sábado, 21 de janeiro de 2012

As pagelas ou les images pieuses

Ao longo deste blog tenho massacrado alguns dos meus seguidores menos dados à religião com registos do século XVIII, normalmente impressos em Portugal. Os registos como aqui se explicou comprovam o cumprimento de uma peregrinação, a visita a uma igreja ou ainda constituem o documento pelo qual a Igreja concedia indulgências aos féis, que rezassem não-sei-quantas avés-marias diante de uma qualquer Nossa Senhora.

O verso da pagela. Foi impressa em Paris por Felix

Mas para além dos registos, no século XIX, divulgaram-se as pagelas, pequenas folhas com imagens piedosas para inserir num missal, eventualmente como marcador de páginas. Estas pequenas estampas eram oferecidas em cerimónias religiosas como o baptismo, a primeira comunhão, a confirmação ou um enterro. No verso poderiam conter uma oração, um pensamento piedoso ou então um texto manuscrito pela família da criança ou defunto.

Maria Madalena da colecção do José Oliveira


As pagelas mais bonitas e procuradas vinham de Paris, onde existia uma pequena indústria destas Images pieuses. Vimos num post anterior como o editor L. Turgis tinha um negócio tão rentável, que abriu uma filial em Nova Iorque, para vender os seus sagrados corações de jesus e de maria, bem as como as madalenas arrependidas e outros santos aos católicos americanos e canadianos.

O verso da pagela da Madalena Penitente. Impressa ela editora francesa Turgis, mas na filial de Nova Iorque

A este propósito aproveito para apresentar aqui uma Madalena Arrependia, semelhante à do Manel, mas impressa em Nova Iorque, propriedade do nosso amigo José Oliveira.


Estes editores franceses fizeram trabalhos muito requintados, imprimiram imagens cortadas em ogivas sugerindo vitrais ou então com os cantos recortados num trabalho semelhante a uma preciosa renda.
Pagela com motivo ogival, sugerindo uma janela gótica com um vitral..

No nosso tempo, em que a maior ambição do homem parece ser possuir um i-pod ou um i-phone da Apple, estas images pieuses parecem-nos talvez pirosas, impregnadas de um certa pieguice. No entanto, quando abrimos os antigos missais encadernados a osso ou a madrepérola e nos caem estas pagelas, parece que por breves instantes sentimos o calor das mãos das nossas avós, bisavôs e trisavós.


14 comentários:

  1. Olá Luís
    Os seus interesses são tão diversificados e abrangentes, sempre bem fundamentados e com ligações inesperadas, que me fazem sentir insignificante perante a sua magnitude. No meu tempo de criança, chamávamos às "images pieuses" que nos mostra os "santinhos". Serviam, como muito bem explica, para marcar as páginas dos missais. As meninas gostavam de os mostrar e, por vezes, trocar.
    Tenho alguns que guardei e outros que comprei, pois também é um dos temas que aprecio e colecciono. São menos requintados, mas também singelos, pela sua simplicidade.
    Cumprimentos.
    if.

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  2. Olá Luís
    Gostei muito deste post. Fez-me recordar os meus tempos de menina de escola primária, quando ainda era habitual a tal oferta em ocasiões especiais das pagelas, ou "Santinhos", como nós as crianças lhe chamávamos.Como muito bem diz,serviam de marcadores aos missais,mas,nessa altura, era também usual tê-los dentro dos livros escolares. Não imagina, as coleções numerosas que algumas crianças tinham e havia "santinhos" belíssimos! Esses, em que o recorte minucioso do papel parecia renda eram os mais cobiçados.Com tanta mudança de casa e de terra, não restou nenhum dos meus "santinhos" e tenho pena:(

    A primeira pagela é muito bonita e não consigo identificar o material colorido. É tecido?

