sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma terrina neo-rocaille da Vista Alegre

 
Herdei esta terrina da minha avó paterna, bem como umas quantas peças avulsas de serviços da Vista Alegre. Estavam no Solar de Outeiro Seco e por isso tem um valor sentimental para mim, já que acabei por receber pouca coisa daquela grande casa. Quando olho para elas, ainda consigo ver a sala de jantar daquela casa, com a sua grande mesa cheia de gente, um louceiro em estilo renascença e uma mesa pequenina onde nós os miúdos comiam. Já quase que nem sei se essa recordação da sala cheia de gente é minha ou se um produto do que eu imaginei durante muitos anos a partir das histórias do meu pai. É pena do que nunca ninguém tenha fotografado ou filmado aquela divisão com o seu recheio original.

Estas peças herdadas são todas elas do 3º quartel do século XIX e apresentam uma decoração com delicadas florinhas, muito típica daquela fábrica de Ílhavo. Aliás foi a partir daí que comecei a comprar muitas peças da Vista Alegre deste período. 

A forma desta terrina é do chamado estilo neo-rocaille, posto em moda por Jacob Petit, em França, por volta de 1830 e que prolongou até cerca de 1880, altura em que os fabricantes de cerâmicas, influenciados pelas artes do Japão começaram a fabricar peças mais simples e despojadas. Se o rococó ou rocaille do século XVIII já era por si um estilo exagerado, o neo-rocaille do século XIX tornou-se então excessivo, tal era a profusão de dourados pintados sobre formas complicadas, mas este era o gosto de uma época, onde os interiores queriam-se carregados de mobília, bibelots, quadros e pesados reposteiros, cheios de berloques.
Serviço de chá neo-rocaille de Jacob Petit. Imagem retirada de https://www.etsy.com/listing/698653575/reserved-jacob-petit-o-old-paris-rococo?show_sold_out_detail=1&ref=nla_listing_details
 
Aliás a moda neorrococó ou neo-rocaille persistiu para lá da simplicidade do japonismo e em pleno século XX, as famílias continuaram a encomendar mobílias em estilo D. José para os quartos de dormir, ou a comprar salvas de prata ao gosto rocaille para exibir na sala de jantar. Aliás, resolvi acompanhar estas fotografias com algumas peças de um faqueiro em estilo D. João V, que a minha avó recebeu como prenda de casamento em 1930, numa época em que já os objectos utilitários modernistas de desenho funcional faziam furor na Europa. Mas, em 1930, as pessoas tradicionais preferiam apostar nos velhos estilos do passado do que comprar cadeiras Barcelona, ou serviços em porcelana desenhadas por artistas da Bauhaus.
 
 

Apesar da forma arrebicada neo-rocaille, esta terrina da Vista Alegre consegue ser uma peça sóbria, mediante o uso de uma decoração muito simples, só com umas rosas e umas folhinhas. Creio que conseguir adaptar as várias modas das artes decorativas com uma certa simplicidade e bom gosto foi uma característica da Vista Alegre ao longo dos tempos.

Esta terrina que é obviamente da Vista Alegre apresenta um borrão no lugar do logótipo da marca, mas parece-me que corresponderá à marca nº 20, usada entre 1870-1880. Tenho também três chávenas da mesma decoração que vieram também do Solar de Outeiro Seco e apresentam o mesmo borrão. Será que essa manchinha azul corresponderia a um código interno, indicando que se tratava de peças de segunda escolha? Enfim, quem sabe.
 
O tardoz
Também no tardoz apresenta um nº 10 inciso. Ainda pensei tratar-se da medida do diâmetro, mas nem a base nem o bojo apresentam 10 cm de diâmetro, quer à largura, quer ao comprimento. Mas na pág. 100 da obra A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924 encontrei finalmente uma explicação para esses números incisos. Cada oleiro marcava as suas peças com um número gravado com um cunho de madeira. Igualmente há um número pintado, o nº 7, que no meu post de 30 de Março de 2020, demonstrei que não identifica uma decoração. Pela mesma lógica poderá ser o número próprio de cada pintor?

Sei que não estou a trazer muitas novidades sobre a Vista Alegre, mas nestes tempos de incertezas, partilho com todos vós algumas imagens agradáveis.
 
