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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O general, a fidalga desencaminhada e o bacharel louco: histórias esquecidas




Tratar o espólio documental de uma família é um trabalho fascinante. Ler cartas escritas há 150 anos é como se estivéssemos a ouvir as vozes e os pensamentos de quem há muito morreu e desta forma vamos conhecendo aos poucos os traços da personalidade dos antepassados e ao mesmo tempo uma época tão diferente da nossa. Talvez por experimentar um prazer tão grande na leitura dessas cartas sinta necessidade de as partilhar com outras pessoas e convida-las a viajar numa espécie de máquina do tempo. Bem sei que é uma analogia simplista, mas é esse sentimento, que se experimenta durante a leitura destes documentos.

Desta vez escolhi umas quantas cartas onde os protagonistas foram a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902) os meus tios trisavôs o General António Ferreira Montalvão (1840-1919), Miguel José Ferreira Montalvão (1838-1890), mas também num plano secundário o companheiro da primeira, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), meu trisavô e o filho que tiveram em comum, José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965)

Os três irmãos tiveram destinos muito diferentes, o General António Ferreira Montalvão fez uma carreira brilhante nas armas, foi um matemático conceituado, chegando mesmo a Comandante do que é hoje a Academia Militar. Casou muito bem, com uma senhora da boa sociedade lisboeta, Mariana das Mercês Bravo Borges (1858-1888) e juntos tiveram uma filha, Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão, uma virtuose do piano. O irmão, Miguel José, formou-se em direito em Coimbra, mas apaixonou-se por uma prima ingrata, acabou por enlouquecer, morrendo em Outeiro seco, num quarto rodeado de livros, recusando lavar-se e fazer a barba. A outra irmã, a minha trisavó, que tinha todas as qualidades para fazer um belíssimo casamento, beleza, um bom-nascimento e fortuna, acabou por se envolver com um padre, do qual teve dois filhos bastardos e acabou por morrer cedo, de doença prolongada, em 1902, triste e amargurada.

A primeira carta, do General António Ferreira Montalvão foi dirigida à irmã e embora não esteja datada, presumo que seja de meados da década de 70 do século XIX, numa época em que as relações entre os dois eram boas. Transcrevo aqui o seu conteúdo, que achei muito interessante.



Maricas

Recebi a tua carta e com ela o teu retrato, que muito te agradeço. Para te dizer o que sinto não o acho nada bem, todavia pode-se admitir-se como retrato tirado em Chaves e as tuas feições parecem um pouco manchadas com as bexigas.

Agradeço-te igualmente a lembrança de me mandares a prova do fumeiro, há alguma dificuldade em manda-lo, por isso se o Bastos não se encarregar de mandar pagar os direitos de entrada no Porto e de o mandar entregar na Estação Central do caminho-de-ferro no Porto, o melhor é não vir, porque eu não sei de me demorarei aqui ou se irei brevemente para Lisboa.

Quanto aos retratos que me pedes, não posso já obtê-los porque fui a Lisboa a um concurso e deixei lá a máquina. Neste concurso só apareceu mais outro, que tem menos habilitações e mais empenho que eu; se eu for o preferido como espero tornarei a ter férias para ir visitar-te todos os anos.

Recomenda-me a todas as pessoas que me mandaram lembranças.

A propósito do fumeiro, lembra-me de perguntar-te se já se pagou a despesa que fez o Celestino quando uma vez se encarregou de mandar-mo do Porto, a prima Amélia pode informar-te a este respeito. A despesa é pequena, mas se ainda não foi paga deve-o ser com brevidade.

Dispõe do teu irmão António

NB: Vai incluso conhecimento para tu mandares receber do Porto na estação central de Caminho-de-ferro, um aparelho que era para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho não deixando fazer vinagre. Podes encarregar o Bastos de tentar de o receber e conduzir para Chaves; deves dar-lhe o dinheiro para este fim e dizer-lhe que está num caixote que pesa menos que uma arroba.

Retrato da minha trisavó executado presumivelmente por Tomás Aquino Pacheco e ao qual se refere António Vicente na sua carta.


Creio que quando António Vicente se refere ao retrato da irmã, escrevendo que só era aceitável porque foi tirado em Chaves, trata-se certamente uma de duas fotografias, que eu tenho da Maria do Espírito Santo executadas pelo primeiro fotógrafo activo em Chaves, Tomás Aquino Fonseca, que a partir de 1876, estaria a trabalhar naquela terra transmontana. Igualmente interessante é que quando a Maria do Espírito Santo pediu um retrato ao irmão, este respondeu-lhe que foi a Lisboa e deixou lá máquina. Portanto, em meados dos anos 70 do século XIX, António Vicente já tinha uma máquina fotográfica, o que era raro para a época! Era realmente um homem tecnológico. Tenho três retratos dele, um assinado pelo H. Tisseron de Lisboa e outros dois sem marca de fotógrafo. Talvez um destes dois seja um auto-retrato feito com a sua própria máquina.




Dois retratos não assinados do General António Vicente Ferreira Montalvão. Poderão eventualmente ser auto-retratos.
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Depois há dois parágrafos sobre o fumeiro, assunto recorrente em quase todas as cartas da família, pois enfim, todos eles eram bons transmontanos, de Chaves e o presunto, os chouriços, os salpicões enviavam-se a quem estava longe, ainda que o transporte fosse uma trapalhada, pois além das vias de comunicação deficientes, ainda existiam barreiras alfandegárias internas no País, que taxavam a entrada de bens de consumo nas cidades, como António Vicente bem refere.

Por último, sempre tecnológico, António Vicente, enviou à irmã um aparelho que para enxofrar as vinhas e para melhorar o vinho, não deixando fazer vinagre.

