quarta-feira, 16 de maio de 2018

Uma figurinha em biscuit da Volkstedt ou a irresistível atracção pelo Kitsch

Volkstedt bisque figurine
Bem sei que não devia ter comprado esta figurinha em biscuit, representando um menino vestido à moda do século XVIII, brincando com um caniche, pois é terrivelmente kitsch. Mas, o preço era convidativo, a pintura e a modelação da peça eram de excelente qualidade e estava marcado, o que é raro em peças em biscuit. Enfim, suspeitei que era uma peça proveniente de uma qualquer fábrica alemã, produzida ao gosto de Meissen, entre os finais do séc. XIX e o início do XX e deste modo, quando dei por mim tinha a peça dentro de casa.
 
Volkstedt mark
A marca consiste consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Apresenta ainda um número de série, o 16
Apesar de esta figurinha estar marcada e de ser uma coisa tipicamente alemã, tive a maior das dificuldades em identificar a marca, pois enquanto nós em Portugal, tivemos ao longo da história praticamente uma única fábrica de porcelana a laborar continuadamente, a Vista Alegre, muitas regiões alemãs contaram com 10 ou 15 fábricas de porcelana activas ao longo de duzentos anos. Vasculhei todos os dicionários de marcas de cerâmica on-line e não aparecia nada igual a esta marca, que consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Depois de ver milhares de figurinhas em biscuit alemãs, encontrei finalmente no portal americano de antiquários o Rubylane, uma placa em biscuit, estilo arte nova, com marca muito parecida com esta e atribuída à Volkstedt.
 
 
Porém como a marca não era exactamente igual continuei a minha busca e descobri na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga um livro alemão, Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963] dedicado só ao assunto das marcas germânicas e na página 229 lá estava uma marca igual à minha, da Volkstedt. Enfim, consegui concluir que este biscuit com um menino brincando com um cachorro foi fabricado pela Volkstedt, na Alemanha nos finais do XIX ou nos primeiros anos do XX.
 
Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]. Na pág. 229 consta uma marca Volkstedt  igual à do meu boneco.
Claro, apesar de ser uma peça Volkstedt, esta figurinha não deixa de ser kitsch, esse termo de origem incerta surgido na segunda metade do século XIX, em plena época da industrialização na Europa, para designar objectos produzidos em larga escala, que imitavam obras de arte, destinados a uma burguesia sem grande gosto, mas com algum bem-estar económico e que ambicionava decorar as suas casas com objectos parecidos aos que encontravam nas residências aristocráticas, ainda que só vagamente. É exactamente o caso, deste meu biscuit, inspirado nas figuras de Meissen e vendido aos burgueses com pretensões a ter seus lares uma salinha do Saxe.
 
Volkstedt bisque figurine

Com o tempo, o kitsch passou não só a designar a imitação barata da obra de arte, mas também tudo aquilo que é demasiado dourado, demasiado cor-de-rosa, demasiado pequeno, demasiado ornamentado e que é supérfluo e que passou irremediavelmente de moda. É também o caso, deste bonequinho em biscuit, pequenino, com decoração sobrecarregada, inútil e absolutamente inaceitável para um decorador de interiores contemporâneo.
Volkstedt bisque figurine

Contudo, acredito que pelo menos uma vez na vida, todos nós temos vontade de sair dos limites do gosto convencional do nosso tempo e usar uma cor berrante, um fato de banho politicamente incorrecto, um boné disparatado ou ainda expor na sala um bibelot ao estilo de Meissen.
Volkstedt bisque figurine
Algumas obras e links consultados:
 
Führer für sammler von porzellan und fayence, steinzeug, steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]
 
https://www.rubylane.com/item/150922-twt3206/13-1-2x22-Antique-Volkstedt-Germany

https://fr.wikipedia.org/wiki/Kitsch

10 comentários:

  1. Boa noite Luís.
    Estou completamente de acordo e mais, porque é que nós, cada um de nós, tem de pautar o seu gosto pessoal, pelo que está "in" ou está "out", segundo o parecer de quem dita as regras dos modismos, seja em que área for?
    Na verdade, sempre me irritou, que alguém me diga que um homem não pode usar meias com raquetes por "é foleiro"... E então?
    É como escreve e bem, todos temos direito aos nossos gostos, ainda que contrários às doutas opiniões de outréns !
    Eu gosto bastante da peça, acho mimosa, ternurenta... e sinceramente acho que fez muito bem em a adquirir, sendo kitsch ou não! Um abraço! Parabéns pelo achado!
    Maria

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    1. Cara Maria

      Muito obrigado pelo seu comentário, que achei muita graça.

