segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Lá, onde o Norte da Europa se anuncia


Estou de férias no Norte e não me apetece falar de faianças, mobílias antigas, porcelanas ou outras velharias. Fiz como centenas de milhares de portugueses nesta altura do ano, regressei à terra.

Uma natureza excepcional, onde se anuncia já o Norte da Europa

Nós, os Portugueses, vivemos todos ao monte na faixa litoral que vai de Braga a Setúbal, passando pelo Porto, Coimbra e Lisboa, em apartamentos novos, sem graça nenhuma, situados nuns bairros cinzentões dos anos 70, 80 e 90. Mas, há cerca de 50 anos que as universidades, as fábricas e os serviços, os empregos e as oportunidades estão na faixa litoral e os nossos avós, pais ou mesmo nós, abandonámos o interior, os campos e as casas de pedra.



O interior está cheio de casas degradadas, solares arruinados, terrenos incultos e até nalgumas regiões do País há aldeias abandonadas. Eu até tenho a teoria pessimista, que daqui a vinte anos, com o envelhecimento da população, uma percentagem significativa de aldeias portuguesas desaparecerão pura e simplesmente do mapa.

A casa familiar, construída segundo a moda da Casa Portuguesa de Raul Lino

Todas estas considerações pessimistas, vem a propósito do reencontro com a terra de origem e com a velha casa familiar, onde já ninguém vive e sobretudo com uma natureza excepcional, onde se anuncia já o Norte da Europa.


Não me preocupo muito com a minha morte, nem o que farão do meu cadáver e nem vou maçar os meus descendentes com exigências despropositadas no testamento, mas confesso que depois de morrer, tenho o desejo romântico de ver espalhadas as minhas cinzas pelas montanhas de Vinhais.




As fotografias são da minha sobrinha Isabel

8 comentários:

  1. Que lindas fotos, Luís!
    O mérito é da sua sobrinha mas teve a ajudá-la uma paisagem lindíssima!
    Sabe, tocou num assunto que me causa alguma perplexidade. Sendo o nosso país tão pequeno, não havendo grandes distâncias entre o interior e o litoral, onde se situam, é certo, as nossas principais cidades, não compreendo esta tendência de se vir tudo amontoar nesta faixa.
    A tendência já vem de longe, mas acentuou-se mais nas últimas décadas e afinal hoje em dia há cidadezinhas do interior que oferecem melhor qualidade de vida que os grandes centros urbanos.
    Gostei muito da casa da sua família, merecia estar habitada. Agora há estrangeiros a ocupar as aldeias abandonadas, eles lá sabem porquê!
    Também gostei dessa ideia romântica, mas ainda é cedo para tais pensamentos...
    Por enquanto, trate de gozar umas ótimas férias.
    Beijos

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  2. Maria Andrade

    Só na grande Lisboa, margem Sul incluída, amontoam-se praticamente 3 milhões de portugueses, o que é um disparate num país com cerca de 10 milhões. Cada vez penso mais nisso sobretudo quando vou para o Alentejo ou Trás-os-Montes, província à qual me ligam raizes fortíssimas. E a vontade de regressar ao Norte, manifesta-me com mais força nestes dias de férias, ainda que seja um desejo meramente romântico, como este ter as minhas cinzas espalhadas nestes montes.

    Bjos e obrigado pelo seu comentário

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  3. Olá Luís,
    Boas férias e boas fotos.
    Aproveita o verde e o ar puro e esquece durante bastante tempo as cinzas.
    Para já bastam os incêndios que cada ano se encarregam de espalhar umas quantas.
    Um abraço,
    Berto

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    1. Caro Humberto

      Muito obrigado. Fico sempre contente por te ver pelo blog.

      Regressar ao Norte é sempre um sentimento contraditório. Sinto a despreocupação e a alegria das férias, mas ao mesmo tempo sei que um dia vou perder esta casa e a ligação a Tras-os-Montes, o que me causa mâgoa. Mas, enfim temos que aproveitar cada dia

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  4. Ola Luís,

    Em primeiro lugar boas férias !