Pelas dúzias de cartas, que o meu trisavô, Liberal Sampaio enviou à Maria do Espírito Santo com conselhos pormenorizados sobre como gerir a casa agrícola, imagino que esta tenha recebido esta encomenda com horror, a pensar o que iria ela fazer daquele aparelho e de como explicaria aos trabalhadores agrícolas como usa-lo. A ideia que fiquei dela depois da leitura dessas cartas, é que seria uma mulher com pouco sentido prático da existência, que muito nova se viu sem os pais e os irmãos, a governar sozinha uma grande casa agrícola. Anos mais tarde, já no final da sua vida, quando sua relação com Liberal Sampaio azedou, escrevia cartas ao filho com longas queixas sobre ele e uma delas é que não tinha ido dar corda ao seu relógio. Enfim, não há muita arte em dar corda a um relógio.

Maria do Espírito Santo com os dois filhos que teve de Liberal Sampaio


Depois desta carta de meados dos anos 70 do século XIX, a Maria do Espírito Santo envolveu-se com o padre, do qual teve dois filhos e o António Vicente afastou-se da irmã, embora não tenham perdido inteiramente o contacto. Neste período de tempo, viu-se ainda a braços com a doença do outro irmão, Miguel José, em processo de loucura

Em 15 de Setembro de 1884, António Vicente escreve-lhe de Lisboa, a propósito do Miguel José.

Maricas

Há um ano que aí fui a tua casa para ver o nosso pobre irmão. Notei uma falta de asseio que muito me contristou. Há poucos dias fui informado de que não convinha de forma alguma que continuasse em tua casa. Receando que uma mudança de hábitos lhe possa ser fatal, abstenho-me por enquanto de tira-lo da tua companhia, pedindo-te que sejas caridosa para com ele. Parece-me que pedindo-te isto, não te peço muito, tratando-se de teu irmão, que como tu me disseste na última vez que te falei, tem para a despesa que faz mais do que o suficiente. Por reste motivo, espera ser atendido o teu irmão António.

Há aqui uma crítica aberta à Maria do Espírito Santo sobre a forma como trata o irmão louco. Falta de higiene e até de caridade foram as acusações que o António Vicente lhe fez. Claro, eu não sei o que passou exactamente. Esta carta é aliás o primeiro documento que leio sobre o assunto. Mas imagino o drama da minha antepassada, uma menina fidalga, educada para se casar com um fidalgo de boa estirpe da região ou com algum burguês ricalhaço, ao ter que tratar sozinha do governo de extensas propriedades e ainda de um irmão louco. Nesta época, a psiquiatria portuguesa estava a dar ainda os primeiros passos em Lisboa e em Chaves não existiria nenhum clínico especializado em doenças do foro mental que pudesse socorrer o pobre Miguel, que viria a falecer 6 anos mais tarde, em 8 de Setembro de 1890, aos 52 anos, enchendo os cabeçalhos dos jornais locais, com a notícia da morte do bacharel louco.

Volto a ter notícias do General António Vicente, através de uma carta de Liberal Sampaio a Maria do Espírito Santo, datada 19 de Julho de 1894. António Vicente encontrava-se em Chaves na companhia da sua filha Elina e Liberal escreve-lhe preocupado com a forma com que Maria do Espírito Santo estaria a receber o irmão, dando-lhe muitos conselhos.

Como seu irmão aí está com a pequena, deve oferecer-lhe essa casa enquanto estivera aí na vila [Chaves], a de Outeiro Seco se quiserem passar por lá algum tempo, e no caso mais provável de provável de ir para Dadim, é conveniente mandarem-lhe um cântaro de azeite, um presunto, algum fumeiro e pinga, um cântaro de vinho e outro de vinagre e algumas batatas. Mande de tudo isto, que ele tudo precisa comprar. Será também bom oferecer-lhe de empréstimo, alguns lençóis e cobertores, porque certamente não os traria de Lisboa. Enfim, diga-lhe que mande buscar com toda a franqueza tudo aquilo, de que necessitar.

O fumeiro voltou a ser tema recorrente, mas mais importante, é que através da leitura destes conselhos, noto novamente uma certa incapacidade da minha trisavó para a resolução de assuntos práticos da existência, tais como receber o irmão e a sobrinha, ou pensar em oferecer-lhe de empréstimo cobertores e lençóis. Talvez a Maria do Espírito Santo fosse como veio a ser a neta, a minha avó Mimi, que aliás tinha o mesmo nome próprio e ela também não sabia receber. Recordo-me da minha mãe me contar, que no Natal, quando íamos passar uns dias à sua casa de Chaves, tinha que improvisar lençóis com toalhas de mesa velhas, para fazer a cama onde o meu irmão e eu dormíamos, porque a minha avó Mimi não se lembrava desses pormenores.

Em todo o caso, a carta demonstra que apesar de um certo afastamento, a Maria do Espírito Santo e António Vicente, continuaram a relacionar-se.




A doce Elina. O verso é dedicado ao meu bisavô, que estima como a um irmão.


O último dado que eu conheço desta relação entre o general e a minha trisavó, ocorreu já em 1902, pouco depois da morte desta. O filho de Maria do Espírito Santo e do Padre Liberal Sampaio, o José Maria Ferreira Montalvão tomou-se de amores pela doce Elina, sua prima direita, a filha de António Vicente e quis mesmo casar com ela. O pai, Liberal Sampaio, um homem sempre sensato e avisado, escreveu-lhe uma longa carta a 3 de Julho desse ano, dissuadindo-o desse namorado.

Vejo que continuas teus devaneios ou antes ingenuidades com a prima. Não os repreendo, porque os considero produto de primeiras impressões; mas recomendo e exijo que, em tudo e por tudo te portes de modo que não melindres o teu tio e à prima não deias o mais leve ensejo de descobrir em teus actos e palavras qualquer atentado contra o decoro que lhe é devido, trata-a não como uma amante, mas como uma irmã inocente.

Inteligente, Liberal Sampaio não se opõe directamente à relação e afirma complacente. Em ninguém veria com mais gosto brilhar as jóias da tua inolvidável mamã do que a em tua prima, para quem ela as guardava com tanto cuidado.

