terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Castanheiros de Vinhais: um paraíso intocado


Há uns anos prometi a mim mesmo fazer um álbum com fotografias dos castanheiros de Vinhais, terra da minha família materna e de facto todos os anos, nas férias, tento capturar com a minha câmara a beleza de algumas árvores centenárias, que vejo ao passar na estrada. Claro, não é nada de sistemático. Não faço nenhum levantamento, nem consulto nenhum estudo e nem sei se já alguém se deu ao trabalho de fazer um inventário dos castanheiros com duzentos, trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos desta terra fria de Vinhais. Recentemente li num jornal que há uma bióloga, Raquel Lopes, que se propõe fazer um inventário das árvores centenárias em Portugal. Pois bem, a senhora que visite Vinhais e percorra as estradas do Concelho e a única dificuldade que encontrará é escolher o que fotografar.



O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas tem um inventário nacional do Arvoredo de Interesse Público, mas para o Concelho de Vinhais só encontrei 4 ocorrências, uma nogueira, em Quintela, que já aqui mostrei imagem e três castanheiros, em Paçô, Lagarelhos (também já aqui mostrado) e Vilarinho de Lomba. Mas, existem muito mais árvores centenárias que estas aqui classificadas. Eu que não vivo em Vinhais e só lá vou no Verão já vi mais que uma centena de castanheiros seculares. Aliás o interesse desta região é que não encontramos aqui ou acolá um ou outro castanheiro centenário, que sobreviveu por mero acaso à fúria do desenvolvimento selvagem, como em outras regiões do país. Aqui, no concelho de Vinhais deparamos com manchas de castanheiros à medida que nos aproximamos de cada povoação e muitos desses soutos são centenários e bem que mereciam uma classificação global.



Esses maciços de castanheiros tornam-se ainda mais interessantes para nós, os portugueses, se pensarmos que vivemos num país cuja paisagem está quase inteiramente desfigurada pelo Eucalipto e pelo Pinheiro bravo. Viajando pela auto-estrada de Lisboa ao Porto, ou de Lisboa a Viseu, ao longo de quilómetros e quilómetros, somos capazes de ver de um e o outro lado da estrada eucaliptos e pinheiros ininterruptamente, florestas essas que nos Verões muito quentes ardem invariavelmente, para grande excitação dos media, que fazem imensos debates, reportagens e mesas redondas e depois no final da estação, toda a gente se volta a esquecer dos incêndios e volta tudo ao mesmo e plantam-se mais e mais eucaliptos e pinheiros bravos. Pois aqui em Vinhais, vive-se ainda no paraíso perdido sem o pecado original do eucalipto, com a floresta tradicional de carvalhos e as grandes manchas de soutos em volta das povoações. Só para admirar árvores vale a pena visitar Vinhais.
 
 

17 comentários:

  1. A beleza dos castanheiros, a bela postagem, mais uma do Luís Montalvão, Parabéns.

    Jorge Amaral

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    1. Caro Jorge Amaral

      Muito obrigado pelo seu comentário tão simpático.

      Um grande abraço

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  2. Concordo plenamente consigo,Luís ,acerca de tudo que nos expôs no seu blogue.Da mesma maneira acontece com as oliveiras centenárias que o Júlio da Catita,fotografa noAlgarve.É uma pena que nínguem com poder de decisão faça algo a favor destas belezas.Os meus parabéns,pelo assunto e também pela bela modelo em que se tornou a sua filha,está muito gira.Cumprimentos,Graciete

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    1. Graciete

      Muito obrigado pelo seu comentário. Na última fotografia a minha filha serviu para dar a escala a estes grandes conjuntos de castanheiros da chamada terra fria transmontana.

      Descobri no site do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas que é possível ao cidadão propor a classificação de uma árvore, através de um formulário on-line, o que é uma prática louvável.

      Em todo o caso, nesta região o que é mais interessante são os grandes conjuntos de castanheiros centenários que importa preservar, mas também dar a conhecer.

      Um abraço

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  3. Caro Luís
    Gostei de o ler. Comungo da mesma opinião sobre a invasão eucaliptal. Um desconsolo olhar para as nossas matas e serras, onde a vegetação autóctone vai desaparecendo. Os castanheiros são árvores belíssimas. Não conheço os de Vinhais, mas há uns dois anos fiz uma caminhada pelos soutos de Sernancelhe e tive oportunidade de ver exemplares fantásticos.Olhar estas obras de arte da natureza é olhar o tal paraíso perdido de que o Luís fala.Bjs e bom feriado

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    1. Maria Paula

      A faixa litoral de Portugal de Lisboa a Braga, bem como as beiras estão pejadas de eucaliptal e pinheiro bravo. É um desconsolo viajar pelo País, pois a paisagem é sempre a mesma e depois estas árvores são verdadeiras caixas de fósforos, prontas a arder sempre que um Verão é muito quente ou prolongado. Mas ninguém faz nada para contrariar essa tendência. Há uns anos houve um ministro da agricultura que disse publicamente que o eucalipto é o nosso petróleo verde. Enfim...

