sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Outeiro Seco - Solar dos Montalvões

Neste blogue dedicado a velharias não poderia deixar de mencionar, uma das antiqualhas que desde pequeno me marcou. Creio que ouvir falar o meu pai e a minha avó tantas vezes daquela casa, durante a minha meninice, foi determinante na apetência, que cedo manifestei para as coisas do passado, para a história e as coisas velhas em geral. Ao contrário de Vinhais, poucas vezes dormi lá. Terei lá passado uma ou outra semana nas férias muito pequeno e já tenho poucas recordações do interior da casa. Posteriormente, visitei-a mais vezes, quase sempre a correr, e já a casa estava sem vida, na sua última e derradeira fase, sendo que as minhas lembranças são pouco significativas.

Claro, lembro-me muito bem de alguns pormenores, como por exemplo, os tectos dos quartos. Quando se é criança, uma das coisas que com mais nitidez se fixa numa casa são os tectos. As crianças são obrigadas a fazer a sesta e enquanto não adormecem, olham fixamente para cima e vão observando os pormenores todos. As rachas tomam formas de animais e pessoas. Tudo é visto e revisto, até que o sono finalmente chega.


Um dos tectos de masseira da casa. O quarto do "Lili"

Por essa mesma razão tenho bem presente na minha memória os tectos de Outeiro seco, que eram tão diferentes das casas que eu conhecia. Formavam pirâmides truncadas, vistas por dentro. Na verdade, como vim a saber mais tarde, tratavam-se dos chamados tectos de masseira, tão comuns na arquitectura solarenga portuguesa.

Apesar dessas memórias, o que foi construindo de Outeiro Seco na cabeça foi um processo à posteriori. O meu pai encheu-me a cabeça com histórias antigas daquela casa, no tempo em que era habitada, em que era a cabeça de uma grande propriedade agrícola, em que ali vivia uma família fidalga respeitada na região, em que existia uma bonita capela cheia de talha dourada, uma vasta biblioteca, e até um museu, cheio de curiosidades reunidas pelo meu trisavó. Também não faltavam pormenores pitorescos às histórias que o meu pai me contava da casa, um quarto secreto em que o meu trisavó se escondeu logo após as incursões do Paiva Couceiro por volta de 1911 ou 1912, ou até uma aldraba, que noutros tempos, quem pegasse nela, ficava ao alcance da justiça.

A capela


Para uma criança como eu, que vivia num bairro banal e triste como Benfica, todas estas histórias soavam fascinantes e encheram-me a cabeça com imagens do passado, que foram determinante nas minhas opções profissionais e nas minhas inclinações culturais. Claro, descender de uma família fidalga, também me tornava diferente dos colegas da escola, pois o ser humano, como toda a gente sabe é dado à vaidade.


Agora, em adulto, tento forçar a minha memória, rebuscando o poucochinho que me lembro do solar. Vejo vezes sem conta dois filmes, que o meu pai fez nos 60, com o recheio da casa completo, móveis, espelhos, sofás, a biblioteca, o museu, e pátio de honra, No primeiro, aparece o meu bisavó e no segundo, a minha bisavó e os meus avós paternos, todos eles hoje já falecidos. Consegui até identificar no filme uma mesa bufete, que hoje me pertence e um conjunto de cadeiras “balonné”, que calharam ao meu irmão., Leio e releio também um livro que o meu pai compilou com as suas recordações da casa, na sua tentativa de preservar um mundo, que já morreu definitivamente.




Um fogão de sala


Há uns tempos, com o meu amigo Manel, fomos até Outeiro Seco, e a partir de uma planta esquematizada feita pelo meu Pai, este meu amigo arquitecto realizou uma planta muito mais exacta da casa, um documento lindíssimo com alçados e tudo. Foi um processo muito giro, obrigar-me a mim próprio a extrair da memória as poucas recordações, que ainda tinha de Outeiro Seco, para responder as perguntas que o Manel me fazia a toda a hora e a todo o momento sobre a casa e as funções de cada divisão. Foi um pouco, como ser um antigo passageiro do Titanic e 100 anos depois, mergulhar num escafandro, visitar o navio e tentar reconstituir as salas, salões e os quartos á partir dos despojos e das ruínas.