Mas a tua prima, que teve a infelicidade se ser criada sem mãe e a desventura de não ter por mestra uma tia que por ela se desvelaria, ensinando-lhe o governo doméstico, será a que mais convenha para tua esposa, isto é, para consorte da tua vida, para mãe dos teus filhos, para governante da tua casa?


Carta de Liberal Sampaio ao filho desencorajando-o do namoro com a prima


Além do problema da consanguinidade que Liberal Sampaio teria presente, saberia bem que a Elina, dama do Paço, com o curso superior de piano, discípula de Viana da Mota era demasiado fina, doce e impreparada para se enfiar numa aldeia transmontana, em Outeiro Seco, governar um solar e a respectiva criadagem ou a coadjuvar o marido na administração da casa agrícola.

Retrato de José Maria Ferreira Montalvão em 1902


Não sei se foram os conselhos do pai, se a oposição do tio ou se a própria Elina o desencorajou, mas o que é certo é que o meu bisavô desistiu da ideia e casou no ano a seguir, em 1903, com Ana da Conceição de Morais Alves, filha de um burguês rico de Chaves e foi um casamento feliz e longo, do qual resultaram muito filhos e a com efeito a minha bisavó Aninhas sabia governar uma casa grande. Quanto à Elina casou mais tarde em 1910, com outro primo, mais afastado, mas morreu dois anos depois, deixando um filho pequeno e não consta que tenha sido feliz.


Verso do retrato de José Maria dedicado à sua adorada Elina

Dos devaneios que o meu bisavô sentiu pela filha do general, sobressai um pormenor curioso. Maria do Espírito Santo tinha guardado as suas jóias para a sobrinha, filha de um irmão que se afastou dela, em consequência do escândalo causado pelos filhos que teve do Padre.

Estas cartas devolvem aos dias de hoje o modo de vida do último quartel do século XIX, através das palavras dos que viveram esses acontecimentos.

Alguma bibliografia:

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 200

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O gosto pela educação: os padres Liberal Sampaio e José Gonçalves Laje


José Gonçalves Laje


Já referi o Padre José Gonçalves Lage aqui no blog, como um homem das relações do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935). Na altura em que escrevi o texto, encontrei o seu retrato, que dedicou ao meu antepassado com uma acrisolada amizade, provavelmente entre 1875-1880.

No seu tempo, este Padre Lage foi uma personagem com a sua importância, desenvolvendo uma actividade como autor bastante significativa. Escreveu manuais escolares de história, geografia, literatura, retórica e linguística. Ao todo contei 23 títulos assinados por ele no catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, o Porbase. José Gonçalves Lage e Liberal Sampaio eram conterrâneos de Sarraquinhos, Montalegre e eram provavelmente parentes, pois a avó do meu antepassado era de apelido Lage.

Dedicatória do Padre Lage a Liberal Sampaio no verso do retrato



Recentemente localizei duas cartas escritas a Liberal Sampaio pelo Padre Lage, datadas de 30 de Dezembro de 1880 e 2 de Fevereiro de 1881, que serviram de motivo para investigar alguns dados biográficos daquele autor de manuais escolares e ainda me esclareceram sobre alguns aspectos da vida do meu trisavô.

No portal O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX), que é um extraordinário levantamento de todos os padres activos em Portugal, encontrei o registo do Padre José Gonçalves Lage, que me revelou a data exacta do seu nascimento, 10 de Março de 1838 em Sarraquinhos, Montalegre, filho de Bento Gonçalves Lage e Ana Goncalves Pelho e ainda consegui aproximar-me um pouco mais do ano da sua morte. Em 2020, quando escrevi sobre o assunto, referi que a última obra que assinou foi em 1901 as Noções elementares de geographia, chronologia e chorographia de Portugal, mas já adaptadas por L. Pinto da Rocha e que nesse ano já teria falecido. Ao consultar os registos da última paróquia de que foi cura, Vila Nova de Anços, concelho de Soure, distrito de Coimbra, apercebi-me que o último assento redigido pelo Padre Lage foi em 18 de Novembro de 1895. O primeiro assento de 1896 foi já assinado por um novo pároco José Maria Simões da Silva. Em suma, José Gonçalves Lage terá morrido entre finais de 1895 e 1901

O percurso do Padre Lage em O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX),



Na carta de 30 de Dezembro de 1880, dada em Coimbra, que dirigiu ao meu trisavô, que trata por tu, refere que Liberal terá muitas moedas em duplicado. Há aqui um lente meu amigo que anda fazendo uma colecção e a comprar a torto e a direito quantas lhes apareçam. Agradeço-te que cedas todas as que não que não te fizerem falta. Pede por elas o que entenderes e aí te será remetido (…) Tenho interesse em que cedas essas velharias de moedas duplicadas, não só porque te serão bem pagas, mas também porque desejaria satisfazer aquele lente, que é o meu amigo.

Na carta seguinte de 2 de Fevereiro de 1881, o assunto evoluiu e o Padre Lage escreveu Pelo que respeita às medalhas e moedas, desde já conto com elas, e provavelmente recebes as 100 libras pela colecção, mas é necessário elas virem à mostra. (…) Se fosse possível manda-las num caixote pregado por um almocreve para Braga, dali vinham facilmente para aqui. Eu respondo e comprometo-me por tudo. Pensarás e veremos se se pode resolver este problema com vantagem para os teus interesses e para as minhas conveniências. E digo minhas conveniências, porque as tenho em servir este homem.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881,



Naturalmente sabia que o meu trisavô Liberal Sampaio foi um numismata e uma parte da sua colecção chegou aos nossos dias, mas não fazia a ideia de que em 1880 já tinha reunido um conjunto significativo e de boa qualidade, pois 100 libras era uma soma muito considerável na década de 80 do século XIX. Segundo Jaime Reis em Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix, a moeda de ouro que circulava livremente no país tanto poderia ser a cunhada pela Casa da Moeda como a libra esterlina, cujo valor se fixava em 4$500 réis. Portanto 100 Libras equivaleriam a 450 000 réis, quase metade de um conto de réis. Não sei se Liberal Sampaio chegou a concluir o negócio, mas era vulgar os coleccionadores venderem parte ou a totalidade das suas colecções e voltarem a comprar mais tarde peças de melhor qualidade. Ainda há uns tempos pouco falar desse aspecto numa inauguração de uma exposição no MNAA, dedicada a Guerra Junqueiro, como coleccionador de arte.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



E no período em que estas cartas foram escritas, o meu antepassado precisava de dinheiro. Em 1879, sem dúvida em consequência de um certo escândalo provocado pelo nascimento do seu filho com uma fidalga de uma família muito conhecida de Chaves, perdeu o seu lugar de pároco de Outeiro Seco, deve ter caído em desgraça e feito os seus inimigos. Claro, ele lá tinha as suas terras lá por Montalegre que lhe dariam algum rendimento e a sua actividade de pregador, mas pela leitura destas cartas parecia realmente estar em apuros financeiros.

