quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Um candeeiro em biscuit ou a procura de um brinquedo da minha infância

Candeeiro em biscuit com putti
Hoje apresento umas das minhas últimas loucuras, um candeeiro em biscuit, cuja base é formada por quatro putti ou anjinhos em volta de um balaústre, provavelmente coisa da primeira década do século XX. Claro, não precisava de mais nenhum um candeeiro lá em casa, mas não consigo resistir a biscuits e depois ele estava tão barato, que seria uma pena deixa-lo na banca do vendedor.

Bem sei que este candeeiro é uma peça kitch, de um gosto burguês, muito datado no tempo, mas desde criança sinto uma atracção especial por figurinhas de biscuit. Creio que tudo começou com uma palmatória em biscuit, representando um anjo da guarda e que existia num dos quartos, na casa da minha família paterna, em Outeiro Seco. Estava na mesinha de cabeceira junto à cama onde me punham a fazer a sesta e como em miúdo era demasiado irrequieto para dormir durante a tarde, ficava a olhar para aquele bonequinho cheio de vontade de brincar com ele. Muito depois disso, fizeram-se partilhas do recheio da casa, esta foi vendida e entrou num triste processo de decadência. A última vez que lá voltei, já com quarenta e tais anos, entrei na casa, já uma ruína completa e apesar de ter que fazer equilíbrio nas poucas tábuas, que sobravam no soalho, entrei nesse mesmo quarto e confesso, que ainda olhei através do chão esventrado, na esperança de encontrar o anjo em biscuit caído no andar inferior. Claro, a figurinha em loiça não estava lá, já devia nessa altura estar partida em mil pedaços, espalhados sabe-se lá por onde e eu desde então, compro estes biscuits, com o intuito de alguma forma reencontrar um momento da minha infância.
 
Voltando ao candeeiro, quando o comprei estava em muito mau estado. Ter-se-á partido em tempos e o seu dono, que tinha sem dúvida muito apreço por ele, mandou-o restaurar a alguém, que o colou muito pacientemente e para disfarçar as fracturas aplicou uma substância qualquer, que com o tempo, ganhou uma coloração creme. De modo, que quando o comprei estava com um tom tão estranho, que nem parecia biscuit. Seguindo então os conselhos do meu amigo Manel, com o auxílio de acetona e de uma raspadeira, retirei aos poucos toda essa substância, que escurecia o branco do biscuit. Foi um trabalho demorado e paciente até porque toda a peça é cheia de pormenores, com braços, mãos, pernas e asinhas delicadamente modeladas.

Depois, disso, comprei um abat-jour antigo, um pano de damasco azul e uma franja com pincéis numa retrosaria da Rua da Conceição, em Lisboa. O meu Amigo Manel, com a sua habilidade e paciência, forrou o abat-jour, aplicou-lhe os passamanes, alguns deles antigos e o resultado satisfez-me muito. O abat-jour e a suas franjas deram  ao candeeiro o toque final daquele gosto muito burguês e sobrecarregado do início do século XX.
 
Quanto à origem do fabricante deste candeeiro não consegui apurar nada de definitivo. Presumo que seja coisa da primeira década do século XX, pois tem o seu quê do movimento da arte nova e nessa época os alemães inundavam as casas burguesas de toda a Europa e Américas com os seus bonequinhos de biscuit. Encontrei algumas peças à venda na net de uma fábrica alemã, a William Goebel Porzellanfabrik, datadas do princípio do século XX com um estilo idêntico a esta, mas é apenas uma hipótese.
 
Em todo o caso, os modelos que inspiram todas figurinhas em biscuit branco, fabricadas no início do século XX são as peças francesas de Sêvres, de qualidade excepcional e que pretendiam imitar o mármore. No século XIX e início do século XX, o francês Auguste Moureau (1834-1917) concebeu dúzias de anjinhos e cupidos combinados com damas vestidas à grega para a fábrica de Sêvres, que bem poderiam ter inspirado o fabricante do meu candeeiro.
 
