terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopeira de faiança portuguesa: cores como num um arco-íris

 
Escrever sobre faianças portuguesas do século XIX é sempre ingrato, pois as peças não eram marcadas, as fábricas copiavam os padrões e os modelos umas das outras e quanto muito, conseguimos afirmar sem grande fundamentação, que uma peça é da zona centro, porque a pasta é mais amarelada ou é do Norte, porque a pasta é mais branquinha e o vidrado de melhor qualidade. Por vezes temos a sorte de encontrar num museu ou no num livro de arte uma peça idêntica à nossa e lá conseguimos dizer “isto deve ser Vilar de Mouros, Miragaia, ou Santo António de Vale da Piedade”. Mas, a maior parte das vezes as perguntas que fazemos sobre o centro de fabrico ou datação das nossas peças ficam sem resposta. Atribuímos esta ou qual peça a um centro de fabrico mais ou por intuição ou por experiência do que baseados em provas concretas.
 
Como a maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX, esta sopeira não está marcada.
 
É o caso desta pequena terrina que comprei recentemente. A boa qualidade do vidrado e as cores vivas levam-me a intuir que será uma peça do Porto ou Gaia, fabricada algures na segunda metade do XIX. Mas, não consegui encontrar nada que sustente esta teoria. Percorri os catálogos da exposição do António Capucho e do respectivo leilão, da fábrica de Vilar de Mouros, de Miragaia, dos Meninos Gordos, a tese sobre Santo António de vale da Piedade de Laura Cristina Peixoto de Sousa e ainda Itinerário da faiança do Porto e Gaia e não encontrei nada igual.
 
Fragmento de louça de Santo António de Vale da Piedade. Este tipo de flores encontra-se em quase toda a faiança portuguesa. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista"
A decoração é feita com umas flores muito simples, que poderiam ter sido pintadas em qualquer época ou em qualquer ponto do País. A Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, Massarelos, Bandeira e se calhar também em Coimbra usaram estas flores muitos simples na pintura das suas peças. Aliás, se a um de nós nos pedissem para desenhar umas flores rapidamente, faríamos umas iguaizinhas a estas. A decoração foi feita à estampilha, técnica usada por todas as fábricas ali no Porto e em Gaia, naquela época. Quanto à forma circular, também é muito comum. Até já apresentei uma dessas terrinas aqui no blog, que nunca sei se é Bandeira ou Fervença. Segundo a obra Itinerário da faiança do Porto e Gaia as terrinas circulares designavam-se pelo termo sopeiras.
 
Estampilha de tampa de recipiente da fábrica de Massarelos (MNSR).  Um artefacto semelhante a este foi usado para decorar a minha terrina. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista.
Em suma, posso apenas adiantar um palpite, de que esta sopeira foi fabricada algures pela segunda metade do Séc. XIX no Porto ou em Gaia. Contudo, apesar do anonimato em que se esconde o fabricante ou o artista, que concebeu desta sopeira de pequenas dimensões, não lhe faltava criatividade e houve aqui uma espontaneidade no uso das cores vivas, que ainda hoje nos desperta a admiração. Parece que de repente ouvimos ao longe aquela música Cindy Lauper, true colors, que encoraja as pessoas a não terem medo de mostrar as suas verdadeiras cores ao mundo.
 
 

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow


12 comentários:

  1. Se fosses mal intencionado, com "manias de dótor das cerâmicas" ou quisesses fazer um "figurão de pessoa culta" (só se fosse de quão inculto serias), serias assertivo na atribuição e até irias buscar exemplos que nada teriam a ver, mas que te dariam um "ar de um figurão" da cerâmica ... isto é, a figura seria de parvo completo.
    Mas, por sorte, e porque és rigoroso e cauteloso, não te acontece tal, e andas com toda a cautela nestas elucubrações acerca destas cerâmicas não marcadas, e creio que tomas o caminho correto.
    E esta tua peça é bonita na sua simplicidade e não mereceria tal sorte.