 
 
Alguma bibliografia:

A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924

Le XIXe siècle français / dir. Stéphane Faniel. - Paris : Librairie Hachette, 1957. - (Connaissance des arts ; 2)

domingo, 21 de junho de 2020

António José Machado: uma família de comerciantes em Chaves, no século XIX


Os que acompanham este blog sabem, que tenho publicado regularmente retratos de um velho álbum de fotografias carte-de-visite, formado pelo meu trisavô José Rodrigues Liberal Sampaio. São mulheres e homens das relações do meu trisavô, bem como antepassados meus da família Montalvão e as fotografias estão datadas mais ou menos entre 1865-1900. Alguns desses retratos, sobretudo das mulheres são impossíveis de identificar e outros apresentam uma anotação manuscrita do meu trisavô, com o nome, mas é quase impossível perceber quem foram eles realmente. Nem todos os que morreram há mais de 150 anos fazem parte das famílias com genealogia escrita pelos descendentes e noutros ainda, o traço das suas existências foi apagado pelo tempo.

Um desses personagens, é um tal António José Machado, um jovem com ar bonito e distinto, que em 29 de Outubro de 1876, dedicou o seu retrato carte-de-viste ao meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), tratando-o familiarmente por José, o que pressupõe que eram próximos um do outro. A fotografia é da Antiga Caza Fritz, do Emílio Biel. Como em 1876 a fotografia era cara e o jovem apresenta um ar elegante e fino, presumi que fosse um homem abastado, mas não consegui apurar mais nada, se era um fidalgo, um burguês rico ou um advogado. O meu amigo Humberto Ferreira, a quem mostrei a fotografia referiu-me uma família Machado em Chaves, que tinham uma quinta entre a antiga rua do Olival e as Longras, mas não conseguimos concluir nada. Pesquisei no site geneall pelo seu nome, mas António José Machado é nome demasiado comum para dar resultados.

A fotografia é da Antiga Caza Fritz, do Emílio Biel e está dedicada ao meu trisavô, com a data de 29 de Outubro de 1876.

Ainda que nada soubesse deste António José Machado, gostei tanto do retrato, que o publiquei no blog a 11 de Outubro de 2018, pois tenho sempre a esperança, que do outro dado do monitor, alguém me escreva, anunciando Olhe, tenho uma fotografia igual em casa e fulano ou beltrano é meu antepassado. E com efeito, a semana passada uma senhora enviou-me um e-mail, informando-me, que na posse da sua família existia um retrato exactamente igual a este e anotado pela sua bisavô Josefina, indicando, que se tratava do seu tio e padrinho António José Machado. Esta senhora informou-me também que estes Machados eram de facto a família proprietária da quinta situada entre a antiga rua do Olival e as Longras e eram uma família de comerciantes, cujo estabelecimento se situava no largo do Arrabalde, em Chaves, onde hoje é uma óptica.

Fotografia de António José Machado, que está na posse da família Machado. A anotação manuscrita é da sua sobrinha e afilhada.
A partir destes dados e da data de nascimento da bisavô desta Senhora, cheguei ao assento de baptismo da sua antepassada Josefina e consegui identificar alguma coisa da existência do António José Machado, esse jovem que em 1876 tinha tão bom ar.



A bisavô desta seguidora do meu blog, a Josefina Adelaide Machado, nasceu a 10 de Novembro de 1883, em Chaves e foi baptizada no dia 18 do mesmo mês. Era filha de Daniel da Silva Machado, negociante, natural de Samões, Concelho de Vila Flor e de Adelaide da Silva Bento Machado, natural de Chaves e moradores no arrabalde. O seu padrinho foi o nosso António José Machado, também negociante e naquele ano permanecia ainda solteiro. Tentei consultar os registos paroquiais de Samões, Vila Flor, para saber em que anos nasceram estes irmãos, mas infelizmente não se encontram digitalizados. Embora, sendo ainda uma vila neste 3º quartel do século XIX, Chaves era uma terra próspera, situada num vale rico e com muito comércio derivado quer da proximidade com Espanha, quer da presença de quarteis e atraia muita gente dos concelhos vizinhos. Portanto, era natural, que estes Machados de deslocassem de Vila Flor para Chaves em busca de melhores oportunidades.



Através da consulta da obra História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012 consegui aperceber-me que estes irmãos Machados desempenharam um papel activo na vida pública de Chaves e que o seu estabelecimento comercial já existia na década de 70 do século XIX., conforme passo a descrever.



A 13 de Junho de 1876, o Jornal A Voz de Chaves publicou um anúncio da Machado & Irmão, no largo do Arrabalde, agentes da Mala Real Inglesa e paquetes a vapor. Logo em 1877, Daniel da Silva Machado foi um dos 14 membros eleitos para instalar um asilo de infância desvalida em Chaves e entre 1890 e 1892 foi vereador da Câmara Municipal de Chaves. Em 1895, a 27 de Outubro, novamente A Voz de Chaves enuncia uma lista de homens com qualidades para serem eleitos para nova vereação. Entre eles está António José Machado, proprietário e negociante em Chaves. Em 1900, nas actas da Câmara Municipal de Chaves, registou-se proposta da nomeação de uns quantos cidadãos ligados ao meio industrial para estabelecer as contribuições respeitantes às contas gerais do Estado, entre os quais, António José Machado. Em 1906, aquando da visita do Rei do D. Carlos a Chaves, a Câmara Municipal daquela vila, convidou uma série de cidadãos proeminentes e empresas para dar uma contribuição financeira, de forma cobrirem o déficit dos cofres do município, resultante daquela real visita . Uma das firmas foi precisamente a Machado & Irmão.