Carta de 2 de Fevereiro de 1881



Segundo, a breve biografia que a minha avó traçou dele, nestes tempos, entre 1879 e 1886, antes de ir para a Universidade de Coimbra, Liberal Sampaio Liberal Sampaio formou uma escola de em Outeiro Seco, onde ministrava latim, português, história e filosofia, mas nunca encontrei nenhum documento da época sobre a sua existência. Presumo que fossem aulas particulares.

Liberal Sampaio terá escrito uma carta ao Padre José Gonçalves Lage falando nessa escola e em resposta, a 2 de Fevereiro de 1881, o segundo viu a luta travada entre Liberal e esses gigantes. Nasceste para a luta e para a vitória. Não são capazes de te vencer e bem o estimo. (…) Aqui estou para te coadjuvar em tudo o que puder e com máxima lealdade.

Se os teus calouros tiverem de fazer exame aqui [em Coimbra] garantia-te muito bons serviços.

(…) lembro-te de que também em Braga te posso ajudar por causa dos teus calouros. Há ali uns professores novos para quem se arranjará daqui bons empenhos. Eu tomo pela tua causa tanto empenho como pela minha: a nossa causa é comum.

A eles, a eles! Por aqui também há santarrões como os missionários de Barroso. Creio nos homens bons. E estimo-os, mas quando são hipócritas…

O Padre Lage prossegue a sua carta, prontificando-se a apoiar a escola enviando livros, nomeadamente um Vírgilio e para português, remeterá uma Poética, obra da sua autoria, da qual modestamente diz. Não será boa, nem é completa, mas tem corrido muito e foi muito bem recebida. Foi adoptada nalgumas partes e tem salvado já muito calouro.

Anuncia que está a preparar uma gramática. Tem-me dado muito trabalho, mas está quase pronta. Julgo que há-de primar pela clareza. E com efeito, esta obra, que será publicada com o título Novissima grammatica portugueza, em 1882, é hoje ainda considerada um marco pelos especialistas, embora a sua restante obra esteja completamente esquecida.

Estas duas cartas permitiram-me conhecer um pouco melhor o Padre Gonçalves Lage, esse autor de manuais escolares do século XIX, mas sobretudo saber um pouco mais Liberal Sampaio como Numismata, que logo muito cedo, em 1880, já tinha uma colecção de moedas que valeria 100 libras. Achava que só mais velho, depois de se formar e de estabelecer como advogado em Chaves e alcançar mais desafogo económico é que se teria dedicado a colecionar moedas. Mas, pelo vistos, o seu o gosto pela história e antiguidades começou cedo e na região de Chaves era vulgar aparecerem muitos vestígios romanos. A segunda carta é o primeiro documento primário que encontro sobre a escola que Liberal Sampaio formou em Outeiro Seco, embora aqui apareça referida de uma forma indirecta. Só tenho pena de não ter acesso às cartas que o meu antepassado escreveu ao Padre Lage, onde certamente contou pormenores sobre a escola, as dificuldades e os sucessos e como funcionava. Mas os espólios documentais são por natureza truncados, só temos acesso à correspondência recebida, o resto há que deduzir.

Liberal Sampaio
Liberal Sampaio cerca de 1875



Bibliografia:

Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século xix / Jaime Reis
In
Análise Social, vol. xxix (125-126), 1994 (l.°-2.°), 33-54


Dr. Padre José Rodrigues Liberal Sampaio / Maria do Espírito Santo Ferreira Alves Montalvão Cunha
in
I Jogos florais de Montalegre. - Montalegre: Câmara Municipal de Montalegre, 1981. - 47-53 p.

O clero secular: elite socio-religiosa e lideranças eclesiásticas (séculos XIX e XX)

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Maria Montalvão Cunha, Liberal Sampaio e o Abade de Baçal

Maria de Montalvão Cunha (1907-2000)


Maria de Montalvão Cunha não foi exactamente uma avó carinhosa, nem tão pouco uma mãe extremosa ou uma esposa afectiva. Só quando entrei na adolescência é que passei a aprecia-la e a descobrir as suas qualidades. Como já não eramos uns miúdos parvos, conversava então connosco sobre história, o passado da família, mostrava as relíquias familiares e acompanhava-nos nas visitas ao Solar de Outeiro Seco e até ao Museu Municipal de Chaves, que na altura estava fechado ao público e ela lá conseguia uma visita especial para nós. Era uma mulher que apreciava rodear-se de coisas boas e dela herdei um certo gosto quase eclesiástico pelos damascos e móveis pesados nos estilos portugueses. Intelectualmente tinha o seu valor. Foi uma colaboradora assídua na imprensa periódica de Chaves de Bragança, mas também do Comércio do Porto, um jornal muito lido no Norte, mas também com uma difusão nacional. Para uma senhora de província nos anos 30, 40 ou 50 esta actividade literária era notável. Quando recentemente andei a organizar os jornais onde escreveu, reparei que naquela época as poucas colaboradoras no Comercio do Porto escreviam sobre modas, culinária, bordados ou davam conselhos úteis sobre como tirar nódoas difíceis das camisas do marido. É certo que a minha avó estava também confinada à página feminina, mas fazia contos e crónicas. Além dela, a única execepção à essa regra que encontrei foi a Ilse Losa.

