domingo, 26 de abril de 2015

Vaquinhas da Fábrica de Louça de Sacavém


Embora não seja um motivo decorativo muito vulgar e fácil de encontrar no mercado de velharias, o padrão vaquinhas é ao meu ver das decorações mais charmosas de Sacavém. A abadia em ruínas, as vaquinhas a pastar, os cavaleiros e a decoração são uma adaptação muito feliz dos motivos românticos da faiança inglesa.

Conforme já notou o MAFLS do blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, esta decoração só foi usada na louça sanitária, isto é, em peças como as que aqui agora apresento, um conjunto de gomil e lavanda ou em penicos. Portanto, este motivo não foi utilizado em serviços de chá, café ou jantar.

Não se sabe ao certo qual o padrão inglês, que deu origem a esta decoração, mas numa vista rápida pelos sites ingleses e americanos de faiança, parece inspirado nas chamadas english scenery, isto é, paisagens campestres e bucólicas da velha Albion, em particular nas decorações Abbey e o Cattle Scenery.
O padrão Abbey foi popular na faiança inglesa
O motivo Abbey  representava uma abadia gótica em ruínas e deve ter sido muito popular, pois assim numa pesquisa à vol d'oiseau, como diria a Princesa Rattazzi, percebi que foi produzido por umas quantas fábricas inglesas, como exemplo pela Livesley Powell, Williams Adams, Gorge Jones em Inglaterra, mas também  mais tarde por Petrus Regout, em Masstricht, na Holanda. Este padrão traduzia o gosto muito peculiar que romantismo do século XIX tinha pela ruína e sobretudo pela Idade Média. Aliás, é no século XIX, que a Idade Média começa a ser objecto de grande interesse pela historiografia.
Prato com o padrão Domestic Cattle, atribuído a Careys
Por outro lado, as vaquinhas de Sacavém parecem ter ter ido buscar também inspiração a outros motivo populares da das paisagens campestres inglesas, como a Cattle Scenery ou o padrão da Milkmaid, este último, já mostrado pela nossa Maria Andrade, num dos seus concorridos chás de terça-feira.


Em termos de datação, o gomil e a lavanda, apresentam marcas diferentes. O gomil parece apresentar a marca 729 do Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996 e portanto terá sido fabricado por volta de 1885. A Lavanda ostenta no reverso a marca 214 do mesmo Dicionário e portanto foi feita entre 1880-1896. Enfim, para simplificar a coisa, as duas peças datam dos últimos quinze anos do século XIX.

Mas é curioso observar que não só as datas são distintas, a decoração difere ligeiramente da lavanda para o Gomil. Na primeira peça há vaquinhas e ovelhas a pastar, mas também há um cavaleiro, que talvez dirija galanteios a uma linda pastora e tudo isto com a abadia gótica lá ao fundo. 
No Gomil, os cavaleiros conduzem as ditas vaquinhas a um ribeiro, onde estas bebem água. 
As próprias reservas não iguais. Uma paisagem com barcos num rio com aquilo que ao fundo parecem ser as pirâmides de Gizé preenche as reservas da lavanda. 

No Gomil também há barcos num rio, com um jarrão clássico em primeiro plano e um templete em último plano.
Enfim, esta mistura de paisagens inglesas, abadias medievais em ruínas e pirâmides do Egipto é bem típica do século XIX e foi concebida de forma muito feliz nestas peças de Sacavém de inspiração inglesa, que pertencem ao meu amigo Manel.


20 comentários:

  1. Olá Luís!

    Adorável este motivo! Nunca o tinha visto, julgo que precisamente pela razão por si explicada, ou seja, não era usado nos serviços de jantar, chá ou café.
    Se o tivesse visto em qualquer lado não sei se lhe resistiria,embora já não tenha aonde o colocar.
    Ainda há coisa de um mês atrás comprei umas ternurentas chávenas Vista Alegre com motivos infantis (coisa também muito pouco comum) e vi-me da cor dos gatos para as acomodar...
    Aliás, acerca dessas, a única referência que encontrei na net foi justamente no blog da Maria Andrade!!
    Enfim, nós e os "cacos" é uma atracção irresistível.


    Beijinhos e bom restinho de fim de semana

    Alexandra Roldão

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    1. Alexandra

      Também acho estas vaquinhas de Sacavém adoráveis. Aliás, fui eu que piquei o Manel para comprar estas duas peças e não foi muito complicado convence-lo...

