segunda-feira, 2 de julho de 2012

Menino Jesus de Malines

Hoje mostro-vos um Menino Jesus pertencente a Seguidora Anónima, que é um dos géneros de antiguidades mais procurados pelos coleccionadores, as imagens de Malines.

Malines é uma cidade a Norte de Bruxelas, na actual Bélgica que nos séculos XV e XVI se tornou célebre na Europa pela sua estatuária, nomeadamente pelos retábulos de altar, mas sobretudo pelas suas estatuetas de madeira, muito características, com um certo ar abonecado. Aliás, são conhecidas internacionalmente por Poupées malinoises  ou Poupées de Malines
Sta. Bárbara do Museu Nacional de Arte Antiga. Proveniente de Malines. Esta imagem apresenta ar abonecado típico da produção daquela cidade. Por esta razão ficaram conhecidas por Poupées malinoises 

No período em que estas estatuetas ou bonecas foram executadas Portugal tinha relações privilegiadas comerciais e políticas com esta região, o Brabante, que hoje está dividida entre a Holanda e Bélgica. Nos Séculos XV e XVI, os portugueses designavam esta província, bem como outras regiões vizinhas, a Flandres (actual Bélgica), a Picardia e o Artois (hoje França), pura e simplesmente por Flandres.
O complicado mapa dos domínios de Borgonha no Séc. XV. Malines está assinalada por uma seta

Estávamos no Período dos Descobrimentos Portugueses e o açúcar da Madeira e as especiarias do Oriente eram vendidas na Flandres e daí revendidas para toda a Europa. Esta região de países baixos, domínios de casa de Borgonha, que os portugueses conheciam por Flandres estava no centro de rotas comerciais importantíssimas. Uma rota que vinha da Península Ibérica, trazia as novidades dos descobrimentos portugueses e espanhóis. Outra vinha pelo Reno fora trazendo mercadores e mercadorias do Centro e Sul da Alemanha, até chegar à foz deste rio em Antuérpia. A Terceira rota saia da Flandres e ligava esta província por via marítima aos portos do Báltico, desde Copenhaga a Riga, passando por Hamburgo, Kiel ou Dantzig. Os portos flamengos estavam também ligados a Londres e a Paris através da foz dos rios Tamisa e Sena, respectivamente. Portanto a Flandres era uma verdadeira plataforma comercial europeia, aliás, manteve esse carácter nos dias de hoje, pois não foi por acaso, que Bruxelas foi escolhida como sede da União Europeia.
Nossa Senhora com o Menino proveniente de Malines. Museu Nacional de Arte antiga

Enfim, um dos produtos que os portugueses traziam da Flandres eram estas pequenas estátuas de Madeira da cidade de Malines. Porém não compravam toda a produção local. Preferiam a Nossa Senhora com o Menino e os Meninos Jesus, mas também importaram algumas Santanas (tríplices), Santas Bárbaras Santos Antónios e Stas. Margaridas.
Menino Jesus de Malines do Museu da Guarda

Estas figurinhas eram muitas vezes dispostas em retábulos, representando um jardim e fechados por painéis soberbos pintados a óleo. Em Portugal não se conhece nenhum exemplar destas espécies de oratórios, designados por jardins clos, mas há quem pense que possam ter influenciado de alguma forma o aparecimento dos presépios portugueses.

Quanto a estes Meninos Jesus de Malines, de que a Nossa Seguidora tem a sorte de dispôr deste exemplar, são facilmente reconhecíveis pelas suas coxas exageradamente roliças, mas há outras características que os identificam. São sempre representados nus, sob a forma de Salvador do Mundo, abençoando com a mão direita e segurando na esquerda a esfera do mundo.
As coxas dos Meninos Jesus de Malines são sempre exageradas
As proporções do corpo são sempre idênticas, isto é, a altura das pernas até ao púbis é igual à altura do púbis à raiz do pescoço. As nádegas são pequenas e as coxas exageradas. O rosto é flamengo, optimista e o cabelo é encaracolado e cortado numa espécie de tijela.


Os meninos Jesus de Malines são talvez as primeiras imagens de um culto extremamente popular em Portugal, que atingiu o seu apogeu nos conventos femininos nos dois séculos seguintes, conforme vimos no post anterior.
Alguma bibliografia:



IMAGENS DE MALINES DO MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA - Imagens de Malines do Museu Nacional de Arte Antiga. - Lisboa : Museu Nacional de Arte Antiga, 1976. - 58 p. : il. ; 25 cm

FERRAO, Bernardo - Imagens de Malines em Portugal / Bernardo Ferrão de Tavares e Távora. - Porto : Museu, 1975. - 262 p. : il. ; 24 cm

17 comentários:

  1. Caro Luis
    Tamanha obra didática está fazendo moleque!!!!
    Simplismente maravilhosa.Parabens e obrigadissimo.Num mundo que torna se mais invadido pelas vulgaridades e o mal gosto,o senhor e um farol cultural.Da mesma forma que a Santa Bárbara da foto, toca o meu coraçao com o seu tenro olhar,sea dedicaçao generosa para com a nossa formaçao cultural emociona me muito.Obrigado tambem a Seguidora Anónima.
    Carlos

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    1. O Carlos é muito simpático.

