sábado, 8 de junho de 2013

Terrina de Massarelos do séc. XVIII


Muito embora, os vendedores de velharias teimem em convencer-nos que todas as faianças que apresentam no estendal são muito antigas, todas do tempo do Marquês de Pombal, na verdade não nada fácil encontrar à venda faianças do século XVIII e se eventualmente aparecem, vendem-se ao preço do ouro. 
 
 
O Manel teve a rara sorte de apanhar recentemente uma genuína peça de faiança do século XVIII, por um preço aceitável, mas apenas porque é uma tampa desgarrada de uma terrina. Se fosse o conjunto completo custaria o couro e o cabelo. Mas as tampas de terrina fazem um bom efeito penduradas na parede e esta é particularmente bela. É tão bonita que nos faz pensar, que a faiança portuguesa do século XVIII é de melhor qualidade que a do Século XIX. Embora aprecie de sobremaneira a ingenuidade das peças oitocentistas, há que reconhecer que as produções do século XVIII são pintadas e fabricadas com outra mestria. Julgo que na centúria de oitocentos, os fabricantes tiveram que baixar a qualidade das suas peças e dirigir-se a um público menos endinheirado, já que a fidalguia e a boa burguesia compravam a porcelana ou a excelente faiança inglesa.  

Pormenor da terrina do Manel, que evidencia a qualidade da faiança portuguesa do séc. XVIII

Quando, o Manel, comprou esta tampa, não sabia de que marca se tratava, mas uma vendedora nossa amiga, que é uma mulher civilizada e familiarizada com boas peças, sugeriu Massarelos. Pedi autorização ao Manel para fotografar a peça e quando cheguei a casa, fui desfolhar os calhamaços de faiança para tentar descortinar o fabricante desta tampa. Sabia que não ia ser fácil, pois esta decoração inspirada na faiança francesa de Ruão e que ao mesmo tempo imitava os lavores das baixelas de prata foi muito comum nas produções portuguesas dos últimos 30/25 anos no século XVIII. De facto encontrei na obra Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX / Jorge Pereira de Sampaio. [S.l], ACD editores, 2009, uma travessa muito semelhante, feita na Real Fábrica do Cavaquinho, datada do último quartel do século XVIII, mas não era bem a mesma coisa. 
Terrina de Massarelos, marcada. Antiga colecção António Capucho
Só ao desfolhar o catálogo António Capucho: retrato de um homem através da Colecção. Porto: Civilização, 2004 é que encontrei uma peça exactamente igual, uma terrina completa, fabricada por Massarelos, marcada e atribuída ao 3º quartel do Século XVIII. 
Outro aspecto da Terrina de Massarelos. Marcada cum um P. Antiga colecção António Capucho
Estava resolvido o mistério a tampa da terrina do Manel, que foi produzida nos primórdios de Massarelos, uma das fábricas portuguesas com uma maior longevidade.

A terrina do Manel. Uma peça que lembra os trabalhos de ourivesaria

17 comentários:

  1. Boa noite,Luís
    Mais uma excelente peça que o Manel encontrou
    Mas esse senhor tem cá uma sorte...
    Belíssima,sem duvida
    Um abraço

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    1. Cara Grace

      Muito obrigado. Há sempre uma certa dose de sorte na compra de velharias, mas o Manel tem já muito bons conhecimentos de faiança, adquiridos com a leitura de manuais da especialidade e muitas visitas aos museus, para conseguir perceber de imediato se uma peça é realmente boa.

      Mais uma vez agradeço as suas palavras sempre tão simpáticas.
      Um abraço

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  2. Olá Luís

    Excelente peça, aquisição e brilhante investigação.
    Hoje, reconheço que perdi muitas peças boas só porque estavam incompletas ou danificadas. Há muito por influência do Luís e do Manel mudei.
    Parabéns, extensíveis ao Manel e à também sua cultura ecléctica.

    Um abraço

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    1. Joaquim

      É verdade. Muitos fragmentos tem imensa beleza. Mostram as marcas, que o tempo esse grande escultor, lhes imprimiu. Uma cabeça de um santo comida pelo bicho, uma tampa de terrina ou uma colher de prata desgarrada de um serviço tem por vezes um interesse muito especial.

