terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Santa Sofia e as suas três filhas: fé, esperança e caridade



Sofia é uma santa lendária, que nem consta do Martirológio Romano. Terá vivido em Roma, no tempo do Imperador Adriano e elas e as suas filhas, Fé, Caridade e Esperança foram martirizadas no ano de 137. A sua história é semelhante a de muitas outras mártires cristãos que viveram em Roma no tempo das perseguições. As quatro andavam pelas ruas de Roma tentando atrair pessoas para a nova fé cristã e foram presas. Sofia, que em grego quer dizer sabedoria, assistiu ao martírio das filhas e incentivou-as sempre a resistirem e a não abjurarem da sua verdadeira fé. Depois de suplícios terríveis, acabaram as três por ser mortas à vista da sua mãe, que morreu de desgosto. Há uma metáfora evidente nesta história. É a sabedoria divina que engendra no coração dos cristãos a três virtudes teologais, que são a fé, a esperança e a caridade.
O Imperador Justiniano dedicou-lhe a mais bela e grandiosa igreja de Constantinopla, a Hagia Sophia. Foto de https://www.khanacademy.org/

O culto de Sofia de Roma cresceu rapidamente no Oriente, nos territórios do Antigo Império Bizantino, como a personificação da sabedoria divina. O Imperador Justiniano dedicou-lhe a mais bela e grandiosa igreja de Constantinopla, a Hagia Sophia e mais tarde em todas as nações que abraçaram o cristianismo ortodoxo, levantaram-se templos monumentais a Santa Sofia e ainda hoje, apesar de cerca de 80 anos de comunismo, Sofia (sabedoria), Vera (fé), Nadejda (esperança) e Lioubov (caridade) continuam a ser nomes próprios extremamente populares na Rússia.
Quem rezasse um Padre Nosso e uma Avé Maria à imagem de Santa Sofia, que estaria no altar de uma igreja que nós hoje desconhecemos, além da protecção contra o paludismo obteria 40 dias de indulgência

Se bem que o culto a Santa Sofia e às suas 3 filhas nunca tenham alcançado a dimensão, que teve no cristianismo ortodoxo, também foi praticado no catolicismo romano e esta estampa popular, provavelmente dos finais do século XVIII, é bem prova disso. Muito mais prosaicamente, aqui em Portugal,  S. Sofia tornou-se advogada das sezões, uma designação popular que se dá ao paludismo. Talvez esta relação com o paludismo tenha a ver com os suplícios infligidos às filhas, que foram martirizadas com matérias ardentes, estendidas em grelhas, passadas sobre carvão em brasa e regadas com cera e resinas quentes, tendo sobrevivido sempre. Só conseguiram acabar com a vida delas decapitando-as. Portanto, se as santas sobreviveram aos ardores do carvão ou da resina a escaldar, então elas protegeriam o crente dos calores da febre do paludismo, se fossem efectuadas as correctas orações.
 
 
Alguma bibliografia:


La légende dorée / Jacques de Voragine. - Paris : Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, 1910.

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955.

https://fr.wikipedia.org/wiki/Sophie_de_Rome 

16 comentários:

  1. Gostei de ler sobre esta Santa, que para além da igreja de Constantinopla, não associava a muito mais, por desconhecimento e ignorância minha. Tenho aqui um livro sobre os Santos, mas não a inclui.

    Aproveito para lhe desejar Boas Festas, caro LuisY.

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    1. Luisa

      Com efeito Santa Sofia de Roma é no presente uma devoção esquecida de todos. No entanto há cerca duzentos e cinquenta anos o seu culto estava vivo, de outro modo não se teriam impresso estas estampas populares. Aliás, no catálogo de gravuras on-line da Sociedade Martins Sarmento encontrei outra estampa igual.

