terça-feira, 3 de novembro de 2015

Santa Joana Princesa, Rainha Santa Joana de Valois e as intrigas da corte francesa

S. Ionna
Quando o Manuel comprou este registo aguarelado, com a legenda S. Ioanna, emoldurado preciosamente no século XIX, pensámos de imediato que se trava de uma representação de S. Joana Princesa. De facto tudo parecia apontar para que aquela figura coroada, envergando um manto de arminho e entregando uma esmola a um pobrezinho, fosse a Infanta de Avis (1452-1490), filha de do Rei D. Afonso V e que ficou conhecida na história como Santa Joana Princesa.


Fui então consultar o Dicionário de iconografia portuguesa: retratos de portugueses e de estrangeiros em relações com Portugal / Ernesto Soares, Henrique de Campos Ferreira Lima. - Lisboa : Instituto para a Alta Cultura, 1947-1960 e andei a ler a entrada sobre a forma como S. Joana Princesa é representada na arte portuguesa e os dados não coincidiam com a estampa do Manel. Normalmente Santa Joana Princesa é mostrada como monja dominicana, com um crucifixo na mão e ainda, uma coroa real e uma caveira algures no chão ou pousada numa mesa.

O Dicionário de iconografia de Ernesto Soares remetia para a obra de Rocha Madahil Iconografia da infanta Santa Joana. - Coimbra: Coimbra Editora, 1957 e fui então consultar esse livro, que me deu informações muito detalhadas sobre a forma como na arte se mostrou a figura daquela infanta de Portugal.


Segundo Rocha Madahil, as estampas que representam S. Joana são de dois tipos.



Retrato de Santa Joana Princesa do Museu de Aveiro. Foto wikipedia
As do primeiro tipo inspiram-se de uma forma mais ou menos fiel na tábua quatrocentista do Museu de Aveiro, que é um retrato verdadeiro da Princesa. 
 
Uma representação típica de Santa Joana Princesa. "3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou". Foto http://www.csarmento.uminho.pt/ 
O segundo tipo é constituído pelas estampas devotas e nelas a Princesa é representada em hábito de dominicana e tem como atributos a coroa de Espinhos, o crucifixo, um livro de orações, frequentemente uma caveira, e quase sempre aparece de corpo inteiro, 3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou. O Brasão de armas de Portugal acompanha muito frequentemente as figurações da Infanta, bem como uma legenda identificadora mencionando expressamente a sua categoria social de Princesa.
 

Uma representação típica de Santa Joana Princesa. Santa Joana é sempre identificada como Princesa de Portugal. Foto
http://www.csarmento.uminho.pt/
Em suma, a estampa do Manel não era certamente uma representação da Santa Joana, Infanta de Aviz, pois esta não era identificada inequivocamente como Princesa de Portugal, não havia coroas pelo chão, nem um escudo de Portugal e nem a figura trajava um hábito dominicano.

Rocha Madahil adverte para o facto que as estampas com a legenda S. Ioanna e que mostram uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois, cujo culto, em tempos idos terá conhecido também alguma popularidade em Portugal, pois existem uns quantos registos desta santa nas colecções das bibliotecas e museus portugueses
As gravuras com a legenda S. Ioanna, mostrando uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois

