quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bule em black basalt



O Manel comprou recentemente este bule, que apesar de lhe faltar a tampa não deixa de ser uma peça neoclássica muito elegante. É certamente inglesa, talvez datada logo do início do século XIX e é inspirada na célebre loiça black basalt, produzida a partir de 1767 pela Wedgwood.



O Black Basalt era um tipo de cerâmica que pretendia imitar o basalto preto, uma pedra muito usada na antiguidade, por exemplo, na escultura egípicia. A Wedgwood ao criar esta cerâmica preta colocava no mercado a preços acessíveis peças que só as grandes famílias aristocráticas possuíam nos seus gabinetes de curiosidades. E de facto, a Wedgwood teve imenso sucesso com o Black Basalt, nos finais do século XVIII, criando peças que sugeriam a arte egípcia, os vasos gregos e a arte da antiguidade no geral, aproveitando o crescente gosto à grega que invadia nesse período os salões europeus.
Urna da Wedgwood, Séc. XVIII, do Victoria & Albert Museum

Outras fábricas inglesas como Warburton and Adams manufactory, a Bradley & Co., a Humphrey Palmer, a Elijah Mayer & Son,  a John and William Yates e a Leeds Pottery seguiram o exemplo da Wedgwood e nas primeiras décadas do Século XIX fizeram urnas, peças decorativas e utilitárias em black basalt, sempre inspirando-se na antiguidade.

Baker, um imitador da Wedgwood do início do séc. XIX, também do Victoria & Albert Museum

Aliás, os anos entre 1800-1815, são os picos da moda romana, grega e egípcia na Europa, com as senhoras vestindo-se como matronas romanas, as casas sendo decoradas em estilo pompeiano ou imperial e Napoleão voltando do Egipto, carregado de tesouros de arte do país dos Faraós.

A marca L

Estando apenas marcado com um L e não nos permitindo nenhuma identificação precisa, o bule do Manel terá talvez saído de umas dessas fábricas inglesas, que no início do séc. XIX copiaram o a louça basalto preto Wedgwood.


5 comentários:

  1. Dá-me a ideia que este tipo de peças quereria imitar o trabalho de ourivesaria em prata de uma forma barata, utilizando uma forma de porcelana que imitaria a "porcelana negra" que, à altura, se tinha encontrado em excavações arqueológicas em Itália, proveniente da civilização etrusca.
    Aliás, este tipo de alto-relevo será utilizado pela Wedgwood, segundo técnicas diferentes, claro, para a produção do "jasperware" (técnica que, posteriormente, acabou por se identificar com esta fábrica), com base nas pesquisas que o bisavô de Charles Darwin (sim, o verdadeiro), Josiah Wedgwood, levou a cabo para conseguir reproduzir, de uma forma satisfatória, o célebre "vaso Portland", romano, feito em vidro, provavelmente datado da transição do séc I a.C para o séc. I d. C., e que tinha sido produzido segundo a técnica de "camafeu" (esta peça é absolutamente fabulosa!!!!!!Se não a conhecerem façam uma pesquisa e encontrá-la-ão de imediato).
    Mas, regressando a esta minha humilde peça, a espessura das paredes é mínima, aproximando-se do que se denomina de "casca-de-ovo", o que aumenta a proximidade com a espessura dos objetos em prata.
    A vendedora não fazia nem ideia do que se tratava e andava admirada com a cor da pasta, que ela só sabia não ser de metal, porque tinha partido algo anteriormente (não o confessou, mas quiçá, a tampa deste bule).
    Não lhe conhecia a proveniência nem o que quereria imitar, o que abonou a favor da minha bolsa, pois, duma assentada, comprei, além deste, mais dois bules e uma leiteira, todos em "black Basalt", e por um preço absolutamente irrisório ("este preto todo dá-me azar à casa e ninguém os quer!" ... eu pensei - que sorte a minha!!).
    Gosto sobretudo da influência clássica, e das figuras, que são de uma delicadeza fora do comum para peças que deverão ter sido feitas para um mercado de classe média.
    Manel

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  2. Sabe, Luís, valeu a pena esperar um pouco mais por um post seu, porque estamos aqui numa área que me enche completamente as medidas!
    Foi realmente uma grande sorte para o Manel ter encontrado este black basalt e quem me dera ter sorte igual porque para mim um bule destes é uma verdadeira preciosidade. Afinal em vez de um comprou três e ainda uma leiteira…Que achado! É a vantagem de encontrarmos de vez em quando coisas boas (aos nossos olhos, claro) que não são conhecidas por cá.
    Estas são daquelas peças que eu valorizo pela história que carregam, pelos nomes a que estão associadas, e este bule, sendo ou não fabrico Wedgwood, estará sempre associado a Josiah Wedgwood I.
    Tenho um livrinho com a história deste Josiah Wedgwood, efetivamente avô de Charles Darwin, um inovador e um fora de série a quem se devem vários desenvolvimentos na cerâmica, não só a introdução do fabrico destes black basaltes, mas também desenvolvimentos no creamware (com as orlas concheadas) e no pearlware e a invenção do jasperware a partir da cópia do Portland Vase. Um dado curioso é que na altura se pensava que estes achados arqueológicos romanos eram de arte etrusca , por isso Wedgwood, muito impressionado por eles, chamou Etruria à aldeia fabril que construiu perto de Hanley ainda no final do século XVIII. Outros fabricantes reproduziram nos seus motivos decorativos cerâmicas da antiguidade a que chamaram etruscas, Etruscan Vases, por exemplo.
    Perco-me a falar destas coisas, tenho lido bastante sobre este período da produção cerâmica inglesa e tenho uma ou outra peça mas em creamware, stoneware, pearlware (e claro em jasperware Wedgwood mas de fabrico recente) , nada em black basalt que nunca vi por cá.
    Há um nome que associo a este tipo de formatos, estes modelos de bule que reproduziam as peças de prata, em black basalt ou noutras pastas, algumas muito brancas, sobretudo com aquele recorte onde encaixa a tampa: Castleford. Não me admiraria que este bule fosse dessa manufactura de Castleford no Yorkshire, perto de Leeds, aí instalada por David Dunderdale e que teve uma larga produção destes artigos a partir de 1790.
    E para rematar, Luís, o naperon de bilros ficou muito bem com o bule!!!
    Beijos

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  3. Manel e Maria Andrade

    Gostei imenso dos vossos comentários. Sois os dois especialistas em louça inglesa e enriqueram muito este este post com as vossas opiniões bem fundamentadas.

    Também conhecia pouco Wedgwood antes de fazer este post e fiquei apaixonado pore esta loiça. Andei no site do Victoria & Albert Museum e encantei-me não só com o black basalt, mas também com o Rosso antiquo, com camafeus de basalto preto aplicados.

    É muito curioso observar a a confusão histórica que ia nestas cabeças no século XVIII acerca das civilizações do passado. Etruscos, gregos, romanos, egípcios misturavam-se no espírito destes homens e produziram estas belas peças à imagem de uma antiguidade mais ou menos imaginada.

    abraços

    Abraços

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  4. Caro Ricardo

    De facto este bule é um espanto. Os ingleses produziram umma faiança de muito boa qualidade ao longo de todo o séc. XIX. Abraço e volte sempre

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