sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Grand Tour ou Caneca inglesa da John Meir & Son

Infelizmente a minha casa é pequena e qualquer coisa para lá entrar, deve sujeitar-se a uma regra de ouro, ser pequena, tal como esta bela caneca inglesa, com uns desenhos bonitos, muito bem executados, como é hábito da loiça inglesa, através da técnica do transfer way.

A caneca apresenta o padrão roselle, que é composto por um romântico chalet e uma árvore, que ladeiam um lago, onde se avista ao longe um castelo. Roselle é o nome de uma localidade italiana no Sul de Florença, que era um ponto de escala do chamado Grand Tour
Vista de Roselle no início do Século XIX

O Grand Tour era uma grande viagem efectuada por jovens oriundos das mais altas classes britânicas ou alemãs, destinada a aperfeiçoar a sua educação. A moda começou no século XVII e prolongou-se pelos séculos XVIII e XIX.

Os destinos principais eram a França, os Países Baixos, a Alemanha, a Suiça e sobretudo a Itália e mais tarde a Grécia e a Ásia Menor. Estas viagens eram longas, duravam por vezes mais de um ano e os jovens eram acompanhados por um tutor e tornaram-se uma prática instituída, considerada absolutamente necessária a uma boa educação. Serviam também para o jovem nobre fazer a sua educação sexual e ao que consta Veneza era a cidade preferida para essa iniciação, e enfim, nós só lhe podemos gabar o bom gosto.

O Grand Tour foi também o caminho escolhido dos amantes das belas artes, dos coleccionadores e dos escritores. Por essa forma, as classes cultas do Norte da Europa começaram a conhecer a arte do renascimento italiano e arte geco-romana e consequentemente o Grand Tour ajudou assim a difundir o palladianismo e o neoclassicismo, modas que reintroduziram o gosto pelo clássico na arte europeia.

Esta pequena peça de loiça, que traduz essa moda do Grand Tour, terá sido produzida entre 1837-97, em Tunstall, sede da John Meir & Son para gente da classe média, que não tinha dinheiro para viajar até Itália ou até a Grécia, mas que se comprazia a imaginar essas viagens ao pequeno almoço tomando leite ou chá nestas canecas.

Em Portugal, segundo aprendi com o mercador veneziano, O Roselle foi copiado pela Fábrica de Massarelos. Foi também adaptado de forma popular por um fabricante que algumas leiloeiras identificam como Vilar de Mouros e outras por loiça de Coimbra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ratinhos, Ciganos e Estremoz

A nossa seguidora misteriosa presenteou-nos com mais um prato ratinho da sua colecção, representando um galo e que pertence à categoria dos zoomórficos (os animais), como este prato da antiga colecção do António de Capucho, que o Fábio fez-me o favor de me enviar.


Recordo mais uma vez que esta loiça ratinha se divide tradicionalmente nas seguintes categorias:

-zoomórficos (os animais), vegetalistas (plantas) e geométricos, que são os mais antigos.

-figuras populares, masculinas ou femininas, figuras fantásticas, caricaturas e retratos.

A propósito deste tipo de loiça tão característica, que não se confunde com mais nenhuma, tenho visto na Feira de Estremoz muitas destas peças à venda. Ao contrário, nas feiras de Lisboa, aparecem poucos ratinhos e quando isso acontece vendem-nos ao preço do ouro.

De facto se pensarmos bem, é natural que no Alentejo haja mais ratinhos do que em Lisboa, pois no passado, os trabalhadores beirões que chegavam às terras alentejanas para as ceifas trocavam a sua faiança ratinha por roupa usada. Mas, talvez o mais curioso disto tudo é que em Estremoz, a venda de velharias está praticamente toda na mão dos ciganos, coisa que nunca tinha visto em lado nenhum. Normalmente, vejo os ciganos feiras a venderem roupa nas feiras e droga na Baixa Lisboeta.

Mas, em Estremoz quase todas as bancas de velharias estão na mão dos ciganos e segundo me disseram são respeitados neste comércio de antiguidades. Todos eles apresentam uma vantagem negoceiam sempre. Primeiro atiram com um preço alto. Nós torcemos a cara. Baixam o preço. Voltamos a torcer o nariz e eles perguntam-nos quanto queremos oferecer. Portanto, é uma gente com a qual se pode comprar coisas a preços mais aceitáveis.

Os ciganos são um povo que me fascina sempre. Tenho-lhe algum receio, mas a história de nomadismo, que transportam consigo desde a Índia fascina-me. Recentemente tive por vizinhos umas quatro ou cinco famílias de ciganos moldavos (enfim, eu moro num bairro intercultural do centro de Lisboa) e olhei-os sempre com um misto de medo, admiração e nojo. As crianças eram duma beleza rara, mas aquelas famílias viviam no meio do maior lixo, como se estivessem num bairro da lata. Confesso que quando os vi longe respirei de alívio.