Esta Joana de Valois (1464-1505) era filha Luís XI de França e da Rainha Carlota de Sáboia e como todas as princesas reais daquela época, foi um mero joguete de uma prática, em que os casamentos eram contratos políticos, que variavam consoante os interesses das conjunturas do momento. Com efeito, o seu pai casou Joana com Luís de Orleães, uma família demasiado próxima do trono de França, com o objectivo maléfico de afastar os Orleães da sucessão real, pois sabia perfeitamente, que daquele matrimónio nunca sairiam filhos, uma vez que a jovem era coxa e corcunda. Se de facto, Luís de Orleães nunca fez uma vida matrimonial com pobre Joana, conhecida na época como la boiteuse, as contas saíram um bocadinho trocadas a Luís XI, quanto a afastar do trono o seu genro, pois o seu filho mais velho, Carlos VIII morreu acidentalmente, sem deixar filhos varões e Luís de Orleães, passou a ocupar o primeiro lugar na sucessão da linha do trono. No meio de uma intriga política complicadíssima, daquelas em que a corte francesa é pródiga, Luís de Orleães e a la boiteuse acabaram por se tornar reis de França, o que explica que a figura da estampa do Manel esteja coroada e com um manto de arminho. Contudo, a pobre Joana foi rainha por pouco tempo, pois Luís de Orleães, agora Luís XII, pediu ao Papa a anulação do matrimónio, para se casar com Ana da Bretanha, viúva de Carlos VIII, assegurando a integração definitiva daquela região no Reino de França. Depois de um processo complicado, em que Joana foi vilipendiada, o Papa Alexandre Bórgia acabou por anular o casamento e a La boiteuse, foi recompensada com o título de Duquesa Berry.

Santa Joana de Valois por Jean Mazoyer. Bordeaux, église Sainte-Eulalie. Foto http://inventaire.aquitaine.fr/
Apesar de coxa e corcunda, Joana de Valois era inteligente e sensível e logo depois de ser repudiada, dedicou-se à única actividade permitida a uma mulher da sua condição (para além dos lavores femininos), a religião e fundou a Ordem da Anunciação (Ordo de Annuntiatione Beatae Mariae Virginis), que ainda hoje existe. 

Voltando à gravura do Manel, depois de todas estas leituras, o que era uma simples imagem piedosa, transformou-se num pequeno símbolo das insídias da corte dos Valois, fonte inesgotável para a literatura, para o cinema e mesmo para aqueles historiadores, que se comprazem com a intriga política.
S. Ionna
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cenas Venezianas: faianças da Wood and Brownfield, da misteriosa marca C. & J. Shaw e ainda de Sacavém

 
Quem gosta e aprecia faiança inglesa do século XIX sabe que é um tema muito bem estudado e que uma simples pesquisa pela marca, no Google, permite datar e identificar rapidamente o prato ou a travessa, que temos lá em casa. Todavia, a passagem de 150 ou 200 anos depois da produção dessas loiças inglesas apagou inevitavelmente alguns registos, fazendo desaparecer alguns aspectos da história dessas cerâmicas. Nesses casos, não há internet, que nos valha e se quiséssemos eventualmente recuperar a história de alguns fabricantes, como a misteriosa firma inglesa C. & J. Shaw, teríamos que fazer uma investigação em arquivos, anuários industriais ou velhos catálogos de fábrica. Como me falta a disponibilidade para fazer investigações mais sérias terei que me valer das marcas existentes, associar algumas ideias e fazer suposições. 
Pormenor da travessa. Uma vista italiana imaginada.

Toda esta história começou quando eu e o Manel comprámos na feira de Estremoz, um prato coberto e uma travessa de um enorme serviço de jantar de faiança inglesa, de meados do século XIX, que estava à venda na Feira de Estremoz. Todo o serviço era muito bonito e as várias peças representavam uma paisagem italiana, com algumas variantes entre si, misturando ruínas romanas, lagos românticos e gôndolas venezianas, mas no fundo sem reproduzir nenhuma vista real em concreto. Enfim, a decoração deste serviço mostra uma Itália imaginada e romântica, destinada a deleitar uma burguesia, que lia nos jornais ilustrados as maravilhas de Roma, Veneza ou Florença, mas não tinha dinheiro para viajar até lá.

Contudo, ao contrário do que eu e o Manel achávamos natural, as marcas das peças que comprámos, não eram as mesmas.
O prato coberto, ao qual lhe falta a tampa.

