quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fragmento de um Santo António de Lisboa

Na minha casa povoada de cristos, virgens, santos e estampas devotas, fazia falta um Santo António. É certo que tenho uma estampa onde figura o Santo António, que se venera na Sé de Coimbra, mas não é a mesma coisa que o verdadeiro Santo António de Lisboa. O resto do mundo venera-o como Santo António de Pádua, um homem que foi doutor da Igreja, mas nós em Portugal, transformamo-lo num santo popular, afectuoso e até casamenteiro, embora essas características pouco ou nada tem a ver com o verdadeiro Fernando de Bulhões, que era um erudito.


Reparem no furinho do livro que servia paara encaixar o Menino Jesus

O Prof. Hermano Saraiva pensa que a tradição confundiu este culto com o de S. Gonçalo de Amarante, que era realmente um santo popular. E embora seja um leigo nesta matéria, não me custa nada acredita-lo, pois sei que é muito comum a devoção popular confundir e juntar dois cultos, como por exemplo o de Sta. Maria Madalena, a Arrependida, com o de Sta. Maria, a Egipcíaca, outra rapariga arrependida dos pecados da carne, que viveu no tempo em que estes pecados atormentam as mulheres e os homens.



Mas, há demasiada literatura escrita sobre o Santo António de Lisboa para me perder nestas questões de como os portugueses transformaram um homem culto, num santo milagreiro e casamenteiro. Na realidade, o que vos queria contar é que consegui comprar um Santo António na feira-da-ladra, no passado Sábado. É certo, que é apenas um fragmento de uma estatueta, mas é uma seguramente uma peça do século XVIII. Encontrei no catálogo António Capucho: retrato do Homem Através da Colecção. Lisboa: Civilização, 2005 peças muito semelhantes a este meu santo em terracota e datadas do século XVIII.
Peças da da antiga colecção António Capucho
Outras peças da antiga col. António Capucho

O meu santo está muito partido, mas tem uma expressão amável e uma decoração simples, mas elegante com uns dourados aqui e acolá, no hábito franciscano.


No livro, que representa o Evangelho, apresenta um furinho, que serviria para colocar o Menino Jesus. Segundo uma tradição antiga, certa vez, num albergue onde se acolheu para passar a noite, Santo António foi visto pelo estalageiro com o menino Jesus nos braços e é nesta lenda que assenta a esta sua iconografia tradicional.


A cabeça do santo apresenta também um orifício na cabeça, que serviria para encaixar um resplendor em prata, que ainda hei-de comprar um quando estiver mais abonado de dinheiro. Na outra mão, o Santo teria uma açucena, a flor que simboliza a pureza, mas essa terá sido a primeira a partir-se.

As Açucenas no Jardim do Manel
Esta pequena estatueta, por estar partida, permite também observar uma técnica muito antiga, da terracota. Foi ocada para permitir que no momento da cozedura não se partisse.

Pronto, já vos contei tudo do meu pequeno prazer deste Sábado. E tudo apenas por sete Euros.

O Santo António de Lisboa e os seus companheiros
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25 comentários:

  1. Caro Luís
    Parabéns pela compra deste Santo António de Lisboa.É um fragmento é certo, mas "cheio de encanto e beleza" e, quanto a mim, fica muito bem no suporte em que o colocou, que me parece ser em acrílico.

    Há já algum tempo, que não vou às velharias aqui das redondezas, e já vou sentindo falta do prazer de regressar a casa, com qualquer coisa comprada :). Vícios...
    Um abraço
    Maria Paula

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  2. Luis:
    Tenho três imagens de Santo Antonio, em uma pequena coleção recem-iniciada. A primeira, belíssima, de cerca de 60 cm, com o menino, resplendor e uma cruz de prata. Em madeira, tem os olhos de marfim e ébano ( segundo consta); esta imagem veio junto a uma fazenda que compramos a estrangeiros na decada de 40 do sec. passado; tenho mais um Antonio em madeira, numa pose pouco comum: ajoelhado e outro, tambem em madeira, doado por uma católica que se converteu ao protestantismo. Infelizmente não tenho como datar estas imagens.
    Abraço do seguidor.

