segunda-feira, 5 de junho de 2017

Relógio de bolso de um ano fatídico: 1914

Por vezes, simples peças antigas, com um valor comercial mediano são símbolos de acontecimentos dramáticos, que mudaram o curso da humanidade. É o caso deste relógio de bolso de prata, que aparentemente nada o distingue de muitos outros relógios de bolso, tão comuns entre os cavalheiros do mundo ocidental, ao longo do século XIX e inícios do XX.

É certamente de origem helvética, o que não tem nada de extraordinário, porque neste período os relojoeiros suíços estabelecidos maioritariamente, no cantão de Genebra dominavam já o mercado mundial deste tipo de relógios. É, também, um modelo que encontramos à venda no e-bay ou nas feiras de velharias (centenas e centenas de exemplares), mas de fabricantes diferentes.
A marca de punção suíça, o galo montez ou tetraz 
Contudo, são as várias marcas que ostenta, que fazem deste relógio um caso pouco diferente. Como já referi, o relógio é certamente de fabrico suíço porque dentro da caixa, apresenta uma marca de punção suíça, usada entre 1880-1933, isto é, uma figurinha incisa, representando um galo montez ou tetraz. Para quem não saiba, as marcas de punção são sinais incisos feitos por um oficial de um organismo governamental ou pelo menos com funções normativas, cuja missão é verificar a qualidade da prata produzida pelos ourives.
Marcas de punção suíças usadas entre 1880-1933. http://www.vintagewatchstraps.com/swisshallmarks.php
No caso do meu relógio, a percentagem de prata obedecia à norma estabelecida, 0,800 e, consequentemente, o oficial fez a marca do contraste com um punção. Embora o mecanismo não apresente nenhum número, num fórum de relógios em que mostrei esta peça, afiançaram-me que era tipicamente suíço.

A percentagem oficial de prata: 0,800
Já a marca do mostrador, Gravina é um mistério. Pesquisei no Google pelos termos Gravina pocket watch, Gravina montre de poche, Gravina relógios de bolso e não encontrei nenhuma relojoaria suíça com esse nome. O único resultado que me apareceu sempre foi o de uma de uma joalharia Gravina, no Paraná, Brasil, já centenária, fundada em 1906, por um senhor austríaco, Nicolau Gravina. Coloquei a hipótese de se tratar de um relógio suíço comercializado por uma joalharia brasileira, a qual colocou no mostrador a sua marca. Este fenómeno é muito comum também aqui em Portugal e encontramos vários tipos de relógios com mecanismos suíços, americanos ou ingleses, com marcas de ourivesarias do Porto ou Lisboa.
Relógio de bolso marca Gravina

Entrei então em contacto com a Joalharia Gravina, no Paraná, que ainda está na posse da mesma família e um dos descendentes confirmou-me amavelmente, que venderam relógios comercializados com a marca Gravina, mas não tem qualquer informação para um período tão recuado.

No verso, o relógio apresenta uma inscrição personalizada em português, isto é, alguém mandou o ourives gravar as iniciais S.H.E., seguidas da expressão Prémio de Estudo 1914, e, ainda um monograma com as referidas iniciais. Portanto, este relógio foi oferecido em 1914 como prémio a um jovem que se distinguiu nos estudos.
 
Conversei com o meu amigo Vasco, que me ofereceu este relógio, uma herança familiar, mas ele não se lembra de nenhum antepassado cujo nome correspondesse as estas iniciais. 

Restaram-me então conjecturar histórias à volta do relógio. Engendrei uma história romântica em que um titio português enriquecido no Paraná, oferecia este relógio suíço a um sobrinho querido, como prémio dos seus resultados escolares brilhantes, mas a hipótese caiu por terra, pois não consegui provar que este relógio tenha sido comercializado pela joalharia Gravina. 

Ainda assim, 1914 foi o ano em que começou a primeira guerra mundial e pude imaginar que o jovem promissor, a quem foi oferecido este relógio, morreu prematuramente nos campos de batalha da Flandres. Mas, uma coisa é certa, o jovem estudante promissor de 1914 não pode usar este belo objecto de prata nas trincheiras, porque para quem estava deitado, com uma espingarda na mão, era impossível tirar o relógio do bolso, sem se levantar, e arriscar-se a apanhar um tiro. Por essa razão, durante primeira guerra mundial, os relógios de pulso generalizaram-se entre os combatentes e os relógios de bolso começaram a passar irremediavelmente de moda.
 
 
Aditamento: Depois da publicação deste post, o amigo que me ofereceu o relógio, o Vasco identificou o monograma como correspondendo às iniciais de um tio seu, Humberto Oliveira Barbudo (H.O.B.) nascido em 1904 e que à época deste relógio teria 11 anos. Nesse caso, é mais provável que as iniciais S.H.E. correspondam ao nome de quem ofereceu o relógio e o monograma a se reporte ao nome do jovem estudioso. Enfim, perdeu-se em ficção, ganhou-se em verdade.
 
 

2 comentários:

  1. Tenho um certo prazer nostálgicos nestas peças, e nunca deixo de pensar que prazer deve ter dado a um possuidor dum relógio destes o seu uso, pois eram caros e representavam um certo estatuto social, sobretudo quando feitos de materiais nobres, como é este o caso.
    Talvez, por isso, nunca deixo de sentir uma certa nostalgia quando manuseio um relógio de bolso que anda aqui por casa, e que pertenceu a um dos meus avós, o qual, em todas as fotografias em que aparece em corpo inteiro, ou mesmo meio corpo, leva uma corrente em prata que ligava ao respetivo relógio que carregava no pequeno bolso do colete.
    É uma lembrança do passado, de uma era que terminou há muito.

    Fizeste um bom trabalho de detetive neste relógio de bolso, e que não deve ter sido nada fácil, tanto mais que, à partida, não sabias nada sobre eles.
    Quanto às letras que aparecem na dedicatória não me parece que a primeira seja um "J", mas sim um "S", pois era esta a forma como aprendi a desenhá-lo quando preenchia cadernos infindáveis com letras maiúsculas, minúsculas, ditongos e outras palavras simples que se repetiam até ao infinito na primeira classe da antiga escola primária, como era designada.
    Também ao lado existem algumas iniciais, talvez do ofertador, quem sabe
    Manel

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    1. Manel

      Tens toda razão. Trata-se de um "s" e eu próprio já tinha chegado a essa conclusão através da consulta de um manual de caligrafia, que tenho na biblioteca. Esqueci-me foi de alterar o texto que já tinha começado a alinhavar há uns dias. Como eu escrevo aos bochechos, alterando a toda a hora as frases e as palavras, ficam-se sempre fantasmas do texto anterior na versão final.

      Com efeito, tive que fazer um mini curso sobre relógios, uma área de que nada entendia e até foi engraçado que fiquei com algumas luzes sobre o assunto.

      Um abraço

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