O meu prato coberto apresenta a marca H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, acerca do qual fiz algumas pesquisas na net e descobri senhor H. Cutler era um fabricante de cutelaria, isto é, produzia facas de cozinha, talheres, canivetes e ferramentas. Aliás, à semelhança da nossa Guimarães, a localidade de Sheffield era célebre pelas suas fábricas de cutelaria. Em suma, este H. Cutler não parece ter sido um produtor de cerâmica.
A marca do prato coberto

Já a travessa do Manel, apresenta a marca W. & B., facilmente atribuível à fábrica inglesa Wood and Brownfield, uma firma que inicia a sua actividade em 1837 e termina em 1900, com algumas alterações de nome pelo meio.

 
A travessa e a sua marca W. & B.

No sábado seguinte, o Manel voltou à Feira e constatou que as restantes peças do serviço, que ficaram na banca do vendedor ostentavam no reverso a marca W. B ou C. & J. Shaw. Este C. & J. Shaw é um nome do qual se sabe muito pouco, na internet não há informações pertinentes sobre ele, mas aparecem aqui em Portugal muitas peças com a sua marca muito característica, que inclui além das referidas iniciais, o mote latino, Vincit Veritas, quer dizer, mais ou menos, a verdade vencerá, ou pela verdade vencerás.

Portanto, no mesmo serviço encontravam-se três marcas diferentes: H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield; W. B e C. & J. Shaw, o que constituía verdadeiro quebra-cabeças.

Porém, lembrei-me que há uns tempos, a Margarida Elias, do blog memórias e imagens, tinha-me enviado uma imagem de um prato coberto inglês com uma marca incisa, ilegível e que ela me pediu ajuda para identificar. Na altura, não consegui ler a marca, mas fiquei com a coisa pendente numa pasta da minha cabeça, que se intitula assuntos que o só tempo resolverá. E com efeito, abri novamente o e-mail, vi que o prato coberto era igualzinho ao meu e percebi que a marca que lá estava deveria ser certamente, Brownfield.

Portanto, era plausível que o meu prato coberto poderia ser sido fabricado pela Wood and Brownfield e vendido com a marca estampada, H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, talvez fruto de uma encomenda especial daquele fabricante de cutelaria, destinado aos seus clientes, qualquer coisa do género, na compra de um faqueiro, oferecemos um valioso serviço de jantar, mas, talvez isto, seja apenas uma suposição minha, decerto mirabolante.
A travessa da terrina

Quanto ao misterioso C. & J. Shaw, continuava sem saber porque é as suas marcas apareciam em algumas peças neste serviço de cenas ditas venezianas. Lembrei-me então que o meu amigo Manel, tem uma cozinha pejada de loiças inglesas, onde não cabe nem mais um simples pires de café, e que tinha algumas peças com esta decoração pretensamente veneziana. Pedi-lhe então o favor de ver as marcas dessas peças e fotografa-las e quando o Manel me envia as fotos de uma terrina com presentoir, descubro com espanto, que no verso da travessa estão duas marcas em simultâneo o W. & B e o C. & J. Shaw.
As marcas da terrina: W. & B e  C. & J. Shaw.
Portanto, estas marcas provam que este C. & J. Shaw esteve associado de alguma forma à Wood and Brownfield. Recordei-me que o autor do blog Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, já tinha notado com estranheza que todos os manuais ingleses, referem Wood & Brownfield como única produtora do motivo Grecian Statue, que mais tarde foi copiado por Sacavém no popular motivo cavalinho e ignoram completamente C. & J. Shaw, que também produziu aquela decoração, cujos exemplares aparecem muito em Portugal. 

