quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Magnífica Chaves


O centro histórico de Chaves está bem conservado. A cidade é uma espécie de Guimarães em miniatura e depois passear pelas suas ruas antigas, onde viveram tantos dos meus antepassados paternos, é sempre uma espécie de peregrinação sentimental. Cada parte da cidade é um conjunto de histórias de que eu ainda me recordo ou de que me lembro de ouvir o pai ou a avó falar. No bairro da Madalena viveram os meus bisavôs, logo ao lado, os pais da minha bisavó Aninhas, um pouco mais frente, a minha tia Natália, num prédio antigo do século XIX, no último andar, cuja varanda dava a volta à casa toda e da qual se tinha uma vista espantosa sobre o Jardim da Madalena. Em miúdo, o meu avô Silvino levava-me a passear a esse jardim e ainda hoje, quando sinto o cheiro a buxo, comovo-me sempre, porque traz-me à memória esses momentos, que devem ter sido felizes. Na outra margem do Tâmega moraram a minha avó Mimi, a tia Maria Antónia e ainda, a tia Antoninha, cuja forma de receber fazia justiça à célebre generosidade transmontana. Quando a visitávamos, recebia-nos na sala de estar, trocava meia dúzia de palavras de circunstância e depois desaparecia para dentro, deixando a filha a entreter as visitas. Passado algum tempo, voltava, abria as cortinas da sala de jantar e o pequeno lanche para o qual a Tia Antoninha nos tinha convidado era um verdadeiro banquete. A Tia Antoninha era daquelas pessoas, que sabia conquistar o coração dos outros através da arte da culinária. Cozinhar com empenho e arte é uma forma de amar. 

Mais além, no largo em frente ao Tribunal de Chaves, a minha irmã aprendeu a andar de bicicleta. Na altura, logo no início dos anos 70, ninguém suspeitava que, por debaixo do empedrado com calçada portuguesa, existiam umas termas romanas luxuosas, que foram postas recentemente a descoberto, aquando da construção de um parque de estacionamento. A Câmara abandonou a ideia do parque para estacionar carros e tomou a decisão corajosa de manter as ruínas e abri-las ao público, e fez muito bem, porque elas são as termas romanas mais bem preservadas de toda a Península Ibérica. É um conjunto impressionante do qual as fotografias não conseguem transmitir a escala grandiosa. Creio que poderiam servir em simultâneo cerca de 70 a 80 pessoas, o que dá ideia da importância da Chaves romana. Mas não eram umas termas quaisquer cujos banhos tivessem apenas fins higiénicos e que existiram em todas as cidades romanas com alguma importância. Eram termas com fins terapêuticos, aliás as piscinas estão ainda cheias de água quente, que brota do solo. Este conjunto termal ocupava uma parte importante da cidade e constituía um núcleo definidor do aglomerado urbano. Aliás, percebe-se agora muito melhor o antigo nome da cidade Aquae Flaviae, que traduzido à letra, quer dizer, as águas dos Flávios. Só é pena que este monumento arqueológico esteja tão mal aproveitado. No interior não há qualquer placa na parede com uma explicação do que foi o edifício, quando foi construído ou destruído e muito menos legendas explicativas sobre as várias piscinas e condutas de água. Também não há à venda um desdobrável, uma brochura ou postais ilustrados. Enfim, quem quiser saber mais que vá chafurdar para o Google, e é uma pena porque uma boa musealização das ruínas poderia atrair muitos e muitos turistas à cidade. Chaves, além de contar com a melhor ponte romana do território português, passa agora a ter o melhor conjunto termal da Península.  
 


Mais informações sobre Balneário Termal Romano podem ser lidas em:
 
 

8 comentários:

  1. Prezado Luís Montalvão:

    Enquanto flaviense com diferente opinião, congratulo-me com o que expressa sobre a boa preservação do centro histórico de Chaves.

    Relativamente à ausência de informação no local, e à musealização das termas romanas, a verdade é que, durante a execução da primeira fase da obra, os tapumes apresentavam uma aceitável contextualização e descrição do espaço arqueológico.