Machado & Irmãos, fazendas, miudezas. Largo do Arrabalde Chaves. Foto de Fernando Ribeiro, publicada no blog https://chaves.blogs.sapo.pt/79138.html

Em suma estes irmãos Machado, o Daniel e o António José eram comerciantes abastados, negociantes e que participaram na vida pública de Chaves no último quartel do século XIX e o seu estabelecimento, que sobreviveu quase até aos dias de hoje, era dos mais antigos em Chaves.

Por último, esta é também a história do reencontro de uma sobrinha trineta e de um trineto, descendentes desses dois homens, que em 1876 trocaram fotografias entre si, António José Machado e José Rodrigues Liberal Sampaio.

António José Machado

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Duas crianças bem comportadas em biscuit

 

Este bibelot deve ser sido das últimas peças, que comprei antes da pandemia. Como todos os bibelots é um objecto inútil, que não serve para nada a não ser para apanhar pó, mas eu perco-me com estas peças em biscuit do início do século XX. Recordam-me as fotografias antigas dos nossos avôs, em que as crianças envergam bibes cheios de folhos, trajes de marujo e estão tão quietas, com um ar tão comportado, como se nunca se tivessem sujado com cerejas, andado à bulha com os irmãos ou entornado um prato de sopa na toalha de linho bordado durante o jantar de cerimónia.
 
 

Nesta peça os dois meninos são tão bem comportados, que imitam as atitudes dos adultos. Envergando um barrete frígio, o menino prepara um cachimbo enquanto observa a menina, que lê atentamente um livro de histórias. Como se usava na época, ela tem dois laços, um ao pescoço e outro na cabeça por cima da touca. Esta cena seria hoje impensável. No presente, as crianças não se portam irrepreensivelmente, vestem fatos de treino, usam o boné ao contrário, jogam nas consolas ou nos telemóveis e sobretudo não fumam. Nos Estados Unidos deve ser até proibido comercializar estatuetas com meninos a preparem-se para fumar e a União Europeia também já deve ter feito qualquer directiva sobre o assunto.
 


Mas na realidade, não consegui descobrir nada desta peça. Pelas toilettes dos meninos imagino que terá sido fabricada entre 1900 e 1914. Não está marcada, apresentando apenas um número de série atrás, o 2845, que se deve reportar ao molde e não ao centro de fabrico. Os grandes produtores de figuras em biscuit nestes anos eram os alemães, que inundavam o mercado com as suas figurinhas de meninos, destinados aos lares burgueses. Contudo, esta tradição de fazer o biscuit em branco é francesa e começou no século XVIII em França, na fábrica de Sèvres e a ideia era imitar a estatuária em mármore, num material mais barato e susceptível de ser produzido em grande número. Desde essa época e pelos séculos XIX e XX fora, Sèvres e outras fábricas francesas produziram milhares destas figurinhas em biscuit branco, copiando modelos de escultores clássicos ou neoclássicos ou inspirando-se nas cenas galantes à moda de Watteau, com pastoras e cortesãos namoriscando ou então com os inevitáveis putti.


Estas figurinhas ficavam muito bem em cima de cómodas ao estilo Luís XVI, consolas ou a servirem de garniture de uma chaminé ou para decorarem mesas de jantar, os chamados surtouts de table. Também desde o século XVIII, a montagens de peças de biscuit ou porcelana em bases de bronze ricamente trabalhadas era uma característica muito típica dos mestres franceses. Esses trabalhos ficaram conhecidos pelo termo francês montures.
 
A típica garniture de chaminé ao estilo de Sèvres. Garniture é o termo francês que designa as peças a serem colocadas por cima de um fogão de sala e que devem ser sempre em número ímpar.
 
Contudo, esta minha peça de biscuit não representa vitórias aladas, não copia nenhuma escultura do Canova nem representa puttis brincalhões, mas antes dos dois meninos vestidos à moda do período que vai entre 1900 e 1914. A monture é feita sobre uma base de latão dourado, em vez de bronze. Por outro lado, neste período, as activas fábricas inglesas já copiavam há muito as estatuetas de Sèvres e também caminhava-se a passos largos para uma época de globalização e era natural que na província alemã da Turíngia, celebre pelas suas porcelanas e biscuits se fabricassem peças ao gosto francês.

