terça-feira, 26 de julho de 2011

Mais sobre a faiança de Estremoz

Quando apresentei o post com a tampa da terrina do Manel, algumas pessoas congeminaram como seria o resto da peça, já que a tampa era por si só tão bonita. Talvez por querer satisfazer a imaginação desses seguidores, a nossa primeira seguidora misteriosa enviou-me imagens de uma terrina completa da sua própria colecção, que também é atribuída a Estremoz.



Nesta peça, podemos observar novamente a técnica de pintura atmosférica, que torna a produção da fábrica de faiança de Estremoz famosa. Como já referi no post anterior, para criar uma sensação de profundidade, pintam-se com cores mais escuras os elementos mais próximos do observador e aqueles que se quer dar a ideia que estão mais longe, são pintados com cores desvanecidas.



O uso do termo atmosférico tem a ver com o facto de que a técnica é geralmente utilizada para pinturas de espaços exteriores, para representar as poeiras e a humidade que distorcem o que o olho vê.



Mas não são só as perspectivas de pintura, que são notáveis nesta peça, mas também os pormenores das pegas da terrina e da tampa.



Mas como a nossa seguidora misteriosa é generosa, enviou-nos também uma bonita travessa, representando uma paisagem com casario da Fábrica de Estremoz, pintada na mesma técnica acima descrita.



A propósito do termo Fábrica, que usamos indiscriminadamente nestes blogs para falar do Rato, de Miragaia, Massarelos ou de Estremoz, entre outros, convém esclarecer, que em História, só se usa o termo fábrica, para grandes unidades de produção mecanizada, nascidas depois da revolução industrial, que como toda a gente, começou na Inglaterra em meados do Século XVIII e na restante Europa, ao longo do século XIX. Até à revolução industrial o que existem são manufacturas, unidades de produção já maiores do que as simples oficinas familiares, mas ainda com uma forma de trabalhar manual, aliás como o próprio nome indica (em latim, Manufactura, quer dizer feita à mão).



Ora, Estremoz, Viana, Rato, Miragaia, Juncal não tinham uma produção em massa mecanizada, como mais tarde, na segunda metade do Século XIX, veio a ter a Fábrica de Loiça de Sacavém. A rigor deveriam ser designadas por manufacturas. Contudo, segundo nos explica Sven Staff, na obra a Faiança portuguesa: fábrica de Estremoz, 1997 em Portugal, o termo usado nos documentos oficiais do século XVIII e princípios do século XIX é sempre Fábrica. Escreve-se a propósito da Real Fábrica do Rato, fazem-se requerimentos para a Fábrica de Miragaia no Porto ou relatórios sobre a Fábrica de Massarelos. Em suma, pode-se usar com propriedade o termo fábrica para estas unidades de produção cerâmicas, que estiveram activas entre 1750 e 1850, embora na realidade elas tivessem sido manufacturas.

7 comentários:

  1. Luís , agradeço o mais uma vez nos brindar com 2 peças maravilhosas e uma óptima lição de História de Arte .
    Bem -haja
    Quina

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  2. Que belo e instrutivo post, e mais que tudo que peças maravilhosas estas de sua misteriosa e secreta seguidora! Ficquei louco com a pintura e as alças da tampa/terrina.
    Obrigado e parabéns para ambos!
    abraços

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  3. Olá Luís,
    Mais duas belas peças da sua seguidora misteriosa que não pára de nos surpreender e maravilhar.
    Gostei da sua explicação, vinda já do outro post, àcerca da técnica de pintura atmosférica, termo e técnica que não conhecia.
    De vez em quando requisito a obra "Cerâmica Neoclássica Portuguesa" e tenho-a agora em casa de novo.
    Causa-me alguma perplexidade que nessa obra a faiança deste tipo com paisagens seja quase toda atribuída à Bica do Sapato, só uma ou duas peças com paisagem são referenciadas como Estremoz e eu não sei como é que se vêem as diferenças entre as duas produções, não havendo marcas, claro.
    Sempre estas incertezas e dificuldades de identificação em relação à nossa faiança e por isso tenho pena de não ter acesso à obra de Sven Staff, que nem sei se está à venda.
    Abraços

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  4. A Maria Andrade tocou com o dedo na ferida. Fiz este post sempre com a dúvida "serão Bica do Sapato?". Ontem, no Museu Nacional de Arte Antiga passei novamente pela secção de faiança e experimentei a mesma dúvida. As produções das duas fábricas são parecidas. Talvez a Bica do Sapato tenha uma decoração um pouco mais sofisticada.

    Por outro lado, sei que a nossa seguidora misteriosa compra em leilões peças, que vierem de colecções já conhecidas e portanto são obras com "pedigree". Por isso avancei com o post tomando-as como Estremoz.

    O Sven Staff apresenta no final da obra "Faiança portuguesa: fábrica de Estremoz" um capítulo só para a Bica do Sapato, onde expõe as semelhanças entre as produções das duas fábricas, sem concluir muita coisa.

    Eu tb não entrei por essa área no post, pois senti que me faltavam conhecimentos. Normalmente só escrevo quando tenho alguma segurança sobre o assunto.

    A obra deste senhor ainda está à venda e é cara que se farta , mas vale a pena. Como é alemão é muito sistemático a enumerar as suas ideias e torna-se assim muito fácil lê-lo.

    Abraços

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  5. Caro Fábio.

    Imaginei logo que perdesse a cabeça com as asas e a pega. Já começo a conhecer os seus gostos.

    Abraços

    Luís

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  6. Quina

    Muito obrigado.

    Já aqui o disse muitas vezes. A obrigação de escrever dois textos semanais obriga-me a um trabalho muito engraçado, que envolve pesquisa e é um estímulo para mim

    Abraços

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  7. http://www.facebook.com/pages/Coisas-do-Tempo-Velharias-e-Antiguidades/119567251473854

    Divulguem e dêem uma vista de olhos!

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