A minha avó tinha um estilo um bocadinho floreado e era superficial, mas em plena época da ditadura salazarista não se queriam ideias muito profundas, nem temas polémicos, muito menos escritos pela mão de uma senhora. Mas por vezes, no meio daqueles devaneios literários tinha momentos de verdade ou pelo menos convincentes, pois é certo que a verdade é uma coisa relativa e cada um a constrói à sua maneira.

O capote do avô, evocação de Liberal Sampaio, escrito por Maria de Montalvão Cunha e publicado no Comércio do Porto em 20-3-1947


Nestas férias, quando aproveitei para avançar mais no tratamento do espólio encontrei uma carta do abade de Baçal, dirigida aos meus avós, anexando um artigo do comércio Porto, de 20-3-1947, escrito pela minha avó, a Mimi, como nós a conhecíamos, que o tocou particularmente e é de facto um texto sensível.

É uma evocação dos seus tempos de infância, das noites do rigoroso Inverno transmontano, em frente à lareira, quando o avô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), sentado no escano, abrigava os seus netos debaixo do seu capote, como uma galinha aninhava os seus pintainhos. Depois refere, o tempo em que os irmãos e ela cresceram, são adultos e sentem pudor em se agarrar e acarinhar o avô, embora às vezes, como ela própria escreve, parecia-nos até que o avô, ao olhar para o seu capote vazio, ficava triste e desolado. Sublinha também a importância que o avô teve no seu crescimento cultural, com as histórias maravilhosas, que contava, das terras todas que tinha corrido, do amor pela natureza e ainda quando o ajudava a limpar a sua extensa biblioteca.

Liberal Sampaio com o filho, nora e os netos. Estes últimos tratavam o avô carinhosamente por Lili


O Abade Baçal, como ficou conhecido Francisco Manuel Alves (1865-1947), tinha conhecido muito bem Liberal Sampaio, o meu trisavô. Com efeito, aquele historiador e etnógrafo foi Abade de Mairos entre 1889 e 1896, uma aldeia nas cercanias de Chaves e nessa época os dois padres terão travado conhecimento e estabelecido uma relação intelectual. Referindo-se ao meu trisavô, o Abade de Baçal escreveu foi ele que me indicou os livros a consultar. Foi ele que me facilitou a leitura de preciosas raridades bibliográficas da sua enorme biblioteca que por serem raríssimas, senão únicas, por serem caríssimas, só acessíveis a amadores ricos, eu nunca chegaria a ler.

Por essa razão, o Abade Baçal ter-se-á encantado tanto com a evocação que a Mimi fez de Liberal Sampaio e tenha pegado na caneta para lhe escrever. Mas, não terá só sido só por esse motivo, mas também pelo talento e sensibilidade com que minha avó captou as noites geladas dos Invernos transmontanos, onde toda a família se juntava na cozinha, junto do fogo, aninhados nos escanos, protegendo os mais pequenos do frio. Para os que não são transmontanos, os escanos são uma espécie de bancos longos, com costas e com uma prancha de madeira, que se pode rebater, servindo de mesa de refeições.
Cenário do conto o Capote do avô, a cozinha do Solar de Outeiro Seco, já no tempo em que a casa tinha sido vendida à Câmara Municipal de Chaves e estava já ao abandono. Vê-se ainda um escano, embora eu tenha ideia, que houvesse dois.

Transcrevo aqui um excerto dessa carta do Abade de Baçal, como homenagem à minha avó Mimi, que embora não soubesse cozinhar, nem dar mimos aos netos, foi uma mulher com o seu valor, aliás no tempo em que viveu em Bragança, juntamente com o marido, o meu avô Silvino fizeram parte do círculo daquele historiador.

Li e reli o belo artigo do Capote do avô no Comércio do Porto.

Que grandiosidade de sentimentos, de ternura, de piedade. Quanta meiguice, devoção, saudade inculcam aqueles traços magistrais referentes à descrição do avô, metódica em tudo, de “voz compassada e terna” a contar histórias aos netos, tendentes a despertar neles o amor da beleza e do bem fazer.

Com que graça eu estava a ver os miúdos montalvãozinhos a formigar em volta do sábio e bondoso doutor José Rodrigues Liberal Sampaio, que sorridente, bonacheirão, abrigava a ninhada sobre complacente o amplo capote, como a galinha congrega os pintainhos "sub alas" na frase bíblica e complacente olhava satisfeito as cabecitas dos que assomavam à janela.

Com que arte e relevo V. Exa. Soube dispor tudo isto e despertar nos leitores de tão belo artigo, a comoção por esse espírito que a “sorrir, a fitar-nos, a dizer-nos um adeus que era uma saudade, um adeus que era um mundo de ternura, que nos deixou” e partiu para a eternidade.




Carta do Abade de Baçal



Bibliografia:

BAÇAL, Abade de / Ana Celeste Glória
In Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa. Lisboa: Instituto de História da Arte, 2019 https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/29007003/30_33.pdf

Dr. Padre José Rodrigues Liberal Sampaio / Maria do Espírito Santo Ferreira Alves Montalvão Cunha
in
I Jogos florais de Montalegre. - Montalegre: Câmara Municipal de Montalegre, 1981. - 47-53 p

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Um testamento em 1860: o legado destinado às mulheres

O testamento, que conserva o lacre com o qual foi fechado


Até há pouco tempo acreditava que quase toda a documentação histórica do antigo solar da família Montalvão, tinha sido vendida em 1986 juntamente com a livraria da casa. Mais tarde, através das conversas com o meu pai percebi que afinal se tinham conservado muitas cartas do tempo dos meus trisavôs. Depois da morte do pai, fiquei com essa documentação, que vou tratando paulatinamente e aos poucos tenho encontrado documentos mais antigos, relativamente à administração da casa ou notariais. Afinal e felizmente, nem tudo se perdeu.

