sexta-feira, 13 de abril de 2018

Sopeira em faiança dos finais do século XVIII atribuível a Miragaia

 
O Manel comprou há pouco tempo na feira de Estremoz uma terrina em faiança em muito mau estado de conservação, mas por essa razão, com um preço irrecusável. Com efeito, em tempos partiu-se em mil pedaços, foi posteriormente colada e acrescentaram-lhe uma massa a substituir as inúmeras falhas, mas perdeu irremediavelmente as pegas. Enfim, tal como a letra do fado, o tempo cravou-lhe as garras e hoje esta terrina é apenas uma sombra do que foi no passado.

Apresenta uma decoração ruanesca típica de toda a faiança portuguesa dos finais do século XVIII e como para variar não está marcada o Manel e eu não tínhamos qualquer esperança em identificar o fabricante. Achávamos que seria qualquer coisa fabricada algures no Porto ou em Gaia no fim do século XVIII e a mais não nos arriscávamos.
 
A terrina não apresenta qualquer marca
Contudo, como tenho este hábito de estar sempre à procura de novas peças e novos temas para mostrar no blog, resolvi lançar-me sobre esta terrina cheia de mazelas, mas ainda assim como muito encanto e comecei a vasculhar tudo o que era livro de de faiança. Consultei os catálogos das colecções Pereira Sampaio, do António Capucho, da exposição de Massarelos, o livro do Sven Stapf, a tese da Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre Santo António de Vale da Piedade, até que cheguei ao catálogo da exposição Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional do Azulejo, 2008 e encontrei uma série de peças daquela marca exctamente com a mesma bordadura da terrina do Manel e lembrei-me, que tinha lido algures, que a faixa de Rouen de Miragaia era diferente de todas as outras fábricas e de facto confirmei essa informação na página 105 do referido catálogo.
 
Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional do Azulejo, 2008. Pág. 105
 
Contudo, havia uma coisa que não batia certo, todas as terrinas constantes no catálogo, que apresentavam esta interpretação tão própria de Miragaia da faixa de Rouen eram oblongas e a do Manel é redonda, aquilo a que se chama uma sopeira. Lembrei-me então que o catálogo Miragaia podia não mostrar tudo aquilo, que a fábrica produziu, até porque quando se faz uma exposição não se pode pôr tudo e mais alguma coisa nas salas. Há que fazer uma selecção, para não que o visitante não se enfastie, escolher as peças em melhor estado de conservação e também as mais apelativas. Resolvi então consultar o roteiro de faiança do Museu Nacional de Arte Antiga, do Rafael Calado e bingo! Na página 162 estava reproduzida uma terrina Miragaia com formato circular, decorada com a típica interpretação da faixa de Rouen feita por aquela fábrica nortenha.
 
Faiança portuguesa : roteiro : Museu Nacional de Arte Antiga / Rafael Salinas Calado. - Lisboa : Instituto Português de Museus, 2005. P. 162
 
De seguida, desloquei-me ao piso intermédio do Museu Nacional de Arte Antiga e fotografei a dita sopeira, que é de tamanho inferior à do Manel e tem uma ou outra diferença na base.
 
Terrina do Museu Nacional de Arte Antiga
 
Terrina do Museu Nacional de Arte Antiga
 
Em suma, é muito possível que esta terrina do Manel tenha sido fabricada em Miragaia nos finais do século XVIII, no entanto como não está marcada nunca podemos nunca ter a certeza.

Alguma bibliografia:

CALADO, Rafael Salinas
Faiança portuguesa : roteiro : Museu Nacional de Arte Antiga / Rafael Salinas Calado. - Lisboa : Instituto Português de Museus, 2005.

Fábrica de Louça de Miragaia
Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional do Azulejo, 2008.
 
 

8 comentários:

  1. Que interessante! E que bela terrina. Bom fim-de-semana!

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    1. Margarida

      Muito obrigado pelo seu comentário. Um bom fim-de-semana também para si. Bjos

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  2. Utilizaste o termo "oval" para o formato da terrina, e talvez não seja o melhor. Talvez fosse melhor utilizar o termo redonda" ou "circular", pois "oval" e "oblonga" são palavras com significados quase semelhantes.
    Mas foste tu que descobriste a chave, pois não me lembrei deste pormenor da faixa de Miragaia ser diferente da das outras fábricas.
    E, realmente, a do MNAA apresenta bastantes semelhanças.
    Ainda bem que vais tendo uma memória muito boa. Eu já não me lembrava.
    Sabia que a peça seria do Norte, mas daí até chegar a Miragaia ... era algo a que não me atrevia. No entanto, agora, graças à tua investigação, há essa possibilidade.
    Agradeço-te esta possível atribuição, pois não é todos os dias que se encontra uma peça que possa eventualmente ser relacionada com aquela mítica fábrica.
    Manel

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    1. Manel

      Agradeço as correcções, pois eu e a geometria (tosse seca).

      Com efeito, esta interpretação de Rouen na bordadura é muitíssimo característica de Miragaia, no entanto fica sempre uma dúvida, até porque há umas quantas fábricas no Norte, das quais conhecemos mal a produção.

      Um abraço

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    1. Jorge

      Muito obrigado pelo seu comentário. A faiança portuguesa é sempre muito bonita e tem um público de colecionadores muito entusiasta.

      Um grande abraço

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  4. Uma bela peça acompanhada de texto e imagens a condizer!
    Muito esclarecedor o post quanto às diferenças entre a faixa de Massarelos e a de Miragaia, e acabei por confirmar com duas peças que tenho atribuídas a um e a outro fabrico.
    Muito bom(a)!!! :)
    Abraços

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    1. Maria Andrade

      Fico sempre contente por saber que o que escrevo é útil. A vantagem de me obrigar a actualizar periodicamente o blog é a de sistematizar o que vou lendo aqui e acolá, e desta vez consegui um resultado mais ou menos conclusivo. Mas, muitas vezes, há peças de faiança portuguesas sobre as quais não conseguimos dizer quase nada, para além de que são bonitas, tal é a falta de elementos, de que dispomos para tentar fazer atribuições. Em todo o caso, a faiança portuguesa é sempre um assunto fascinante.

      Bjos

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