Com o recurso dos conhecimentos da língua inglesa do Manel, escrevi então ao Steve Birks, que é o responsável pelo site http://www.thepotteries.org, uma bíblia na internet para a identificação de marcas de faiança inglesa, pedindo-lhe ajuda para tentar montar as peças deste puzzle. O Steve Birks foi muito gentil e respondeu-me muito rapidamente, confirmando-me que mesmo em Inglaterra, se sabe muito pouco deste C.& J. Shaw, embora seja referido muito sumariamente na Encyclopaedia of British Pottery and Porcelain Marks. Em todo o caso, fez uma entrada no seu site para C. & J. Shaw, ilustrada com imagens tiradas deste blog e fazendo o ponto da situação, o que certamente irá ajudar outros interessados neste assunto em prosseguir as suas pesquisas.
Um pormenor do prato coberto

Em todo o caso fica claro, que há inequivocamente uma associação entre C. & J. Shaw e o Wood and Brownfield, agora qual a sua natureza, se institucional ou meramente comercial, isso é que não se sabe. Há talvez duas hipóteses:

- A C. & J. Shaw poderia ser uma marca com a qual Wood and Brownfield comercializava as suas peças nalguns mercados estrangeiros, como Portugal ou os Estados Unidos, que são os países onde aparecem mais estas louças;

- A C. & J. Shaw poderia ser uma firma britânica, talvez sedeada em Portugal, que se dedicasse a importar louça inglesa e quem sabe se também cutelaria. No século XIX, o que não faltam são exemplos de famílias inglesas estabelecidas em Portugal e nas ilhas atlânticas, que se dedicam ao negócio dos vinhos, do chá e da laranja e também da faiança, como foi o caso de Sacavém. Inclino-me mais para esta hipótese, de o C. & J. Shaw ser um importador, pois a Maria Andrade, apresentou há uns anos um prato, que ostenta no verso também duas marcas distintas, a primeira do C. & J. Shaw e segunda do Hope & Carter. Sendo assim, C. & J. Shaw teria acordos estabelecidos com mais de uma firma britânica para distribuir louça para Portugal.

Talvez a resposta a estas perguntas se encontre nos arquivos portugueses das alfândegas ou nos registos da propriedade industrial ou em anúncios de velhos almanaques e revistas.


Uma variante da Venetian Scenery da Wood and Brownfield, usada nos pratos de sopa. Foto de http://www.blueandwhite.com/
Aliás, esta ligação a Portugal, parece estar sempre presente em todo este puzzle que aqui descrevi, pois umas décadas mais tarde, a Fábrica de Loiça de Sacavém produzirá também uma louça, com uma decoração veneziana, inspirada directamente nestas Venetian Scenery do C. & J. Shaw e da Wood and Brownfield.



Sacavém produziu também um motivo inspirado na Venetian Scenery da Wood and Brownfield.
Alguns links úteis:

http://www.thepotteries.org/allpotters/902a.htm

http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/c.+%26+j.+shaw

http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2010/10/prato-ingles-com-motivo-braganza.html

http://printedbritishpotteryandporcelain.com/who-made-it/brownfield-sons-maker


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Faiança portuguesa ou o Mestre das Folhagens


Hoje apresento aqui dois grandes pratos de faiança portuguesa, certamente do século XIX e dos quais não sei nada, além de que são bonitos. Não apresentam qualquer marca e também encontrei nada que se lhe assemelhasse nos catálogos de faiança, que tenho lá em casa, de modo a ter uma pista para identificar o seu fabricante ou local de produção. Aliás, estes dois pratos, que pertencem ao meu amigo Manel, são quase paradigmáticos do conhecimento que se tem de uma boa parte da faiança portuguesa do século XIX, quer dizer, há peças fantásticas e muito criativas, mas como não estão marcadas, pouco ou nada se sabe delas e limitamo-nos quase sempre a escrever meia dúzia de impressões, que podem perfeitamente estar completamente erradas, e, é precisamente isso que irei fazer neste post.

Pela boa qualidade da faiança ou talvez por mera intuição, eu diria que estes enormes pratos foram fabricados algures em Gaia ou no Porto.