    Ainda no último final de semana um vendedor queria vender-me uma peça que, parecendo bonita e interessante, era uma peça de estampilha, colorida, talvez de finais do XIX, como sendo do Juncal (não fazia por menos), e pedia preço a condizer.
    Tinha uma lábia de quem faz muitas feiras (até parece que conhecemos bem o tipo de pessoa que o faz!) e tinha o papel de quem está habituado a que os pobres dos outros vendedores a ele se dirijam para que aquela sumidade diga, qual vate, a que fábrica esta ou aquela peça pertence.
    Devem ser os "atribuidores" oficiais destas feiras, e que, com este papel, tornam-se "ladrões legais", pois enganam a "torto e a direito".
    E todos nós, ou pelo menos muitos de nós, o sabe, que o dinheiro não é fácil de ganhar para que estes "vendedores da banha da cobra" no-lo andem a roubar de forma descarada - muitas vezes até, e estou pronto a acreditar, de boa fé, mas o resultado, sendo de boa ou má fé, acaba por ser sempre o mesmo.
    Claro que eu, não sabendo grande coisa, vou estando atento, e contornando o embuste, mas isso não é seguro. Poderei perfeitamente ser enganado, claro, depende do nível a que esse engano acontecer.

    Tudo para que o vulgar cidadão frequentador de feiras e amador de faianças se precaver contra estas pessoas que têm um ar normalíssimo, bem falantes (cheios de lábia), boa apresentação, pressurosos e rápidos na "ajuda", mas que são a evitar cuidadosamente.
    Manel

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    1. Manel

      Esta sopeira apresentas muitas das características da faiança portuguesa do Norte, produzida na segunda metade do século XIX e portanto parece-se um pouco com as produções de Bandeira, Fervença, Santo António de Vale da Piedade, Massarelos, Vilar de Mouros e sei lá que mais. É inútil tentar especular quando não temos provas que suportem os nossos palpites.

      Nomes como Juncal, Miragaia ou Rato são usados pelos vendedores para designar qualquer coisas, que lhes parece muito boa, antiga e que querem vender muito caro. Quem quiser não cair na lábia devestes vendedores deve procurar ler o máximo possível sobre o assunto e visitar museus.

      Em todo o caso a beleza da faiança portuguesa e a criatividade muito livre dos seus artistas fazem-nos esquecer todos os disparates que ouvimos e lemos. Este post é aliás um elogio à forma como se usou a cor na faiança portuguesa do XIX.

      Um abraço

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  2. Agora comento aqui, e não apenas no facebook, como já o fiz. E ver a postagem completa é sempre muito melhor! Adorei ver a estampilha apresentada. Nunca imaginaria algo assim, no formato da peça, fantástico!
    Sobre as flores, é piada o que vc falou, pois até os meus pratos de faiança que eu pintei na Oficina da Formiga tem destas flores!! E fui eu mesmo a fazer as estampilhas, claro me baseando em faiança tradicional. E fiquei pensando, mesmo que sendo eu brasuca, meus pratos não deixam de ser uma experiência em faiança tuga, mesmo que contemporânea. E pensar assim me deu felicidade e saudade.
    abraços!

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    1. Fábio

      Muito obrigado pela palavras simpáticas.

      Creio que há um vocabulário decorativo no inconsciente de todos e que é velho de séculos. Tu aí no Rio de Janeiro não só herdaste a língua portuguesa, a cor dos olhos e do cabelo, como também uma carga cultural, que entre outras coisas é composta de imagens.

      Achei muito interessante mostrar esta estampilha de tampa de recipiente da fábrica de Massarelos, não só para as pessoas perceberem claramente como estas decorações eram produzidas, mas também para mostrar como este tipo de flores eram comuns nas fábricas do Porto e Gaia na época em que esta terrina foi executada.

      Um abraço

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  3. Olá Luís
    A terrina é linda com a sua conjugação de cores pouco comum. Quando eu era jovem, considerava-se que azul e verde não combinavam e como tal, havia que evitar o seu uso.Mas claro que esta pequena terrina é muito anterior a esse tempo e não tem que ver com o conceito estético da altura.Engraçado é que na na década de 80 foi grande moda a combinação do azul e verde.Recordo-me de ter tido alguma relutância em vestir-me com essas duas cores, de tal forma estava imbuída do espírito "azul e verde escarro na parede". A propósito da atribuição da origens de peças não marcadas( e não só), quero-lhe dar os parabéns pelo papel didático que aqui tem desenvolvido, ao alertar para o perigo de que "certezas" em peças não marcadas, podem induzir em erro. Informar erradamente é grave em qualquer circunstância, mas na internet assume proporções perfeitamente desastrosas do ponto de vista do rigor. Felizmente encontro cada vez menos certezas e mais cautelas nas atribuições.Sei que isso é fruto do trabalho que faz com o seu maravilhoso " Velharias".
    Bjs e continuação de boa semana