      Talvez este motivo das vaquinhas perde-se leitura se fosse executado em chávenas ou peças mais pequenas.

      Eu quase que já nem compro nada. Ando há que séculos por terminar a colocação final de uma grande travessa inglesa que pendurei na cozinha. A disposição encontrada não foi das mais felizes e vou ter que tirar tudo e arranjar uma solução mais estética.

      O blogue da nossa Maria Andrade acaba por ser uma referência sempre útil quer para a porcelana europeia, quer para a portuguesa, então no que toca a chávenas.

      Bjos e obrigado

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    2. Olá,ja tive e vendi um prato com decoração vaquinhas e carimbo gilman.todo a azul,ao estilo inglês.Hugo Pinto

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    3. Caro Hugo Pinto

      E o Hugo não ficou com uma imagem desse prato? Seria muito interessante publica-lo aqui, para mostrar que além da louça sanitária, produziram-se outro tipo de peças.

      Um abraço

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  2. Gostei muito e não conhecia. vou ficar mais atenta a este motivo. Boa tarde!

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  3. Margarida

    Com efeito, a decoração das Vaquinhas de Sacavém é pouco conhecida, embora seja das mais bonitas, pelo menos segundo o meu gosto pessoal.

    Sacavém teve uma produção tão vasta no tempo, que estamos sempre a ter surpresas.

    Um abraço

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  4. Luís, também acho este padrão de Sacavém muito atraente, talvez pela nítida influência da faiança inglesa “transferware” que tanto divulgou este tipo de cenários. Quando comecei a ler o seu texto, com a referência aos padrões ingleses semelhantes a este, lembrei-me logo do “milkmaid”, mesmo antes de o Luís lhe fazer referência, mas os outros não me são tão familiares, tenho que os ir procurar na net para ver se conheço.
    Não tenho a certeza de que este motivo “Vaquinhas” apareça só em loiça ligada à higiene, há um colecionador que colabora com o MAFLS que refere a existência de um prato, mas a verdade é que devem ser peças bastante raras. Exatamente igual a este conjunto do Manel, só que a sépia, há um no catálogo de Sacavém “Primeiras peças da produção da Fábrica de Loiça de Sacavém – o papel do colecionador” e também dois bacios - ou bacias de cama, como lá são apelidados – onde se vêem as duas variantes da cena.
    Realmente os meus amigos têm muito bom gosto! Quase não há família em Portugal que não tenha loiças de Sacavém, mas peças destas poucos as terão...
    Beijos

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    1. Maria Andrade

      Obrigado pelo seu comentário.

      Limitei-me a umas quantas pesquisas rápidas pela internet e apercebi-me que ao longo do século XIX as paisagens campestres com vaquinhas ou abadias góticas em ruínas foram temas populares na faiança inglesa. Algumas dessas variantes foram fabricadas ao longo de mais de cem anos e atravessaram as fronteiras do Reino Unido, como foi o caso do motivo Abadia, também fabricado na Holanda.

      No entanto, a produção inglesa foi tão vasta, que é impossível conhecer tudo através de meia dúzia de pesquisas no Google e talvez exista um padrão decorativo igual a este, que Sacavém tenha transposto para Portugal, mas enfim, são conjecturas.

      O motivo é de tal maneira encantador, que não percebo porque é que não foi utilizado em serviços de jantar, mas talvez este padrão não resultasse em peças mais pequenas. Também consultei o catálogo "Primeiras peças da produção da Fábrica de Loiça de Sacavém – o papel do colecionador" e só lá encontrei os dois bacios ou penicos. No entanto, na faiança estamos sempre a ter surpresas e pode ser que apareçam mais peças destas vaquinhas, que não sejam em louça sanitária. Se alguém se acusar, prometo fazer um novo post.