A decoração com motivos vegetais distribui-se assimetricamente pelas orlas dos pratos. É uma pintura de uma grande simplicidade, com os elementos estilizados de uma elegância despojada, quase japonesa, o que me faz pensar se não serão peças já posteriores a cerca de 1870-1880, quando a moda do japonismo aparece na cerâmica europeia. Contudo, mais a Sul, em Coimbra as oficinas de faiança produziam os modestos pratos ratinhos, que apresentam igualmente decorações assimétricas e por vezes despojadas, mas duvido que esses mestres coimbrões soubessem sequer o que era o Japão. Na prática, fico na dúvida se estes dois pratos são uma visão da natureza profundamente popular, que se encontra na também louça ratinha, ou se são uma interpretação popular de uma moda mais cosmopolita e erudita, como foi o japonismo na arte europeia nos últimos 20 ou 30 anos do século XIX.


Igualmente baseado numa intuição, julgo que estes dois pratos saíram da mesma fábrica e talvez até das mãos do mesmo artífice. Apetece-me fazer como os historiadores da pintura primitiva europeia, que criaram designações poéticas para oficinas de pintores, cujos nomes não conseguiam identificar, como por exemplo os Maîtres à l'œillet ou o Mestre do Retábulo do Paraíso. O artesão que decorou estes dois pratos merecia bem ficar na história da cerâmica como o mestre das folhagens.

Em todo o caso, seja lá qual foi a inspiração que moveu as mãos deste mestre das folhagens, o trabalho que deixou nestes pratos evidencia bem a enorme criatividade da faiança portuguesa do século XIX.
 
 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

6º Aniversário do velharias do Luís


Nunca fui muito dado a comemorações. Esqueço-me dos aniversários de familiares e de amigos, há muito que deixei de dar jantares e festarolas quando faço anos e embirrava quando me mandavam escrever aquelas redacções sobre a Primavera, o Natal, a Restauração ou o dia da árvore. Funciono sempre melhor com um tema livre, em que espontaneamente qualquer me sai da cabeça uma ideia qualquer.

Apesar de todas essas condicionantes, não podia deixar se passar o aniversário do velharias do Luís. Os blogues são instrumentos úteis e terapêuticos, para quem já chegou à idade madura e não realizou aquilo a que sempre aspirou na juventude. Foi o que aconteceu comigo. À medida que iniciava o blog, descobri que a internet me fornecia um instrumento onde poderia escrever e publicar as minhas ideias, de uma forma livre, sem correcções de superiores hierárquicos e sem a menor preocupação de escrever textos politicamente correctos, mas inócuos de conteúdo. Toda esta liberdade criativa era gratuita e bastava clicar no “enter” para publicar um texto.

De facto, em seis anos de escrita do blog, dei uma reviravolta na minha vida, mudei de emprego, alguns textos foram publicados em livros e revistas, fui convidado para a televisão, fiz amigos novos por todo o país e até no Brasil e sobretudo arranjei uma motivação quotidiana, que é estar sempre a pensar qual será o próximo tema da semana, fazendo para isso pequenas investigações, em livros, revistas, por vezes em arquivos e sobretudo na internet.

O que ocorreu comigo através não é um caso isolado, mas antes um fenómeno sociológico dos dias de hoje. Existe um filme Julie & Julia, proganizado por Meryl Streep, acerca de uma profissional frustrada, que a certa altura da sua vida decide fazer um blog, acerca da única coisa que realmente gosta e se sente competente, a culinária e que acaba por ter um enorme sucesso nos Estados Unidos. É um filme muito divertido que nos ajuda a perceber este fenómeno sociológico e psicológico dos blogs, da autoconfiança que devolvem aos seus autores, destruída por anos de empregos castradores e da liberdade criativa que proporcionam a quem os escreve.

Mas talvez não tivesse prosseguido esta tarefa de escrever no blog com uma periodicidade regular, se à sua volta não se tivesse reunido uma tertúlia de comentadores, gente interessada e curiosa, que vai aqui trocando impressões sobre antiguidades, artes e história, de forma informal como se estivéssemos todos à mesa de um café. Também sei que muitas páginas do blog são consultadas regularmente, por mulheres e homens, que não comentam, nem os conheço, que estão algures por aí, escondidos atrás dos seus monitores e aqui encontram informações úteis sobre gravuras antigas, faianças, porcelanas e ferrachos.

