quinta-feira, 22 de abril de 2010

O leque da Mimi

A minha avô paterna Maria Montalvão Cunha gostava do passado. Estimava as coisas antigas. Já aqui terei escrito muitas vezes que gostar de história, conservar objectos dos antepassados é uma forma de fugir ao presente e uma atitude romântica e certamente essa classificação servia à minha avô Mimi como uma luva. Talvez por se refugiar nesse mundo dela, da literatura e da história, fosse uma pessoa egoísta, mas que me interessa a mim julgar os que já deixaram este mundo?

Gostava dela e na sua casa pequena, impecavelmente mobilada e desconfortável, onde tudo tinha uma função decorativa e nunca prática, aprendi a gostar dos objectos antigos, a perceber que eles podiam transportar histórias antigas de gente que já morreu, de épocas desaparecidas e que isso era divertido, tal como uma série histórica produzida pela BBC e que antigamente a televisão pública passava em horário nobre.



Maria de Montalvão Cunha


Um dos objectos que recebi dela é este leque pelo qual tenho uma paixoneta. Adoro a figura central, uma espécie de gnomo montado num gafanhoto. Tenho a ideia que será talvez a ilustração de algum conto infantil dos irmãos Grimm, de Perrault ou talvez de uma fábula de Ésopo ou La Fontaine. Aliás toda a decoração do leque é muito suave e alegre, própria para uma menina prestes a entrar na adolescência. Não sei de quem a minha avó o recebeu. Se da mãe dela, a Ana Alves ou se da Maria do Espírito Santo Montalvão, sua avô paterna, a senhora que se envolveu em amores com o Padre Rodrigues Liberal Sampaio. A decoração suave evoca a primeira metade do século XIX, mas não tenho a certeza da sua época

Mas, independentemente de conhecer a sua proveniência exacta, contemplar este leque na minha sala é uma boa maneira de me lembrar da Mimi

7 comentários:

  1. Ola Luis,

    Adorei o Leque, com a sua decoração muito delicada e simples, pelo que belíssima. Tambem gostei muito da maneira que está exposto, uma bela ideia para "acomodar" um belo exemplar que herdei da minha tia Nazaré, a quem recordo com muita saudade. Foi sempre com esta tia que eu me identifiquei a nível de personalidade irrequieta e atitude rebelde e recordo com muito orgulho uma frase que dela ouvi já num dos seus ultimos anos vida e do alto dos seus 80's, dirigindo-se ao meu pai (com outros tantos), que em tom de desespero lhe contava mais uma "façanha" minha(lol) - "Oh mano, esta é que é mesmo cá das minhas... é mesmo Nazaré Bíua!" - nada me deu mais orgulho que ouvir estas palavras ditas como quem concordava a 100% com algo que a sobrinha tinha feito supostamente errado, e em tom de consentimento......a minha tia Nazaré, para mim, era a Maior!

    Bem...mas seguindo a minha linha de pensamento para além de gostar do leque, do que gosto mesmo é da foto da avó Mimi, que sorriso encantador meio envergonhado, meio traquina!!!


    Marília Marques

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  2. Gostei muito deste teu post. Intimista, tranquilo e com uma fotografia muito boa da tua avó, onde a senhora aparece com todo o encanto da juventude e com uma beleza a que o cabelo cortado curto confere um encanto algo andrógino e exótico, que lhe vai muito bem. E o sorriso, que a Marília Marques refere como "encantador meio envergonhado, meio traquina" é isso mesmo!
    Tudo isto a aliar a uma elegância que a simplicidade e qualidade do vestuário e adereços vêm acentuar.
    Como sempre gostei muito deste teu leque não descansei enquanto não te convenci a gastar um pouco mais de dinheiro a expor esta peça como ela merece. Neste momento ela tem um destaque, aliás merecido, na tua casa, e, para além disso, está protegido de poeiras e mudanças bruscas de temperatura e humidade que não são nada aconselháveis para o marfim, material que constitui a estrutura do leque.
    Manel

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  3. Obrigado pelo seu comentário, Cara Marília

    Usei um tecido de damasco vermelho para o forrar o fundo da moldura do leque. Foi um tecido que sobrou de estofar um cadeirão e uns tamboretes. A ideia até foi do Manel. Depois comprei uma moldura especial para leques, que fui um bocado cara, mas valeu a pena.

    De facto esta imagem da minha avó com a frescura e o brilho da juventue estampada no rosto é muito bonita.

    Abraço

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  4. Vou passar a acreditar em bruxas. Que as há, há.
    Não é que perdi novamente o comentário...
    Tal a irreverência que lá escrevi.
    Agora perdi o jeito e já não sou capaz.

    Gosto muito do leque e da armação majestosa que lhe deu.
    O vermelho sangue da seda lavrada incita-me a adivinhar que a Mimi o sob usar com arte na sedução, que só mulheres como ela o saberiam.
    No meu caso gosto pouco de acessórios.
    A minha irreverência é mais anos 6o...
    E não digo mais nada

    Abraço
    Isabel

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  5. Luis
    Encontrei o seu Blogue numa feliz pesquisa, e adorei este post, primeiro pela ternura com que descreve a Mimi, pela beleza delicada do leque, acho-o uma ternura, e se há peças que nos levam um pouco a desvendar a personalidade de alguém, acredito que este seja o caso.
    Depois a foto da avó Mimi, que acho linda e muito doce.
    Aqui tenho opinião diferente:
    »»conservar objectos dos antepassados é uma
    forma de fugir ao presente»», pra mim significa perseguir a história, perceber de onde viemos, para tentar compreender-mo-nos melhor, ou entender aqueles que passaram sem deixar o testemunho de quem foram, do que sentiram ,desejaram, os seus sonhos, talvez através das peças que nos legaram como referi, consigamos conhecê-los um pouco.
    Eu sempre gostei de antiguidades, de velharias, e a mãe contava imensas histórias de família, talvez cultive esta gosto desde a infância.
    Abraço
    jesus

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  6. Cara Jesus Cordeiro

    Muito obrigado pelo seu comentário sensível.

    Quando afirmei que “conservar objectos dos antepassados é uma forma de fugir ao presente” fi-lo sem pretender estabelecer uma sentença moral com validade eterna e científica

    Sou licenciado em história e já há muito que me interrogo porque gosto do passado, porque acarinho objectos antigos e velhos em vez de ser um homem mais prático e comprar a mobília toda no IKEA. Creio que conservar as velharias do passado é como ter na nossa casa a companhia e o calor dos que já morreram, é portanto, uma espécie de culto aos antepassados.

    Julgo que a História como ciência que procura explicar que o presente é o resultado das experiências do passado, terá começado nas sociedades mais primitivas como um culto aos antepassados.

    Por isso acredito, que guardar o cachimbo do bisavô apesar de já não fumarmos, ou guardar o leque duma trisavô é simultaneamente estar a fazer História, prestar culto aos antepassados e ainda uma espécie de romantismo, que nos faz deliciar com narrativas há muito passadas. Por vezes, esse gosto pelo passado, torna-se uma fuga ao presente chato e agressivo, mas só às veses e nem todos o fazem.

    Obrigado pelos seu comentário e espero vê-la mais vezes neste blog

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  7. Luis
    Gostei imenso da sua resposta, todo o seu Blog tem um conteúdo que me fascina,uns textos fantásticos.. e fiquei com um sorriso, quando me fala nos móveis do Ikea, não sei porquê mas também,não trocava os meus móveis e mesmo os cacos antigos, cheios de histórias e de amor feitos, pelos 2ºs, hiper industrializados....gostos.

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