    Um bom domingo

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  3. Maria Paula

    Na primeira pagela, os materiais são todos de papel, execepto a alcofa do menino que é uma especie de seda.


    obrigado e um abraço

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  4. Cara If

    Fico envaidecido. Sou um tipo de cultura enciclopédica. Sei um pouco de tudo, mas não me especializo em nada. Claro centro-me mais nas artes e na história, mas nestas duas áreas acho que me interesso por todos os aspectos.

    As pagelas são uns objectos que a todos lembra uma sociedade passada, qualquer coisa que se perdeu no tempo, tias e avós que já se foram, e grande parte do seu encanto destas pequenas folhas de papel, além da delicadeza do trabalho provém desse lado mais sentimental de recordar aquilo que morreu.

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  5. Bonitos exemplares...

    Eu também tenho alguns até dessa célebre casa impressora (Turgis) sobre Santo António, um deles no meu blog indicado como"Souvenir de pelegrinage..." e como bem indicou também serviam como recordação de peregrinação a um local. Pode vê-lo aqui:

    http://muraldaspetas.blogspot.com/2011/12/souvenir-de-peregrinacao.html

    Cump.

    ET

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  6. Tal como a If e a Maria Paula, adorava na minha infância estes santinhos, sobretudo os muito pequeninos e os rendilhados, muito usados em ofertas e trocas entre a garotada.
    Ainda os guardo, mas na maioria não são tâo antigos como os que aqui apresenta.
    Acho uma delícia o primeiro, com a aplicação de seda, mas o da Sta Madalena e o dos recortes em ogiva tmbém são pequenas maravilhas.
    Também reparei no pequeno missal com capas de marfim (parece-me). Mais um objeto que me encanta e até tenho alguns, mas nenhum tão bonito.
    Tenha uma boa semana.

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  7. Caro Mano Del Tejo

    Fui espreitar o seu Santo e papel rendilhado que adorna estas imagens tem de facto um encanto muito especial.

    Abraços e obrigado

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  8. Maria Andrade

    Achei que o missal ficava a matar com as pagelas. Aliás as imagens do Sagrado Coração de Jesus estavam lá dentro quando ele chegou as minhas mãos. O Menino já foi posteriormente por adquirido por mim. Ainda pensei acrescentar um terço ao conjunto, mas não tenho nenhum desses objectos com beleza para ombreal com o missal em osso ou marfim, feito em Paris, nos finais do XIX.

    abraços

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    1. Olá Luís ,as suas pagelas são lindas e preciosas .Lembro-me de na infância ter algumas .Agora acho que me restam 2 .Bem-haja por ter trazido até mim recordações que terei sempre no fundo da minha alma .
      Ab.
      Quina

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  9. Quina

    Fico contente por ter despertado imagens da sua infância. Julgo que um blog de velharias é sempre necessariamente sentimental.

    Abraços

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  10. Olá Luís,

    Este é mais um post revelador do intenso trabalho de pesquisa que fazes para apresentar um objeto.
    Eu gosto tanto das pagelas e agora percebo que nunca olhei para elas o tempo suficiente para ver e valorizar "as ogivas / vitrais"..., sempre as imaginei como uma imitação de renda, enfim é um magnífico trabalho em papel. Vou ter que remexer dentro de livros, gavetas e afins e ter mais atenção aos pormenores :-).Um abraço

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  11. Zé Oliveira

    Também nunca prestei muita atenção às pagelas. Sempre preferi os registos do século XVIII, mas a tua Madalena e a do Manel chamaram-me a atenção para estas figurinhas um bocadinho kitch, mas que nos recordam as imagens de uma vida devota que as nossas antepassadas levaram e por essa razão tem um lado sentimental delicioso

    Abraços

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  12. Luís,
    Gostei especialmente da Madalena.
    Muito interessante esta postagem. :)

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  13. Cara Ana

    Obrigado. Esta pagelas são normalmente consideradas umas coisas pirosas, umas beatices, mas por vezes são peças com um trabalho muito bem acabado, muito detalhado. Traduzem também uma mentalidade quase desaparecida nos nossos dias.

    Um abraço

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