Em suma, esta peça é feita ao gosto francês, mas eventualmente poderá ter sido feita na Alemanha ou até mesmo na Inglaterra.
 
 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Uma moeda romana encontrada durante o confinamento

A moeda romana achada debaixo do louceiro
Com já aqui escrevi, aproveitei o confinamento para fazer umas limpezas monumentais na minha casa. Tirei tudo o que estava dentro dos móveis, encerei-os, arrastei-os e passei cera também no chão. A coisa foi de tal ordem, que por vezes fiquei encerrado numa divisão e tinha que pular para ter acesso à cozinha ou à casa de banho.

Enquanto retirava os móveis do sítio, encontrei umas quantas moedas, de cêntimos ou de um ou dois euros, mas debaixo do louceiro apareceu nada menos nada mais do que uma moeda romana!
 
Um aspecto das minhas limpezas: a moeda encontrava-se perdida debaixo deste louceiro
 
Embora a minha casa se situe dentro da antiga muralha fernandina do século XIV, numa zona urbanizada ainda antes do grande terramoto de 1755, a sua construção deve datar do último quartel do século XIX e depois disso já sofreu variadíssimas obras e assim sendo, esta moeda não podia ter feito parte de tesouro escondido por um mercador romano, pouco antes da cidade de Olisipo ter sido tomada pelos bárbaros no séc. V depois de Cristo. Na verdade, acabei por me lembrar, que esta moeda era minha e estava numa prateleira do louceiro e deve ter resvalado para o chão, enquanto tentava arranjar espaço para mais uma chávena e ali ficou perdida uns seis ou 7 anos. Quando liguei ao Manel ao contar-lhe este episódio, ele recordou-se que tinha sido ele próprio a dar-me esta moeda já há uns quantos anos.

Resolvi então olhar esta pequena moeda com mais atenção mas pensei com horror, que já não me lembrava nada de numismática, apesar de ter tido essa cadeira na faculdade de existir uma tradição de coleccionismo de moedas na minha família. O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio fez uma belíssima colecção de moedas, que José Leite de Vasconcelos mencionou quando visitou o Solar de Outeiro Seco. Ainda para mais esta pequena moeda encontra-se muito desgastada pelo uso e pelo tempo, tornando muito difícil a leitura das suas inscrições. No entanto, achei desde logo, que esta pequena moeda tinha um talhe um pouco rústico e não podia ser uma daquelas moedas do tempo do Imperador Augusto. Faltava-lhe a qualidade e a precisão das moedas da época em que Roma estava no seu maior apogeu. Imaginei por isso, que fosse uma moeda já cunhada no chamado Baixo Império, isto é, o período que vai entre 284 e a queda do Império em 476.

Como não conseguia ler a inscrição do anverso ou da cara, resolvi percorrer nos manuais de numismáticas as moedas dos vários imperadores do Baixo Império, o que é um mundo, pois corresponde a alguns períodos de grande instabilidade política, em que os imperadores se sucediam vertiginosamente uns aos outros, com muitos assassinatos à mistura e a certa altura, existiam mesmo dois imperadores um a Ocidente, em Roma e outro a Oriente, com capital em Constantinopla. Fui fazendo este trabalho por amostragem e por comparação acabei por me convencer que esta moeda foi mandada cunhar pelo Imperador Valentiniano II entre os anos de 375-385 da nossa era, mas não estou absolutamente certo, pois o reinado deste imperador é uma verdadeira trapalhada. Até 383 partilha a púrpura imperial com o seu meio irmão, Graciano, assassinado nesse ano e depois dessa data, com um usurpador Magnus Maximus, em Tréves e ainda com Teodósio I, em Constantinopla e as respectivas moedas não são assim tão diferentes.
 
Um asse, cunhado no tempo de Valentiniano II. Imagem reproduzida de Coins ancient, mediaeval, modern / R.A.G. Carson. - London : Hutchinson of London, 1962
 

Um asse, cunhado no tempo de Valentiniano II. Moeda à venda no site de https://www.vcoins.com/
 
A minha moeda. O busto do Imperador Valentiniano II
 
Na cara, consigo ler o nome de Valentianius e ver o seu busto com a coroa imperial. No reverso, lê-se a expressão latina Reparatio Reipub, típica das moedas desta época, que aludia a pretensão destes imperadores de restaurar a República, isto é ordem política e social, que naqueles tempos andava muitíssimo conturbada. As figuras que aqui se vêem, uma mulher de joelhos diante do imperador são precisamente uma alegoria a essa ideia da vitória da ordem imperial sobre a anarquia. No topo inferior, BSISC, indica o local da cunhagem, Siscia, antiga cidade romana, que se localizava em território que é hoje a Croácia e na época era um centro importante de cunhagem de moeda.
 