Esse grande solar, casa da minha família paterna, foi vendido nos anos 80 e hoje está completamente abandonado, invadido pelas silvas, esventrado e arruinado. E no entanto, que dignidade e que beleza aquelas ruínas ainda tem.


Porta da sala do Museu no pátio de honra. Aqui desembocaria a segunda escadaria que nunca chegou a ser construída


O Solar dos Montalvões desenvolveu-se em basicamente 4 corpos, que foram sendo construídos ao longo do tempo, em torno de um pátio central, o chamado pátio de honra. No fundo, nos séculos XVII e XVIII, período em que supostamente data a sua construção, as pessoas continuavam inconscientemente com o modelo da domus romana no seu espírito e tendiam a adoptar com frequência esta solução da casa construída em torno de um átrio central.


A casa tem dois pisos, o piso térreo que é o das lojas e o andar superior, que era destinado a habitação e à cozinha. Na parte mais nobre da casa, existiam ainda uns terceiros, que no tempo em que o meu pai os conheceu, já só serviam para arrumos.



Imagem de uma das manjedouras em granito



Para quem não saiba, “Lojas” é a designação tradicional para divisões destinadas a guardar alfaias agrícolas, adegas, gado, cavalos, etc. No andar térreo desta casa, abundam manjedouras em pedra, pois um dos principais construtores da casa, era capitão de cavalos e enfim, queria ter os seus equídeos bem tratados. Apesar da ruína em que está a casa estas manjedouras, ainda hoje são bem visíveis. Esta divisão entre lojas e habitação também é bem característica das casas rurais portuguesas e um dos seus objectivos principais era proporcionar aquecimento às habitações. A minha Tia Chica lembra-se perfeitamente da casa de umas primas algures no Concelho de Vinhais, que se mantinha quente em pena invernia transmontana, graças aos animais que eram conservados nas lojas. Segundo a minha tia, parece é que o cheiro era insuportável, mas naquela época as pessoas estariam certamente habituadas.




Na parte de cima da casa, existia um primeiro corpo com a zona da cozinha, muito grande (Alçado Sul). Depois no segundo corpo (Alçado Nascente), existia a sala de jantar, uma sala polivalente e dois quartos, ambos, com tectos de masseira. O terceiro corpo (alçado Norte) era constituído basicamente por quartos e finalmente existia a parte mais nobre da casa(alçado Poente), com os 3 salões de aparato, a biblioteca, a sala de visitas, o museu e ainda capela. A fachada deste corpo era caiada, e tinha um tratamento arquitectónico mais elegante que os restantes corpos do edifício. Aqui se abria a entrada mais nobre da casa, encimada com pedra de armas. em cuja porta que esteve colocada uma aldraba, que dava direito de asilo, a quem se agarrasse a ela. Sem duvida uma prática do antigo regime, cuja existência terá passado de boca em boca, até aos nossos dias. Segundo o meu pai, seria uma peça bonita, com a forma de um leão (talvez um mascarão) e no tempo do dele, já estaria colocada no "museu"


A fachada nobre do solar dos Montalvões

Na padieira da porta, que se encontra em frente à escada que dá acesso ao segundo corpo, pelo pátio de honra, está gravada uma data, “1782”, o que levou Firmino Aires, no artigo Solar dos Montalvões, publicado na p. 21 da Revista Outeiro Seco, Nov. de 1990, a afirmar que o corpo nobre do Solar (alçado Poente) era o mais antigo, sendo que os restantes corpos seriam de construção mais recente, coeva com aquela data.

Pessoalmente, discordo dessa opinião, embora não tenha documentos ou estudos arqueológicos para suportar este meu palpite. Julgo antes que essa data foi gravada quando da construção da parte mais nobre do solar. Quando ergueram este corpo, foi necessário tratar do acesso aos salões nobres, pois esta alea não tinha nenhuma escadaria interior, bem como ao corpo da sala de Jantar. Doutra forma, os convidados mais distintos teriam que entrar pela cozinha ou pela zona dos quartos e atravessar toda a parte privada da casa para chegar aos salões nobres.