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  3. Olá Luís

    Muito interessante o seu Stº António. Embora fragmentado, não deixa de ter valor, principalmente para quem o tem em apreço e também para os demais Santos que o rodeiam.
    O encanto da sua expressão serena e algo infantil remetem-nos para um fabrico mais popular, tão querido às nossas populações, que gostam dele pelos seus dons, entre eles os de casamenteiro e o das coisas perdidas.
    Parabéns pela sua compra
    Cumprimentos
    if.

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  4. Maria Paula

    De facto o suporte é em acrílico e vinha com uma réplica que comprei no Museu do Louvre há muito tempo. Contudo, pendurei essa peça numa parede e o acrílico ficou dutante uns 3 ou 4 anos fechado numa gaveta, até que surgiu este encantador fragmento, que parece feito por medidada para ele.

    Abraços

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  5. Caro Bernardo

    A única maneira para datar estas peças é por comparação com outras peças, que estão em museus ou que são vendidas em leilões. Nos sites do MatrizPix e Matriznet pode encontrar as colecções dos museus portugueses em linha. O Correio Velho, o Cabral Moncada e o Aqueduto tem boas páginas com os catálogos de leilões on-line. no Brasil há a colecção estupenda daquela Senhora, a Angela Gutierrez, cujo museu tem também um bom site.

    Claro, ter em casa bons livros de arte também ajuda.

    Mas, em todo o caso, datar peças é sempre complicado, sobretudo estes santos de barro, mais populares, que eram fabricados muitas décadas a fio mantendo as mesmas formas.

    Um abraço lisboeta

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  6. cara If

    Encantei-me por este caco sem grande valor comercial por causa da expressão amável, das pinturinhas douradas e do simbolismo que este santo tem para nós os portugueses.

    Abraços

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  7. Luís,
    É extraordinário verificar como um pequeno fragmento de uma imagem pode manter um aspeto tão digno e atraente. Ainda bem que não foi deitado fora, ou se foi, alguém o
    descobriu e recuperou.
    Sem dúvida, a forma como o Luís o colocou no acrílico valorizou-o imenso e a companhia que lhe proporcionou também lhe deu o devido enquadramento.
    Tem uns traços muito bonitos de menino mas aquele penteado elaborado dá-lhe um certo ar senhoril, “very dignified”!
    Gostei imenso de ver esta recuperação de um Santo Antoninho tão nosso... e tão lindo!
    Abraços

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  8. Olá Luís,

    Que bela compra , sua imagem é um mimo ! E como tudo que é belo encanta também tenho uma secreta predileção por Santo António.

    Este seu Santo António será de Estremoz ?

    Sei que esta região produziu muitas imagens e inclusive influenciou a imaginária brasileira. No Brasil, imagens semelhantes a sua foram produzidos em grande quantidade na região de São Paulo e são conhecidos como "Paulistinhas" pequenas imagens em barro. Também foram feitas excelentes peças em barro e podem ser vistas no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Este Museu é muito interessante, pois possui peças "espectaculares" e tambem um acervo de peças com um cariz mais popular.

    Parabéns pela compra...será que ainda dá para pedir um casamento para ele ? rsss

    Nota: Ao seguidor brasileiro:

    Talvez Interesse: Imaginária Paulista Esculturas / texto e curadoria de Carlos A.C. Lemos (São Paulo: Pinacoteca do Estado 1999) várias fases da imaginária Paulista, alguma imaginária mineira (peças em barro e madeira)

    Um grande abraço

    José Oliveira

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  9. Olá Luís

    A compra revela mais uma vez a sua sensibilidade e sentido de estética.
    Amazing!

    Quando lhe comprar o resplendor em prata...carito...ainda ficará com mais brilho.

    Amei o conjunto no oratório.

    Uma referência ao quintal do Manel onde as açucenas são o destaque maior pela simbologia e brancura...nem falo no tanque em pedra que lhe está a trás e dos quais adoro...vi o pormenor do estendal e a forma como a toalha está estendida...uma coisa é certa nunca pendurei uma toalha dobrada, sempre estendida...não sei a razão...
    Isto para rematar que a sua sensibilidade aqui tantas vezes exaltada a par da do Manel que não lhe fica nada atrás, igualmente grandiosa e simplista. O conjunto do post é fabuloso.
    Parabéns pela sua capacidade surpreendente de enaltecer o ego e o espírito de quem aqui pára para o ler.