O reverso da minha moeda, onde se lê Reparatio Reipub e BSISC
 
Mas como é que uma moeda cunhada no território que é hoje a Croácia, veio parar até as terras que são hoje Portugal, perguntarão os leitores menos familiarizados com a história de Roma. Apesar de o Império Romano já se encontrar em fase de decadência por volta de 375-385, o comércio ainda era activo e ao longo da costa da Lusitânia, desde Lisboa até ao Algarve existia uma florescente indústria de pasta de peixe, o Garum, que era exportada por barco directamente para Óstia, o grande porto, que servia a cidade de Roma. Nesse entreposto, os mercadores e os tripulantes receberiam moedas de todos os cantos do Império e regressavam a sua Lusitânia natal, onde as gastariam e assim as moedas cunhadas na longínqua Siscia poderiam aparecer por todo o território que é hoje Portugal.

Quanto ao tipo, esta moeda é muito provavelmente um asse ou ás, uma pequena espécie de bronze ou cobre. Neste período encontraram-se umas quantas variedades de asses, para os quais não se conhecem as denominações originas e por esta razão os numismatas convencionaram uma subdivisão com nomes codificados, baseada no diâmetro. Esta tem 20 mm de diâmetro, portanto será um Æs3.

Este achado arqueológico, que encontrei na minha casa durante as limpezas do período confinamento não tem grande valor no mercado. Encontrei uma à venda por 40 euros. No entanto evoca, todo um período conturbado do baixo império ainda o meu desmazelo de acumulador de velharias, que deixou esta moeda tantos anos perdida debaixo de um armário.
 
Um asse do tempo do imperador Valentiniano II (371-392 )
 
Alguma bibliografia e links consultados:
 
 
 
 
Coins ancient, mediaeval, modern / R.A.G. Carson. - London : Hutchinson of London, 1962

sábado, 16 de maio de 2020

Ao sempre jovem Francisco Manuel: memórias familiares

A primeira das fotos onde, ao centro, aparece o jovem, cujo rosto me pareceu apresentar os traços de família
Aproveitei o confinamento para começar a organizar as fotografias da família materna, que não são antigas como as do lado paterno, da família Montalvão. Há uma ou outra fotografia dos finais do XIX, mas a maioria são já da segunda metade do século XX. Os Morais não eram uma família fidalga e abastada como os Montalvões e só tiveram acesso à fotografia nos últimos anos do XIX.

A segunda fotografia. No topo, o terceiro jovem  a contar da esquerda é o mesmo da fotografia anterior.

A organização de fotografias deve obedecer a algumas regras e a primeira é sempre manter a ordem em que se encontram, isto é, nunca de deve desfazer um álbum, porque ele foi constituído por alguém e aquela aparente desordem traduz uma hierarquia de afectos ou os momentos mais significativos da vida de uma família, um baptizado, uma festa ou um passeio.

Mas, muitas vezes apanhamos fotografias avulsas, sem ordem nenhuma e muitas das quais não conseguimos identificar sequer as pessoas, o que nos faz sentir aquela angústia, de que parte da nossa memória familiar morreu para sempre. Contudo é preciso não desesperar e formar conjuntos por ramos familiares, por épocas, por acontecimentos ou pessoas e desta forma conseguem-se identificar muitas personagens ou situações. Neste trabalho de separação por conjuntos encontrei três fotografias datadas mais ou menos da década de 10 do século XX, onde havia um denominador comum, um jovem bonito de bigode e que parecia apresentar os traços da minha família, um rosto comprido, os olhos pequenos e a pele branca, enfim qualquer coisa de indefinível, em que eu me reconheci, numa época em que tinha apenas vinte anos.

O meu tio avô Francisco Manuel em menino.



O Francisco Manuel em jovem

Não sei porque suspeitei que fosse o irmão da minha avô materna,  que morreu jovem em 1916.  Dele conhecia uma fotografia em que era um menino e outra, mais jovem a 3 quartos, mas sem bigode. Existiam algumas parecenças com estas e as três fotografias que acima referi, mas não tinha provas, até ao momento, em que em casa do meu pai, ao estudar um levantamento que ele fez da história da família da minha mãe, encontrei uma fotografia do Francisco Manuel, com um bigodinho e confirmei as minhas suspeitas.

O Francisco Manuel no levantamento levado a cabo pelo meu pai
De facto, nas três fotografias, encontra-se  representado o meu tio avô, o Francisco Manuel de Morais, que morreu apenas com 25 anos, num acidente estúpido de caça, em 4 de Outubro de 1916. Terá usado a espingarda para baixar um ramo de uma figueira de forma a colher os frutos melhores e a arma disparou-se sozinha, pondo fim à sua vida, isto é, o que o seu pai conta numa carta de 11 de Outubro desse ano, dirigida a um amigo, Joaquim Cardoso da Cunha Júnior. Quando cerca de 80 anos mais tarde, o meu pai fez o levantamento mais sistemático destes acontecimentos, corria ainda na vila a história, que teria sido um dos companheiros de caça do jovem Francisco Manuel, um tal Padre Alípio Teixeira, que o teria morto acidentalmente.

