segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Ay Marieke Marieke je t'aimais tant

Durante a minha infância ouvi muito falar da tia Marica. Sempre que se comentava que alguém recebia bem em casa, o meu pai recordava-se da Tia Marica, da forma como se comia na sua casa e sobretudo duma sobremesa, que Senhora servia, uma espécie de ovos estrelados doces, que faziam o encanto das crianças.

O meu pai contava muitas vezes o gosto que a senhora tinha por máquinas e maquinetas novas de cozinha, que comprava no melhor estabelecimento comercial de Chaves, os Mochos.

Já muito mais tarde, quando o meu pai se reformou e se começou a dedicar ao passado familiar, descobriu com horror, que nem sabia o nome próprio da tia que fazia a sua sobremesa preferida. Com a sua paciência toda, pôs-se em marcha, pesquisou, perguntou e leu e aos poucos a história da Tia Marica foi reaparecendo e ganhando vida.

A casa da Tia Marica no Lg. da Madalena em Chaves



A Tia Marica era a Maria da Conceição Alves (10.8-1876 a 12-07-1956), irmã mais velha da minha bisavó paterna, Ana da Conceição Alves (28-5-1881 a 24-12-1974). O pai delas era um comerciante abastado, que foi um dos directores do banco de Chaves e terá dado uma educação esmerada às filhas para fazerem bons casamentos na região. Aprenderam música e julgo que teriam algum talento. Vemo-las aqui nesta fotografia de conjunto, muito jovens. A Tia Marica segura um violino, um instrumento complicado, que não é qualquer iniciado que o toca e a minha bisavô Aninhas ao centro, de pé, tem uma espécie de bandolim nas mãos. Este grupo musical amador a que pertenciam, deveria animar os saraus das boas famílias flavienses e as meninas seriam certamente consideradas um bom partido.


A minha irmã herdou um rolo revestido a veludo vermelho muito bonito, que servia para a minha bisavô Aninhas transportar as pautas de música.
Segundo a lenda familiar, que o meu pai conta, a Marica ter-se-á apaixonado por um rapaz pobre, o que enfim, estragava completamente os planos da família. O moço terá então partido para a África, onde depois de muita labuta, juntou um bom pé de meia e voltou a Chaves para pedir a mão da sua apaixonada. Pediu para ser recebido pelos pais da jovem, confessou os seus sentimentos arrebatados e pediu-lhes a mão da filha. A Marica foi então chamada à presença dos pais e provavelmente temerosa de futuros castigos, respondeu ao pai:
- Deve haver alguma confusão, pois não conheço este senhor de lado nenhum.

Perante a resposta da sua amada, cuja imagem tinha servido para suportar o exílio em terras angolanas, o jovem retorquiu
- Pois se a Senhora diz que não me conhece, eu também não a conheço. Confesso que me enganei.

Com o coração destroçado, o rapazito abandonou Chaves, partiu novamente para África e quando voltou era o célebre dignitário da Igreja, Monsenhor Alves da Cunha. A pobre tia Marica ficou para tia, assistindo ao casamento da irmã, a minha bisavó, que essa sim, satisfez os planos dos pais e fez um belo casamento com um fidalgo, proprietário de muitas terras, o meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão

Depois de algumas pesquisas na Internet sobre o Monsenhor Alves da Cunha, percebi que foi um homem que deixou imensas lendas por todos os sítios onde passava. Ainda hoje, em Luanda, volvidos 63 anos da sua morte e depois de os portugueses terem abandonado à cidade, continuam a correr entre a população histórias mais menos fantásticas acerca dele. Talvez esta lenda da paixão pela Marica seja mais um testemunho, que ficou da vida de um homem excepcional.

O Monsenhor Manuel Alves da Cunha nasceu em Chaves a 8 de Junho de 1872 e era seis anos mais velho que a Marica. Sabemos que fez o Bacharelato em Teologia na Universidade de Coimbra em 1894 e presumivelmente a paixão pela Marica terá decorrido antes da sua ida para a Universidade, por volta de 1890 ou 1891. Não há qualquer referência a jornadas para o Ultramar nesse período, o que me leva a supor que a viagem a África para ganhar fortuna é apenas uma lenda, e que, na realidade o que fez foi deslocar-se até Coimbra, para conseguir um diploma. Em 1897, com 25 anos regressou a Chaves ainda como leigo para desempenhar as funções de professor primário e deve ter sido por volta desses anos, agora já com uma posição social mais aceitável, que se dirigiu a casa dos pais da Tia Marica a pedir-lhe a mão.

Então, talvez em consequência do desgosto amoroso provocado pela falta de coragem da pobre Marica, o Monsenhor Alves da Cunha ordena-se sacerdote em 22-9-1900 e em 1901 parte para Angola onde fará carreira até ao final da sua vida, em 1947. Em Luanda desenvolveu uma actividade notável não só na diocese, mas sobretudo como vereador municipal. Foi responsável pela construção do matadouro da cidade, criou estruturas para a municipalização das águas, fossas cépticas, equilibrou as finanças e criou códigos, regulamentos, posturas e emolumentos. Intelectualmente foi também um homem prolixo. Escreveu muito nos jornais e publicou ensaios sobre história de Angola.
A sua obra mais relevante talvez tenha sido na educação, com a criação do Liceu Salvador Correia de Luanda em 1919, do qual foi seu primeiro reitor.

Lutou também contra a escravatura encapotada, que ainda existia em Angola nesse tempo e talvez tenha sido o somatório de todas essas boas acções que fez com estátua dele em Luanda, tenha sido dos poucas construídas durante o domínio português, que não foram apeadas em 1975. Mais, os Angolanos até mantiveram uma rua com o seu nome.