A todos vós envio o meu melhor sorriso.
 
 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A perpétua felicidade


Santa Feliciana

Há santos do calendário cristão que estão mais esquecidos que as antigas divindades da Grécia ou de Roma. Se Vénus, Júpiter ou Plutão terminaram a sua carreira como deuses, continuam a fazer aparições regulares na literatura e no cinema. A mitologia clássica está sempre na moda, mas quem ainda hoje sabe quem é a Santa Feliciana?


E no entanto, Feliciana deve ter sido objecto de algum culto e devoção, pois ainda recentemente comprei uma estampa, representando esta santa, uma coisa talvez primeira metade do XVIII ou um pouco mais antiga, já que lhe faltam os ornatos que costumam decorar estas imagens nos finais de setecentos. Em tempos alguém rezou a esta santa, acreditou nos seus poderes miraculosos e comprou esta estampa impressa por um tal Anjos, para a colocar entre as páginas de um livro de orações. Aliás, encontrei outra gravura representando esta mártir, na colecção da Casa Martins Sarmento, impressa em Lisboa, por Francisco Manuel e atribuída a Teotónio José de Carvalho, o que demonstra que a devoção a Felicidade não seria uma coisa muito rara no século XVIII. Talvez ainda hoje haja por esse país fora, alguma romaria em honra da Santa Feliciana.
Estampa da colecção da Sociedade Martins Sarmento

Apesar do esquecimento a que almas mais devotas votaram a Santa Feliciana ou Felicidade, esta mulher, ao contrário de muitos santos e santas do calendário cristão teve uma existência bem real, que está documentada. A jovem Felicidade, foi martirizada pelos romanos em Cartago, no ano de 203, juntamente com Perpétua e outros três jovens, Saturo, Revocato, Saturnino e Secondino e desse martírio existe um testemunho escrito, o Acta Perpetuae et Felicitatis, de quem presenciou e viveu os acontecimentos. A primeira parte do texto é o diário de Perpétua, a segunda parte o relato de Saturo e a terceira foi escrita por um testemunho ocular do martírio, que alguns investigadores atribuem a Tertuliano. Esse documento escrito em latim foi descoberto por Luca Olstenio e publicado por Pierres Pussines em 1663. Em 1890, apareceu um outro relato escrito em grego, que coincide em linhas gerais com o primeiro. 

A Acta Perpetuae et Felicitatis é um documento quase único acerca das perseguições e martírios dos primeiros cristãos, mas vistos pelos próprios, sem as lendas, que séculos de transmissão oral acrescentaram normalmente a estes casos.
Duas jovens cristãs aguardando o martírio, na visão perversa do século XIX do pintor vitoriano St George Hare (1857-1933). National Gallery of Victoria, Melbourne
Os jovens em questão pertenciam a famílias, abastadas de Cartago, excepto Felicidade, que era escrava de Perpétua. Aliás o culto às duas jovens costuma ser conjunto. Perpétua e Felicidade tinham filhos pequenos, que foram poupados, mas as duas não escaparam ao martírio. Foram postas na arena onde foi lançada uma vaca selvagem, que acometeu sobre elas. Normalmente, os animais eram escolhidos consoante o sexo dos prisioneiros. Posteriormente os sobreviventes foram decapitados.

Explica-se assim a iconografia desta estampa. A jovem empunha a palma do martírio, noutra mão segura a espada pela qual foi decapitada e na parte inferior está representado um bicho feroz, cujos cornos se confundem com a prega do vestido. Houve uma outra S. Felicidade, também martirizada em Roma, algumas décadas antes, mas essa costuma ser representada com os seus sete filhos.
Claro, neste culto a estas duas santas, há também um jogo de palavras, a perpétua felicidade é afinal um objectivo que todos nós perseguimos e as duas jovens terão conseguido encontra-lo sacrificando a sua vida a Deus. Pudéssemos nós, que não temos fé, também encontrar a felicidade, ainda que fosse só passageira.

