quarta-feira, 22 de maio de 2013

Uma peça neogótica


Já há uns tempos o Manel comprou um candeeiro em bronze, neogótico, muito bonito, mas que suspeitou de imediato que já tinha sido electrificado posteriormente. Confirmei esta impressão do Manel, quando encontrei uma peça praticamente igual, no seu estado original, ao desfolhar por acaso a obra sobre pintura e artes decorativas Le XIXe siècle français: Paris. Hachette, 1957. Na realidade, o que é hoje um candeeiro foi no passado um castiçal, a que alguém, num período já muito posterior, retirou a parte de cima, com o intuito de o electrificar.

Como seria originalmente o candeeiro comprado pelo Manel

É um objecto muito curioso com uma decoração arquitectural gótica e segundo a obra Le XIXe siècle français, uma publicação da prestigiada revista Conaissance des arts, terá sido executado em França, por volta de 1830 e traduz o início de uma moda que dominou todo o século XIX.


Com efeito, em França, a seguir à queda de Napoleão, houve uma certa necessidade de procurar decorações que fugissem ao rígido estilo imperial e quando a monarquia é restaurada começam a aparecer logo depois de 1815 os móveis ditos de decoração gótica, com por exemplo, cadeiras com o espaldar em forma de arcos ogivais. Claro, estas peças tinham uma relação muito vaga com a Idade Média, pois como toda a gente sabe nessa recuada época usava-se muito pouco mobiliário. O rei teria direito a uma cadeira com espaldar, mas todos os outros sentar-se-iam nuns toscos bancos corridos ou mesmo no chão como era hábito em Portugal e Espanha e usariam umas arcas para evitar que os ratos comessem as roupas e pouco mais do que isso.

A decoração gótica idealizada para a coroação de Carlos X em França fez furor
Mas neste primeiro quartel do século XIX, esse rigor histórico não era muito importante nas artes decorativas e o gótico tornou-se uma verdadeira moda, quando em 1824, Jacques Ignace Hittorff realizou uma decoração gótica para a coroação de Carlos X, em França. A partir dessa data e ao longo de todo o século XIX, o gótico nunca mais deixou de estar na moda no continente europeu. Nos interiores reproduziam-se apainelados de castelos medievais ou vitrais de abadias góticas e na arquitectura levantaram-se moradias e palacetes, que imitavam o Chambord em França ou o Windsor no Reino Unido.

Uma moradia neogótica. Foto de http://www.photo.rmn.fr
Na Alemanha, o rei Luís II da Bavieta levantou em 1869 uma das maiores excentricidades arquitectónicas de sempre o castelo de Neuschwanstein, uma espécie de cenário de uma ópera de Wagner. Em Portugal esta moda medieval teve uma expressão muito significativa na arquitectura com o chamado estilo neomanuelino, cujos exemplares mais conhecidos são a Estação do Rossio ou o Palácio do Buçaco. 

Real Gabinete Português de Leitura - Rio de Janeiro

Mas construíram-me muitos mais edifícios públicos e privados neste estilo por Portugal fora e não só. No Brasil, o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, o maior e mais prestigiado centro cultural português no mundo, foi erguido ao gosto neo-manuelino.
Strawberry Hill, Twickenham. Residência do Duque d'Aumale durante o seu exílio. Foto de http://www.photo.rmn.fr
Mas o neogótico não foi só um capricho da moda. Correspondeu a uma tendência da cultura mais profunda do Século XIX. Na Idade Média formaram-se as modernas nações europeias e num período de nacionalismo exacerbado, a História surgiu como disciplina autónoma, que procurava nesse período justificar as aspirações independentistas de povos dominados como a Hungria ou a Croácia, os desejos de unificação dos alemães, ou a soberania portuguesa que parecia tão ameaçada no Século XIX. Também na literatura, o romance histórico apareceu nesta época e tomou a Idade Média como seu tema principal. O gosto pelo período medieval levou também à valorização das catedrais românicas e góticas como obras de arte (até aí só as ruínas da antiguidade greco-romanas eram apreciadas), que começaram pela primeira vez a serem protegidas por Lei e a serem restauradas. Em 1846, o arquitecto Viollet-le-Duc foi pioneiro no trabalho de restauro, que dirigiu na igreja Notre-Dame de Paris.