Para esse efeito foi projectada uma dupla escadaria no pátio central, uma das escadarias daria acesso à zona da sala de Jantar, no alto da qual está gravada a referida data, bem como à cozinha, e outra daria acesso directo à sala do Museu e aos salões nobres. Acontece é que e segunda escadaria nunca foi concluída, muito embora tivessem chegado a encomendar a cantaria, pois há uma fotografia do meu avô no pátio com as pedras bem talhadas amontoadas a um canto e o meu pai também ainda se lembra delas. Ainda hoje existe na sala do museu, uma porta virada para o pátio, sem qualquer gradeamento, que seria o local onde a segunda escada desembocaria. Em suma "1782" será antes uma data próxima da construção da ala nobre do solar. Em favor desta minha opinião, está também o estilo arquitectónico desta ala, nomeadamente da capela, cujo barroco já acusa a nova tendência para o classicismo, típica dos finais do século XVIII


16 comentários:

  1. Temos que lá voltar um dia destes!
    É sempre uma viagem no tempo que merece fazer
    Manel

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  2. joão Paulo Levezinho28 de outubro de 2009 às 19:30

    Em primeiro lugar parabéns pelo blogue!! Há muito tempo que não via "algo" na net tão sincero, apaixonante e educativo!!Actualmente sou estudante de património e trabalho em audiovisual, gostava de entrar em contacto consigo p lhe fazer umas perguntas sobre decorações e velharias...pode ser? o meu mail é joaolevezinho@gmail.com
    Mais uma vez os meus parbéns e continue, eu já o "marquei"os blogs preferidos!

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  3. Caro João Levezinho

    Muito obrigado pelas suas palavras. Fiquei bastante sensibilizado. De facto, tenho procurado que este “blogue” corresponda a uma forma pessoal de ver os objectos ou os edifícios. Um prato antigo, uma gravura, ou até mesmo um edifício valem não só pelo seu valor artístico, que é relativo e varia de época para época, como também pelas histórias que transportam consigo. Por outro lado, no “blogue” procuro relatar o que de mais engraçado há nesta mania das velharias, que é a investigação, que se faz a propósito das peças.

    Vou-lhe enviar o por e-mail os meus contactos e terei muito gosto ajuda-lo no que puder, embora seja um mero amador nesta área das “antiqualhas”. Espero poder contar com mais comentários seus aqui no blogue e prometo ir espreitar os seus "blogues"

    Abraços

    Luís Y

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  4. Conheço o Luis, faz anos... Nem digo quantos! Não serão os equivalentes ao Solar dos Montalvões, que tive o prazer de ver com o Luis, de quem sou AMIGA. Não me admira este blogue, que numa 1ª impressão é a imagem do seu criador. Gostei e tornei a gostar! Continua
    Passas a ter mais uma visitante!Beijos
    Sacha

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  5. Caro Luis, seria possível disponibilizar imagens/alçados ou entrar em contacto com cconfrariadechaves.net uma vez que esta irá ocupar o solar e desenvolver projectos gastronómicos e culturais. Visite o site e contacte-nos Obrigado

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  6. Cara Sacha

    Obrigado pela tua visita. É muito importante reencontrar aqui os meus amigos de longa data.

    Beijinhos Luís

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  7. Caro Anónimo

    Escrevi para a Confraria de Chaves e ainda não obtive resposta

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  8. Olá Caro Luis
    Parabéns pelo excelente blog que nos mostra imagens incriveis. Apresento-me: Altino Rio, natural e residente de Outeiro Seco, ex-presidente da Junta, professor e adminstrador do Blog Outeiro Seco, tradição e modernidade...Os seus artigos sobre Outeiro Seco, em especial o Solar trouxeram-me de facto muitas novidades.
    Se for possivel agradeço uma colaboração com um livro que estou a escrever sobre a junta onde o Dr. Liberal Sampaio foi um dos presidentes. Tudo que me pudesse arranjar sobre tão ilustre personagem agradeço - uma foto e mais pormenores,..
    Felicidades para o seu trabalho
    Sempre à disposição. altino.rio@gmail.com
    Altino Rio

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  9. Boa tarde Luis!
    Como é q eu vou encontrar aqui o Sr.Administrador do blog "oUTEIRO sECO,TRADIÇÃO E MODERNIDADE,onde diariamente "trabalho"!
    Cumps para ele e tb para o Administrador deste blog.

