domingo, 10 de maio de 2026

Sargentos portugueses na Grande Guerra, França 1917-1918

França, 8 de Julho de 1917


No espólio da família Morais Ferreira, das terras frias de Vinhais encontrei estes dois retratos de grupo de jovens militares, que fizeram parte do Corpo Expedicionário Português em França, em 1917 e 1918. Se fizermos uma pesquisa no google por imagens, encontramos inumeráveis fotografias semelhantes a esta. Existiriam muitíssimos fotógrafos perto da frente de batalha, que faziam estes retratos às centenas, se não aos milhares, de grupos de jovens, em forma de postal, que depois estes enviavam à família, amigos ou namoradas.

Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação


O primeiro foi escrito de França, datado de 8 de Julho de 1917 e apresenta uma dedicatória, provavelmente ao meu avô materno, António da Purificação Ferreira (20.10.1886 -12.2.1949), que passo a transcrever Ao nosso amigo pedimos a liberdade de lhe oferecer esta pequena lembrança como prova de estima verdadeira e de recordação. Assinaram o António Aníbal Ribeiro, o Francisco José Alves e ainda o [O. Gomez?].

Ficha de António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Militar,. PT/AHM/DIV/1/35A/2/51/47713


Não consegui identificar no retrato os jovens, que assinaram. Descobri alguma coisa sobre o António Aníbal Ribeiro no Arquivo Histórico do Exército. Serviu na 5ª Brigada, 1º Batalhão e foi segundo Sargento. Era natural de Vinhais, filho de António Manuel Ribeiro e de Maria da Assunção Rodrigues e terá sido evacuado em 26 de Maio de 1918, afim de ser repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Pelo menos parece ter sobrevivido à guerra. Quanto ao Francisco José Alves e ao que me parece ser um tal O. Gomez não encontrei nada sobre eles. Presumo que fossem de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela.

23 de Maio de 1918 e dado em Campanha


Mas há um segundo retrato, um pouco mais tardio e com mais informações. Está datado de 23 de Maio de 1918 e dado em Campanha. Confesso, quando li este último nome pensei que os rapazes estivessem no Porto, na estação de Campanhã, prestes a partir para França ou a regressar à pátria, mas não. Segundo o meu irmão, por questões de segredo militar, estes combatentes não poderiam revelar as famílias o local exacto onde estavam. Assim, nas cartas, usavam esta expressão, que queria dizer que estavam em campanha algures. A fotografia está dedicada inequivocamente ao meu avô António da Purificação Ferreira, como prova de amizade, ofereço ao meu saudoso amigo Ferreira, segue-se uma identificação de todos os jovens sargentos e assina, o Francisco José Alves.

Identificação dos jovens. Em cima Costa, Tadeu, Tavares, Paula Morais. Sentados, Alves, Delfim, Pires, Esteves e o Lemos


Tinha encontrado um elo comum entre os dois retratos colectivos, o Francisco José Alves, com o seu bigodinho de artista de cinema. Nesta fotografia que enviou ao meu avô fez questão de identificar todos os seus camaradas, provavelmente porque eram companheiros e amigos, aos quais sentia uma ligação muito forte, mas também é provável que o meu antepassado conhecesse alguns deles, conterrâneos das terras frias de Vinhais ou Bragança. Mais uma vez tentei encontrar alguma coisa sobre qual foi o destino destes homens na flor da idade, mas foram apenas identificados como sargentos e pelos apelidos, todos eles muito comuns. Delfim, Pires, Lemos, Esteves, Costa, Tadeu, Tavares e Morais são nomes usados no País inteiro e o no arquivo do exército os soldados e sargentos encontram-se sempre descritos de uma forma mais sumária, que os oficiais e na época nestas fichas oficias ainda não se usavam fotografias.



O Francisco José Alves é o elemento comum nos dois retratos de grupo.