    O facto é que existe uma segunda fase do projecto, para a musealização, que já foi adjudicada e se encontra em execução, conforme foi anunciado, há já muitos meses, em apresentação e discussão pública da primeira fase do projecto.

    Essa segunda fase prevê ainda a correcção de alguns aspectos negligenciados no infeliz projecto de arquitectura, que retirou amplitude à praça e mais parece apenas um projecto de sólida engenharia, como a natural existência de condensação, o que confere aos alçados o já adiantado aspecto de degradação numa obra que ainda nem sequer foi inaugurada.

    Quanto à abertura, pontual, creio, ao público sem a devida informação e contextualização, dever-se-á certamente a uma opção política que tem em conta o actual período eleitoral e o facto de as obras se arrastarem há mais de dez anos.

    Para quem não quiser perder tempo a efectuar muitas pesquisas na internet, ficam aqui dois links:

    Para um dos primeiros artigos, que se fundamentou em várias declarações dos arqueólogos intervenientes, sobre a descoberta e as escavações:

    http://chaves.blogs.sapo.pt/319912.html

    Para um vídeo sobre a instalação das vigas com mais de 40 metros de comprimento:

    https://www.youtube.com/watch?v=-jG-n4Kj11g

    Saudações!

    MAFLS

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    1. Caro MAFLS

      Muito obrigado pelo seu comentário, que acrescentou novas informações a este post.

      O centro histórico de Chaves não está exactamente impecável, mas comparado-o com o de muitas outras cidades portuguesas está muito bem. Nas zona Oeste e Centro do País há muitas vilas e cidades cujo centro parece ter sido bombardeado pelos alemães e os pobres habitantes tiveram que construir casas novas por todo o lado, cada qual mais feia que outra por sinal. Chaves mantem o seu charme e um até certo "Pedigree".

      Percebo que as autoridades quisessem abrir as ruínas ao público, antes do projecto museológico estar concluído, para ganharem uns quantos votos. Contudo, continuo a achar que não custava a nada disponibilizarem aquilo que se chamam as "folhas de sala", isto é, folhas fotocopiadas com a informação básica do monumento, em 3 ou 4 línguas. Todos nós agradeceríamos.

      Também não apreciei o projecto de arquitectura. Imaginava para ali uma coisa com um ar mais leve, com mais superfícies envidraçadas, para quem passa-se da rua à noite pudesse ver as ruínas iluminadas. Mas eu não sou nem arquitecto, nem engenheiro.

      Agradeço-lhe muito os links sugeridos. O texto do http://chaves.blogs.sapo.pt está muito bom. Aliás, consulto regularmente esse blog.

      Em todo o caso, conservaram as ruínas e isso é o mais importante e de futuro poderão valorizar mais o monumento e muita gente passará a visitar a cidade só para ver a ponte e as termas.

      Um abraço

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  2. Incrível essas termas, que bom que mantiveram!!! Parabéns pela sua Chaves, de tão boas recordações para você. Uma bonita cidade.
    Abraços, Luís.

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    1. Jorge

      Chaves é uma daquelas pequenas cidades, cheias de charme e com um passado riquíssimo. Além destas termas, mantem a maior ponte romana existente no território, que é hoje Portugal.

      As ruínas das termas sobreviveram a 1700 anos de história, o que nos impressiona sempre. Estas termas demonstram-nos o alto nível civilizacional dos romanos e que nesse longínquo período os tratamentos termais de Chaves eram de tal maneira importantes, que o edifício era o mais importante da cidade.

      Um abraço

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  3. Caro Luís

    São sempre bons e bem vindos textos que dão a conhecer cidades e lugares que, para a maioria das pessoas, por estarem fora dos circuitos estabelecidos, são desconhecidos. Há muitos anos (!!!) estive em Chaves e recordo a fonte de águas quentes, aonde as pessoas iam buscar água nos mais diversos contentores. Recentemente, passei umas horas em Chaves e deu para desfazer a imagem que ainda conservava na memória. Está uma cidade modernizada sem, no entanto, perder as marcas que a caracterizam.
    Obrigada pelas imagens.