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    1. Maria Paula

      É bem verdade. O que é considerado de bom gosto na combinação de cores tem variado ao longo do tempo. Recordo-me que na altura do campeonato de futebol do Euro, creio que em 2004, tornou-se moda em Lisboa usar verde com vermelho, uma verdadeira heresia para a boa burguesia alfacinha nos anos 70, 80 e 90. Curiosamente, no tempo da República, quando se escolheu a nova bandeira nacional a conjugação do verde com o vermelho deve ter sido considerada muito moderna. Enfim, modas.

      Eu não sei combinar cores. Por essa razão, desde a adolescência refugio-me nas conjugações "ton sur ton". Se calço uns sapatos azuis, as calças, a camisola, as meias e até as cuecas serão da mesma cor. Talvez por ter tanto medo da cor, aprecie tanto a liberdade e ousadia dos artificies do Porto e Gaia de meados do século XIX, que criaram esta louça com cores tão vivas e alegres e que se harmonizam tão bem como num arco-íris.

      Quanto às atribuições, além de cautela é preciso não ter pressa. Um dia vamos descobrir num estudo arqueológico, num catálogo ou num museu outra peça que nos vai fornecer a chave para identificar o prato ou a terrina que temos lá por casa.

      Beijos

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  4. No japão dizem que uma peça partida tem mais "valor" que um intacta pois apresenta muito mais história. Não é que eu concordo...=)

    Bonita peça

    Cumprimentos

    https://otempotemhistorias.wordpress.com/

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    1. Caro(a) O tempo tem historias

      Muito obrigado pelo seu comentário muito oportuno. A Yourcenar também escreveu que o tempo é o grande escultor, que modifica, melhora e embeleza a peça, depois desta sair da oficina do escultor, do ceramista ou do pintor. Enfim, todos sabemos que um edifício em ruínas tem muitas vezes a poesia muito própria, bem como estas loiças, de tal maneira preciosas para os seus proprietários, que as mandavam colar e gatear, cada vez que se partiam.

      Fui espreitar o seu blog, que achei muito interessante. Fico contente por saber que há outras vez mais pessoas a escrever sobre velharias.

      Um abraço

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    2. Muito obrigada... Ainda bem que gostou, visite-me quando assim o desejar =)

      Posso sugerir o seu blog quando postar sobre faianças?

      Cumprimentos

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    3. Mas claro que pode sugerir o meu blog quando postar sobre faianças. O que escrevo é público e cada que referir o meu blog, é como se afirmasse que gostou do que leu.

      Um abraço

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  5. Boa tarde, achei curioso e aprendi hoje que havia faianças do sec.XIX que não eram marcadas. Herdei agora 2 pratos de faiança que gosto muito mas não faço ideia do que sejam. Têm bastante cor e são sefuranmente muito antigos pois vieram de casa da minha avó e já tenho 54 anos. Adoro velharias e cresci a comprar velharias e algumas antiguidades com o meu pai que por sua vez comprava com o meu avô. É um gosto que cresce connosco.

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    1. Cara Concha.

      É bem verdade. A faiança portuguesa do séc. XIX é um quebra-cabeças, pois raramente as peças estão marcadas. No entanto, a sua ingenuidade confere-lhe um grande encanto e há um grande colecionismo de faiança antiga em Portugal e os preços no mercado de velharias são muito mais elevados que os praticados para peças da mesma época da Vista Alegre.

      Para tentar descobrir o centro de fabrico ou a fábrica dessas peças, há que ir comprando publicações sobre faiança, comparar e ir visitando museus e muitas vezes só se consegue chegar à conclusão, que isto é Coimbra e aquele outro é Porto.

      Em todo o caso o assunto é fascinante e estamos sempre a ter novas surpresas.

      Um abraço

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