sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O brasão dos Montalvões: uma nova interpretação

O brasão dos Montalvões no Largo da Madalena em Chaves.

Hoje, vou arriscar-me a escrever sobre uma área da qual nada entendo, a heráldica, mas há dois anos descobri um brasão em Chaves, no Largo da Madalena, com as armas dos Montalvões, de que nunca tinha visto nada sobre ele escrito e que me deixou muito intrigado. Fotografei o brasão e quando cheguei a lisboa perguntei ao meu pai se o conhecia. Este disse-me que aquela casa era propriedade de um dos ramos da família, os Montalvões Machado e era por isso que ali estava a pedra. Não consegui descobrir mais nada e arquivei a imagem à espera, que caísse do céu alguma informação sobre esta pedra de armas.


Há umas semanas, recebi na biblioteca onde trabalho uma série de publicações escritas por um senhor, que foi um conceituado especialista em Heráldica e genealogia, J. G. Calvão Borges. Numa das obras deste investigador, descendente também de uma família transmontana, descobri a pedra de armas do Largo da Madalena reproduzida e uma interpretação muito diferente do significado do brasão dos Montalvões, do que daquela que até agora tem sido feita.


Assim, no Tombo Heráldico do Noroeste transmontano- Lisboa: livraria Bizantina, 2000, Calvão Borges dá as seguintes informações:

A)A pedra de armas do Largo da Madalena será coisa recente do século XX, mais propriamente de 1950, e quem a mandou fazer tomou por base, um brasão antigo, aquele, que está hoje na casa do meu primo, do ramo Montalvão Santos Silva. Ver post de Fevereiro de 2011

 
B) Com excepção dos Ferreira, as famílias representadas nas quatro partes em que se divide o escudo não são as mesmas, com que os autores tradicionalmente interpretam o chamado brasão dos Montalvões, isto é, nomeadamente o Cor. Afonso Dornelas e José Timóteo Montalvão Machado. Ver post de Maio de 2010.




Assim, segundo Calvão Borges e começando do fim, na quarta parte do escudo, a família que sé vê representada são os Pinheiros, em vez de ser os Velhos.
Os Pinheiros em vez dos Velhos


A terceira parte simboliza os Sobrinhos em vez dos Ximenes e Pessanhas. Acrescento eu agora, esta interpretação faz mais sentido, pois a mulher de um dos grandes construtores do solar de Outeiro seco, o Capitão José Álvares Ferreira, era uma Senhora chamada Maria Sobrinho. Houve pois ligações com estreitas entre Montalvões e Sobrinhos.
Os Sobrinhos

Quanto à segunda parte, não há novidades. Temos as características riscas dos ferreira.

Os Ferreiras

Mas no primeiro quartel, onde se vê o Leão e as flores de Lis, símbolos que os Montalvões, atribuem a si há praticamente duzentos anos, a família que ali estará representada serão provavelmente os Alves ou Alvos ou mesmo Álvares!
O Leão com as flores de lis que tomos tomaram por Montalvão, talvez seja dos Alvois, Alves ou Álvares

Sei que se alguns os meus parentes Montalvões ficarão chocados, mas J. G. Calvão Borges fundamenta a sua opinião em documentos de arquivo, como adiante passarei a discriminar, embora eu continue com dúvidas.



Como toda a gente sabe, uso dos brasões estava reservado à nobreza e era hereditário. Os burgueses, os plebeus, os judeus ou os mulatos estavam proibidos de usar este distintivo. O direito à pedra de armas estava regulado por Lei e era concedido pelo rei. Havia registos, documentos escritos que faziam prova que tal indivíduo ou família tal tinha o direito de mandar colocar um brasão à porta de casa. Em Portugal, no século XVIII, esses assuntos eram tratados no Cartório da Nobreza.
 

No séc. XVIII, houve um senhor, certamente descendente da família Montalvão, que pediu uma certidão neste cartório da nobreza. Do Cartório responderam-lhe em 1785, que os arquivos arderam no Terramoto de 1755, mas que a partir de uma cópia desses livros, emitiam a presente a certidão dizendo que as armas concedidas foram o brasão dos ditos alvos, ferreiras, sobrinhos e pinheiros. O nome Alvos tem um borrãozinho, o que poderá ser Alves, ou até mesmo Álvares, já que Alves pode ser a abreviatura de Álvares.

Os Alvos no Armorial Lusitano : genealogia e heráldica


Eu fiquei muito surpreendido e apesar de não perceber nada de Heráldica fui consultar O Armorial Lusitano : genealogia e heráldica / Afonso Eduardo Martins Zuquete. Lisboa : Editorial Enciclopédia, 1961 procurando outras opiniões, mas o leão que sempre tomei pelos Montalvões também aqui aparece referenciado como sendo da família dos Alvos, o que é um bocadinho desconcertante, porque estes Alvos são uma família, que já vem da segunda dinastia, com muito pergaminhos, aos contrário dos Montalvões que eram uns fidalgotes rurais.

Enfim, fiquei sem saber o que pensar, mas J. G. Calvão Borges afirma que estes erros são comuns na histórica e na heráldica e que em resultado de um qualquer equivoco muitas famílias tomam por seus, símbolos heráldicos de outras linhagens. Como Calvão Borges explica, alguns desses enganos já tem 200 ou 300 anos, o que faz com que as famílias usem de pleno direito esses símbolos, quanto mais não por via da posse que o costume confere.

Enfim, tentarei apurar mais sobre este Leão dos Montalvões, que afinal não é bem dos Montalvões

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