      Bjos e bom feriado

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  4. As árvores, por si, são seres extraordinários, quer pela sua longevidade quer pela sua vida obscura e misteriosa, de que poucos de nós está ciente, ou sequer nos preocupamos.
    Só nos preocupamos em abatê-las, quando atingem a idade adulta, como acontece nas ruas lisboetas. Plantam-nas e, mal atingem um porte satisfatório, vem um técnico, acompanhado de uma equipa camarária e ... fica um buraco onde existia uma vida.
    As lindas estradas secundárias que corriam por esse país fora, e que se encontravam ladeadas por renques de frescas sombras dadas por plátanos, cedros, oliveiras, ciprestes ou até mesmo frondosos eucaliptos isolados, estão agora vazias, quentes e estéreis no verão e desoladas de inverno.
    Aliás, pelo país, e ao longo da história, foram substituindo toda a flora original, perfeitamente adaptada à península, por espécies alienígenas, que só empobrecem os solos e retiram-lhe a humidade.
    Debaixo de eucaliptos praticamente nada cresce. Os solos desertificam-se e são pasto de chamas nos famígerados períodos de canícula, quantas vezes ateadas por mãos criminosas.
    Claro que se em vez de eucaliptos estivessem oliveiras ou sobreiros, os fogos não se conseguiriam atear com a mesma facilidade.

    Os castanheiros são frondosos e fazem copas extraordinárias e troncos belíssimos, como o de Lagarelhos, onde nos podemos meter dentro, tal como nas velhas alfarrobeiras no Algarve.
    Lastimo que não tenhamos uma política agrícola que, no que toca à floresta, não respeite as espécies autóctones e não invista numa reflorestação do território que não esteja condenada a servir de pasto às chamas de verão.
    Mas, até agora, não vi nenhuma política que vá neste sentido.
    Lamentamos muito, chamamos à pedra o responsável do Serviço Nacional de bombeiros, ou outro qualquer que esteja mais a jeito ou com costas menos apoiadas por eminências pardas, gastamos rios de dinheiro a alugar aviões e helicópteros a particulares, para combate às chamas, o que os torna riquíssimos, juntamos políticos muito palavrosos e sempre prontos a deitar culpas no vizinho, mas completamente ignorantes, e com estes "pavões de pacotilha", que adoram ouvir-se, fazem-se mesas redondas, quadradas, ovais ou outras, em que somos peritos, mas que são completamente inúteis, e de onde nada sai de sensato ou verdadeiramente consequente.
    Fica tudo igual até à próxima época seca, em que este deprimente e triste espetáculo volta a tomar lugar.
    E assim vai a vida triste das nossas árvores.
    Oxalá tal destino não chegue a estes fantásticos soutos.
    Manel

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    1. Manel

      Parece que em Portugal não temos aquele respeito pela árvore e pela natureza em geral, da mesma forma que nos estamos nas tintas para o património arquitectónico.

      No caso de Vinhais, o concelho teve a sorte ou o azar de ficar na periferia à margem do desenvolvimento e o seu património natural poi poupado. Por outro lado toda a parte Norte do Concelho faz parte do Parque Natural de Montesinho que tem preservado esta espécie de paraíso perdido. No entanto a metade Sul do Concelho é também riquíssima em termos naturais e recomendo a todos que façam a estrada de Vinhais a Macedo de Cavaleiros, através de Nunes, onde se experimenta a sensação sensação de ter redescoberto Shangri-lai.

      Cansam-me os debates e as reportagens da televisão e dos jornais sobre os incêndios, onde se procura apenas aumentar audiências e muito poucos parecem tratar o assunto seriamente.

      Todo este problema se relaciona também com a desertificação do interior, onde cada vez mais só restam velhos.

      Um abraço

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    1. Jorge.

      Obrigado e um abraço também para si

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  6. Como muitas vezes acontece, as decisoes tomadas em materia de ordenamento do territorio, sao nefastas para a floresta autóctone e para a paisagem.

    Um abraco,

    Miguel

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    1. Caro Miguel de Sepúlveda Velloso

      Sem dúvida que a falta de um conveniente ordenamento do território é responsável pelos incêndios que nos verões mais quentes assolam uma grande parte do País.

      Na terra fria do distrito de Bragança, o desordenamento do território acabou por funcionar a favor da preservação do património natural. A região foi esquecida por todos, os serviços públicos fecharam, não há indústria, emprego e a população está envelhecida, mas os vastos soutos foram conservados. Por outro lado, a castanha continua a ser um bom negócio na zona e os soutos são mantidos, o que torna a paisagem da região absolutamente única.

      Um abraço

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  7. Caro Luís,

    Obrigado pela sua resposta ao meu comentário.

    Vou passar a seguir o seu blogue com todo o interesse.

    Um abraço e Boas Festas,

    Miguel de Sepúlveda Velloso

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    1. Caro Miguel de Sepúlveda Velloso

      Muito obrigado e umas festas também para si

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  8. Não se pode perder uma visão destas, Luis! Fizestes bem em registrar e compartilhar. São magníficos os castanheiros. Fico imaginando, ao longo do tempo, quanta memória está guardada nos sulcos dos troncos...

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    1. Gloria

      Um dos castanheiros desta região de Portugal é mais velho, que o próprio país. Terá cerca de 900 a mil anos. Quem plantava uma árvore desta pensava no alimento dos seus vindouros.

      Estas árvores de tão antigas que são tornaram-se símbolos da longevidade e da eterna regeneração.

      Um abraço

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    2. Anciãs de respeito! Eu até me emociono, de verdade, pela foto, imagine se ao vivo! Nutro um amor tão forte por árvores, são seres que temos muito a agradecer. E penso que não vemos o que há delas, digo as árvores, abaixo da terra, com suas raízes. Não seria uma copa invertida? Então, pense nestes castanheiros, como seriam as raízes? 900 a mil anos?

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