Anuário da Faculdade de Sciências da Universidade do Porto (Antiga Academia Politécnica) , 1915. O Francisco Manuel era aluno transitário de ciências naturais, dos cursos para medicina.

Seja lá qual for a verdade acerca deste acidente, a morte do Francisco Manuel, que estudava Medicina na Faculdade Ciências das Universidade do Porto gorou todas as expectativas que o pai depositava nele. Na sua própria juventude, o meu bisavô, Clemente da Ressureição (1858-1944) quis estudar medicina, mas os pais, prentendiam que ele se ordenasse sacerdote, desejo muito comum entre todas as famílias naquela época, o último quartel do século XIX, já que era uma forma de progressão social garantida e que provavelmente implicaria menos custos que um curso de Medicina em Coimbra ou no Porto. Este conflito ter-se-ia resolvido quando a mãe dele, a minha trisavô Francisca lhe teria dito, ou és Padre ou não és nada e o jovem Clemente optou pelo nada e tornou-se lavrador, activade sem o prestígio e as garantias de ascensão social, cultural e económica de uma carreira médica ou na Igreja.

Mas, apesar do desfecho trágico da história do Francisco Manuel (1891-1916)  e do fracasso das expectativas do seu pai, o Clemente da Ressurreição, ficaram estas fotografias da sua juventude  dos seus companheiros de farra. Ao que parece, no Porto não terá tido uma vida tão virtuosa como isso e arranjou por lá uma companheira e um filho, mas também não admira pois ele era tão bonito.


A terceira fotografia. No topo, o segundo a contar da esquerda está o mesmo jovem das fotografias anteriores.



Verso da fotografia. Foi impressa em formato de postal, para enviar a amigos e familiares, o que nos dá a ideia de que esta reunião social foi importante.

Na última fotografia, o Francisco Manuel aparece um pouco mais sério, rodeado de damas e de uns cavalheiros mais velhos, que não consigo identificar. As senhoras mais novas usam já saias um pouco mais curtas, revelando os sapatos, numa moda típica do período da Primeira Grande Guerra (1914-1918), o que me leva a crer que poderá ter sido tirada pouco antes da sua morte, mas o sítio não o consigo identificar, mas foi sem dúvida no Norte e a casa que se vê ao fundo, com o balcão de madeira, parece-me típica de Trás-os-Montes, talvez mesmo de Vinhais. A ocasião que esta fotografia registou deve ter sido importante, pois há dois exemplares e são em forma de postal, para se poder enviar aos amigos e parentes. Talvez a jovem que veste uns ousados sapatos brancos, que se destacam na fotografia, fosse a companheira do Francisco Manuel no Porto e a reunião social tivesse sido uma apresentação à família.

Quem seria a jovem dos sapatos brancos, que tanto se destacam

Estas fotografias antigas tem sempre o seu quê de misterioso e levam-nos a imaginar histórias, que poderão estar muito longe da verdade.

O sempre jovem Francisco Manuel de 
Morais (28 Março de 1891- 4 de Outubro de 1916)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A ilusão do luxo


Nos últimos tempos fui comprando objectos em casquinha, alpaca e outros materiais com pretensões a nobreza, pois dão-me a ilusão de um quotidiano mais requintando, usando um açucareiro ou uma caixa de chá que parecem prata. São normalmente coisas que se compram a bom preço nos mercados de velharias, pois apresentam-se muito oxidadas ou já sem a camada de prata original que as revestia. O tratamento para lhes devolver o brilho, a elegância e a ilusão de luxo, é muito simples, basta usar um produto para limpar pratas ou então o Pratex, que as reveste novamente de uma fina camada de daquele metal nobre.

Aproveitei agora o confinamento para limpar todas essas peças, que fui comprando e em alguns casos para renovar-lhes a fina camada de prata e o resultado foi tão bonito, que não resisti a apresenta-las aqui em conjunto. O açucareiro e a caixa de chá são coisas inglesas dos finais do XIX e inícios do XX, imitando o estilo da prataria neo-clássica. A caixa de chá sem decoração de qualquer espécie não tem marca nenhuma e tanto poderá ser francesa, inglesa ou portuguesa e os dois talheres são suecos. A Suécia sempre teve uma grande tradição na cutelaria e estas duas peças foram efectivamente compradas a um sueco, que vivia no Algarve, mas fazia a feira de Estremoz.