Um dos documentos interessantes, que descobri foi o testamento do meu quarto avô, João Manuel Ferreira Montalvão (2-5-1806/ 23-02-1861), escrito a 8 de Novembro de 1860. Sei pouco deste antepassado e nas notícias, que vão aparecendo dele há uma certa confusão com outro João Manuel Ferreira Montalvão Ferreira Montalvão (1767-1844), que era seu tio, portanto irmão do pai. Um miguelista convicto, esse tio teve uma actividade política intensa, chegou a presidir à Câmara Municipal de Chaves em 1828 e D. Miguel concedeu-lhe até o uso da medalha, da sua real efígie e ainda foi feito cavaleiro da Ordem de Cristo em 1824. O meu quarto avô, também João Manuel Ferreira Montalvão parece ter tido uma existência mais tranquila, obviamente dentro do que seria possível num período da nossa história, tão complicado, marcado pela guerra entre Liberais e absolutistas. Ainda assim participou na administração camaria de Chaves em 1850 e 1851 num período já mais estável do país. Os documentos que encontrei no espólio com o seu nome são sempre relativos a compra de propriedades ou de administração da casa agrícola.

Nasceu em Outeiro Seco e casou dentro do seu meio social, a fidalguia rural, em 23 de Janeiro de 1837, com Maria Emília de Morais Sarmento (14-08-1818/ 14-4-1874), de uma aldeia vizinha, Santo Estevão.

Deste matrimónio nasceram 5 filhos, Miguel José (1838-1890), que foi advogado, António Vicente (1840-1919), um militar com uma carreira brilhante, Ana (1842), Henriqueta (1847-1873), outra Ana (1851) e ainda minha trisavó Maria do Espírito Santo (1856-1902). As duas Anas morreram muito cedo, ainda crianças. Os três primeiros filhos nasceram em Santo Estevão, o que me leva a crer que este casal viveu pelo menos até 1842 no solar dos Morais Sarmento nessa aldeia. 

O solar dos Morais Sarmento em Santo Estevão



Terão mudado de residência para Outeiro Seco ainda antes de 1847, ano em que nasce já nessa aldeia a Henriqueta. Não sei exactamente em que casa viveriam naquela terra, já que os registos paroquiais referem-nos simplesmente como residentes em Outeiro Seco. Não me parece que viveriam no solar dito dos Montalvões, pois esse tinha calhado ao seu outro tio, José António Ferreira Montalvão, que casou com uma Campilho. Aliás essa casa permanecerá formalmente na posse dos Campilho Montalvão até 1902, ano em se iniciou o processo de compra pelo meu lado familiar.


Em 1860 o Solar dito dos Montalvões estava na posse do ramo Campilho Montalvão



Creio que viveriam quase em frente à casa acima referida, num tipo de solar muito rústico, mas com tectos de masseira e eu ainda conheci em pé.

O meu quarto avô, o João Manuel Ferreira Montalvão teve ainda um filho natural, nascido na década da 30 do século XIX, de uma tal Brígida Silva, o Francisco Luís. Segundo Montalvão Machado este filho espúrio foi criado e educado em casa do meu quarto avô, mesmo após o casamento, com D. Maria Emília Morais Sarmento. O meu antepassado financiou certamente a sua educação num seminário e este fez-se padre e assinou sempre os seus assentos paroquiais, como Francisco Luís Ferreira Montalvão, até morrer em 12 de Julho de 1908, em Fornelos, Fafe, onde era abade. Como já aqui referi muitas vezes, no século XIX a bastardia fazia parte da organização familiar e a as crianças nascidas fora do casamento eram educadas com o acompanhamento dos pais e usavam até os seus apelidos sem serem perfilhados.

Apesar de bastardo, o Padre Francisco Luís assinava os seus registos com os dois apelidos da família paterna, Ferreira Montalvão. Livro de assentos de óbitos, 1907 da paróquia Fornelos, Fafe,


Deste meu tetravô, sei também o que Montalvão Machado refere sobre ele na genealogia da família teve pelo menos um grande predicado, naqueles tempos de instrução rudimentar: fez educar todos os seus filhos, fazendo deles um sacerdote, um advogado e um militar muito distinto. Mesmo as filhas tiveram alguma educação e sabiam ler e escrever. Tenho umas quantas cartas dirigidas à Henriqueta e um número significativo de cartas escritas pela Maria do Espírito Santo. Esta minha trisavó tinha uma bonita caligrafia, mas redigia mal e não fazia uma única vírgula. Para a época, em que a taxa de analfabetismo feminino andaria pelos 90 por esse cento ou mais já era muito bom.

A assinatura do que quarto avô, João Manuel Ferreira Montalvão (2-5-1806/ 23-02-1861)


Mas em 8 Novembro de 1860, com 54 anos, o João Manuel Ferreira Montalvão estava de cama muito doente e sabendo que a morte é certa e incerta a hora resolveu fazer o seu testamento, arrumando os seus assuntos terrenos antes de partir. Desejava que o funeral e bênção de alma fossem feitos segundo a vontade de sua mulher Dona Maria Emília de Morais Sarmento e nomeia-a sua testamenteira. Institui por seus únicos e universais herdeiros a todos os seus filhos, Miguel, António, Henriqueta e Maria, mas a sua preocupação é fazer um importante legado às duas filhas ainda meninas, a Henriqueta, que tinha 13 anos e a Maria do Espírito Santo com 4 anos apenas, composto por terras lavráveis, vinhas, olivais, hortas, pomares e soutos. Este legado seria satisfeito pelas forças de um terço sem diminuir a da minha mulher da parte que lhe corresponde nas propriedades legadas. Presumo que os restantes dois terços seriam para os irmãos, além que estaria só a legar a sua própria parte da metade dos bens do casal.