      Confesso que sempre o fora-de-moda sempre me atraiu. Aliás, este é um blog fora-de-moda, que que trata basicamente de assuntos, que hoje não interessam a maioria das pessoas.

      As figurinhas em biscuit são aquelas peças muito burguesas, que encantavam as pessoas nos finais do século XIX e nos primeiros anos do século XIX. São inúteis, uns verdadeiros apanha pós, mas como resistir-lhes?

      Um abraço

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  2. Todos nós temos os nossos devaneios, alguns mais populares, outros, nem tanto.
    Mas a popularidade ou o estar "in", ou "out", são coisas que só têm realmente importância quando somos inseguros e estamos sempre na dependência da aprovação de outrém.
    O que me parece mais importante é estar de acordo connosco mesmos no momento que vivemos, pois, como estamos sempre a mudar, o que gostamos hoje, amanhã já estará fora do nosso horizonte.
    Se gostas, pois, é válido.
    Se os outros não gostam, e achincalham, pois ... temos muita pena ... será algo que essas pessoas têm de resolver, se acaso o quiserem, caso contrário, continuamos todos muito bem de saúde, obrigado.
    E, pessoalmente, gosto da pintura do fato do jovenzinho, que me parece cuidada e apelativa.
    Manel

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    1. Manel

      Com efeito, a pintura muito cuidada desta figurinha atraiu-me logo de início e o modelado é também muito bom. Apesar de kitsch é uma peça Volkstedt.

      O meu problema agora é arranjar-lhe um sítio na minha casa onde se encaixe com o resto da decoração. Por vezes tenho uma peça um ou dois meses aqui e acolá, até conseguir escolher-lhe um lugar definitivo, onde esteja em harmonia com o resto. Enfim, problemas de acumuladores.

      A minha faceta kitsch demonstra-se sobretudo no gosto pelos objectos demasiado pequenos, como os biscuits.

      Um abraço

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  3. Gostei muito desta peça! Às vezes o kitsch tem graça, se não for em demasia. Bom dia!

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    1. A Margarida tem razão. O kitsch pode ser toque final de elegância. Às vezes vemos na rua pessoas muito bem vestidas, por vezes tão bem vestidas, que parece que acabaram de sair da boutique e compraram o conjunto todo que estava na montra. É nestas alturas, que o kitsch pode ser a solução para evitar esse ar excessivamente compostinho, como usar uns ténis mais velhos ou um relógio fora de moda. As questões do gosto são sempre fascinantes porque variam tanto no tempo e no espaço.

      Um abraço

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  4. Caro Luis

    A relação original que fazemos com os objectos, as portas grandes que se abrem aos nossos conhecimentos modestos, no simples facto de tocarmos, olharmos, sentirmos e pensarmos, são uma das bases da nossa excelsa caminhada milenar....o resto são distracções que nos encolhem os horizontes e nos remetem para a cama inquisitorial de tábuas ensebadas, amarrados em nós de dedos apontados...escolher uma peça, mesmo que modesta,orfã, vulgar é um poder enorme de liberdade superior que um ser humano pode sentir.
    Continuação de bom trabalho.
    Vitor Pires

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    1. Caro Vítor

      Além da contemplação, um dos prazeres maiores que se tira cada vez que se adquire uma nova velharia é o de procurar saber mais sobre ela, averiguar quem foi o fabricante e em que época e saber como ela era usada e porque tipo de pessoas. No fundo, através destes objectos faz-se também a história.

      Um abraço

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  5. Olá, Luís, a figurinha é linda, super em feita e requintada, mas não gosto muito dessas cenas de aristocracia pueris ou galantes e super enfeitadas. É lindo, mas prefiro aqueles biscuits de louça pintados à mão dos anos 20, 30, 40 com cenas ingênuas de criancinhas e animaizinhos. E aqueles que eram utilitários, paliteiros, saleiros, eu gosto demais, é mais a minha cara.
    Mas é linda essa peça, execução perfeita, uma pequena obra do arte kitsch, do cafona como dizemos por aqui.
    Abraços da colônia.

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    1. Jorge

      Desculpe só agora lhe responder, mas não sei porque razão deixei de ser notificado na minha caixa de correio cada vez que alguém deixa um comentário. O mundo virtual anda muito confuso com as actualizações constantes que os gigantes da net fazem a toda a hora.

      Esta figurinha neobarroca é com efeito demasiado arrebicada. Decididamente é uma peça kitsch, mas ao mesmo tempo é um trabalho tão bem feito, que acabou por me encantar. O colecionismo é sempre sentimental.

      Um abraço para esse imenso Portugal do outro lado do Atlântico

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