    Realmente o Luís é uma caixa de surpresas, pensava que iria espreitar alguma novidade sobre uma jarra e deparo-me com este post encantador e inspirador. Realmente a sua escrita é muito agradável, seja de que assunto se tratar é sempre bom ler o que vai partilhando nesta rede.

    Luís, alguns anos atrás eu deixei de viver em um apartamento e fui atrás deste sonho de voltar um pouco as origens, fui com os meus cães (era difícil cuidar deles, que sempre viveram em um apartamento, mas após uma mudança de trabalho, tornou-se difícil encontrar horário para levá-los tantas vezes a sair, etc). Não fui recuperar nenhuma casa, mas recuperei um terreno (situado nos arredores de lisboa - zona de Caneças) que estava a transformar-se em uma lixeira. Construi o essencial para viver e comecei a plantar árvores, horta, etc). O que falha nisto tudo é que acaba por ser muito difícil manter uma vida ligada ao campo, ou a uma vila, quando continuamos a ter um emprego numa cidade grande.

    Por exemplo: as minhas despesas de manutenção e conservação triplicaram e por vezes nunca conseguimos que o que os espaços à nossa volta sejam cuidados.

    Imagine que se eu cuido de toda a vegetação dentro da minha propriedade e dos arredores mais próximos. Todos os restantes terrenos e ruas a volta são cheios de mato, lixo, as ruas cheias de buracos. E depois não adianta comunicar as juntas de freguesias, Câmaras Municipais etc. Depois é o que se conhece um país com casas em ruínas, campos e florestas ao abandono, vandalismos e o que mais me apavora: os constantes incêndios.

    Enfim...penso que levará alguns anos até que algo de inovador seja criado e que permita o regresso das pessoas a locais como os que idealizámos.

    Espero que continues a partilhar as suas experiências ! E que leve muitos anos até chegar o dia em que suas cinzas sejam espalhadas por estes montes e florestas.

    Um abraço /

    José Oliveira

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  5. Caro Zé Oliveira

    Obrigado pelas palavras simpáticas. Nunca sei se te hei-de tratar por tu ou você.

    Os homens são agricultores há 5 ou 7 mil anos e todos nós acabamos por nos sentir um pouco deslocados na vida da cidade, ou pelo menos a partir de uma certa idade. Também acontece que poucos de nós podemos voltar ao campo. Cada vez a idade da reforma aumenta mais e quando pudermos deixar os empregos, já não teremos força para pegar num sacho e dar azo aos instintos campestres.

    Também é verdade que quem consegue a almejada casa de campo se debate com os problemas que bem enunciaste, as propriedades vizinhas cheias de barracões medonhos, bidons enferrujados e máquinas agrícolas abandonadas.

    Mas, o instinto rural está lá, a chamar-nos. E temos que regressar a Tara, tal como a Scarlett O'Hara, no final de "E tudo o Vento Levou" para recuperar as nossas forças

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  6. Olá Luís.Possivelmente as férias já se acabaram...digo eu! Comungo a mesma ideia do regresso às raízes da terra, e das serras que nos fazem sempre sonhar e lembrar momentos bons a sós, com a família, e amigos - apesar de quase total abandono,das aberrações urbanísticas, e outras sem tradição.

    A leitura transportou-me na minha fértil imaginação que aí foi para se encontrar com a sua querida mãe, quem sabe derramar aos ventos as suas cinzas na sua terra amada - Vinhais - tal ato solene o imbuiu na lembrança e desejo de um dia o mesmo ato seja feitos pelos seus filhos com as suas...tema mórbido - apesar de cariz verdadeiro .
    Um desejo que deixou aqui exarado e acredito será cumprido.
    Adorei como sempre o seu voltar às raízes.
    Beijos
    E bom recomeço no trabalho
    Isabel

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  7. Maria Isabel

    O desejo de ter as minhas cinzas espalhadas por estas teras do Norte é talvez uma vontade de aqui regressar e continuar a vida dos meus antepassados. Os antigos romanos tinham sempre um pequeno altar em casa com as máscaras funerárias dos seus antepassados. Eu mantenho esse tipo de culto, através do exercício das memórias. Julgo que é minha única mameira de fazer o culto dos mortos, já que não sou cristão e nem tenho fé em Deus ou Deuses.

    bjos

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