Este testamento foi feito numa época anterior ao primeiro código civil português em 1867 e antes da extinção dos morgadios em 1863 e as leis do direito sucessório eram diferentes das da actualidade. Temos uma ideia feita sobre esses tempos, em que se privilegiaria um único filho varão, evitando o parcelamento da propriedade. Mas o meu quarto avô não era morgado e nesta época as mulheres eram também contempladas ou até favorecidas nos testamentos, conforme Margarida Durães, explica na obra Estratégias de sobrevivência económica nas famílias camponesas minhotas: os padrões hereditários (sécs. XVIII – XIX). Mas no Minho, a densidade populacional e era muito maior e o número de terras disponível menor e filhas minhotas eram sobretudo favorecidas com joias em ouro ou dinheiro.

Neste testamento não se mencionaram pratas, joias, panos ricos ou móveis e é bem certo, que a família os tinha. À beira da morte, o meu quarto avô não perdeu tempo com isso e quis foi prover as filhas com a grande riqueza destes fidalgos rurais, terras. Estas garantiriam o sustento das filhas caso não casassem, mas também as tornaria noivas mais desejadas por outros jovens fidalgos do mesmo meio. No fundo este legado era um dote.

A minha trisavô, Maria do Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão foi uma das beneficiadas neste testamento.
 

A terra é a principal era a fonte de riqueza e a principal preocupação da vida destes meus antepassados. Já mais tarde, durante o último quartel do século XIX, a maioria das cartas dirigidas por Liberal Sampaio à minha trisavó, Maria do Espírito Santo, uma das beneficiadas deste testamento versam a administração das terras, tais com a venda do cereal, a poda das vinhas, a construção de um poço, uma égua que está prenha ou rendas a serem recolhidas. Mais ainda, preocupavam-se em acrescentar o seu património com mais terra. Entre 1911 e 1912, no tempo das incursões de Paiva Couceiro, durante a caça aos padres, quando o meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio estava fugido em Espanha, o filho escrevia-lhe dando conta das diligências para adquirir um lameiro, uma cortinha ou um pinhal de acordo com as recomendações do pai.

Nos anos 30 do século XX, o meu pai recordava-se ouvir o meu bisavô, que era o homem que pagava mais contribuição predial de todo o distrito de Vila Real. Hoje todas essas terras, que faziam a grande riqueza da família foram partidas e repartidas por muitos herdeiros, nenhum dos quais se dedica à agricultura e pouco ou valem.

Mas este testamento do meu quarto avô datado de uns 3 meses antes de morrer é um testemunho muito eloquente desses tempos em que a terra era uma fonte de riqueza e por isso, deixo aqui no final a sua transcrição.


Eu João Ferreira Montalvão casado residente e natural do lugar Outeiro Seco do julgado e comarca de Chaves, achando-me doente de cama, mas em meu perfeito juízo claro entendimento e plena liberdade , receando a morte que é certa e incerta a hora resolvi fazer como faço meu testamento e disposição de última vontade da sua maneira que se segue. Tanto que falecer quero que meu funeral e bênção de alma seja feito segundo a vontade de minha mulher Dona Maria Emília de Morais Sarmento, pois que dele tudo confio e por isso que a nomeio para minha testamenteira. Instituo por meus únicos e universais herdeiros a todos os meus filhos que são Miguel, António, Henriqueta, Maria. Deixo à minha filha Dona Henriqueta a propriedade do sítio do Sabugueiro tapada composta de terra lavradia, castanheiros, e oliveiras, bem assim de vinha de poente com sua terra lavradia contiguo à dita propriedade do Sabugueiro. Deixo a minha filha Maria a propriedade também chamada do Sabugueiro tapada e consta de terra lavradia e oliveiras, que parte com José Joaquim Durão e com o caminho de Vilela Seca e mais uma terra lavradia pela parte de fora da dita cortinha do Sabugueiro, com uma oliveira que parte com o dito José Joaquim Durão e finalmente lhe deixo mais a horta chamada das olgas, tapada com suas oliveiras e mais árvores de fruto. Declaro que este meu legado que deixo às ditas minhas duas filhas lhe será satisfeito pelas forças de um terço sem diminuir a da minha mulher da parte que lhe corresponde nas propriedades legadas (visto o casal se achar em comum) no resto dos bens da minha meação (1). Assim dou por findo o meu testamento e disposição de última vontade, a qual quero se cumpra e guarde como nela se contem e a mandei escrever a José Benedito Gonçalves da vila de Chaves que depois ser escrita ma leu conforme a havia ditado e por isso a assino neste lugar de Outeiro Seco aos oito dias de Novembro de 1860

(1)-Quando se fala em partilha de bens, a meação corresponde à metade do património comum de um casal, a que cada cônjuge tem direito



Bibliografia e ligações consultadas:


Estratégias de sobrevivência económica nas famílias camponesas minhotas: os padrões hereditários (sécs. XVIII – XIX)” / Margarida Durães
In
Boletim de História Demográfica". XII:35 (Jan.2005) 1-24
https://members.tripod.com/historia_demografica/bhds/bhd35/margarida.pdf

Os Montalvões / J. T. Montalvão Machado. - Famalicão: Tip. Minerva, 1948

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 2001.

História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012

Um agradecimento ao Joaquim Caetano pela ajuda na transcrição de uma ou outra palavra no testamento


domingo, 4 de maio de 2025

As peças de um processo: Francisco Manuel de Morais (1891-1916)

 

Já por várias vezes escrevi sobre Francisco Manuel de Morais, o meu tio-avô paterno que morreu prematuramente num acidente de caça em Vinhais, nas vésperas de ser mobilizado para a Primeira grande Guerra Mundial. Quem acompanha este blog, pensará que me estou a repetir, mas encontrei mais documentos interessantes sobre a fugaz vida deste tio-avô, que permanecerá sempre jovem na memória da família.