domingo, 13 de setembro de 2015

Uma cabeça decepada do século XVII

Como já aqui escrevi muitas vezes tenho sempre uma certa atracção por objectos estranhos ou bizarros, dos quais às vezes nem conheço a utilidade. Foi o caso desta peça, uma cabeça em madeira, cortada a metade, que estava na banca de um feirante de uma feira em Estremoz. Encantei-me logo com a qualidade escultórica do trabalho do cabelo e a expressão serena da figura. A peça também não estava repintada, como acontece com quase toda a arte sacra à venda naquela feira, em que as pintadelas modernas estragam irremediavelmente em dez minutos imagens, que sobreviveram ao tempo duzentos ou trezentos anos. Como o dono da banca, devia estar com dificuldade em vender uma meia cabeça, com um ar macabro, propôs-me um preço muito simpático e lá a levei eu todo contente. A peça estava colada a um prato de madeira, moderno, que me fez suspeitar que fosse um São João Baptista, mas como houve uns quantos santos cristãos decepados e esta meia cabeça, poderia ter feito parte de um qualquer grupo escultórico, representando, por exemplo os mártires de Marrocos.


Quando cheguei a casa, fiz algumas pesquisas. Os mártires de Marrocos, que coitados, foram decapitados eram todos franciscanos e portanto se esta cabeça tivesse feito parte de um grupo escultórico representando aqueles monges, teria obviamente uma tonsura. Depois lembrei-me que tinha vistos umas quantas cabeças de S. João Baptista, na exposição da colecção Franco Maria Ricci, que esteve patente, no Museu Nacional de Arte Antiga e fui consultar o catálogo e a iconografia, a forma como se apresentava a cabeça, exposta numa bandeja e como que cortada logo abaixo do queixo, coincidiam perfeitamente.

Cabeça de S. João Baptista, séc. XVI, a partir de Andrea Solario, col. Franco Maria Ricci
Portanto, conclui, que de facto, a minha pequena escultura, se tratava de uma cabeça degolada de S. João Baptista, à qual faltava apenas o prato. Aliás, na base desta pequena estatueta, existem uns quantos buracos, que deveriam servir para a encaixar numa bandeja, ou em alguma moldura de talha dourada, que representasse de alguma forma esse objecto


Este tipo de iconografia algo macabra desenvolveu-se na Europa, nos finais da Idade Média, depois de terem sido descobertas no Oriente e transportadas para a Europa, várias relíquias de João Baptista, sobretudo aquilo que se pensava ser a cabeça original do Santo. Apesar de segundo a tradição mais antiga os ossos de São João Baptista terem sido mandados carbonizar no século IV pelo imperador Juliano, o Apóstata, logo nos finais da Idade Média, por toda a Europa, miraculosamente, contava-se a soma impressionante de 12 cabeças e 60 dedos, que teriam pertencido ao referido Santo. Claro, o que acontecia, é que muito peregrinos traziam da Terra Santa ou da Ásia Menor cabeças das sepulturas de outros mártires, também chamados João. Mas o que interessava é que quando essas ossadas chegavam à Europa, as pessoas acreditavam que eram realmente verdadeiras e que continham em si poderes miraculosos.

Não vou contar a aqui a história de s. João Baptista, que é das figuras mais conhecidas da nossa cultura cristã e das mais representadas na arte. S. João Baptista é apresentado menino, só ou na companhia o Menino Jesus é pintado ou esculpido em adulto e depois existem todas aquelas cenas, à volta do seu martírio, que envolvem a bela Salomé e a sua dança dos sete véus, que inspiraram tantos artistas plásticos, escritores e até mesmo cineastas.
Uma das mais emblemáticas obras do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, Salomé com a cabeça de S. João Baptista de Lucas Cranach
A cabeça de S. João Baptista num prato é uma representação, que resume todo o seu martírio e à qual na Europa se atribuíam poderes curativos de enxaquecas, dores de garganta, sufocamento e todas as doenças, relativas à parte capital do corpo humano. Era também invocada pelos condenados à morte.