      Bjos

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    2. Luís, então não viu um "Jarro com bacia de mãos" no motivo Vaquinhas nesse catálogo de Sacavém? E está 5 páginas antes do 1º bacio!!! :))

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    3. Maria Andrade

      Vi também essa peça, aliás vasculhei os catálogos de Sacavém que tenho cá por casa antes de escrever o post, mas não citei o livro "Primeiras peças da produção da Fábrica de Loiça de Sacavém – o papel do colecionador", pois não acrescentava nada ao que o MAFLS tinha escrito. Só achei piada aos penicos que lá vinham publicados. Ainda pensei reproduzir um deles, mas já tinha muitas fotos para pouco texto e procuro sempre que haja um certo equilíbrio entre a palavra e a imagem.

      bjos e obrigado mais uma vez

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  5. Sempre que via este motivo à venda nas feiras (já nem refiro os antiquários, que nesses, não há palavras que refiram o que sinto) ficava arrepiado com os preços que pediam.
    Na feira de Estremoz, durante anos ia vendo um conjunto destes à venda na banca de umas pessoas horrendas, e pouco honestas, de quem acho sempre importante afastar-me, os quais julgavam que estavam a vender as jóias da coroa de Inglaterra!!!
    Seja pela forma irregular, mas pouco comum, que aparecem no mercado, seja porque as pessoas gostam tanto destas peças, que as guardam ciosamente, por forma a não se desfazerem delas, ou porque a fábrica tenha produzido poucas peças com este motivo, seja lá por que for, sempre pensei que dificilmente conseguiria ter-lhes acesso.
    Por um golpe de sorte, e porque na altura o vendedor, um senhor de Évora, já meu conhecido, e por quem sinto estima, decidiu facilitar-me a sua aquisição, lá consegui trazer estas peças para casa.
    Claro que o Luís lá me ia sugerindo que as comprasse eu, claro, mas é sempre necessário conferir a nossa bolsa, para perceber se há espaço nela que comporte tal gasto, algo que, nos dias que correm, urge sempre fazer.
    Com este receio, no último final de semana, acabei por não adquirir, um lindíssimo bule da Sacavém, deste período (estava a choviscar, por isso se vendia tão barato), e confesso que agora me arrependo.

    Achei curiosa a informação da Maria Andrade sobre a existência dos tais pratos com este motivo. Já tenho visto à venda coisas com um motivo semelhante, mas quando lhes vejo a parte de trás, são sempre inglesas.
    Mas será necessário estar atento, pois também desconhecia esta informação.
    As tuas fotografias estão muito bem conseguidas; não me lembraria fazer esta associação, que resultou muito bem. Estás a tornar-te arrojado
    Manel

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    1. Manel

      Ao longo destes anos de publicação de textos no blog apercebi-me gradualmente de forma intuitiva que cada peça tem que ter um cenário específico. Claro, poderia recortar as fotografias, como faz o Fábio ou MAFLS e só mostrar as peças, mas isso dá muito trabalho e eu dá-me mais gozo montar estas pequenas encenações para as fotografias. Aqui, roubei-te da sala de jantar este pano verde, com franjas douradas, que deu o toque vitoriano que o conjunto precisava. Enruguei-o ligeiramente como faziam os pintores das naturezas mortas. A fotografia acabou por valorizar as peças e ser uma alusão subtil ao gosto oitocentista.

      Um abraço

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    2. Castanho, Luís, o pano é de veludo castanho. lol

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    3. Ó Manel já sabes que eu não sei sei nomear as cores, mas que o pano ficou bem com o jarro e a bacia lá isso ficou.

      lol

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  6. O padrão inglês é muito bonito. Ainda bem que foi adoptado pela Sacavém.
    Beijinho.:))

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  7. Bom dia,

    apenas para informar que possuo à venda no OLX um conjunto padrão Vaquinhas. O ID do anúncio é o 504425909. Cumprimentos, A. Cruz

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  8. Tenho um conjunto igual ao da imagem para venda. Deixo contacto 914548844

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  9. Vi um jarro vaquinhas com pega de chumbo, nunca tinha visto. Era habitual, nos primeiros anos de fabricação ou não?

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    1. Cara Rita Costa

      Sacavém nunca fabricou jarras com pegas em chumbo. O que acontecia antigamente, era quando se partia a pega de uma peça de louça considerada valiosa, mandava-se fazer uma pega em prata ou em outro metal. Essa prática era mais vulgar para a porcelana. Há um colecionador de faiança inglesa, que se especializou em bules de faiança, que em tempos se partiram e os donos mandaram fazer bicos, tampas ou asa em prata ou estanho. Espreite o blog dele que é interessante http://andrewbaseman.com/blog/

      Um abraço

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