      As estatuetas de Malines são uma graça e representam muito bem o extraordinário intercãmbio comercial e cultural entre Portugal e a Flandres.

      Um abraço

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    2. Disponho um para venda. WWW.facebook.com/antiguidades
      Parabens pela publicação.

      Cump

      Gonçalo Marques

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    3. Caro Gonçalo

      Obrigado pelo seu comentário e pela sugestão.

      um abraço e continue a aqui vir

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  2. Olá Luís. Parabéns à seguidora anónima pela amostra da magnífica, e rara peça - cobiça de colecionadores a nível mundial - extensivo a si, pelo extraordinário post, elucidativo sobre um tema que me era totalmente desconhecido - Poupées malinoises ou Poupées de Malines.
    Muito obrigada pelo trabalho de pesquisa, e amostragem figurativa que me deixou de queixo quebrado pela exuberância!
    Beijos
    Isabel

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    1. Isabel

      Muito obrigado. De facto, estas estauetas aparecem pouco no mercado das velharias, mas convém conhece-las, não vá uma delas estar no estendal de um feirante que vende tudo a dois euros e nós deixarmos escapa-la. Lol

      Beipos

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  3. Olá Luís
    Como já nos habituou, os seus textos, elucidativos e didácticos, são excelentes. Realmente, a Flandres era uma zona de confluência de rotas comerciais, resultante da sua centralidade geográfica. As feitorias aí existentes,entre elas a portuguesa de Antuérpia, demonstram bem a sua importância económica, principalmente no século XV, aliada à descoberta da rota marítima da Índia.Entre as inúmeras importações chegavam as pequenas figuras de Malines, Bruxelas ou Antuérpia, que tão apreciadas foram "pela sua dimensão reduzida, a graciosidade das posições, o carácter medieval do tratamento escultórico, o bom gosto e finura da sua policromia, o exotismo e elegância da indumentária".
    if

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    1. Cara If

      Muito obrigado pelo seu comentário.

      De facto, a feitoria de Antuérpia é uma peça chave no comercio e nas trocas culturais entre portugal e a Flandres, que eu devia ter mencionado neste post e ainda bem que a If o fez.

      Um abraço

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  4. Concordo com a IF, que belo texto e que bem ilustrado com o mapa a acompanhar estas belas imagens de arte sacra, em particular o Menino Jesus da Seguidora Anónima! Parabéns!
    As imagens de Malines são mesmo um encanto e algo de inconfundível! As santas, como bem referiu, identificam-se imediatamente pelo rosto redondo de bonecas; os Meninos Jesus, não tanto pelas carinhas redondas porque todos os Meninos Jesus as têm, mas aquelas coxinhas roliças não deixam dúvidas, são mesmo corpinhos de criança pequena, até nas proporções que o Luís refere.
    Por algum motivo eu estou sempre a chamar ao meu neto "meu Menino Jesus de Malines" (LOL) e por isso ainda recentemente se falou nestas imagens cá em casa.
    Mas são altas antiguidades e eu nunca vi nenhuma à venda, nem teria "espaço" para ter uma em casa :)
    Dou por mim a pensar que nunca vi nenhum santo desta produção de Malines, será que só faziam mulheres e crianças?
    Beijos

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    1. Maria Andrade

      Neste momento estou no Alentejo, de férias, sem acesso a biibliografia e quando regressar a lisboa dou-lhe uma resposta mais fundamentada. Mas, para Portugal vinham sobretudo imagens femininas e pensa-se mesmo que a única excepção, o Santo António fosse uma produção específica para o mercado portugês.

      Talvez quando voltar a haver subsídios de férias possamos pôr as mãos num destes Meninos jesus de Malines.

      Beijos

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  5. Bem, pelo menos Santo Antónios parece que faziam, mas eu nunca vi nenhum.

