terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Solar dos Montalvões em Outeiro Seco: a higiene

Em minha casa tenho esta pequena mesa, que proveio do solar de Outeiro Seco. É uma peça do chamado estilo Louis-Philippe, monarca que reinou em França entre 1830 e 1848. O mobiliário desta época tem as linhas do Império, só que suavizadas e apresenta-se com uma decoração simples, num certo intimismo burguês. É já uma época em que os móveis são feitos em série e em que se começam a vender jogos completos de sala de jantar, de quarto, de escritório, etc.

Encontrei num livrinho, que comprei em Paris, Reconnaître les meubles de style / P. M. Favelac. – Paris. Ch Massin, s. d., il. 189, um móvel muito semelhante a este e cuja imagem reproduzo. Claro, a minha mesa é uma reprodução portuguesa dos móveis franceses que eram o supra sumo do bom gosto na Europa de então.
Actualmente, esta mesinha serve para colocar a televisão, o leitor de DVD, livros e ainda fotografias de família, enfim, uma tralha sem fim, que nem permite sequer que se admire a mesa ou os azulejos que estão por detrás. Contudo, a sua função original não era essa. Na realidade, ela foi uma mesa de toillete, onde se colocava uma bacia com um jarro e uma saboneteira, normalmente em esmalte ou faiança. O exemplar francês apresenta uns toalheiros. Na minha mesa, não sei onde colocariam a toalha.

Mesinhas como esta faziam parte da decoração dos quartos do Solar de Outeiro Seco e serviam para as pessoas fazerem a sua higiene diária. Aqui lavariam a cara, as mãos e eventualmente os sovacos. O banho não fazia parte dos hábitos dos transmontanos do século XIX, época em que este móvel foi realizado, até porque o Inverno nesta província é muito rigoroso e segundo o meu pai conta, durante noite, a água que se encontrava nas bacias chegava a gelar. Talvez no Verão tomassem um ou outro banho numa tina com água aquecida, mas isso seria um acontecimento excepcional. Enfim, não existia água canalizada. A Casa disponha de 2 pequenas bicas, uma no pátio interior, outra no jardinzinho e eram as pobres criadas que tinham que transportar água todos os dias para o interior.
Outra peça de mobília existente nos quartos relacionada com a higiene era a mesinha de cabeceira, cuja principal função era esconder o penico. Aliás no Solar de Outeiro Seco também não existiam propriamente casas de banho como as entendemos hoje. A casa tinha apenas dois cubículos, onde existiam uns caixotes de madeira, com um buraco, com uma tampa amovível e era aí que as pessoas defecavam (ver planta, 20 e 21). Os dejectos caiam numa das lojas existentes no andar térreo e eram provavelmente aproveitados para estrumar terras. Ainda me lembro com horror desses cubículos, mas para o século XIX nem seria muito mau. Recordo-me que há uns tempos li, que o nosso Rei D. Pedro V morreu de tifo por causa das deficientes condições de higiene do Palácio das Necessidades.

17 comentários:

  1. Possivelmente, num dos montantes laterais, deveria haver uma pequena estrutura em metal, aparafusada, que serviria como toalheiro. Pelo menos esta é a forma de resolver este problema em muitos móveis dotados desta função.
    No caso de ter havido esta estrutura metálica devem existir alguns vestígios de orifícios de parafusos, mas é só uma suposição; no entanto, como esse móvel já foi restaurado, estes vestígios, se existiram, também já podem ter sido camuflados.
    É de apreciar a cor da madeira que, por milagre, não foi tintada (numa tentativa de imitar outras madeiras mais nobres!) e as dimensões do móvel, tão adequadas!
    Gosto mesmo mais do teu móvel do que do modelo francês aqui apresentado.
    E, tanto hoje, como antes, continua a ser um bonito móvel de apoio
    Manel