Durante este período, a tia Marica também não esteve parada. Fundou e dirigiu o patronato de S. José em Vilar de Nantes, que acolhia raparigas pobres, instituição que ainda hoje existe e cujo funcionamento é assegurado pelas Servas Franciscanas Reparadoras

O Monsenhor Alves da Cunha voltou a metrópole duas vezes, em 1926 para colaborar no estatuto missionário, e em 1941 quando é posto na “prateleira” por um período de 2 anos. É provável que num desses período se tenha deslocado a sua terra natal, Chaves, e proferido uma missa com os seus trajes eclesiásticos de Monsenhor, à qual assistiu a Marica, agora uma Senhora madura e devota, e talvez durante a comunhão ele se tenha sentido angustiado por ser tão velho e por a ver tão acabada e tenha experimentado um sentimento, algo semelhante ao que Jacques Brel demonstrava quanto cantava "Ay Marieke Marieke je t'aimais tant"

3 comentários:

  1. Caro LuisY
    Mais uma vez uma estória surpreendente de amores não vividos.Afinal ainda actual, quem diria...maldito orgulho! Achei uma delícia o nome da senhora,a ser no plural, no imediato atrevida, catapultou-me à minha infãncia...nome atribuído a homens "moles, c.... de sabão", ditos populares.Mais tarde há coisa de 30 anos já em Lisboa no local de trabalho tive um colega de comportamento algo estranho, tímido, mui reservado e com um andar diferente, quando instiguei uma colega sobre ele num relance disse-me, é homossexual. Foi a primeira vez que ouvi tal palavra, armei-me em forte não dei parte de fraca, mas na verdade fiquei na mesma.Fui percebendo ao longo dos anos, era tabú.Quem diria que actualmente volvidos míseros anos a sociedade deliberou os casamentos homossexuais. Olhando para trás tanta coisa mudou neste país tão pequenino, se compararmos a mulher que desde sempre foi serva, escrava, sem direitos, obrigada a usar cinto de castidade em ferro forjado enquanto o seu senhor ia brincar às guerras. Tudo mudou com o 25 de Abril finalmente foi reposta a dignidade,independência e igualdade.Fantástico!
    Bem, mudando de mote, fiquei com água na boca com a sobremessa tipo ovos estrelados doces. Tem de especular junto do seu pai como eram, a que sabiam, se tinham aroma a canela ou outra especearia. Acredito que vai ter a capacidade de reinventar a receita, possivelmente oriunda do mosteiro onde esteve uma familiar...será?
    Ao tempo, o dito amor proibido da Marica com um homem pobre era e continua a ser normal, o amor não escolhe linhagem nem fortuna, é coisa mais séria profunda ditada pelo coração, que só não é eterna quando se deixa levar pela cabeça na razão de balanço pela leitura de anos de missais caducos.Foi o que aconteceu.Quanto a ele por ser pobre possivelmente foi para Coimbra para o Seminário estudar e acabou por se tornar padre. Até há poucos anos as famílias pobres com a ajuda do pároco conseguiam que os seus filhos estudassem à conta dos seminários. Tenho na família alguns, e nenhum fez os votos.
    Para terminar adorei o remate do post que usou como título. Confesso, é uma particularidade cúmplice. Adoro escrever,uso e abuso dessa técnica,asaz comparável ao último verso de um soneto...a chave!

    Fique bem, um abraço
    Maria Isabel

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  2. Muito obrigado pelo comentário

    Creio que o efeito de ovos estrelados era conseguido com um pêssego em calda sobre um creme qualquer. Tenho a ideia que há uns tempos vi uma receita, que poderia ser a da tia Marica, num livro de culinária em casa do meu amigo Manel, mas como as artes da cozinha não são o meu ponto forte, deixei-a passar. Terei que voltar novamente a pesquisar os livros dele e talvez tenha coragem para a experimentar. Desde que consegui fazer farófias com êxito sinto-me um pouco mais confiante na doçaria

    Quanto ao resto concordo consigo plenamente, finalmente em Portugal os costumes liberalizaram-se e podemos respirar todos mais à vontade (puf)

    Abraço e é sempre um prazer ler os seus comentários

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  3. Afinal é esta a história da tua Tia Marica!
    Nada tem de uma novela cor-de-rosa ao sabor de Hollywood, antes possui laivos de drama camiliano e com muitas hipóteses de êxito na transposição ao cinema, desde que por mãos que não as nacionais!
    Destas últimas não guardo quaisquer boas memórias, e devo confessar, com desconsolo e algo cabisbaixo, que nunca vi nada realmente bom feito nos últimos 45 anos do século XX!
    No cinema nacional, considera-se a existência de uma época de ouro (concedo-lhe algum interesse derivado da curiosidade e algum humor com que caracteriza os anos salazaristas), a qual atravessa as décadas até meados do século e depois ... é o vazio, não obstante as parangonas, as menções honrosas, prémios (poucos), que o chatos, como o Manuel de Oliveira e quejandos (e eles são muitos, mas mesmo muito mais, para os enumerar aqui a todos) vão ganhando, quiçá à laia de prémio de consolação.
    Ninguém lastima mais que eu esta falha!
    E, sempre que a minha resolução enfraquece, lá vou aceitando ir ver mais uma obra da produção nacional, sempre a medo, devo acrescentar, invariavelmente queda-me a amargura de que afinal não deveria ter capitulado! Resta-me a sensação de desconsolo de dinheiro gasto para nada (e não me refiro só ao da minha algibeira!).
    Hoje o comentário quedou cinéfilo demais para aquilo que tinha em mente, mas foi ao sabor da pena (neste caso do teclado!)
    Quanto a esses ovos estrelados, não sei bem o que serão, nem me lembro de algum dia lhes ter sentido o sabor. Terás de procurar nos meus catrapázios, talvez os encontres algures!
    Manel

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