Talheres suecos


A colher para servir o molho ou talvez para verter a calda em algum doce está marcada. Foi fabricada pela GuldsmedsAktieBolaget, uma casa fundada em Estocolmo em 1867 e que hoje faz parte do grupo GENSE. Além do nome, "Guldsmeds, as restantes siglas, AB, são o desenvolvimento de AktieBolaget e NS, são as iniciais suecas de Ny silver, em português, nova prata, designação que se dava naquele País a estas galvanoplastias, que pareciam ser prata, mas não eram bem prata. Não faço a menor ideia da época em que foi produzida esta colher. Poderá até ser coisa da segunda metade do século XX. Até há bem pouco as famílias burguesas gostavam de comprar faqueiros ou mobílias num estilo qualquer do passado, um Luís XVI, renascença ou um D. João V.
Guldsmeds AB NS


Quanto à colher que serve para espalhar aquele açúcar muito fininho sobre os bolos, apresenta duas marcas, uma referente ao processo de galvanoplastia e materiais utilizados e outra identificando a decoração. Extraprime ALP NS, quer dizer uma alpaca de boa qualidade e o NS, alertava o consumidor, para que aquela colher era feita em nova prata, e não na antiga e verdadeira prata. Hagar é a residência da família real sueca, cujo nome que deu origem a uma decoração nos faqueiros, muito popular entre os cuteleiros daquele País, a julgar pelas pesquisas no Google.

Extraprime ALP NS


Estes processos químicos de revestir objectos em latão com prata ou por materiais que aparentassem ser prata generalizaram-se na indústria a partir de 1840 e permitiram colocar na mesa dos burgueses assim-assim a ilusão de estarem a usar uma baixela de prata, semelhante aquelas que serviam nas casas dos aristocratas ou dos grandes burgueses da alta finança e da indústria.

Casquinha, alpacas e outros materiais com pretensões a nobreza

Alguns links consultados com o auxílio do Google translator



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Uma longa viagem até Coimbra

Os possíveis companheiros de viagem do meu bisavô
Aproveitei este período de confinamento para terminar a catalogação do segundo álbum de fotografias em formato carte-de-visite da família Montalvão. O primeiro álbum é mais antigo, certamente compilado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935) e este segundo terá sido formado pelo filho, José Maria Ferreira Montalvão (19-05-1878/24-5-1965) Embora contenha também fotografias antigas das décadas de 60 a 80 do século XIX, a maioria das 85 fotografias são constituídas por condiscípulos de Coimbra do meu bisavô e estão datadas mais ou menos entre 1900 e 1902. Desses colegas, que eram jovens promissores no início do século XX, o grosso dele estudaram Direito, tal como o meu bisavô, mas há também uns quantos de Teologia e um de Matemática. Praticamente todas essas fotografias dos tempos de Coimbra, contem sempre uma dedicatória afectuosa ao meu bisavô, que a ele o tocaram muito e a mim deram-me um jeito doido para identificar os personagens.

José Maria Ferreira Montalvão


Enquanto, procedia ao trabalho de transcrição das assinaturas, com a preciosa ajuda do motor de busca do arquivo da Universidade de Coimbra, que tem os processos dos alunos inventariados praticamente desde que a Universidade é Universidade, recordei-me de algumas histórias que o meu pai contava para nos distrair, durante as longas viagens que fazíamos de automóvel de Lisboa a Chaves ou Vinhais, na década de 70 do século XX. Na minha meninice e adolescência existiriam pouco mais de 50 km de auto-estradas em Portugal e percorrer aqueles 500 km até Trás-os-Montes era um verdadeiro suplício. Tenho a vaga ideia que no Natal demorávamos 12 horas para chegar ao nosso destino. Uma das histórias que inevitavelmente o meu pai contava, era que o seu avô empreendia aquela viagem a cavalo em direcção a Coimbra. Saia de Chaves e pelo caminho encontrava outros condiscípulos também a cavalo e iam formando uma coluna, que engrossava à medida que se aproximavam de Vila Real e estaria já completa na Régua, onde existia uma estação de caminho-de-ferro desde 1879, que assegurava uma ligação de Comboio até ao Porto.


Lembrei-me então de juntar todos os condiscípulos transmontanos do meu bisavô presentes neste álbum e fazer uma reconstituição possível dos seus companheiros de viagem a cavalo, entre Chaves e a Régua, percurso esse, que certamente demoraria muito mais do que um dia e implicando que pernoitassem pelo caminho em estalagens, albergues ou casas de famílias conhecidas.