    Um abraço
    if

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    1. Ivete

      Este post serviu precisamente para partilhar o meu espanto e admiração perante este Balneário Termal Romano, cujas ruínas chegaram aos nossos dias. Aliás, tenho uma paixão por Roma, cuja marca na nossa civilização é tão forte. Como era possível nos primeiros dois séculos da nossa era uma cidade provincial ter um estabelecimento termal tão sofisticado?

      Vale a pena ir a Chaves só para ver este monumento arqueológico.

      Um abraço

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  4. Estive em Chaves contigo há anos, e, anteriormente, também lá tinha passado algumas semanas, aquando da estada da minha mãe naquela cidade, para um tratamento de águas.
    Em ambas as vezes gostei da cidade, se bem que na primeira ainda era menino e moço e não tinha os sentidos bem afinados para estas problemáticas da conservação dos centros históricos.
    Já da segunda vez reparei no algum esforço que se tem investido neste sentido, e gostei.
    Sendo a minha família da região de Pombal, percebo muito bem o que dizes, pois esta cidade (e não é a única que poderia servir de referência, infelizmente), parece, algures na sua história recente, ter sido bombardeada.
    Restou uma meia dúzia de edificações mais ou menos antigas, um Convento no centro que ninguém se atreveu a deitar abaixo (também era melhor!!!) e o resto, se não está cair ou mesmo no chão, é do mais feio que se pode encontrar, completamente descaraterizado. A mim, confesso, é uma cidade que me deprime, mas como já não tenho de ali passar, libertei-me deste problema.
    O centro, ainda ativo durante o dia, à noite encontra-se meio "entregue às moscas" (também já não resta muito mais), um trânsito caótico, e ... nada para ver do antigo casco histórico, que, na realidade, até me lembro de ter sido aceitável na minha juventude.
    Ao deitarem abaixo reconstruíram da pior maneira possível, pensando que aquele seria o futuro.
    É bem verdade que as cidades destinam-se a quem lá vive, e até me parece que os residentes se encontram bem com o que têm, pois nunca vi nada bradando contra os tristes exemplos que ali cresceram como cogumelos (talvez se tivesse sido escrito algo, mas, ignorância minha, confesso que nunca vi qualquer texto neste sentido).
    Com pena o digo, pois gosto de me passear por Portugal, e não o fazendo tanto quanto gostaria, acabo por o fazer amiúde; sou curioso sobre a sua história e arte, com ênfase na arquitetura, a qual, antiga ou não, creio ser importante que seja cuidada e respeite os princípios que orientem a formação urbana, no sentido de melhorar as condições de vida quer de residentes e também de visitantes, pois a sua afluência pode trazer um incremento económico que não é de desprezar.
    Um exemplo positivo a registar foi a agradável surpresa que Guimarães constituiu.
    Manel

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    1. Manel

      Pombal é um exemplo eloquente de como os centos históricos das vilas e cidades do Oeste e Centro do País foram completamente abastardados. Algumas destas terras são verdadeiras Brandoas. Parecem-se com os piores subúrbios de Lisboa. Creio que quem lá vive terá que fazer um esforço sério para não ser contagiado pelo mau gosto que impera por todo o lado.

      Guimarães é uma cidade cujo estado de conservação impecável só pode ser comparado à Évora. Talvez até tenha a vantagem de ser uma cidade mais viva que Évora, pois está cheia de boas lojas, confeitarias, restaurantes e muita gente na rua.

      Creio que o ambiente arquitectónico onde se vive acaba por influenciar as nossas vidas. Quando visitei Florença e via as ruas cheias de gente muito bem vestida, pensava "como é que eles não hão de saber combinar cores e padrões se todos os dias veem edifícios maravilhosos por toda a parte?"

      Um abraço

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