quinta-feira, 27 de Junho de 2013

A descoberta de um carro que se julgava perdido


Já aqui contei no blog que o meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão, tinha a mania dos automóveis. Introduziu o primeiro carro em Chaves, um Darracq, modelo de 1901 e depois a partir dos anos 30, conduziu um Opel 1.8, de 1931, até quase ao final da sua vida, em 1965. Contudo, nunca conseguiu passar no exame de condução e apesar de ser um juiz de Direito conduzia sem carta e de uma forma absolutamente desastrada.

O meu bisavô, o velho Montalvão, como era conhecido em Outeiro Seco

Quando o polícia sinaleiro da praça principal de Chaves o via, mandava parar de imediato o trânsito todo, não fosse o velho Montalvão chocar com uma das poucas viaturas, que por ali circulava, ou matar algum burro ou uma outra cavalgadura qualquer. Também é verdade que este comportamento só era possível numa época em que poucos automóveis circulavam nas terras do interior.

Chaves, vista da casa dos bisavós, na Madalena. Um burgo medieval quase sem carros

Se olharmos para fotografias de Chaves ainda em 1952, vemos as ruas vazias, gente a andar a pé no meio da faixa de rodagem tranquilamente e um único automóvel ao fundo. Talvez até fosse o do meu avô, que quando aparecia certamente introduzia alguma animação nestas ruas paradas do velho burgo medieval. O meu pai lembra-se ainda bem das viagens de Outeiro Seco para Chaves. Para fazer este trajecto de cerca de 4 ou 5 km, o meu bisavô, recorria dois co-pilotos para o auxiliar, o meu pai, que viajava o lado direito e um criado, o Zé-Mouco, que ficava encarregue de viajar o que pudesse ocorrer do lado esquerdo. E mesmo assim, o Opel modelo de 1931 atropelava galinhas, gatos, cães, patos e sei lá que mais.

Quanto ao carro, foi vendido por alturas da morte do meu bisavô a uma família de Outeiro Seco e depois disso, passados estes anos todos, acreditámos todos que estaria desfeito em mil pedaços, espalhados pala terra ou fundidos para fazer panelas de pressão ou parafusos.

O Opel no momento em que foi descoberto
Contudo a semana passada, um Senhor da Associação Automóvel Vale do Ave, o Joaquim Augusto Fernandes da Cunha contactou-me por e-mail, informando-me que tinham o carro do meu avô e que estavam a restaura-lo. Um dos seus dos membros descobriu-o algures em Valongo comprou-o e depois ofereceu-o à Associação Automóvel Vale do Ave. Depois, tal como os conservadores de Museu, os coleccionadores e amantes de carros antigos, tentam sempre traçar o percurso histórico dos seus objectos, encontrar os antigos proprietários, querendo saber algo mais que confira sentido e alma aquela máquina de não sei quantos cilindros. Foram ao Google, introduziram o nome do modelo e a matrícula, clicaram no search e foram ter ao meu blog e descobriram, que o carro pertenceu ao meu bisavô, o último represente de uma fidalguia originária de Espanha, os Montalvões, cuja existência decorreu durante dois séculos no Solar de Outeiro Seco.

O Solar de Outeiro Seco antes de entrar em ruína
O Joaquim Cunha explicou-me também que este Opel 1.8, o primeiro modelo a sair desta fábrica depois ter sido comprada pela americana General Motors, era um carro extremamente potente, difícil de conduzir, o que explica até certa forma as azelhices do meu bisavô, bem, ou enfim, pelo menos uma parte delas…

quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Uma leiteira Vista Alegre do 3º quartel do Séc. XIX


Herdei esta encantadora leiteira da Vista Alegre minha avó Mimi. Ao fazer as partilhas com os meus irmãos, preferi ficar com uma série de peças da Vista Alegre, com estas decorações florais, muito singelas, todas mais ou menos da segunda metade do Século XIX. Ainda que muitas já estivessem com falhas, rachadas, ou sem as pegas das tampas, como esta leiteira, achei-as sempre tão bonitas, que quis ficar com elas e desde essa altura, fui comprando mais coisas da Vista Alegre, todas desta época, que na minha opinião, é a altura mais feliz de toda a produção da fábrica de Ílhavo.

Esta leiteira apresenta 8 cm de diâmetro na base e cerca de 10, 5 cm de altura está marcada V.A. a azul mufla. Segundo o catálogo Exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho da história. Lisboa: estar Editora, 1998, esta marca foi usada entre 1852-1869. Portanto, tem quase 150 anos e sobreviveu a muitas criadas desastradas, crianças irrequietas, senhoras com tremeliques nas mãos e a muitas mudanças de casa, pelo menos quatro ou cinco delas já no meu tempo. Saiu do Solar de Outeiro Seco, foi para casa da minha avó em Chaves, daqui para a minha casa de Benfica, depois do meu divórcio para casa dos meus pais e finalmente aqui para a Pena, onde espero que não haja nenhum terramoto a sacudir a minha casa, até eu ter tempo de me reformar e ir viver para a província.
Leiteira VA. Imagem cedida por Bernardo Travessas
Sempre me interroguei como seria esta peça se estivesse completa, até ao momento em que o Bernardo Travessas, um seguidor deste blog, me enviou muito simpaticamente a imagem de uma leiteira com um formato igualzinho e sobretudo com a pega da tampa intacta. Embora a decoração seja diferente, mas igualmente elegante, podemos visualizar através desta peça do Bernardo Travessas, qual era o aspecto original da leiteira que herdei da minha avó Mimi.