    Bom fim de semana
    Beijos
    Isabel

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  10. Maria Andrade

    Curioso. O manel também reparou no cabelo do Santo, que é muito bem acabado. Eu não reparei logo nesse pormenor. Julgo que o cabelo e a decoração a dourado dão-lhe o tal ar senhoril, que menciona.

    Abraços

    luuís

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  11. Caro José Oliveira

    Já o imaginava desaparecido para sempre no espaço virtual e sentia aqui a falta do seu contributo.

    Não faço a menor ideia se este santo será um fabrico de Estremoz. Encontrei pouca bibliografia sobre escultura em terracota. O que aparece é sobre os barristas dos presépios.

    Tb concordo consigo. O nosso amigo brasileiro, o Bernardo, tem muitas colecções de arte sacra no Brasil e textos brasileiros muito bons sobre esta matéria na net, até mais do que em Portugal.

    Um abraço e está autorizado a pedir um casamento ao meu Santo, pois pela minha parte, não irei pedir nada nesse sentido, pois já me chegou um casamento na vida.

    Abraço e volte sempre

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  12. Maria Isabel

    Eu sabia que ia reparar nas Açucenas. Há muito que andava a tentar arranjar uma oportunidade para as mostrar no blog e não foi difícil ela aparecer, já que é uma flor de uso muito antigo nos jardins portugueses e muito presente na arte sacra, como símbolo de pureza. Em Espanha, chamam-lhe as Açucenas de La Virgen.

    E sabe que mais? São umas plantas muito fáceis de cultivar. Não precisam de uma gota de água, vivem na perfeição no clima inclemente do Alentejo e tem um perfume inebriante.

    Beijos

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  13. O tempo vai-me escasseando e não consigo fazer tudo que gostaria.
    Nem comentar já consigo, mas lá chegará o tempo ...
    As açucenas surpreenderam-me de verdade, não fazia ideia sequer que as tinha no quintal, até ao momento que mo informaram.
    Lembro-me que o quintal da minha avó tinha um canteiro de açucenas, mas já não me recordava delas, e, afinal, pela raridade com que as vejo, julgo não ser uma flor de moda. O que encontro amiúde são as "coroas-imperiais" ou outras flores afins ...
    Quanto ao teu fragmento de Santo António, não é tanto o seu preço, mas a sensibilidade para lhe dar o valor.
    As coisas não possuem valor a não ser aquele que estamos prontos a conceder-lhe!
    Somos nós que instituímos o valor das coisas.
    Como exemplo poderei considerar a arte africana: não creio que uma parte significativa dos portugueses tenham apreço pelas peças de arte africana, por isso, podemos ver peças fantástivas à venda por quase nada ... num centro mais erudito e conhecedor estas peças atingiriam preços proibitivos, muitas delas poderiam facilmente ingressar num museu.
    Que esta peça é do século XVIII, não duvido, até pelas suas características, e a forma como a expuseste foi deveras oportuna.
    Julgo que a forma como está arranjado o cabelo de uma peça, a par de muitos outros métodos, pode ser suporte para a sua datação, pois, na estatuária da Grécia antiga, a datação de peças também passa pela análise dos penteados (e da respectiva moda), sobretudo as Korai.
    Um agradecimentos à Maria Isabel pelas palavras bonitas ... mas o meu jardim ainda está longe daquilo que tenho em mente, muito longe mesmo, mas a pouco e pouco lá chegarei, assim tenha eu os meios para o fazer.
    Neste momento é um emaranhado de coisas algo díspares, mas reconheço que melhorou substancialmente deste que passou para a minha posse. O muro que vê em segundo plano não é de um tanque, mas as paredes de um poço muito antigo a que dedico muita reverência! Mas desejo ter um tanque, do tipo "de rega", qualquer dia!
    Manel

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  14. Ah! Olha a imagem aí! Esta eu tive o privilégio de testemunhar a compra! Que sensação engraçada. Como se tivesse por um momento passado para o lado de lá do blog!
    abraços

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  15. É verdade Fábio. Por algumas horas, deixaste de estar dessa lado do monitor e te tornaste uma pessoa real, que fizeste parte activa deste mundo de velharias à volta do qual eu e o Manel vivemos. Gostei muito de te mostrar a feira-da-ladra, o Museu Nacional de Arte antiga, a minha casa e de passear pelas ruelas de Lisboa.