      Um abraço e boas festas também para si

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  2. Pois, tenho a estampa mas não sabia nada dela. Sou ignorante, e tenho o cuidado de falar por mim, no que à iconografia religiosa se refere.
    Tenho um conhecimento rudimentar sobre hagiografia.
    Mas acabo por gostar das estampas, isto é, comecei a ser sensível a este tipo de arte quer devido à sua beleza iconográfica quer à religiosidade ingénua que ela acarreta.
    Eu cá vou fazendo as minhas compras, ainda que meio ao acaso. Umas são mais eruditas que outras, mas todas têm um apelo ingénuo que não me passa ao lado efetivamente.
    Quem diria há alguns anos atrás que iria adquirir este tipo de representação, mas aqui foste tu o culpado ... hehehehe
    Manel

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    1. Manuel

      Eu também desconhecia até há uns três dias tudo sobre a existência e o culto desta santa. O colecionismo de velharias desperta-nos a curiosidade para saber um pouco mais.

      Como tu referes a ingenuidade destas gravuras é muito apelativa. Nesta imagem em particular, há um lado alegórico muito forte, em que a sabedoria induz no coração dos homens a fé, a esperança e a caridade. Por outro lado, a associação desta santa e suas filhas à cura do paludismo é também muito interessante e um exemplo de como na realidade se criaram estas devoções aos santos mais variados e da sobrevivência de uma certa forma de religiosidade primitiva, que parece saída de uma obra de Claude Lévi-Strauss.

      Um abraço

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  3. Luís,
    Deu-me muito prazer ler mais uma história antiga a propósito desta sua gravura de Santa Sofia e suas três filhas. Não sabia nada sobre esta santa e muito menos que a Fé, Esperança e Caridade eram suas filhas, nem o tipo de martírios a que foram sujeitas.
    Continuo a achar que o Luís tem aqui reunido matéria, textos e imagens, que lhe permite um dia publicar um interessante livro sobre estas gravuras e vidas associadas.
    E a coleção, só por si, já forma um conjunto fantástico!!!
    Beijos

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    1. Maria Andrade está coberta de razão no que refere sobre o livro que o Luís poderia compilar e propor a uma editora.
      Os textos já existem (necessitam de revisão), as imagens também e o assunto é algo de muito pouco explorado em Portugal, pois a literatura sobre a especialidade está quase toda em língua estrangeira, e o Réau completamente esgotado há séculos. Bem o tentei encontrar em tempos ... debalde.
      Creio que está coberta de razão, assim o Luís a "ouça"
      Manel

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    2. Maria Andrade

      Bem, esta estampa em particular pertence ao Manel, a quem eu contagiei o gosto pelos santinhos.

      Com efeito não há muita coisa sobre registos de santos. Julgo que o último a escrever sobre o assunto foi o Ernesto Soares no século do troca-o-passo. O assunto dos registos de santos encanta-me e interessa-me, mas falta-me um enquadramento académico e também um objectivo. No fundo, limito a ir discorrendo sobre o que vou comprando, ou que o Manuel compra sem grande método.

      Bjos e obrigado

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    3. Manel

      Apesar de corrigir uma dúzia de vezes o mesmo texto, dou muitas gralhas. Tem a ver com a minha maneira muito hesitante de escrever. Começo a frase no singular, depois acho que ficará melhor no plural, a meio descubro que o passado é mais adequado que o imperfeito e no final, revejo tudo tentando arranjar sinónimos, para não repetir muitas vezes a mesma palavra, alterando femininos para masculinos. Resultado, numa frase ou num paragrafo ficam muitas vezes pequenos vestígios de uma construção inicial que foi abandonada.