      Um abraço

      Um abraço

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  3. Caro Luís,

    A sensação que eu tenho, é a de que o seu amigo Manel atrai as peças, ou as peças a ele! Existe um íman recíproco! E olhe que eu acredito que, de facto, há peças que nos estão destinadas.Faço figas para que,num outro momento, possa vir a adquirir a outra parte em falta. Uma ideia gira, seria tentar forrar um tecto apenas e só com tampas de terrina. Que tal?
    Os dois são uma dupla imparável! Completam-se na perfeição, e ao partilharem essas vossas experiências estão a contribuir para o enriquecimento cultural dos vossos leitores (as). Por acaso nunca pensaram ter uma loja de antiguidades? Há por aí tanta gente no ramo sem a alma que vocês dois colocam nestas incursões,sejam elas um documento, loiças,mobiliário, etc.

    Abraço

    Alexandra Roldão

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    1. Cara Alexandra.

      Há uns anos o Manel e eu vimos numa revista de decoração a casa de uma senhora inglesa, em que uma das paredes da sala de jantar estava revestida com uma colecção de tampas de terrina e o efeito era lindíssimo e absolutamente adequado à função da sala. Desde essa altura nunca mais ficámos indiferentes às tampas de terrina.

      Um abraço

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  4. E eu que pensava estar a ter uma ideia original…
    Mas, não se fica sem resposta, pois que, há já bastantes anos vi também numa revista de decoração o que até hoje considero o melhor projecto de reaproveitamento de um espaço para habitação. Tratava-se, nada mais, nada menos, do que uma capelinha perdida no meio dos campos, a qual foi adaptada para lar de um jovem casal.
    Não imagina como ficou belíssima!
    Imagine a parte que correspondia ao coro, portanto num plano superior, adaptada a quarto, a zona da nave foi transformada em sala de estar e de refeições, a sacristia passou a ser a cozinha, enfim ficou um espanto!

    Abraço

    Alexandra Roldão

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    1. Cara Alexandra

      Pelos vistos andamos em sintonia. No Alentejo, talvez por ser uma zona onde a população está bastante descristianizada, ou em resultado de outro fenómeno sociológico ou histórico que desconheço, há muita capelas e igrejas abandonadas. Já aqui mostrei algumas no blog. Há pouco tempo, ao passarmos por uma delas o Manel e eu pensámos como seria bonito aproveitar uma delas para casa de habitação.

      Estas capelas são espaços sempre fantásticos onde a nossa imaginação voa para projectos de arquitectura fantásticos e ambiciosos.

      Também aqui no Alentejo, há uns dois anos conheci um monte de gente rica e com gosto, cuja casa principal era um antigo convento, comprado pela família após a extinção das ordens religiosas, em 1834. O espaço do altar mor era a capela familiar e a nave principal a sala de jantar, que tinha um pé direito de cortar a respiração.

      Enfim, ideias não nos faltam. O dinheiro é que é pouco.

      Estes blogues permitem reunir pessoas que não se conhecem de parte nenhuma, mas partilham dos mesmos gostos e sensibilidades.

      um abraço

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  5. Gosto de passar por aqui. Fico sempre a aprender alguma coisa. E é bem bonita essa tampa de terrina. :)

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  6. Esta tampa de terrina na primeira fotografia é de tirar o fôlego!
    Nunca tive tendência para comprar tampas, só se já tinha base para elas e da Vista Alegre já comprei várias, do modelo facetas, por exemplo, para bules e açucareiros, mas quanto às de faiança... a verdade é que nunca me cruzei com uma beldade destas, a não ser com a respetiva base em museus e em livros como o da coleção de António Capucho que o Luís refere.
    Via-se logo que era peça de qualidade e por isso o Manel não a podia deixar escapar : as nervuras, os recortes, a pega em pera com a folhagem... Deve ser da mesma época do meu prato de Massarelos que também não foi muito caro porque a marca que tem não é muito conhecida, pelo menos nas feiras, mas esta peça do Manel causa mais impacto pela forma e decoração.
    Fico muita satisfeita por esta raridade ficar em boas mãos.
    Parabéns ao Manel e abraços aos dois

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  7. Muito obrigado, Luísa. Também é um prazer passar pelo seu blog e encontrar textos sempre bem escritos e com uma dose de humor muito interessante.

    um abraço

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  8. Maria Andrade

    As boas peças são sempre fotogénicas. lolol.

    A tampa naturalmente não está marcada, mas a terrina que era da col. António Capucho tinha a marca "P". Fui ver o seu prato e tem de facto um inequívoco ar de família com esta tampa. Estas tampas são uma graça e de facto é quase a única maneira de ter em casa uma peça desta qualidade.