    Abraços

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  16. Boa noite

    _Parabéns pela sua aquisição.
    Se quer ter uma ideia de como seria o seu Santo António por inteiro, aqui pode ver outro idêntico pertencente á minha coleção;
    http://muraldaspetas.blogspot.com/2011/10/para-ligeiro-restauro.html
    Cumprimentos

    El Mano del Tajo...

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  17. Caro Mano Del Tejo

    Realmente a semelhança é incrível. Sem dúvida que as duas imagens sairam da mesma oficina. Talvez o meu Santo tenha um rosto mais bem pintado, mas como nós sabemos, estas peças eram artesanais e nunca saiam exactamente iguais.

    Muito obrigado

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  18. Boa noite

    Sim, existem semelhanças e sem dúvida terão saído da mesma oficina. Quanto á expressão no rosto também concordo e complemento com mais uma informação, tratar-se-á seguramente de uma outra versão pois já tive nas mãos com uma imagem idêntica á sua na expressão facial, mas infelizmente muito maltratada...por isso não a adquiri á época...mais uma razão para eu pensar ser uma outra versão saída da mesma oficina. Pena é o autor ter querido permanecer anónimo e não ter assinado a sua obra!!!!

    Cumprimentos

    E.T.

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  19. Caro ET

    Gostava de publicar a fotografia do seu santo o meu blog e pedia-lhe a sua autorização. Farei naturalmente um link para o mural das petas

    Abraço e obrigado

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  20. Boa noite

    Claro que sim...eu entretanto tenho um outro Santo António (peça em faiança das Caldas da Rainha) que não é de RBP, que gostaria de saber mais sobre ela, e que durante o fim de semana irei fotografar para se o amigo fizer o gentil favor de fazer a sua análise "pericial"...
    Cump.

    EMT

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  21. Boa tarde

    Entretanto hoje consegui fotografar a tal peça/imagem que queria saber um pouco mais sobre ela...agradeço qlr informação adicional (datação/história da oficina onde foi produzida,etc,etc)...pode vê-la aqui:

    http://muraldaspetas.blogspot.com/2012/01/made-incaldas-da-rainha.html

    >Cump

    EMT

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  22. Olá novamente...

    Tinha referido anteriormente que tive nas mãos com uma imagem idêntica á sua, mas muito danificada, razão pela qual á época não a adquiri. Entretanto hoje ao "viajar"pelos meus ficheiros encontrei as fotos da mesma que na altura me forneceram para apreciação...pode vê-las neste link...apesar de a imagem estar inteira, o mesmo não se pode dizer da policromia...

    http://imageshack.us/g/403/1004966u.jpg/

    Cump.

    ET

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  23. E já agora mais uma informação adicional:
    Socorrendo-me da minha memória, tenho a ideia de que na casa museu Jose Régio em Portalegre existe uma imagem idêntica na coleção que o escritor também fazia de imagens do Santo, apesar de que este era mais conhecido por ser um ávido colecionador de Cristos.
    Também no catálogo da exposição realizada em 1995 no MAP (Museu de Arte Popular) "Santo António Devoção e Festa" com o nº 92 aparece uma imagem idêntica a esta com uma peanha muito idêntica á da minha imagem, o que comprova a teoria de se tratarem de imagens saídas da mesma oficina. Se não tiver o catálogo, posso fornecer-lhe fotos da imagem do catálogo da exposição...

    Cump.

    ET

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  24. Meu varo amigo

    Se me arranjar uma imagem desse catálogo do MAP seria perfeito, pois até ando até com vontade de fazer um novo post sobre o assunto.

    Abraço e mais uma vez obrigado

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  25. Boa tarde

    Ora aqui pode ver as imagens que retirei do referido catálogo:

    http://imageshack.us/g/841/imgp7751.jpg/

    Cump.

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