 
 
Este candeeiro neogótico, que foi no passado um castiçal, evoca o início de uma tendência na cultura, na história, na literatura e nas artes, em que a Idade Média deixou de ser considerada um época de barbárie e passou a ser valorizada, estudada e admirada pelos europeus.

15 comentários:

  1. Magnífico.
    Mais uma história construída à volta de uma peça que encanta.
    Parabéns para o seu amigo que tem uma peça muito interessante e romântica.
    Gosto de vir aqui porque aprendo sempre. Pensei que era difícil encontrarem-se peças como as que vai desvendando.
    Boa noite!

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  2. Cara Ana

    Este antigo castiçal apareceu por mero acaso, como quase todas as boas peças. O Manel achou-a desde logo muito bonita e percebeu que era bronze dourado. Mas só agora, quando descobrimemos que era uma peça francesa, de cerca de 1830, referenciada numa publicação da Conaissance des arts é que nos apercebemos que é de facto uma boa peça de muito boa qualidade. Claro, perdeu algum valor quando lhe retiraram a parte superior, mas enfim, são as marcas do tempo esse grande escultor.

    Um abraço

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  3. Uma peça interessante que descobri há alguns anos no chão de uma casa de velharias, em que reparei porque havia uma parte menos suja e negra com um brilho de ouro aplicado à antiga; face à condição da peça, lá consegui trazê-la por um preço irrisório.
    Durante alguns anos não sabia muito bem o que fazer com ela, e ficou num canto da minha oficina à espera de melhores dias.
    Tinha sido eletrificada posteriormente, patente nos encaixes atamancados que apresentava, fios elétricos ainda revestidos a tecido, o qual, pela idade, já se encontrava puído; estavam destinados a provocar um valente esticão a quem se atrevesse a utilizá-los de novo.
    Quando a limpei, com muito cuidado, apareceu o brilho do ouro, ainda em relativo bom estado nas partes verticais, menos sujeitas ao desgaste e abrasão provocados pelo tempo.
    Continuou como candeeiro de mesinha de noite e foi direta para o quarto que o Luís utiliza quando vai ao Alentejo.
    Claro que não fazia ideia da origem da peça, nem da época da sua produção. Foi uma surpresa quando o Luís me mostrou aquilo que deve ter sido o original desta minha peça na conceituada revista "Connaissance des Arts", a qual já me era familiar porque possuo igualmente alguns exemplares.
    Apesar de considerar, como é lógico, que a peça perdeu o valor quando foi transformada, continuo a pensar que esta transformação foi-lhe favorável, e hoje está bem melhor utilizada nesta sua nova função. Fá-lo-ia de novo se necessário fosse.
    Quero agradecer ao Luís o trabalho de pesquisa à volta deste, agora candeeiro de mesinha de noite
    Manel

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  4. Nem sei que diga!Ou melhor, verifico que eu é que tinha razão, quando afirmei que o Manel tinha olhar arguto e perspicaz.
    No meio das inúmeras tralhas que se arrastam pelo chão de uma casa de velharias, conseguiu descortinar uma peça que se evidenciava por um estilo distinto de tudo o resto. Et voilá! Eis que o nosso prezado Luís encontra o puzzle que faltava. Cá para mim, um e outro têm qualquer coisa de Sherlock Holmes!
    Castiçal, ou candeeiro, é e será sempre maravilhoso! Parabéns aos dois.

    Abraço

    Alexandra Roldão

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  5. Manel

    Como dizem os franceses, esta peça foi uma verdadeira "trouvaille". Enfim, tiveste um execelente golpe de vista.

    O prazer das velharias não se esgota no acto da compra. O gozo está também na posterior descoberta de mais informações sobre a data e fabrico de qualquer ferro-velho. Este antigo castiçal que ninguém dava nada por ele, é afinal, uma peça francesa, de cerca de 1830 e um testemunho muito revelador do início da moda neogótica na Europa.

    abraços

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  6. Cara Alexandra.