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  10. OLÁ ,LUIS
    NÃO SOU DE GENTE FINA,MAS SIM DE GENTE VULGAR COMO QUALQUER OUTRO
    MAS TENHO OBJECTOS EM QUE CADA UM TEM A SUA HISTÓRIA.A CHÁVENA DA BISAVÓ,O PRATO DA TIA QUE MORREU DE AMORES POR UM CAPITÃO QUE NÃO LHE CORRESPONDIA,A TRAVESSA DA TIA-AVÓ QUE É DE UMA GRANDE MARCA PORTUGUESA,OS TALHERES DE PRATA DA MÃE ,QUE QUANDO FOI O 25 DE ABRIL,AQUANDO OCUPAVAM AS CASAS QUE ESTAVAM FECHADAS,LEVARAM POR "ENGANO"MAIS DE METADE DO FAQUEIRO E O GRANDE ESPELHO DO CORREDOR,QUE TINHA UMA ENORME ÁGUIA AO CIMO ,QUE JÁ ERA BEM ANTIQUISSÍMO,BEM COMO OS REPOSTEIROS DE VELUDO E OS LENÇÓIS DE LINHO ETC,AS JARRAS DA VISTA ALEGRE ,QUE DESAPARECERAM SEM SE SABER COMO
    ENFIM,SOU DE GENTE SEM HISTÓRIA MAS QUE TEM A SUA HISTÓRIA DE VIDA
    É VERDADE ,LUIS
    O PASSADO TEM UM ENORME PÊSO NA NOSSA VIDA
    E AS SAUDADES...AI AS SAUDADES DAQUELAS CASAS COM AS SUAS ESCADARIAS E PORTAS SECRETAS QUE NOS LEVAVAM A TODOS OS LADOS E A LADO ALGUM DE CONCRETO
    TIVE A FELICIDADE DE VIVER NA CIDADE DO PORTO ,NUMA CASA ENORME COM IMENSAS DIVISOES,COM PORTAS SECRETAS ,CASAS QUE QUANDO ESTÁVAMOS SÓZINHOS ATÉ FICAVAMOS COM MEDO
    CASAS COM A SUA HISTÓRIA DE VIDA
    CASAS QUE NA MINHA VIDA DEIXARAM A SUA HISTÓRIA
    BEM MARCADA
    DE SAUDADES

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  11. Muito obrigado pelo seu comentário, caro anónimo ou anónima

    Especialmente para as crianças, as casas antigas parecem que tem uma alma. Depois quando chegamos a adultos, essa impressão nunca nos chega a largar e guardamos o cheiro, o medo ou as sensações que experimentámos naquelas casas.

    Abraço e volte sempre, mas não escreva em maiúsculas

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  12. boa tarde sr luis sou um neto de um carpinteiro k serviu a sua familia em outeiro seco,e bom ver as imagens k o sr tem do solar na epoca de quando estava habitavel.

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  13. Caro anónimo.

    Fico muito comovido. Se quiser pode-me escrever para montalvao.luis@gmail.com, poisw o meu pai certamente se lembrará de si

    Abraços

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  14. o meu avõ era o joze carreira

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  15. Estive neste verão na zona de Chaves em férias.
    Talvez por hábito profissional, dei comigo a vasculhar monumentos naquela região.
    Um dos que me chamou a atenção foi o Solar dos Montalvões. O seu estado de ruína, a falta de aproveitamento turístico ou outra, a inacção do estado na preservação deste belo exemplar solarengo, deixou-me estupefacto.
    Como estive ligado aos Monumentos Nacionais durante alguns anos, fiz uma pesquisa no SIPA sobre o registo do Solar dos Montalvões naquela base de dados. Para meu espanto não havia qualquer registo. Estou agora a providenciar para que essa lacuna seja colmatada.

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  16. Caro Paulo Ferreira

    Nem calcula a alegria que a sua notícia me dá. Saber que o Solar dos Montalvões irá figurar na base www.monumentos.pt significa que o meu trabalho e o do meu pai aqui no blog não foram inúteis.

    Em todo o caso consulte o post http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/11/pela-primeira-vez-uma-cronologia-da.html onde há uma tentativa de sistematização dos conhecimentos sobre os vários períodos em que o solar foi construído.

    Há também fotografias no blog da capela antes de ser pilhada, que também são muito interessantes.

    Um bem haja para si e necessitar, o meu endereço de e-mail está no profil.

    Abraços

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