    Há uns anos vi uma travessa grande com estes motivos ditos ruanescos à venda na Feira de Algés e pediam 200 euros e nem marcada estava. Claro, se eu lhe tivesse oferecido, 130, era capaz de a levar por 160 ou 170, mas mesmo assim...era um dinheirão.

    Bjos

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  9. Claro que já venho em último, mas com os meus finais de semana pelas planícies perdidas do Alentejo, só pode acontecer isto!
    Agradeço muito as amáveis palavras que me são dirigidas, e, devo confessar, não lhes sou imune. Dão-me prazer, tanto mais que se referem a uma peça que me encantou. Muito obrigado!
    Claro que não a comprei como pechincha, nem quem ma vendeu não sabia que esta peça não era boa. Sabiam que a peça era de qualidade, mas ainda assim, como ninguém lhe pegava, baixaram-lhe o preço substancialmente, pois doutra forma não a poderia trazer de braçado. Assim, o tê-la adquirido deveu-se a um acaso da fortuna e à conjunção de dois fatores: primeiro não houve comprador que a namorasse a rigor e segundo, o vendedor ainda não tinha decidido baixar o preço antes.
    No entanto, o vendedor, tal como muitos que andam pelas feiras, era pouco sabedor do que vendia, pois assegurava-me que esta tampa era de uma terrina fabricada pelo Rato!!!
    Claro que ao olhar para ela soube de imediato que seguramente não era Rato, mas também não a identifiquei com Massarelos, opinião que no entanto considerei, quando a mostrei a uma amiga, igualmente vendedora em Estremoz, mas esta esclarecida (das poucas).
    Quando esta senhora não sabe usa de lisura no trato e correção no julgamento, não se colocando a aventar hipóteses, como se estivesse a vender a banha da cobra: refere simplesmente desconhecer o fabricante.
    Para lá de ser uma senhora muito interessante como pessoa, e de a estimar muito, confio nela dentro dos limites do racional, o que, nos dias que correm, não é fácil.
    Está longe de um vendedor que há uns tempos me assegurava que a faiança que vendia era fabricada na Fábrica do Ratinho, ali ao Rato!!!!!!! Então não conhece essa fábrica??? Era efetivamente um exemplar de faiança ratinha! :-)
    Ou o outro que, mais recentemente, me dizia que o Cantão Popular que tinha na banca era Companhia das Índias, e pedia preço a condizer!!!!!
    Palavras para quê, são "artistas portugueses"!

    Estive a confrontar esta tampa com a peça da Maria Andrade e realmente têm um ar de família com um grau de parentesco muito próximo.

    Este último final de semana vi um galheteiro lindíssimo e fantasticamente completo que me pareceu ser Bandeira ou Fervença, mas, neste caso, e apesar do abatimento para metade do preço que me fizeram inicialmente (há três semanas atrás), deixei-o no sítio. O preço continuava muito elevado ... "mas eu vendo-lho em prestações se quiser" ... debalde!
    Mas ... os olhos ficaram nele :-(
    Há que ter contenção, digo com os meus botões!
    Manel

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  10. Manel

    Quando andei a tentar identificar o fabricante desta terrina, percorri o catálogo da exposição sobre a Fábrica do Rato e de facto as produções desta manufactura apresentam sempre uma qualidade superior no panorama nacional, apesar de terem servido muitas vezes de modelo às peças das outras fábricas portuguesas.

    Os vendedores querem sempre fazer passar as suas peças por Rato. Só o prestígio desse nome faz brilhar os olhos dos compradores e é pretexto para pedir mais umas dezenas de Euros. Também este sentimento é compreensível, porque de facto a produção da Real Fábrica do Rato é fantástica e todos ambicionam poder comprar ou vender uma genuína peça do Rato.

    Abraço

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  11. Parabéns Manuel pela sua compra.
    Só agora vi esta postagem. A tampa é bonita e na parede fica muito bem. Pequenos tesouros podem ser grandes afectos.

    Ao Luís,
    A sua abordagem é sempre enriquecida pelas informações que investiga.
    Boa noite! :)

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    1. Obrigado Ana.
      Esta tampa é na verdade muito interessante e apesar de me encantar tê-la, fico sempre algo desasado quando a peça não está completa. No entanto, se estivesse completa não conseguiria adquirir-la, por isso, do mal o menos
      Manel

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  12. Folhear, caro amigo.
    Desfolhar é arrancar as folhas, ora lembre-se da célebre música da Simone!

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