    Com efeito, o Manel tem um bom golpe de vista e depois tal como eu não se concentra só num tipo de velharia, por exemplo, há quem só coleccione faiança ou a porcelana. Aprecia mobiliário antigo, azulejaria, candeeiros, estampas e tudo um pouco. Além disso faz também restauro. E todas essas coisas que vai comprando aqui e acolá constituem não só um prazer para vista, como também pequenos desafios para identificar as peças.

    um abraço

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  7. Olá,Luis e Manel
    É como eu digo.
    O Manel é um expert em antiguidades Só de lançar o olho,lá descobre uma relìquia valiosa
    Digam lá se não é de pessoa inteligente...
    Já está tão abituado a encontrar peças valiosas ,que só de olhar...pimba,lá tem mais uma reliquia belíssíma para regalo dos nossos olhos
    Mas temos que entender que não é para todos
    O que está destinado a ser para o Manel,por muito mau estado que esteja,resplandece nas mãos do Manel
    Será que este nosso amigo terá o toque de Midas?
    Uma dupla de força ,o Manel e o Luís
    Um abraço para os dois

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  8. Pois é, é este o encanto das velharias, encontrarmos peças de que não sabemos nada, mas que nos atraem pela qualidade que se adivinha, trazê-las para casa e depois é o desafio de procurar saber o mais possível sobre elas. Foi assim que aprendi muita coisa, não só sobre loiça - tal como o Manel e o Luís, tenho múltiplos amores :) - mas é nessa área que me sinto mais à vontade...
    Esta peça, que acho fabulosa e teve realmente um encontro muito feliz com o Manel, assim como os ambientes góticos e neogóticos que o Luís aqui evoca, levam-me logo para os pintores ingleses Pré-rafaelitas com aqueles cenários muito românticos evocando a época medieval. E eu adoro essas cenas!
    Muitos parabéns ao Manel pela descoberta e pelo trabalho de restauro e ao Luís pelo belo trabalho de pesquisa que aqui apresenta.
    Abraços

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  9. Cara Grace

    O golpe de vista para as boas peças vai-se desenvolvendo com a experiência e também com a consulta de livros de arte e muitas visitas aos museus.

    Um abraço e muito obrigado pelas suas palavras sempre tão simpáticas

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  10. Maria Andrade

    Muito obrigado pelo seu comentário.

    Com efeito o gosto pela Idade Média é comum a todas artes e julgo que também se observa na pintura. Claro, haveria muito mais a referir sobre esta tendência das artes e da literatura, como os nomes de Victor Hugo ou Alexandre Herculano. Mas este texto foi apenas um post de um blog para enquadrar o castiçal do Manuel num ambiente decorativo neomedieval e na mentalidade oitocentista, que cultivou um gosto muito acentuado pela Idade Média.

    Bjos

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  11. Se o Luís não se importar que use o seu espaço, gostaria de perguntar ao Manuel se é escultor. Tem uma oficina, fiquei com tanta curiosidade. Gosto de pessoas que criam.

    Boa tarde!

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    Respostas
    1. Não Ana, não sou escultor. Gostaria, mas não.
      Limito-me a ter uma oficina onde faço restauro de mobiliário nas minhas horas livres. Acaba por ser um hobby a partir de uma antiga paixão.
      E nessa oficina guardo as peças que compro e que, ou o tempo livre, ou ter outras peças entre mãos, não me deixa conseguir restaurar.
      Daí guardá-las até melhores dias.
      Faço alguma talha em madeira, mas de forma muito artesanal, gosto mesmo é da marcenaria aplicada ao restauro de peças e ao estofo de peças antigas, pois as contemporâneas, e os materiais modernos pouco me interessam. Uso-os na medida que não desvirtuam a peça, ou porque o cliente assim o exige, mas evito-os
      Manel

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  12. Caro Luis

    Estes seus trabalhos revelam muita paixão e a vivência num mundo encantado.
    O Luis não trabalha numa biblioteca, o Luis é uma biblioteca.

    Um abraço
    Vitor Pires

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  13. Obrigada, Manuel.
    Já restaurei alguns móveis mas de forma muito suave. Quando fui viver para a minha primeira casa, alguns dos móveis foram comprados em lojas de velharias. Hoje continuam por cá.
    O que faz em talha " de forma muito artesanal" podem ser tesouros. Depende dos olhos de quem vê.
    Desejo que passe excelentes horas nesse hobby.
    Gosto de peças antigas e de algumas modernas. O diálogo nem sempre é fácil mas às vezes conseguem-se bons resultados.
    Foi um prazer conversar consigo.
    Boa noite!

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  14. Caro Vítor

    Muito obrigado. Não sou uma biblioteca com duas pernas, mas tenho algum faro, que esta profissão dá e sobretudo passam-me muitos livros pela mão.

    Um grande abraço

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