quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Uma jarra de faiança portuguesa do séc. XIX



Nos últimos tempos tenho escrito pouco sobre faiança portuguesa e não é porque tenha perdido o entusiasmo pelo assunto. Mas colecionar faiança exige muito espaço, coisa que na minha antiga casa de assoalhada e meia me faltava. Se os pratos e as travessas podem ir para a parede onde há sempre lugar para mais um, jarras, terrinas ou canudos têm que ser expostos em prateleiras e só terrinas em faiança tenho pelo menos uma seis, fora as de porcelana, mas isso é outra história. Também é verdade, que como a faiança portuguesa raramente é marcada, faltam-me elementos para escrever textos com informação significativa sobre as peças.


A jarra não apresenta marca


Mas, o meu amigo Manel ofereceu-me nos anos uma jarra de faiança azul e branca de que gostei tanto, que resolvi apresenta-la aqui, embora não esteja marcada. Desde logo me pareceu uma peça de meados do século XIX e da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Com efeito, já folheei tantas vezes a tese de mestrado Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre aquela fábrica, que tenho presente na memória, muitas imagens que publicou e tinha quase a certeza de lá ter visto uma jarra igual ou semelhante a esta.

Imagem retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013


Voltei a consultar esta tese, em que autora relaciona os achados das escavações arqueológicas no local da antiga fábrica, mais exatamente num tanque atulhado em 1848, com as peças existente nos museus portugueses. E com efeito, na parte dedicada ao Museu Nacional Soares dos Reis consta uma jarra inventariada com o número 408 Cer CMP/ MNSR muito semelhante a minha, que se atribui à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, embora não esteja marcada.

Essa mesma jarra já tinha sido reproduzida no catálogo da exposição Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle, de 2004, já então era atribuída aquela fábrica de Gaia e datada do segundo quartel do século XIX.

Imagem retirada de Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX



A decoração e a forma são muito idênticas à minha, só que jarra do Museu Nacional de Soares dos Reis apresenta umas asas.

Procurei obter mais informações no inventário geral dos museus nacionais portugueses, o Raiz e com efeito encontrei na colecção daquele museu do Porto, mais umas jarras com decoração e formas muito semelhante à minha, mas nas fichas descritivas a informação é escassa e no centro de fabrico consta apenas Vila Nova de Gaia, com uma interrogação.

Jarra da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, inv. 748 Cer CMP/ MNSR


Em suma, é provável que esta jarra tenha saído da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, no segundo quartel do século XIX, mas não é possível ter a certeza. Quem está familiarizado com a faiança portuguesa do século XIX sabe bem que as produções das fábricas do Porto e Gaia eram muitas vezes semelhantes entre si e por consequência esta jarra poderá também ser de outra manufactura dessas duas cidades.




Alguma bibliografia e ligações consultadas:

A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75570?mode=full

Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX / coord. científica Roland Blaettler, Paulo Henriques ; textos de Roland Blaettler, João Pedro Monteiro, Alexandre Nobre Pais, Margarida Revelo Pinto e Paulo Henriques . - Lisboa : Museu Nacional do Azulejo, 2004

Raiz, bens culturais on-line

4 comentários:

  1. Quando a vi, esta peça, fiquei logo encantado com ela, e sabia que ela te iria encantar igualmente. Por isso a adquiri de imediato.
    Também me passou pela cabeça que fosse da fábrica de Sto. António do Vale da Piedade, mas estas atribuições que se fazem no chão de uma feira são sempre tiros no escuro.
    Há uma grande probabilidade que o seja, depois desta tua pesquisa.
    Se o for, ainda bem, pois ter uma peça desta fábrica que afinal laborou por um tão extenso período de tempo e da qual não sabe assim tanto, é uma mais valia.
    Ainda que que gostaste dela.
    Manel

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  2. Salve Luis! O Brasil, xomo sabes, foi um grande centro importador de faianças portuguesas, em especial as peças arquitetônicas, balaústres, fontes, estátuas, ânforas etc. Em Pelotas ainda sobrevivem vários prédios do primeiro período eclético com esses elementos. Infelizmente, a partir dos anos 30 com o art Deco e depois com o modernismo, muitas fachadas foram remodeladas ou destruídas e as faianças consideradas de mal gosto e sem valor. Eram simplesmente quebradas as marretadas. Hoje alcançam somas altíssimas nos antiquários (especialmente ânforas, urnas, pinhas e figuras). Gostaria de adquirir algum exemplar mas estão fora de meu poder aquisitivo. Saudações d´além mar da velha e escaldante Pelotas no verão.

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    1. Caro amigo

      Muito obrigado pelo comentário e peço desculpa por só agora responder. É verdade, existem muitas destas urnas de faiança portuguesa no Brasil e até já tive ocasião de as mostrar aqui no blog.

      Por aqui também não aparecem à venda. O meu amigo Manel comprou uma, mas deve ser da fábrica das Devesas, portanto mais recente. Mas essas urnas de Miragaia ou de Santo António de Vale da Piedade são absolutamente fabulosas. Vi algumas delas numa exposição no Museu Soares dos reis no Porto e por vezes nas cidades do Norte de Portugal lá se vê uma ou outra à entrada de um portão ou num alto de um edifício.

      Um grande abraço de Lisboa

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