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  2. CarO LuisY
    Gostei do seu móvel. Fez-me lembrar os existentes no Palácio de Sintra, embora maiores e com a bacia encrastada.Pegando na pega que não tem para a toalha, ou teria como aventa o seu amigo Manel, cá para mim não era precisa.Sobre a pedra existia uma bacia em faiança ou esmalte,gomil de água e a toalha de linho meia aberta estendida sobre a bacia. Quando alguém precisava de se lavar, a primeira coisa que fazia era pô-la ao ombro. Vi muitas vezes em pequena assim proceder. De facto estas peças de mobiliário só eram vistas em solares e palacetes. Nas casas mais rudes usava-se o lavatório em ferro forjado, alguns muito bonitos com espelho para a barba. Tenho um pintado de branco muito elegante, sem espelho com um alçado que austenta uma toalha em linho antiquissima de rara beleza e louça de Sacavém.Tenho igualmente outra bacia e gomil em faiança de Coimbra do Brioso com ramagens em azul claro, serviu para lavar o meu sogro quando nasceu.Por último gostei de lembrar, apesar do cheiro nauseabundo e mui moscas e brejeiras em zig zag sobre as retretes em madeira.Felizmente em casa dos meus avós paternos, tinham uma padaria e quando eu era pequena fizeram uma grande remodelação e introduziram um balneário com wc e cacifos. Muito chique no tempo.A casa dos meus pais em 1957 quando foi feita já era moderna com uma grande casa de banho.No entanto lembro-me quando da primeira vez que visitei a minha avó materna, perguntei, vózinha onde é a casa de banho? ela, indignada mostrou-me a retrete que por ser tão miúda ia-me esgueirando com o cheiro na largura do assento. Preferi sempre o campo e usar telhos ou folhas em detrimento de listas telefónicas, apesar de ter papel higiénico, ainda hoje quando posso, adoro reviver pela imensa liberdade que me proporciona.Quanto aos bacios, só os apreciei anos mais tarde quando já estavam em quase desuso. Adoro sobretudo os de faiança Coimbrã. Tenho um da fábrica Brioso. Adorável. Na última feira de Algés vi um um pequeno, de criança, pediram-me 17o €.Era deliciosamente belo em pasta esbranquiçada, bojudo com frizos em azul e asa torneada, lindo de morrer. Em tantas feiras foi a primeira que vi tal peça.
    Falava eu de Penicos!
    Bem haja por me fazer reviver estórias que me deleitam.
    Abraço
    Isabel

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  3. Cara Isabel

    Já sentia a falta dos seus comentários, que enriquecem os post deste blog com divagações sempre engraçadas a propósito das peças de que falo.

    A minha casa é muito pequena e não tenho espaço para a nada, mas um dia, quando tiver um apartamento maior, hei-de devolver a esta mesinha a sua função original e colocar-lhe por cima um gomil e bacia em bonita faiança portuguesa ou inglesa. Até tenho no armazém do meu pai uma cama estilo D. Maria que ficaria bem com esta mesa.

    Um abraço e volte sempre a este blog

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  4. Manel

    Hei-de espreitar melhor a mesa para verificar se há vestígios de buraquinhos onde os os toalheiros se aparafusassem.

    Obrigado

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  5. Ora Viva Luís!
    Onde nos haveríamos de encontrar!
    Já coloquei o teu blog na minha lista de preferidos, aliás penso que já te tinha mandado dizer que tinha começado um blog, não sei se esse mail chegou ao destino, pois têm vindo todos de volta. Embora inicialmente fosse um blog fortemente ideológico (a defesa dos direitos dos animais é uma questão ideológica...) acabou por se tornar o meu diário, e desde filmes a livros a falo de tudo o que me apetece, ou não seja ele o MEU espaço! Mas, esta ideia das antiguidades é bem gira.
    See you latter, nas estepes...
    zoe

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  6. Já estou tão habituada a assinar Zoe...Queria assinar Isabel,
    beijinhos

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  7. Isabel (Zoe)

    Percebi logo que eras tu. Afinal de contas já nos conhecemos há uns bons 16 anos. Isto dos blogs é uma coisa muito estimulante. Este é sobre antiguidades, mas alargou-se a memórias de família, viagens e até já se trocou aqui uma receita culinária. Tenho que ir espreitar o teu blog

    Beijinhos

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  8. Ora viva Luís
    Agora já com mais tempo, pois os comentários anteriores foram escritos à hora do almoço, em grande velocidade!
    pois o meu blog, __cuja ideia inicial era a defesa dos direitos dos animais__ rapidamente se transformou numa espécie de diário, impressões da realidade que me rodeia, cenas do dia-a-dia, livros, filmes, desabafos, desejos, tudo, porque eu sou tudo isso. Se te deres ao trabalho de ver a minha lista de blogs, one by one, lá encontrarás de tudo: literatura, cinema, fotografia, viagens, árvores, "verdes", artesanato urbano, política e sociedade, diários,poesia, pintura, religiosidade popular, música, música popular brasileira (da genuína) e agora antiguidades. Só veio enriquecer a minha lista. Também já publiquei de tudo, desde uma "colecção" exaustiva de fado cantado por estrangeiros (pesquisada por mim), passando por videos e poesias,até às fotografias, __quase todas da autoria do moi-je__ e, os textos, que são são puro exorcismo. O meu blog é um espaço de tolerância total e quase absoluta. Só não tolero comentários insultuosos e por isso tenho moderação de comentários.
    é verdade, ando há dias para me lembrar do nome daquela espécie de prateleiras, __normalmente trabalhadas em talha dourada__, que se colocam na parede e servem para pôr os santos em cima. saberás com certeza ao que me refiro. Comprei uma na Feira da Ladra por dois euros, pequenina, exactamente como eu queria, agora procuro outra, normalmente há-as muito grandes, e os meus santos são pequenos...
    bom, e por hoje é tudo, agora vou dar uma vista de olhos por aqui.
    beijinhos
    zoe
    PS tenho um colega que já me chama zoe, a zoe isto, a zoe aquilo, demais...