      Não consigo escrever de rajada como tu

      Um abraço

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  4. Boa noite Luís, tenho andado menos por aqui devido a problemas de visão, no entanto quandoo faço não me canso de ficar extasiada com as coisas interessantes que aqui tenho aprendido ao londo dos anos. E nesta matéria, sinto-me verdadeiramente uma inculta. Não posso deixar de concordar com a opinião da Maria Andrade e do Manel; pense seriamente em juntar todos estes textos e gravuras e arranje um editor que os publique. Eu posso não perceber nada do assunto mas visito online e pessoalmente alfarrabistas e livrarias e nas feiras de velharias não deixo de deitar sempre o olho a livros que me possam interessar ou ao meu marido, pois ambos lemos normalmente sobre temas muito específicos ( eu com a história da arte,a cerâmica e as faianças e ele com as batalhas navais ou não, com as fortalezas e a história em geral) pelo que sei que este é um dos muitos temas sobre os quais não existe bibliografia em português. O Luís tem uma escrita fluída e fácil, exprime-se e explica-se com facilidade, por não colocar os seus dotes ao serviço de todos quantos se interessem por estas coisas?
    Pense nisso.
    Festas Felizes e um 2017 carregado de novos projectos e realizações pessoais,
    Um abraço desta sua ávida leitora,
    Ana Silva

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    1. Ana Silva

      Muito obrigado pelas palavras de encorajamento.

      Os textos que vou publicando aqui no blog, são curtos, simples, associados sempre a imagens e no fundo é um formato destinado à internet, onde as pessoas não tem paciência para grandes relambórios. Não sei se este formato em livro resultará, mas se eventualmente receber algum convite também não recusarei. Também é verdade que 3 ou 4 textos deste blog já foram publicados em obras colectivas.

      Um abraço, as melhoras dos seus problemas de visão e boas festas

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  5. Não conhecia a história de Santa Sofia. Os martírios sempre terríveis, só muda o nome do santo e os exemplos que eles dão e representam.
    De Santa Sofia, só sabia que dava nome a magnífica catedral.
    Abraços, Luís e, Boas Festas!

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    1. Caro Jorge

      Tem toda a razão. As histórias destes santos repetem-se um bocado de umas para as outras e os martírios são sempre macabros e contados com todos os detalhes. Aliás, esse gosto pelo sangue, pelo mais horrível sofrimento é um aspecto negativo do cristianismo.

      No Islão, sobretudo no Norte de África, também existem santos, objectos de uma intensa devoção, embora sem um reconhecimento oficial dos imans. No Cristianismo, por causa da tradição do Direito Romano, criaram-se regras e normas para tudo e no Vaticano constituíram-se verdadeiros processos para jurídicos definir quem merecia ser santo ou não. No Islão as histórias dos santos não tem esta carga toda de violência e martírio e são muito bonitas, assemelhando-se aos contos das Mil e uma noites. Um dia contarei uma dessas histórias aqui.

      Um abraço e boas festas

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  6. Não conhecia a história de Santa Sofia. Sabia apenas das três filhas. Uma pena tudo tão associado a violência.

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    1. Gloria

      O Cristianismo parece comprazer-se com histórias de violência. Também é verdade que essa característica tem a ver com a sua história inicial, toda ela feita de martírios e perseguições.

      Mas para outras religiões e culturas essa violência presente no cristianismo é quase repugnante. Há uns vinte anos trabalhei na organização de uma exposição de arte portuguesa no Japão e os japoneses eram impecáveis e pagavam praticamente todas as despesas, o transporte, o seguro, as viagens dos couriers, mas puseram logo como condição que não queriam crucificados. A imagem do Cristo crucificado para os japoneses é absolutamente macabra.

      Um abraço

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    2. E como não concordar com os japoneses? Já vi crianças com medo de entrar em igrejas, escuras, com imagens assustadores ou sofridas. Até na parte externa das igrejas, há rostos com olhar torturante.
      Mas eu penso que toda essa martirização e violência, está muito bem disfarçada em um objetivo principal, que é a manipulação pela emoção. Tu sabes bem o que quero dizer, não?

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    3. Gloria

      Parece que quase todo no Cristianismo passa pelo martírio e o sofrimento. O próprio fundador da religião, se é que o podemos designar dessa forma, foi supliciado. Parece que só através da mortificação do corpo se consegue alcançar a salvação ou um nível de transcendência. Enfim, todos nós no mundo ocidental, à excepção dos judeus, temos que viver com essa herança, dos martírios, da autoflagelação e do sofrimento.

      Talvez se possa fazer o bem ao próximo sendo-se feliz, sem passar pela mortificação do corpo.

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