Serviço de chá e café do Museu dos Biscainhos
Depois deste acontecimento, houve mais uma coincidência feliz, outra seguidora deste blog, a Alexandra Rodão, descobriu no http://www.matriznet.dgpc.pt/ as restantes peças que compunham o serviço desta leiteira. Pertencem ao Museu dos Biscainhos e tem o nº de inventário 859 MB.

 
 

terça-feira, 11 de Junho de 2013

Oh ma mère, ou êtes-vous donc aujourd´hui?


Resolvi apresentar hoje uma fotografia da minha mãe e da sua irmã Francisca, tirada em 1950, em Vinhais, num sítio que não consigo determinar, mas onde se vê ao fundo o monte da Ciradelha. As duas estão ainda de luto pela morte do pai. Talvez um luto já aliviado, pois os vestidos já tem golas e cintos brancos. A minha mãe está muito bonita. Também é verdade que poucos de nós conseguimos achar os nossos pais ou os nossos filhos feios.

Como faz agora um ano que ela morreu, apeteceu-me evoca-la aqui. Sei bem, que fotografia não corresponde à imagem da mãe que eu conheci. Já sou um filho tardio, e as recordações mais antigas que tenho da minha mãe, são de uma mulher já nos quarentas.



No passado sábado fui a Benfica visitar a campa, talvez por obrigação social, ou talvez com a ideia de que o sítio onde o corpo da minha mãe está me fizesse reviver a sua voz, o seu riso, o seu olhar e os ralhetes que ouvi na infância. Mas o local onde está sepultada deixou-me indiferente e fiquei apenas com o sentimento de estar só com a minha tristeza e  receios.

Voltei para a casa com música da Barbara nos ouvidos, o Mon enfance. Esta cantora francesa, que os críticos afirmaram ter sido capaz de cantar o que nunca é dito, exprimiu nesta música aquilo que senti no Sábado e que aqui não transcrevo.


Oh ma très chérie, oh ma mère,

ou êtes-vous donc aujourd'hui?

Vous dormez au chaud de la terre.

Et moi je suis venue ici

pour y retrouver votre rire,

vos colères et votre jeunesse.

Et je suis seule avec ma détresse.

Hélas

Pourquoi suis-je donc revenue

et seule au détour de ces rues?

J'ai froid, j'ai peur, le soir se penche.

Pourquoi suis-je venue ici,

ou mon passe me crucifie?

Elle dort a jamais mon enfance


sábado, 8 de Junho de 2013

Terrina de Massarelos do séc. XVIII


Muito embora, os vendedores de velharias teimem em convencer-nos que todas as faianças que apresentam no estendal são muito antigas, todas do tempo do Marquês de Pombal, na verdade não nada fácil encontrar à venda faianças do século XVIII e se eventualmente aparecem, vendem-se ao preço do ouro. 
 
 
O Manel teve a rara sorte de apanhar recentemente uma genuína peça de faiança do século XVIII, por um preço aceitável, mas apenas porque é uma tampa desgarrada de uma terrina. Se fosse o conjunto completo custaria o couro e o cabelo. Mas as tampas de terrina fazem um bom efeito penduradas na parede e esta é particularmente bela. É tão bonita que nos faz pensar, que a faiança portuguesa do século XVIII é de melhor qualidade que a do Século XIX. Embora aprecie de sobremaneira a ingenuidade das peças oitocentistas, há que reconhecer que as produções do século XVIII são pintadas e fabricadas com outra mestria. Julgo que na centúria de oitocentos, os fabricantes tiveram que baixar a qualidade das suas peças e dirigir-se a um público menos endinheirado, já que a fidalguia e a boa burguesia compravam a porcelana ou a excelente faiança inglesa.  

Pormenor da terrina do Manel, que evidencia a qualidade da faiança portuguesa do séc. XVIII

Quando, o Manel, comprou esta tampa, não sabia de que marca se tratava, mas uma vendedora nossa amiga, que é uma mulher civilizada e familiarizada com boas peças, sugeriu Massarelos. Pedi autorização ao Manel para fotografar a peça e quando cheguei a casa, fui desfolhar os calhamaços de faiança para tentar descortinar o fabricante desta tampa. Sabia que não ia ser fácil, pois esta decoração inspirada na faiança francesa de Ruão e que ao mesmo tempo imitava os lavores das baixelas de prata foi muito comum nas produções portuguesas dos últimos 30/25 anos no século XVIII. De facto encontrei na obra Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX / Jorge Pereira de Sampaio. [S.l], ACD editores, 2009, uma travessa muito semelhante, feita na Real Fábrica do Cavaquinho, datada do último quartel do século XVIII, mas não era bem a mesma coisa. 
Terrina de Massarelos, marcada. Antiga colecção António Capucho
Só ao desfolhar o catálogo António Capucho: retrato de um homem através da Colecção. Porto: Civilização, 2004 é que encontrei uma peça exactamente igual, uma terrina completa, fabricada por Massarelos, marcada e atribuída ao 3º quartel do Século XVIII. 
Outro aspecto da Terrina de Massarelos. Marcada cum um P. Antiga colecção António Capucho
Estava resolvido o mistério a tampa da terrina do Manel, que foi produzida nos primórdios de Massarelos, uma das fábricas portuguesas com uma maior longevidade.

A terrina do Manel. Uma peça que lembra os trabalhos de ourivesaria