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  9. Essas pequenas prateleiras chamam-se mísulas.

    Beijinhos

    Luís

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  10. Exactly! Uma Mísula para Zoe. Até dava par título de filme ou livro!!!!!
    beijinhos

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  11. Olá Luís Y
    Andava eu na net saltitando de sitio em sitio, pesquisando em "velharias",Vista Alegre", "Leilões" etc. quando deparei com as suas peças herdadas (as das florzinhas).Belíssimas sem dúvida!E muito bom o seu blog. Já o guardei nos favoritos e sou sua visita diária.Quanto à sua mesa que veio de Outeiro Seco, vi uma muito parecida numa casa de velharias e restauros em Ovar, com a particularidade de ter os puxadores facetados e em vidro num verde muito bonito. Tinha uma pega lateral para a toalha. Estupidamente não a comprei....
    Continuarei a visitá-lo

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  12. Fiquei muito contente com o seu comentário, Maria Gabela e espero continuar a lê-la neste blog.

    Por vezes. também me acontece ficar a morder-me por ter deixado escapar boas peças a bom preço, mas o espaço em casa e o dinheiro não chegam para tudo.

    Abraços

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  13. Boa tarde Luis v,é assim?

    Uma minha amiga q vive na América,mas nasceu em Outeiro Seco encontrou seu blog e logo me "mailou"para eu vir aqui cuscar.
    Entrei assim c certo receio de incomodar,mas suas histórias,julgo reais,me encantaram.
    Não nasci em Outeiro Seco,mas me adoptaram por lá ter vivido cerca de 10 anos,isto há 40 atrás.
    Pertenço à família do Padre Dias,não sei se conheceu ou ouviu falar.
    Vou adicionar o seu blog aos meus favoritos e quando nos quiser visitar,estaremos no blog "oUTEIRO SECO-TRADIÇÃO E MODERNIDADE"
    Se possível gostaríamos de contar c a sua participação no referido blog.
    cumprimentos
    leonor.moreira

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  14. Cara Leonor Moreira

    Muito obrigado pelo seu comentário, que me deixou muito sensibilizado.

    Também não nasci em Outeiro Seco. Passei apenas escassas férias por lá quando era garoto. Este blog tem sido a forma de reatar os laços com o passado da minha família em na terra de Outeiro Seco.

    Já entrei em contacto com o Altino Rio e já combinámos formas de colaboração

    Abraços

    Luís

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  15. Caro Luis,
    obrigada por ter respondido.
    Já agora um slogan da autoria de Dr.Costa,um outeiro secano, comentarista e colaborador do blog "tradição e modernidade":
    "Outeiro Seco tem pinta!"

    Usamo-lo nos nossos comentários,c o aval do autor,claro.
    cumprimentos
    leonor moreira

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  16. Se me permite a correcção, D. Pedro V morreu, é verdade de tifo, mas no Palácio das Necessidades e não no Palácio da Ajuda. Se bem me lembro, o rei adoeceu depois de ter passado uns dias em Vila Viçosa, onde bebeu água de uma fonte (não consigo precisar a fonte desta informação). Também dois irmãos de D. Pedro V faleceram da mesma doença, um antes e outro depois do rei, no espaço de pouco dias, o que levantou a suspeita popular de envenenamento. O irmão sucessor, D. Luís I, para não morar no Palácio onde estas trágicas mortes ocorreram, decidiu mudar-se para o Palácio da Ajuda.

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  17. Caro Joka

    Muito obrigado pelo seu comentário pertinente, que enriqueceu este blog. Há cerca de 20 anos trabalhei num arquivo histórico, que tinha um enorme fundo sobre o século XIX português (o Ministério do Reino) e lembro-me de ler um relatório da época que descrevia a falta de condições de higiene do Palácio Real a propósito da morte do Rei, que me impressionou muito. Claro, com o tempo, a confusão fez-se na minha cabeça e as Necessidades transformaram-se na Ajuda. O objectivo do exemplo era mostrar a falta de condições de higiene nas casas do século XIX.

    Volte sempre a este blog e um abraço

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