sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Santa Gertrudes, a Magna


Hoje volto a apresentar mais uma gravura religiosa antiga, representando uma santa, que hoje caiu no esquecimento. Mas desta vez não se trata de uma mártir dos primeiros tempos do Cristianismo, como as santas Bárbara, Felicidade, Inês ou tantas outras. Não lhe cortaram a cabeça, nem lhe amputaram os seios, nem lhe furaram os olhos ou outras torturas arrepiantes. Também não se trata de uma pecadora arrependida, como Santa Maria Madalena ou Maria Egipcíaca. Da mesma forma não teve príncipes aos seus pés implorando-lhe casamento e nem tão pouco fez milagres espalhafatosos, como transformar pães em rosas.

Esta estampa do meu amigo Manel representa Santa Gertrudes a Magna (1256-1302), que passou a toda a sua vida num convento beneditino na Alemanha, dedicada à leitura, à escrita, à meditação e a música religiosa. Não há na vida dela nada de espectacular, talvez apenas o facto de ser uma erudita, autora de obras teológicas, numa época em a maioria da população era analfabeta e raríssimas eram mulheres, que sabiam ler e escrever. Claro, hoje em dia só meia dúzia de investigadores ainda consultam as suas obras de carácter teológico, mas em todo o caso foi a responsável pelo início da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que a partir dos finais do século XVIII conheceu uma grande popularidade e que não parou de crescer até aos dias de hoje. Por essa razão, nesta estampa, que deve datar precisamente nos finais do século XVIII, S. Gertrudes é representada com um sagrado Coração de Jesus no peito. Enverga também o hábito preto de monja beneditina e o báculo de Abadessa, embora nunca tenha ocupado esse cargo. Na verdade, é uma confusão com Gertrudes de Hackeborn, abadessa do mesmo convento de Helfta, na época em Getrudes professou e que também foi uma mística famosa na sua época.

Com efeito esta estampa portuguesa do século XVIII evoca esse mundo feminino da clausura dos conventos, que hoje nos parece tão estranho, não só pela figura representada, Santa Gertrudes, como pelo trabalho delicado e minucioso de florinhas e folhas de fantasia, que a decoram, elaboradas certamente pelas mãos de alguma monja, menina educada em convento ou por senhora recolhida.
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955

https://fr.wikipedia.org/wiki/Gertrude_de_Helfta

8 comentários:

  1. Cerca de três quartos de século antes desta Gertrudes viveu outra mulher que confesso admirar profundamente e cuja vida, creio, talvez tenha alguma comparação: Hildegard von Bingen, outra teóloga proveniente do território alemão, erudita, doutora da igreja, fundadora de vários mosteiros, compositora de música sacra, tocadora saltério, escritora sobre as propriedades curativas das plantas, fisiologia e psicologia humanas, correspondente de papas, imperadores e outras figuras importantes da igreja, e considerada por alguns setores da igreja como santa também.
    Este período terá dado à histórias algumas mulheres de grande calibre, estas terão sido algumas.
    Satisfaz-me sabê-lo
    Manel

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    1. Manel

      Na Idade Média, os conventos são os únicos sítios onde as mulheres podem aceder à instrução e à cultura. Talvez uma ou outra mulher da grande aristocracia soubesse ler e escrever, mas as bibliotecas e o ambiente de estudo existiam quase exclusivamente nas casas religiosas. Também não sei se todos os conventos e todas as ordens proporcionavam às mulheres esse ambiente de estudo. Enfim, o acesso à instrução nos conventos é assunto muito interessante. Talvez, um dia, quando voltar a mostrar outra estampa de uma santa erudita, procure ler alguma coisa sobre o assunto. Um abraço