Consultei o seu registo de baptismo, de 13 de Abril de 1891, da paróquia de Nossa Senhora da Assunção da Vila de Vinhais e descobri que o menino já tinha sido baptizado em casa por estar em perigo de vida. Parece que o destino desde cedo conspirou contra ele. Nasceu pelas onze horas da manhã do dia 20 do mês de Marco desse ano, na rua de Cima, numa casa, que ainda conheci. O baptizado oficial foi realizado uns 20 dias depois por Abílio Augusto da Silva Buíça, abade de Vinhais e que foi o pai do célebre Manuel de Buíça, o regicida, um dos homens que matou o Rei D. Carlos e o Príncipe Luís Filipe, no ano de 1908. É curioso, pois já é segunda vez, que encontro este cruzamento de destinos dos Buíças com os meus antepassados. No espólio da família paterna, encontrei uma carta datada de Novembro de 1888, escrita pelo Abade de Buiça a convidar o meu trisavô, o José Rodrigues Liberal Sampaio a pregar um sermão na festa da Imaculada Conceição em Vinhais. Bem sei que é uma curiosidade, mas não deixa de ser um apontamento interessante. Todos nós aspiramos a ter antepassados, que tenham estado próximos de figuras que fizeram história.

O assento de registo de baptismo de Francisco Manuel, de 13 de Abril de 1891. Foi baptizado pelo Abade de Buíça, o pai do regicida, Manuel Buíça


No mesmo assento de baptismo, o Abade de Buíça registou o nome dos pais, meus bisavó, Clemente da Ressurreição Morais e Maria da Graça Pires. O padrinho, foi o seu tio, o padre Manuel Agostinho de Morais, pároco na Freguesia de Santalha e do qual eu creio que tenho um retrato em jovem, um homem bonito e bem-parecido. Aliás, neste meu lado familiar, das terras frias de Vinhais, eram no geral pessoas bonitas.

O padre Manuel Agostinho de Morais foi seu padrinho


Como já aqui contei, o meu bisavô, Clemente da Ressurreição Morais ambicionou estudar medicina na juventude, mas a mãe, a Francisca da Silva, ter-lhe-á dito, ou és padre ou não és nada. E com efeito, o jovem Clemente abandonou o seminário e tornou-se um simples lavrador. Numa carta de 8-3-1914 escrita à irmã, o Francisco de Morais refere o génio sombrio de meu pai e ao qual a sua jovem amada a Estela iria, desanuviar o espírito. Não sei o exactamente em que consistiria, esse génio sombrio mas talvez o Clemente da Ressurreição fosse um homem frustrado, por não ter podido realizar os desejos da sua juventude.

Francisco Manuel de Morais frequentou o colégio de São Dâmaso em Guimarães


Mas este filho, mais velho, o Francisco de Morais iria concretizar as suas ambições e auferir de uma boa educação, longe dos seminários. Assim, no ano lectivo de 1902 /1903, com cerca de 11 anos o Francisco Manuel frequentava o Colégio de São Dâmaso em Guimarães, conforme um documento, que encontrei na caixa de madeira onde estão arquivados estes papéis da família materna. Naquela folha discrimina-se as despesas todas do rapaz, incluindo com livros, a saber: um catecismo; uma gramática latina; aritmética, gramática e leituras portuguesas; gramática francesa; geografia; botânica, zoologia; desenho; tradução francesa; significados de francês; dicionário de latim; história e ainda o Cornélio. Pagar um colégio longe de casa, viagens e livros seria caro para uma família de lavradores de uma vila transmontana, mas o desejo de instrução do seu pai, realizado no filho justificava todos os gastos. E o Francisco Manuel não terá desiludido o pai e foi aceite na Faculdade de Medicina do Porto, que a julgar pelas cartas de que disponho frequentou entre 1914 e 1916. Na caixa de madeira onde se guarda este espólio, os pais reuniram alguns recortes de imprensa, que anunciavam os resultados do filho. Em 27-6-1916, no terceiro ano, na quarta cadeira de patologia externa, o Francisco de Morais foi aprovado com distinção, com 17 valores!

Os pais reuniram alguns recortes de imprensa, que anunciavam os resultados do filho


Também do mesmo ano encontrei o bilhete-postal de um amigo, Alípio Teixeira, datado de 3 de, que lhe perguntava como vamos de Caça? e ainda outro de dia 12 desse mês, onde anuncia que chegará brevemente a Vinhais. Pelo teor dos postais, o Alípio e o Francisco Manuel eram compinchas, camaradas de farras.




Bilhete-postal de um amigo, Alípio Teixeira. Segundo rumores que corriam na vila, este padre teria provocado acidentalmente a morte de Francisco Manuel


Quando cerca de 80 anos mais tarde, o meu pai fez o levantamento mais sistemático destes acontecimentos, corria ainda na vila a história, que teria sido Padre Alípio Teixeira, que teria morto acidentalmente o meu tio-avô durante a caçada.

Também deste mês de datado deste mês de Setembro de 1916, mais exactamente do dia 6 encontrei um documento que me impressionou, a licença de caça, que o Francisco Manuel tirou na Câmara Municipal de Vinhais.



A  licença de caça de Francisco Manuel tirada um mês antes de morrer num acidente de caça...


O fatal acidente de caça, que tiraria a vida deste meu tio-avô, ocorreu a 4 de Outubro de 1916 e a principal fonte para o acontecimento é uma carta de 11 de Outubro de 1916, dirigida pelo pai do Francisco Manuel, o meu bisavô Cemente da Ressurreição a Joaquim da Cunha Cardoso Júnior, um dos condiscípulos de Medicina do filho. Nesta carta, o meu bisavô agradece as condolências e explica o que passou Terá usado a espingarda para baixar um ramo de uma figueira de forma a colher os frutos melhores e a arma disparou-se sozinha, pondo fim à sua vida. Ao contrário dos rumores, que circularam durante muitas décadas pela vila não foi o padre Alípio Teixeira que o matou acidentalmente.

Todos estes documentos parecem fazer parte de um processo judicial, uma investigação sobre uma morte, conduzida por um detective de algum romance policial, mas sem uma conclusão nem tão pouco um final feliz.



Carta de 11 de Outubro de 1916, dirigida pelo meu bisavô Cemente da Ressurreição a Joaquim da Cunha Cardoso Júnior, um dos condiscípulos de Medicina do filho onde explica o acidente que tirou a vida a Francisco Manuel de Morais