Acabei por deixar este assunto de banho-maria vários anos, até que há pouco tempo, inscrevi-me no Facebook num grupo dedicado ao Corpo Expedicionário Português 1916-19 e retomei as minhas pesquisas e descobri que o segundo retrato, tinha sido publicado na Ilustração portuguesa de 24 de Junho de 1918, num artigo intitulado As nossas tropas em França. Neste texto os rapazes são indicados como Sargentos da Infantaria 10 e o Francisco José Alves teve direito a um retrato próprio, na companhia do brincalhão, que aparece deitado por cima dos outros, o Alfredo de Lemos, Segundo Sargento de Equipagem. 

O segundo retrato foi reproduzido na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918

O Francisco José Alves e Alfredo de Lemos tiveram direito a um retrato próprio na Ilustração portuguesa, 24 Junho de 1918
 
A imprensa parece ter gostado destes dois sargentos e encontrei novamente os seu retratos na Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918, num artigo também intitulado As nossas tropas em França. Neste número, o nome do brincalhão é dado de uma forma mais completa, Alfredo Augusto Lemos.

Ilustração portuguesa, de 20 de Maio de 1918


Esta foi uma investigação sem grandes resultados. Natural de Vinhais, o António Aníbal Ribeiro foi repatriado e desembarcou em Lisboa a 25 de Agosto de 1918. Sobreviveu à guerra e sabe Deus em que estado terá voltado. Quanto ao Francisco José Alves, que aparece retratado nos dois postais sei apenas, que foi sargento da Infantaria 10 e seria amigo do meu avô materno, pois assinou os dois postais e é mais natural que fosse natural de Vinhais ou de algum concelho vizinho, Bragança, Valpaços ou Mirandela, mas não encontrei nada. É um nome demasiado comum.

Escrevi este texto com a esperança que alguém do outro lado do monitor, tenha fotografias iguais a esta, me escreva e me diga, o que aconteceu a todos estes jovens na flor da vida ou como cantava Marlene Dietrich, Wo die Blumen sind, ou em português para onde foram todas as flores?



2 comentários:

  1. Quando vejo estas fotos comovo-me, e acodem-me sempre maus presságios à cabeça, pois foram poucos os sobreviventes dos portugueses que participaram nesta guerra, e os que conseguiram regressar, a duras penas o fizeram, e alguns regressaram num estado de saúde tão debilitado que não sei dizer se não teria sido preferível terem falecido.
    Recordo um homem (quando nasci ele já tinha falecido, mas a sua história corria na minha família) que viva na terra dos meus avós, o único dos que tinham ali saído que tinha conseguido sobreviver; encontrava-se cego, por ter sido gaseado, vivia da caridade pública, pois o estado nem sequer uma pensão lhe tinha arranjado, para lá de ter ficado com os pulmões algo destruídos. Para completar a situação, tornou-se alcoólico, o que lhe piorou a situação de saúde.
    O meu pai, mercê de muitos requerimentos, e pedidos, que duraram meses a serem respondidos, lá conseguiu que lhe dessem uma pensão de sobrevivência, para que pudesse pelo menos passar os seus últimos dias com alguma decência, mas pouco viveu para a poder gozar.
    Claro que faleceu, como se pode adivinhar, transformado num farrapo humano.
    Ainda bem que trazes aqui este testemunho, pois seria bom que a história não os esqueça
    Manel

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    1. Manel

      Estas fotografias de combatentes da Grande Guerra, jovens na flor da idade, impressionam-nos sempre. Muito foram chacinados, outros voltaram com mazelas irremediáveis na saúde e outros ainda perturbados mentalmente.

      Há aqui uma tragédia, que tentei descortinar, mas sem grande sucesso. Se fossem oficiais, seria mais fácil saber do seu destino. Os menos importantes socialmente deixam sempre poucos traços na administração e nos arquivos.

      Há fontes on-line e reportórios de combatentes, mas quando só se sabe o posto e um apelido comum, é quase impossível estabelecer uma relação com os nomes que constam dessas listas. Mas pode ser que alguém, do outro lado do monitor tenha os mesmo retratos em casa, embora a maioria das pessoas, ao fim de duas ou três gerações desfazem-se das fotografias antigas e nós bem as vemos, nos estendais das feiras de velharias.

      Um abraço

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