Se relativamente à iconografia, estava certo que a minha estatueta representava o S. João Baptista, quanto à época em que foi executado estava cheio de dúvidas. Ela pareceu-me desde logo antiga e muito bem executada, mas tenho sempre presente que os santeiros portugueses no início do século XIX, estavam apegados a tradições antigas da profissão e repetiam fórmulas dos séculos anteriores e portanto esta cabeça podia ser muito bem uma coisa bonita, mas sem grande antiguidade.


Mostrei a peça alguns colegas do Museu Nacional de Arte Antiga, nomeadamente ao Anísio Franco e à Maria João Vilhena, que fizeram o favor de me darem a sua opinião. Quer um quer outro, crêem que se tratará de um trabalho do século XVII, o bigode, é muito típico dessa época e a Maria João Vilhena pensa mesmo que poderá tratar-se de uma escultura indo-portuguesa, por causa da configuração dos olhos, amendoados e da orelha, em evidência. Normalmente na arte europeia, a orelha ou está escondida pelos cabelos ou pura e simplesmente não se destaca. Igualmente o trabalho goivado do cabelo, muito usado pelos escultores flamengos em século anterior, é um arcaísmo que os mestres ditos indo-portugueses, conservaram até muito tarde.
A cabeça de S. João Baptista foi juntar-se a outras beatices da minha casa
Fiquei satisfeito com a compra desta figura, que dorme um sono dos justos, numa serenidade oriental e que talvez tenha sido feita na longínqua Goa, no século XVII.

Alguma bibliografia: 

FMR: a colecção Franco Maria Ricci. Lisboa: MNAA, INCM, 2014
Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1958
Vita Christi: marfins luso-orientais. - Lisboa: MNAA, 2013

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Janelas e portas de Bragança


Julgo que foi a pintora Maluda (1934-1999) quem tornou moda, no final a década de 70, a pintura ou fotografia de portas e janelas, que hoje está tão generalizada. Com efeito, a obra daquela pintora foi amplamente copiada por toda uma série de artistas amadores, como militares na reforma, donas de casas com filhos já criados e antigos professores liceais. Também na internet, há uns quantos blogues que se dedicam à fotografia de janelas, portas e aldrabas com uma clara influência maludiana. As obras de Maluda foram reproduzidas em selo, multiplicadas em serigrafia, postais e creio que é a única artista plástica recente realmente popular, que toda a gente conhece e sobretudo gosta de forma espontânea, sem precisar de ler de nenhum manual de arte para aderir às suas pinturas.

Esta popularidade do tema das janelas e das portas é do ponto de vista da psicologia humana compreensível, pois capta-las através do pincel ou da câmara é querer transpô-las e penetrar na intimidade de uma casa. 

Também é bem verdade, que no passado quem encomendou a feitura de janelas, com caixilharias complicadas, emolduradas em cantaria de pedra lavrada, varandas de ferro forjado ou portas almofadadas, pretendia transmitir uma imagem de si e da sua família a quem passava na rua. Queria-se demonstrar riqueza e luxo, ou então elegância e sobriedade e até mesmo pudor. Há pois uma mensagem em cada portão, varanda ou janela.
Uma varanda de ferro forjado

Também sou sensível à beleza das janelas e às vezes suficientemente afoito para empurrar um portão mal fechado e penetrar em casas decrépitas e tentando captar um pouco de um certo ambiente, que ainda sobrevive das famílias que ali viveram durante gerações.
Uma escada antiga

Desta vez andei por Bragança, cidade que não me é indiferente, pois foi aí que o meu pai passou parte da sua meninice e juventude e fotografei aqui e ali alguns portões, janelas, escadarias e varandas, que transmitem uma imagem de solidez e intemporalidade, próprias de que quem faz obras a pensar não só em si, mas nas gerações futuras.