Biscuit de Auguste Moreau. Foto https://www.anticstore.com
Resumindo, este candeeiro terá sido produzido algures na Alemanha ou na Europa Central, no início do Século XX, adaptando o estilo mais aristocrático dos biscuits de Sêvres ao gosto de uma burguesia sem recursos por aí além, mas que gostava de encher as suas casas de tralha, onde se misturavam todos os estilos históricos possíveis, tal e qual como eu faço no meu apartamento de assoalhada e meia.
 

8 comentários:

  1. Ficou bonito o candeeiro. Mas a forma como o encontraste não dava para perceber como iria ser o resultado.
    Lá vais tendo paciência para estes trabalhos
    Manel

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    1. Manel

      Não sei porque, mas mal o vi o candeeiro agradou-me de imediato e visualizei no momento um ar vitoriano que poderia emprestar a uma decoração. Mas, ele ficou muito bonito graças aos teus conselhos e ao teu trabalho de refazer inteiramente todo o abat-jour. Um abraço

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  2. Que maravilha! Também havia muitas esculturas de biscuit em casa dos meus avós e a minha mãe herdou um candeeiro. Pode ser kitsch, mas gosto muito. E ainda outro dia trouxe de casa da minha mãe uma jarra com uma menina a brincar com um gato :-) Bom Domingo!

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  3. Margarida

    Estes biscuits são peças irremediavelmente fora de moda. O próprio termo "bibelot" parece ter sido erradicado na actual linguagem da decoração de interiores. Mas, alguns de nós, talvez por sermos do espírito do contra ou demasiadamente sentimentais não conseguimos resistir ao charme burguês destes objectos sentimentais. Mais ainda, muitos destes pequenos objectos são modelados e pintados primorosamente, o que os torna de certa forma preciosos.

    Bjos

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  4. Salve Luis! Peça muito linda! Minha esposa e eu temos a mesma paixão por candeeiros e biscuits. Adquiri recentemente um Moureau assinado semelhante aos puti. Uma alegoria do outono que provavelmente fazias conjunto com outros representativos das 4 estações. Também por um preço irrisório 12, 60 euros (r$50,00 brasileiros). Seria interessante um espaço em teu blog onde pudéssemos compartilhar contigo nossas velharias também. Abraços e Venturosos 2018! Abraços d´além mar Edwin J.P. Fickel.

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    1. Caro Edwin J.P. Fickel

      Peço desculpa de só agora lhe responder, mas estive fora de Lisboa, viajando pelo interior do País, aproveitando para conhecer melhor Viseu, Lamego, Arouca e os respectivos museus. Não há nada como ver museus, para se perceber o que é bom e saber o que comprar nas lojas e feiras de velharias.

      Agradeço e retribuo os votos de um bom ano.

      Comprar uma peça de Moureau por cerca de 12.60 Euros é um achado! Em França, essas peças vendem-se bem caras.

      A sua sugestão de aqui criar um espaço onde outros amigos poderiam compartilhar as suas velharias é uma sugestão interessante, que poderia dar um novo elan a este blog. Terei que pensar bem nela.

      Um abraço de Lisboa, a velha capital

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  5. Com capricho e paciência os resultados são excelentes. E ficou muito bem!
    Tenho certeza que foram instantes de prazer e nem tanto de paciência e o Luis nem deve ter percebido o tempo passar no belo relógio mencionado em anterior postagem.

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    1. Maria Glória

      Nunca me aventuro muito em trabalhos de restauro, só quando o meu amigo Manuel está por de perto e me indica quais os procedimentos a seguir, como foi o caso deste candeeiro. Mas, de facto, limpar esta peça deu-me um enorme gozo, apesar de ainda ter perdido uns dois fins-de-semana com ele e depois quando fazemos um destes trabalhos de minúcia, passamos a conhecer o objecto em todos os seus pormenores. Este foi realmente um trabalho de amor.

      Bjos

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