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  6. As "desproporções" destas figuras de Malines são conhecidas, as quais, aliadas a um "fácies", que adivinhamos estrangeiro (em algumas das peças eu até diria que vejo influências mais orientais que nórdicas, no entanto devo ser eu a ver em demasia!), completam um quadro para identificar estas figuras.
    Vestidos com as suas sumptuosas roupas deveriam ser figuras de ostentação muito carismáticas.
    As ligações entre Portugal e a Flandres iniciaram-se cedo, creio que são mesmo anteriores ao séc. XII, e não nos podemos esquecer que a nossa primeira dinastia era proveniente de Borgonha.
    É de ter igualmente em conta a influência artística de Van Eyck no nosso país, sobretudo quando aqui foi enviado em embaixada por Filipe III, o Bom, duque de Borgonha, sobretudo na preparação do seu casamento com a infanta D. Isabel, filha de João I, personagem por quem nutro a maior admiração, o que não é muito comum em mim, quando se trata de realeza.
    A ordem do Tosão de Ouro foi criada por Filipe o Bom para honrar e celebrar esta princesa tão influente e respeitada no seu tempo.
    Esta mulher, que era igualmente uma mecenas das artes, parece-me ter sido uma das melhores embaixadoras do seu país.
    O seu retrato, pintado por Rogier van der Weiden, mostra-a como uma mulher não muito beneficiada pela beleza, mas este facto não impediu que fosse respeitadíssima, e tida na mais elevada conta não só pelo seu marido, mas igualmente pelas principais figuras políticas que governavam a Europa de então, nomeadamente o papa, com quem mantinha correspondência privilegiada.
    Aguns historiadores referem que se antagonizou com Joana d'Arc, a qual, com o exécito francês, a cercou na sua chegada à Flandres, por altura do seu casamento (ela chegou à corte de Borgonha em 1430 e a santa francesa foi queimada em 1431).
    Aliás, nem é de esperar que tivesse opinião diferente, pois tratava-se da filha de uma inglesa e recém-consorte de um borguinhão, ambos pertencentes a povos em guerra declarada com os franceses.
    Pena que seja uma mulher não muito conhecida e pouco estudada.
    Quanto à nossa obra de pintura mais famosa do século XV, os célebres painéis de S. Vicente, há teorias que os apontam como denotando influências da pintura flamenga, e, aqui, julgo não haver grande controvérsia.
    Mas há quem vá mais longe, colocando a sua feitura na própria Flandres. Não me arrisco, pois não tenho suficientes dados para chegar até aí.
    Comecei num sítio e acabei noutro, mas não podia perder a ocasião de celebrar a Infanta portuguesa de tão afortunada existência!
    Manel

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    1. Manel

      Neste Post esqueci-me de referir dois factores históricos que tem a ver a existências destas imagens de Malines em Portugal, a feitoria portuguesa em Antuérpia e as ligações familiares com Borgonha, nomeadamente através do Conde D. Henrique (o pai de Afonso Henriques) e da Infanta D. Isabel. Ainda bem que tu e a If acrescentaram esses dados que permitem perceber melhor esta intrincada teia de relações Portugal / Flandres.

      O comércio com a Flandres é antiquíssimo e julgo não estar enganado em afirmar que o primeiro produto exportado por Portugal para aqueles países baixos que tem catedrais por únicas montanhas foi o Sal.

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  7. Olá Luís.

    Com muito saber, bom gosto e ponto de encontro de gente com comentários muito ricos e interessantes, tornou-se obrigatório e no meu caso a sua visita vício.
    Não é mais um sítio de "Velharias" mas sim de Novidades.
    Obrigado mais uma vez pela sua nobre generosidade.

    Abraços

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    1. LuisY4 de Julho de 2012 23:10

      Joaquim

      Muito obrigado. É um grande incentivo que me dá com as suas palavras para continuar a escrever. Aliás, são amigos como o Joaquim e e a seguidora anónima, que me envia tantas imagens da sua colecção, que me fazem continuar neste desafio de escrever dois textos semanalmente.

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  8. Boa Noite Luís e seguidores,

    Um excelente post e excelentes comentários.

    Li o comentário da Senhora Maria Andrade e fiquei imaginando que só vi estes Meninos a venda nas Feiras da Cordoaria e no Convento do Beato. O antiquário que vi com a maior quantidade de Meninos Jesus de Malines,tinha 5 deles e propunha vender o conjunto. São mesmo muito pequenos e graciosos. Este antiquário está no Dom Pedro V aqui em Lisboa.

    Realmente não são peças que se vejam a venda com muita frequência.

    Um outro episódio, é que a cada pessoa este meninos chamam a atenção por algum pormenor: desproporção em alguns membros, as coxas grossas, as faces de boneca, eu gosto do cabelo, mas achei interessante um comentário que vi uma senhora (vendedora) fazer numa destas feiras e dizer que uma das características deste meninos, eram as nádegas (em forma de cu de feijão...nem sei se posso usar esta expressão aqui rsss). De fato comecei a observar as imagens e é um caracterísitcas ter estas nádegas algo estranhas.

    Será, apenas, mais um pormenor destas pequenas e desejadas imagens (para quem gosta deste tipo de arte) .

    Um abraço.

    José Oliveira

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  9. Zé Oliveira

    De facto, as nádegas destes meninos jesus são muito pequeninas e constituem umas das suas características mais evidentes. São peças caras e não estão ao alcance de todos, mas quem sabe se um de nós não os encontra numa banca, daquelas com tudo a dois euros cada?

    Julgo que todos temos um certo carinho por estas imagens. São os bonecos com que gostaríamos de ter brincado na infância. O meu filho quando era pequenino, mal nós virávamos costas ia brincar com os bonecos do presépio. Este apreço por estas figuras tem a ver com a infância e com sentimentos de paternidade ou maternidade.

    Abraços

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