam a lucrar se usassem sempre que possível materiais antigos ou atuais mas com mais qualidade. Mas hoje o tema é o seu elegante relógio que tem uma caixa muito bonita e primorosamente trabalhada. De relógios nada percebo, mas um irmão do meu pai foi um grande colecionador destes relógios de bolso e recordo-me de que ele com uma certa frequência os tirava da gaveta onde estavam guardados e os mostrava à família. Hoje penso que isso acontecia sempre que ele comprava algum novo relógio.
    Bjs e continuação de uma boa semana

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    1. Maria Paula

      Eu também pouco percebo de relógios, ao contrário do Manel, que é um apaixonado destes instrumentos medidores do tempo, sobretudo dos relógios de parede. Na sua casa, cada vez que é hora, uma vintena destes instrumentos, batem todos ao mesmo tempo como se fossem uma orquestra sinfónica.

      Mas, como me ofereceram estes dois relógios de bolso, aproveitei a ocasião para me informar um pouco mais sobre a sua história e os meios para os datar e partilhar aqui essas minhas pesquisas, já que há tão poucos conteúdos em português sobre velharias.

      Bjos e a continuação de uma boa semana

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  4. Mais uma postagem detalhada e completa, que me fez aprender, o que mais uma vez agradeço.
    E além da aprendizagem, me fez voltar mais uma vez ao tempo, pois meu nonno tinha um relógio de bolso, assim ele dizia. O relógio era por ele segurado, por uma corrente, igualmente bela.
    Gostei muito das fotos em detalhe.

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    1. Maria Glória

      É verdade. Antigamente um homem que se prezasse tinha um relógio de bolso. Era um símbolo de respeitabilidade. Depois, os relógios de bolso foram sendo substituídos progressivamente pelos de pulso e hoje os miúdos não querem saber de relógios, pois tem o celular. Através dos objectos conseguimos acompanhar as tendências da história. Bjos

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    2. É uma pena, pois relógios são objetos maravilhosos!

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    3. Gloria
      Os relógios são cada vez mais objectos destinados aos colecionadores. Bjod

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