terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ainda o motivo Roselle na faiança portuguesa

Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo

Já aqui escrevi sobre um padrão muito comum na faiança portuguesa, representando um chalet e que no mercado de velharias costuma ser identificado como fabrico de Vilar de Mouros, vamos lá nós saber porquê razão.

Faiança de Vilar de Mouros. Exposição de cerâmica das fábricas do Distrito: catálogo / Câmara Municipal de Viana do Castelo. - Viana do Castelo : C.M., 1970

A única imagem que eu conheço das produções desta fábrica minhota, foi publicada no catálogo Exposição de cerâmica das fábricas do Distrito: catálogo / Câmara Municipal de Viana do Castelo. - Viana do Castelo : C.M., 1970 e as peças que aí foram reproduzidas, não tem nada a ver com os chalets que se lhe costumam atribuir. A decoração ostenta umas casinhas é certo, mas paisagens com casario são um tema recorrente de toda a porcelana e faiança e não identificam nenhum centro cerâmico em particular, além de que, tenho ideia que a produção de Vilar de Mouros deve ter sido diminuta. 

O Roselle, da  John Meir & Son é a fonte de inspiração das produções portuguesas com o chalet
Na verdade, como já expliquei neste blog, este motivo do chalet que se encontra na faiança portuguesa produzida de Norte a Sul do País, é uma adaptação mais ou menos livre do padrão Roselle, fabricado em Inglaterra por John Meir & Son.

O Roselle fabricado pela John Meir & Son no centro e dos lados as produções portuguesas que nele se inspiraram. Pratos do meu amigo Manel
O Jorge Amaral, no seu blog, velharias, tralhas e traquitanas apresentou uma travessa provavelmente do Fabrico de Porto ou Gaia e fez simultaneamente um bom apanhado de algumas fábricas que de Norte a Sul de Portugal (Massarelos, Alcântara), produziram este motivo, que pelos vistos foi extremamente popular.

Prato produzido pela firma Alfredo Pessoa e Filho de Coimbra. Reproduzido de Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015

Recentemente, António Pacheco, na obra Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015 apresentou mais um destes pratos inspirados no Roselle, mas ao contrário do que é normal, inequivocamente marcado como fabrico coimbrão, com as iniciais JAP, correspondentes a fábrica de Alfredo Pessoa e Filho, activa pelo menos entre os últimos anos 15 anos do séc. XIX.



Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
 
Mas a popularidade deste chalet envolto em arvoredo, inspirado no motivo inglês Roselle não se ficou pelo continente. Igualmente nos Açores temos notícia do seu fabrico. Há pouco tempo, Rui de Sousa Martins, da Universidade dos Açores, muito amavelmente enviou-me um texto seu intitulado Fontes baptismais na faiança da ilha de S. Miguel: Açores, sécs. XIX-XX, publicado na obra Artes Decorativas nos Açores: subsídios para o seu estudo nas ilhas de são Miguel e Terceira / coord. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa. – Porto: Universidade Católica do Porto, 2015, onde assinala duas peças de faiança, com decorações inspirada no Roselle, feitas na ilha de S. Miguel



Este texto debruça-se sobre as fontes baptismais, objectos destinados a escoar a água santificada do baptismo e foram uma produção, marcante da primeira fábrica de cerâmica da Vila da Lagoa, fundada em 1862. São peças, muito bonitas e invulgares, que obedecem a uma iconografia complexa, que tem a ver o baptismo, mas no verso, em alguns exemplares, o ceramista fugiu a esse programa iconográfico rígido e usou uma decoração, inspirada no Roselle de John Meir & Son. É o caso da Fonte Baptismal da Ribeira Chã, produzida cerca de 1912, pela fábrica da Lagoa. Contudo, o motivo deve ter sido considerado tão bonito, que em 1962, foi reproduzido com algumas variantes, pela Cerâmica Leite no verso de outra fonte baptismal para a igreja da Caloura.


Fonte baptismal da Caloura, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
Agora, no final do texto, é suposto fazer uma conclusão qualquer, mas na verdade não há muito a concluir. Talvez volte a insistir que não há razão nenhuma para atribuir estas paisagens com a representação de um chalet romântico a Vilar de Mouros e muito menos a Miragaia, como é hábito fazer a com todas as paisagens com casario azul e franco. A certeza que se pode ter, é que o padrão tem origem em Inglaterra e foi de encontro ao gosto dos portugueses e por essa razão foi reproduzido por fábricas de Norte ao Sul do País, incluindo os Açores. Umas fábricas mantiveram-se fiéis ao padrão inglês, outras adaptaram-no de uma forma mais livre e criativa, como é o caso do verso destas encantadoras fontes baptismais açorianas.
Detalhe da Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
 

11 comentários:

  1. Realmente a primeira pessoa que mencionou a possível manufactura do motivo de casario, que parece inspirar-se no "Roselle", pertencer a Vilar de Mouros foste tu, fruto de uma conversa com um antiquário, creio eu, aquando da compra de uma pequena travessa tua, que aliás já apresentaste aqui no blog.
    Mas, na realidade, tal origem, até ao momento, não se confirmou, nem me parece que tenha "pernas para andar", como afirmas aqui.
    A produção de Vilar de Mouros deve ser diminuta, face às do Porto/Gaia, Viana, Coimbra, Aveiro, Alcobaça ou Lisboa, para não falar em Estremoz, que esta é individualizada e localizada no tempo de forma muito peculiar.
    Tenho visto este casario aparecer em todo o tipo de produção, muitas vezes ligado à cópia (?) dos monumentos das cidades onde se situam as fábricas, ou pelo menos assim me tem parecido.
    Este em particular, com o chalet mais nórdico, talvez tenha origem no Roselle, o que não seria de estranhar dada a ligação estreita entre as cerâmicas inglesa e portuguesa, que andam bastas vezes a par.
    Eu vou tendo várias peças com estes casarios, obedecendo às mais diversas tipologias, e claro que, quando posso, não as deixo escapar, porque me agradam especialmente, venham lá as influências de onde vierem.
    Esta fonte batismal da Ribeira Chã, que aqui apresentas, tem um ar muito rústico, que me encanta.
    Interessante a pomba no topo, julgo que numa clara alusão ao "Espírito Santo".
    A outra também é fantástica. Como são bonitas estas peças!!!!
    Na primeira, aquele trambolho que é a torneira deveria desaparecer, claro, tão feia é.
    A pintura é lindíssima, o que mostra que até nos longínquos Açores este motivo tem aparecido, e pelos vistos, feito sucesso, dada a sua popularidade.
    Manel

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  2. Manel

    Estas fontes baptismais são de facto fabulosas, pouco conhecidas e as fotos do Victor de Melo são muito boas.

    O Rui Américo Moreira Sousa Martins fez um trabalho notável de estudo destas fontes baptismais, que poucos ou nenhuns conheciam. Por vezes os historiadores de arte padecem de um mal, que é andarem todos a estudar as mesmas coisas, como por exemplo os Painéis de São Vicente. Claros, os painéis são fabulosos, mas há dúzias de assuntos praticamente virgens à espera de alguém que faça a sua história e chame a atenção da comunidade para a sua beleza e para a sua importância patrimonial.

    Por outro lado, estas fontes baptismais chamam-nos mais uma vez a atenção para o facto de que a nossa faiança tem que ser estudada em comparação com a inglesa.

    Para além dos casos já bem conhecidos de como padrões ingleses que influenciaram toda a faiança portuguesa, como o Grecian Statue, que deu o célebre cavalinho português, o View to fort Madura da Herculaneum, que inspirou a série País de Miragaia, o Roselle, que originou as decorações com o chalet e ainda o Willow pattern, que foi adaptado no chamado cantão popular, muitos mais casos haverá. Ainda recentemente, mostrei aqui no blog uma decoração da Copeland, de que Sacavém fez uma cópia quase igual.

    Claro, o mais divertido disto tudo, é que muitas vezes as adaptações dos padrões decorativos ingleses foram feitas livremente, até porque poucas fábricas portuguesas disponham da técnica do "transfer way" e portanto pintavam à mão ou usavam técnica da mascarilha e o resultado é uma recriação muito imaginativa de um qualquer motivo decorativo inglês.

    Um abraço

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  3. Luís,
    Como sabe o tema para mim é sublime. Pia Baptismal (ainda escrevo, onde não tenho que ter formalidades, com a antiga forma) está ligada à história da Igreja e à História de Arte e estas duas são inseparáveis. Não conhecia estas pias baptismais.
    Quanto à profundidade do tema fui tomando conhecimento aqui no seu blogue com os seus excelentes registos. Fui aprendo a olhar melhor as peças para além do gosto.
    Gosto de cerâmica mas não conheço com rigor.
    Obrigada, uma vez mais, por esta partilha tão bem documentada.
    Um abraço. :))

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    1. Ana

      Estas fontes baptismais são realmente pouco conhecidas. Nunca vi nenhuma à venda em feiras de velharias ou catálogos de leilões. julgo que só vi uma vez reproduzida uma num catálogo de uma exposição. Talvez no Fons Vitae, mas não me recordo.

      Fico muito contente com as suas palavras. Procuro escrever de uma forma clara, de modo a que toda a gente perceba, mesmo aqueles que não são entendidos em cerâmica. O objectivo é sempre mostrar qualquer coisa que seja visualmente atraente, com um pequeno texto a acompanhar, que as pessoas possam ler num intervalo do emprego, ou à noite em casa, depois de um dia de trabalho, para relaxar um pouco. Talvez por ser bibliotecário, tenho a noção que na internet as pessoas não tem paciência para ler grandes textos. A maioria das pessoas continua a preferir um livro em suporte papel quando quer ler um texto mais profundo, mais completo e exaustivo.