Passei dos Ratinhos a Estremoz e daí aos ciganos, mas o pensamento humano é feitio através destas estranhas associações

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Azulejos neoclássicos

Há muito tempo comprei este friso de azulejos com um motivo de botão de flor, que aproveitei para mandar colocar ao longo da janela. Descobri-o na Feira-da-Ladra e não foi muito caro. Normalmente quando se compram azulejos em quantidade, os vendedores fazem sempre uma significativa atenção.

Sempre gostei deles, mas nunca procurei muito saber sobre este motivo, até que, há umas duas semanas, quando me andei a informar sobre a louça de Estremoz, descobri no catálogo Cerâmica neoclássica em Portugal. - Lisboa: IPM, 1997 um painel com uma cercadura exactamente igual, que só difere nas cores. Os meus são azuis e a cercadura da exposição é em amarelo e verde. O referido painel está datado de cerca de 1800.


Em cima do painel está um dos meus muitos crucifixos e no chão umas das minhas opulentas e sensuais Vénus pré-históricas, que provavelmente serão falsificações. As três coisas não tem nada a ver umas com as outras, mas por qualquer motivo desconhecido harmonizaram-se bem.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Meus anjos


Talvez não sejam bem anjos, mas antes aquilo que os italianos designam por putti, o que em português não se pode traduzir literalmente, pois o resultado fica muito feio. Enfim, à falta de melhor designação, são uns meninos gorduchinhos, que no passado enfeitavam o topo de grandes altares de talha dourada. Normalmente, eram postos aos pares e seguravam uma coroa ou abriam uma cortina como se fosse um pano de cena, sempre com a função de chamar a atenção para a imagem de Cristo, da Virgem, ou do Santo que ocupava o centro do altar.
Comprei-os na Feira-da-Ladra e como a minha casa é muito pequena, sem 10 cm que sejam de parede livre, foram parar ao tecto, o que até nem foi mau, porque consegui respeitar a colocação original para o qual estas peças de talha foram concebidas.

O tecto desta divisão foi já mandado fazer por mim, aproveitando o próprio formato da água furtada e imitando deliberadamente os antigos tectos de maceira dos solares portugueses. É um bocadinho ridículo colocar tectos com um ar palaciano num triste T1, mas ao mesmo tempo, os visitantes que sobem por umas escadas desengonçadas e acanhadas até minha casa, são apanhados por um efeito surpresa, quando abrem a porta e vêem aquela recriação de uma sala do Solar de Mateus à escala 1/43.

Falta-me agora qualquer coisa para pôr no meio dos anjos. Se eu fosse a Salomé, pedia a cabeça do José Sócrates, mandava-a dourar a ouro de lei e colocava-a lá no meio como se fosse um mascarão daqueles usados na Renascença.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Faiança do século XIX: Quem eram os meninos gordos?


A propósito do recente post sobre o prato de faiança da Bandeira, com a jovem na fonte, que poderá ser ou não uma representação da célebre heroína minhota, houve seguidores que me enviaram muitos elementos sobre esses meninos gordos, nomeadamente a proprietária misteriosa, que nos tem presenteado com belíssimas peças de faiança e o Fábio Carvalho, que um dia destes ainda descobre o célebre túmulo de Alexandre o Magno, através de uma pesquisa no Google. Resolvi partilha-lhos com os seguidores deste blog, bem como toda a comunidade de cibernautas cansados de fazer pesquisas na net e nunca encontrarem nada de jeito sobre faiança

Os meninos gordos eram o Mateus e a Ana e nasceram perto e Turim, no Norte de Itália, em 1831 e 1833, respectivamente. Eram extraordinariamente obesos. Com 11 anos apenas o Mateus pesava 201 kg e a Ana com 9 anos somava 129 kg. As pobres crianças foram transformadas em animais de circo e foram apresentadas por toda a Europa e os próprios monarcas não desdenhavam vê-los de perto, como Luís Filipe de França, a corte piemontesa ou a nossa D. Maria II.
Em Portugal, os meninos gordos estiveram em 1842 em Lisboa, Porto, Viana, Braga e depois em 1843 em Guimarães e outra vez no Porto. É provável que tenham visitado mais terras em Portugal.

Impressionaram tanto as pessoas, que as oficinas de cerâmica, nomeadamente a Bandeira produziram muitos pratos dos dois meninos, para as pessoas ficarem com uma lembrança de tão estranho fenómeno.

Para a nossa sensibilidade moderna, exibir assim duas crianças parece-nos monstruoso. Mas não andamos nós todos a assistir na televisão a reality shows horrorosos onde é mostrada toda a baixaria humana?

Para quem quiser saber mais recomenda-se o livro Meninos Gordos: Faiança Portuguesa/ Isabel Maria Fernandes. Porto: Livraria Civilização Editora, 2005, que acompanhou a exposição, que infelizmente não tive ocasião de ver.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Galheteiro malegueiro

Hoje, a nossa amável seguidora presenteou-nos com um galheteiro todo branquinho, muito representativo de um género de faiança utilitária comum em Portugal e que é conhecido pelo nome de Malegueira.