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  2. Recentemente comprei um imagem de uma santa freira ou monja ou abadessa com o hábito marrom. Clarissa? É uma imagem de madeira forrada pelo burel. A mão direita está perfeita e ela deveria segurar um báculo e a outra mão, a esquerda está quebrada, não sei o atributo que segurava. Pensei logo em santa Escolástica - será? mas, agora, depois de ler o seu post penso que possa ser uma santa Gertrudes pintada de marrom. Já andei por aí pesquisando e não consegui identificar A escultura é muito bem feita, bonita e tem 27cm e meio.
    O rosto fizeram uma macacada, pintaram todo de rosa medonho e muito mal pintado e feio demais. Um horror. Tá guardada até eu ver o que posso fazer com ela.
    Aqui no Brasil se fala muito de santa Gertrudes, não conheço nenhum devoto, mas que ela tem o local de uma festa em alguma cidade. Não sabia que ela estava ligada à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, sei de santa Margarida Alacoque.
    O santinho de santa Gertrudes é lindo, antigo!!! e a decoração com florzinhas um primor feito por uma prendada.
    Adoro uma vida de santo agitada cheia de sofrimentos, acontecimentos fantásticos, mas a vida das contemplativas e encerradas em um convento, dedicadas à leitura ou escrevendo tem o encanto especial do abandono, do despojamento pela fé.
    Coisas de 1200.
    Adorei ler sobre santa Gertrudes, agora, em 2018.
    P.S. Os vidros romanos e as suas réplicas são muito interessantes. Serviam tanto para o veneno quanto para o perfume. Ao ódio e amor eles se prestavam.
    Abraços.
    Abraços.

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    1. Jorge

      Já apresentou essa imagem no seu blog? Por vezes quando as esculturas perdem os seus atributos é complicado identificar os santos que representam. Mas, se quiser enviar uma fotografia por e-mail posso tentar ajuda-lo.

      O culto a S. Gertrudes teve um grande incremento no século XIX e ainda no XX com a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. S. Gertrudes era uma beneditina, portanto é natural que nas igrejas dos mosteiros e conventos beneditos se prestasse culto a esta santa. Mas, hoje em dia o Catolicismo romano tende a fixar-se quase exclusivamente no culto à Virgem Maria e os velhos santos vão caindo no esquecimento. Apenas sobrevivem os mais populares, como S. Francisco de Assis ou Santo António.

      Este registo de Santa Gertrudes está dentro de uma caixa de vidro, também antiga. Como o Manel abriu a caixa para compor um pouco as florinhas, aproveitei a oportunidade para fotografar o registo sem o vidro. De outra forma nunca conseguiria uma boa imagem, pois os reflexos dos vidros estragam as fotografias todas.

      Um grande abraço

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  3. É muito bonito o santinho. Hoje eu conversei com um amigo antiquario e enviei a foto da tal santa freira que comprei e ele disse tratar-se de Santa Rita, só que o burel é marrom, por isso pensei em clarissas. S. Rita era agostiniana e usa preto. Mas a minha imagem deve ser de S. Rita mesmo, repintada toda. Até o estigma da testa apagaram. Um horror.
    Eu fui recentemente na igreja de São Domingos que foi toda restaurada e tá linda, fotografei tudo, talvez tenha lá, não sei, uma Gertrudes.
    Me lembro de já ter visto uma imagem dela por aqui, mas não lembro em que igreja.
    Eu sou louco por santa Rita, então, vou dar um jeito na macacada, comprar e colocar os atributos, o estigma e pronto!
    Esses santos me enlouquecem! kkk
    Um abraço beneditino.

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    1. Jorge

      Por vezes os padres tiram imagens antigas dos altares e substituem-nos por outras de devoções mais populares, como Nossa Senhora de Fátima e encafuam as esculturas antigas e bonitas nas sacristias. Talvez a Santa Gertrudes que viu, esteja já a gozar a sua reforma nalgum canto perdido da sacristia.

      Em todo o caso, quando chegar a casa vou comparar a sua Santa Rita de Cássia com a minha.

      Um abraço

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  4. Também concordo quado dizes que a vida religiosa para algumas mulheres, naquela época, era um diferencial, quanto a instrução e intelecto. Interessante mesmo.

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    1. Glória.

      No século XIII muito poucas seriam as mulheres fora dos conventos que saberiam ler e escrever.

      Bjos

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