      Abraço e não se preocupe com as gralhas. Eu também sou um gralhento da pior espécie, pois hesito muito a escrever, começo no singular, acabo no plural, uso o passado, passo para o futuro e no final tenho que rever tudo e mesmo assim, escapa sempre qualquer coisa.

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  5. Luis,

    Fortuna como sempre;

    Penso que nunca se cansará de dizer que é a Inglaterra (depois da China?) a grande inspiradora de toda louça do mundo ou pelo menos das que se tornaram célebres ou pops...

    Interessante este motivo "profano" ou meramente romântico a ornar uma peça sacra.

    Já disse que perdi, há alguns dias, uma grande travessa oitavada com cercadura em ramagens e no centro esta casinha ladeada por dois maciços vegetais. Não deu para pegar apesar de estar de olhog pela postagem do Jorge Amaral ou da Maria Isabel se não me engano.
    E há bem mais tempo perdi uma grande jarra de vinho (penso) com este mesmo motivo.

    Como Vc disse, foi produzido de Norte a Sul. Sendo assim, as atribuições regionais ficam quase impossíveis.

    Obrigado pelas informações, breves mas marcantes e convincentes também. Aliás já havia desconfiado de tal popularidade deste motivo mas faltavam indicações como estas;

    Um abraço

    ab

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    1. Amarildo

      Obrigado pelo seu comentário e desculpe só agora lhe responder, mas estou de férias e os meus filhos ocupam o computador o dia inteiro.

      A China é sempre o arquétipo de toda a louça europeia. Claro, a faiança inglesa inspirou-se na chinesa e ao longo do XIX, todos os fabricantes europeus copiaram os métodos e as decorações inglesas. Claro, isto é uma visão um bocadinho redundante, pois há motivos decorativos especificamente europeus.

      Um abraço

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  6. Caro Luis,

    Como sempre, uma postagem interessantíssima e extremamente importante!

    Há que desmitificar que a faiança com decoração inspirada no motivo "Roselle", em especial na tonalidade verde seco "ervilha" ou rosa pálido seja fabrico de Vilar de Mouros!

    Tal situação tem vindo a ser analisada por nos e com recentes deslocações a Vilar de Mouros, Caminha, Braga, Viana do Castelo, ....., pesquisando, falando com antiquários, alfarrabistas, visitando bibliotecas municipais, osculando gente idoso local, leva-nos a concluir que a realidade foi diferente da que se presume agora, em relação à faiança de Vilar de Mouros.

    Na verdade, muito (a maioria?) da faiança que se diz ser de Vilar de Mouros e que se pretende vender como tal (basta ter semelhanças com o motivo Roselle) não é fabrico de Vilar de Mouros,

    Conseguimos obter imagens e fotos de peças genuínas de Vilar de Mouros, que na nossa opinião darão para ajudar a desmitificar tal situação.

    Oportunamente faremos uma postagem nesse sentido.

    Parabéns pela postagem!
    Um abraço,

    Jorge Gomes

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    1. Jorge Gomes

      Muito obrigado pelas suas palavras.

      O Jorge e eu já tínhamos trocado uns quantos e-mails sobre esta pretensa louça de Vilar de Mouros e de facto concluímos, que pouco ou nada se sabe das produções desta fábrica e que é uma generalização grosseira afirmar que todas estas peças com a decoração do chalet sejam Vilar de Mouros. Não há prova nenhuma que Vilar de Mouros tenha fabricado esta decoração.

      Um abraço

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  7. Luís,
    Gostei muito deste seu regresso ao padrão Roselle, através das influências que teve na nossa faiança! Realmente, essa atribuição generalizada a Vilar de Mouros da decoração com chalet do tipo alpino, não tem consistência e também aqui por Coimbra e Leiria se usou esse motivo, que aliás tenho numa terrina azul e branca.
    Mas o que me encantou mesmo neste poste foram as fontes batismais açorianas, que eu não conhecia. Em boa hora o seu seguidor lhe enviou esse artigo e nos deixou a todos mais conhecedores da faiança açoriana. São lindas as peças! De uma ingenuidade tocante!
    Obrigada a ambos pela partilha.
    Beijos

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  8. Maria Andrade

    As fontes baptismais são peças fantásticas e como o Amarildo bem notou é muito curioso os seus fabricantes terem ido buscar um motivo profano, o chalet, para decorarem o verso de peças de arte sacra com um programa iconográfico complexo, que o autor, Rui Américo Moreira Sousa Martins, descreve muito bem no seu texto.

    Mais uma vez, as peças aqui mostradas, evidenciam que a decoração do chalet foi fabricada em todo o Portugal continental e ainda em S. Miguel nos Açores.

    Beijos

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