Chamou-se Malegueira porque as primeiras faianças, que chegaram com abundância a Portugal vieram da cidade espanhola de Málaga e caracterizavam-se precisamente por serem todas branquinhas (O nome Malga deriva desta loiça). A partir do século XVI, começou a ser imitada no nosso País e desde essa época, a louça malegueira, branca e com nenhuma ou escassa decoração passou a ser produzida abundantemente, até ao principio do Século XIX. Com era branca e pouco ou nada ornamentada, a faiança malegueira era barata e destinada ao uso corrente dos conventos, das casas fidalgas, das boticas ou então para as casas dos menos abastados.

Aqui a inscrição Mafra não se refere a nenhum fabricante, mas sim ao cliente. As grandes casas religiosas encomendavam às oficinas de faiança grandes quantidades de loiça para uso corrente com o nome ou as insígnias da Ordem

Para os grandes dias e para a mesa dos abades, abadessas e madres superioras usava-se porcelana da china, bem entendido.

No site dos museus do Ministério da Cultura, o Matriz, encontrei duas peças com as mesmas marcas, um Púcaro (inv 1277) e um Cântaro (inv 765), pertencentes ao Palácio Nacional de Mafra e que estão datados do século XVIII

Para fazer este texto, usei como fonte de referência o excelente Faiança portuguesa: roteiro: Museu Nacional de Arte Antiga. - Lisboa: IPM, 2005

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Clotho: a mais nova das parcas


Esta estampa francesa representando Clotho é uma das minhas peças preferidas da casa do Manel.

Apesar de estar aqui representada com um luxuoso vestido de seda, próprio para um baile na corte em Versalhes, esta Clotho é uma das parcas, figuras temíveis e muito pouco simpáticas da mitologia greco romana, que presidiam aos destinos dos Homens.

Segundo a tradição clássica, as Parcas eram três irmãs, Clotho, Lachésis e Atropos e detinham o fio misterioso, que simbolizava o curso da vida humana e eram por isso representadas como fiandeiras.
Clotho tecia o fio da vida, Lachésis enrolava o fio no fuso e Atropos cortava o fio. No fundo, a primeira criava a vida, a segunda tratava da prossecução da vida e a última punha-lhe fim, com uma simples e precisa tesourada. (Ver imagem superior de Giovanni Battista Paggi)

Esta tradição da mitologia clássica sobreviveu no português actual, pois usamos na nossa linguagem corrente, muitas vezes expressões como “tecer o destino”ou o “frágil fio da vida”, mesmo que não saibamos, que estas metáforas tem origem no mito destas terríveis mulheres.
Esta Clotho sempre me fascinou por causa do realismo com que é representada a seda do vestido. Não é fácil representar as texturas e o cair dos diferentes tecidos. Sei disso, porque em jovem interessei-me por moda, comprei livros sobre desenho de figurinos e cheguei a pintar muitos croquis de vestidos, mas a seda era sempre representação difícil. Contudo, nesta estampa, ao olharmos para o vestido da Clotho, o artista conseguiu a proeza de nos fazer ouvir o frufru da seda de um vestido de corte, num salão de baile revestido a espelhos venezianos.

Fascinado com a Clotho, procurei saber mais e pesquisei sobre o impressor, o Monsieur Mariette. Fiquei um pouco confuso porque descobri que Mariette é o nome de família de uma dinastia de impressores, livreiros e coleccionadores, que tiveram a sua oficina em funcionamento nos séculos XVII e XVIII, em Paris, na Rue de S. Jacques. Esta rua fica na Rive Gauche e hoje é uma artéria, que a remodelação urbanística do Século XIX, de Haussman, tornou insignificante

Existiram portanto três senhores Mariette , primeiro, o Pierre Mariette, (1603-1657), o segundo Jean Mariette (1660-1742) e o terceiro, Pierre-Jean Mariette (1694–Paris 1774), o mais famoso de todos, que além de livreiro e impressor, foi um coleccionador famoso e crítico de arte.
Estava pois na dúvida sobre qual dos Mariettes tinha impresso esta estampa e fiz uma pesquisa mais aturada no site da Bibliothèque nationale de France e acabei por descobrir que o responsável por esta Clotho foi o Monsieur Jean Mariette (1660-1742), cujas obras tinham sempre esta assinatura característica I. Mariette, com o sinal identificador aux colonnes d'Hercules.

Presumindo que o Monsieur Jean Mariette tenha começado a assinar as suas próprias obras com cerca de vinte anos de idade, podemos datar esta gravura entre 1680 e 1742.

Estava resolvido o problema da autoria, mas resolvi ir um pouco mais além e tentar saber se esta estampa pertenceu a um livro, ou se o Jean Mariette foi um mero executor de desenhos dos outros. Não encontrei a resposta a estas perguntas, mas também na La Bibliothèque nationale de France, encontrei mais uma estampa com a sua assinatura, Madame de *** en Magdelaine, que retrata uma dama de corte, despojando-se das suas jóias como Maria Madalena fez outrora e o tratamento dos tecidos é exactamente igual ao da Clotho. A mestria inacreditável no tratamento dos tecidos luxuosos parece ser característica da obra de Jean Mariette