Manuel Augusto Granjo. Fotografia J. M. dos Santos, Coimbra


Talvez o primeiro companheiro, que encontrasse logo em Chaves, fosse o Manuel Augusto Granjo, irmão do célebre António Granjo, figura emblemática da República Portuguesa. O Manuel Augusto Granjo fez o curso de Direito, entre 1893-1898, um pouco mais cedo que o meu bisavô, mas o meu antepassado estava a estudar em Coimbra desde 1885, fazendo nessa cidade o que é hoje o ensino secundário e posteriormente, o Superior. Portanto é muito plausível que tivessem sido muitas vezes companheiros de jornada.
António José do Carmo Rodrigues Sarmento


Dedicatória de António José do Carmo Rodrigues Sarmento ao meu bisavô

Logo nem Valpaços, encontrariam o António José do Carmo Rodrigues Sarmento, um jovem distinto e bonito, natural de Santa Valha e cuja família detinha o Morgadio de Santo António dos Aciprestes. Era ainda aparentado com meu bisavô. Ambos descendiam de dois casamentos ocorridos entre as duas famílias, ainda no século XVII, quando O 2º Morgado de Vila Frade, Francisco de Montalvão Coelho (1675-1739)  e a irmã Maria de Coelho de Montalvão (1666) casaram "a troco" com a Luzia Morais de Castro e o irmão, o 3º Morgado dos Aciprestes, Francisco de Morais Castro. Talvez os dois não conhecesse precisamente as raízes desse parentesco, mas eram do mesmo meio e sabiam que todas estas famílias da mesma região eram aparentadas. 


Augusto Pinto Pimentel Furtado.Fotografia de Pinho Henriques, Coimbra
Dedicatória de Augusto Pinto Pimentel Furtado, datada de 1900
Depois, já em Vila Real, juntar-se-iam ao grupo, o Augusto Pinto Pimentel Furtado, que já vinha de Favaios, Concelho de Alijo, o Agostinho José da Costa Lobo, de uma conhecida família daquela cidade e ainda um jovem, com um ar de poeta romântico, cuja fotografia não tem dedicatória ou identificação, mas que se fez fotografar por António Augusto Alves Teixeira (1877-1918) o fundador da Photografia Vila-realense.



Agostinho José da Costa Lobo de Vila Real. Fotografia J. M. dos Santos, Coimbra



Dedicatória de Agostinho José da Costa Lobo



Este jovem com ar de poeta romântico talvez fosse um dos compagnons de route do meu bisavô. Fotografia de A. Teixeira (António Augusto Alves Teixeira) da Photografia Vila-realense
Finalmente na Régua, este grupo de jovens encontraria talvez o António de Sampaio Chaves, vindo de Parambos, Carrazeda de Ansiães, quem sabe se de barco, pois na época as ligações fluviais através do rio Douro, ainda estavam muito activas.
António de Sampaio Chaves, de Carrazeda de Ansiães. Fotografia J. M. dos Santos, Coimbra

Dedicatória de António de Sampaio Chaves

Na Régua, este grupo de sete jovens, partiria de comboio até ao Porto, onde dormiriam e na manhã seguinte apanhariam um outro Comboio até Coimbra. Imagino eu que toda esta viagem duraria uns cinco dias. Aliás, segundo o meu pai, o meu bisavô só a faria duas vezes por ano, no início e no final das férias de Verão.
 
Como dizem os franceses estes compagnons de route desenvolveriam nesses dias uma intensa camaradagem e provavelmente experimentariam peripécias e aventuras engraçadíssimas, como sempre acontece quando se viaja e se é jovem. O meu bisavô estudou em Coimbra 17 anos, entre 1885 e 1902 e tinha umas recordações estupendas daquela cidade e da camaradagem que ali se vivia. O estado de conservação do seu álbum está aqui ao meu lado para prova-lo. Foi manuseado e folheado, vezes sem conta, a lombada descolou-se e as folhas de papel onde se encaixam as fotografias rasgaram-se de tantas vezes as tiraram. O meu pai conta que quando o meu bisavô viajou para Coimbra na década de 50 e viu as destruições e terraplanagens da Alta de Coimbra, a parte mais antiga da cidade, chorou amargamente, pois grande parte do cenário da sua juventude havia desaparecido para sempre, para dar lugar aos blocos da nova Cidade Universitária. Para José Maria Ferreira Montalvão, a hora da despedida definitiva de Coimbra foi amarga e sem encanto.


Demolição da Alta de Coimbra. Foto retirada de https://www.researchgate.net/figure/Figura-2-Demolicao-do-Largo-do-Castelo-actual-Praca-D-Dinis-Coimbra_fig2_322661574 e publicada por Tiago Miguel Ferreira

Nota final: com excepção da última imagem, todas estas fotografias são do arquivo da família Ferreira Montalvão e terei muito gosto em fornecer cópias digitais aos descendentes das personagens aqui retratadas.