terça-feira, 27 de abril de 2010

A descoberta de um tesouro perdido da Capela do Solar dos Montalvões


Para os que acompanham este blog há pouco tempo, convém explicar que venho descrevendo uma velha casa solarenga que pertenceu à minha família paterna, os Montalvões e que se situa na aldeia de Outeiro Seco, perto de Chaves. A casa foi vendida nos anos 80 à Câmara Municipal de Chaves e hoje é uma ruína de partir o coração. Usando as memórias compiladas pelo meu pai, fonte incontornável do blog, tenho vindo aqui a costurar uma espécie de pequenos artigos, que pretendem reviver destinos passados do Solar e das pessoas, que por lá viveram.

Uma das coisas de que se tinha completamente perdido o traço era o recheio da capela particular da casa, isto é os, os santos e as alfaias religiosas. A minha avó Mimi que fez um inventário mais ou menos sistemático dos bens da casa, omitiu pura e simplesmente o recheio da capela. Chegámos a pensar que tudo teria sido pilhado e vandalizado. Numa troca de comentários com o Humberto Ferreira, um natural de Outeiro Seco, referi que o meu pai há muito tinha recebido um telefonema da Câmara municipal de Chaves pedindo-lhe se tinha uma relação dos santos existentes na capela. O nosso seguidor Humberto foi iluminado por uma espécie de clarão e no momento a seguir estava a telefonar a um rapaz de Outeiro Seco, que trabalha no Museu da Região Flaviense, mandou mails, fez mais telefonemas, escreveu uma carta registada à Câmara de Chaves e em três tempos já estava armado de uma máquina fotográfica nos depósitos e nas salas do Museu, acompanhando com o Carlos Félix ( o tal rapaz filho da terra). Em menos de uma semana, o Humberto descobriu o paradeiro dos Santos da Capela, fotografou-os a todos e fez-me chegar as imagens à minha caixa do correio!!!!!

Fiquei sem palavras de alegria, pensando que afinal nem tudo corre mal neste Portugal amargurado pela crise e a achar que o Humberto e o Carlos Félix foram como aquela equipa de arqueólogos britânicos, que trouxeram à luz do dia, em 1922, o túmulo de faraó egípcio Tutancâmon.

Nos anos 80, quando o Solar foi comprado o recheio da capela encontrar-se-ia lá na íntegra. Nessa época, o Carlos Félix, sugeriu ao presidente da autarquia de então, o Eng. Branco Teixeira, que era melhor recolher as imagens num depósito da Câmara antes que fossem roubadas, e é talvez graças a ele, que hoje podemos admirar duas estupendas imagens no Museu de Arte Sacra, um Cristo Senhor dos Aflitos e um Salvador do Mundo provenientes do Solar. As restantes encontram-se em nos depósitos do Museu da Região Flaviense, longe dos olhares do público, mas apesar de tudo a salvo da vilanagem.

Passarei então uma breve descrição das obras:

1- Encerrado numa maquineta que não proveio do Solar, o Cristo Senhor dos Aflitos é uma peça em marfim muito bonita, que julgo ser de produção oriental, certamente fabricada na Índia, para ser vendida na Europa. A Cruz parece talvez pau santo, mas o Manuel que é entendido em madeiras o dirá.
2- Também no Museu de Arte Sacra está o Cristo Salvador do Mundo. Transporta uma esfera que representa o mundo e o sacrifício feito na cruz para salvar a humanidade. Será certamente do século XVIII.
Depois no depósitos do Museu da Região Flaviense encontram ainda as seguintes peças:

- Uma Nossa Senhora da Conceição assente na característica meia-lua, que é muito ingénua, muito popular, um verdadeiro encanto. A senhora é coroada, pois D. João IV nas aflições da luta contra os espanhóis durante a Restauração ofereceu-lhe a Coroa de Portugal em troca da sua ajuda na guerra. É desde esse tempo padroeira de Portugal
- Uma Nossa Senhora. que está tomada como Senhora da Lapa, mas que eu julgo ser a Senhora da Assunção ou mais exactamente da Glória. O tema representa a morte de Nossa Senhora, a entrada da sua alma e do seu corpo no seu céu, em gloriosa Assunção. Tem por isso na base os anjos que servem para a transportar para o céu e a coroa de glória. As senhoras da Glória e da Assunção tem significados e representações idênticas, só que as primeiras costumam ter também o menino Jesus na mão, igualmente coroado. O Carlos Félix chamou a atenção para o facto de a escultura estar fixa numa tábua com quatro furos, pelo que é muito provável, que tenha sido armado o andor e saído em procissão. Também segundo o referido Senhor, era esta imagem que estava no centro Altar-mor da Capela de Santa Rita, quando foram recolhe-las nos anos 80
- Uma santa que está dada como Santa Ana e que eu julgo ser Sta. Teresa de Ávila. Normalmente Santa Ana é representada juntamente com a Virgem, muitas vezes ensinando-a a ler e muitas vezes ainda com o menino Jesus, formando um trio. Esta imagem deve ser Sta Teresa de Ávila, pois está vestida de Carmelita, em atitude de êxtase, enverga um livro, pois é a primeira doutora da Igreja e na outra mão deve ter tido uma pena, alusão aos seus dotes de escritora mística.
Compare-se esta imagem com a do Museu de Abade Baçal e veja-se se não representam a mesma Santa, embora a do Museu Brigantino tenha um traje mais esplendoroso
- Um Sta. Rosa. Parece-me a Sta Rosa de Lima. Embora originária do Peru, a devoção a esta Santa era muito popular em Portugal. Apresenta a coroa de espinhos característica desta figura. Contudo a Santa Rosa de Lima era dominicana e o traje desta imagem parece-me de uma franciscana, o que me leva a crer que poderá ser a Santa Rosa de Viterbo. Em todo o caso, esta imagem teve qualquer atributo nas mãos, que se perdeu entretanto e que poderia ajudar a identificar melhor qual das Santas Rosas se trata. Ler mais sobre este assunto.
- Uma Santa Rita de Cássia, o orago da capela. Advogada das causas impossíveis e dos terramotos a sua devoção em Portugal foi muito popular, sobretudo depois do grande sismo de 1755. A iconografia é muito típica conforme se pode ver pelo registo pertencente à Casa Sarmento , que apresento em seguida
- Por último, a minha imagem preferida, um Santo António de Lisboa lindo de morrer, segurando um menino Jesus igualmente encantador. Não tenho palavras para descrever esta imagem. As fotografias falam por si. Os historiadores de arte referem muitas vezes que uma característica fundamental da arte sacra portuguesa é uma certa familiaridade e esta imagem dá-lhes razão. Apetece beijar o menino e o Santo é apenas um irmão mais velho, que os pais encarregaram de tomar conta de Jesus enquanto sairam para trabalhar. O Humberto fez mais descobertas surpreendentes, mas essas ficam para um próximo capítulo. Em todo o caso, em nome dos membros da família Montalvão que ainda se importam com a casa, quero-lhe agradecer a ele, ao Carlos Félix e à Câmara Municipal de Chaves a redescoberta dos Santos do Solar. O Meu pai tinha razão, as pessoas de Outeiro Seco são uma gente especial.




Para saber mais sobre a capela ver post de 14 de Abril

13 comentários:

  1. Luís
    Congratulo-me com o aparecimento do espólio da capela.As imagens são lindas.Veja lá o que não se consegue, quando efectivamente gostamos e valorizamos aquilo que faz parte do nosso passado e os nossos antepassados.Parabéns para si, que com a escrita deste blogue conseguiu também despertar o interesse do Humberto,que qual detective inspirado descobriu o paradeiro do recheio da capela.
    Quando leio os seus escritos sobre a capela do solar recordo-me sempre dos belos azulejos que adornavam a pequena igreja da minha terra em Angola.Sei que a igreja foi mantida em boas condições ao longos de todos estes anos. Tenho esperança que ainda hei-de conseguir obter através de alguma pessoas conhecidas que lá estão, fotos desses mesmos azulejos. Tenho feito várias diligências nesse sentido, mas não tenho conseguido resultados.
    Maria Gabela

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  2. Luís
    Palavras?
    Perdi o dicionário
    Muda estou
    As imagens são simplesmente
    Soberbas
    Dignas do espólio do melhor Museu
    Mais
    Adivinhar que a sua querida Mimi
    Tantas horas, as contemplou
    Amou, rezou,adorou, acredito até beijou
    Magnificas,uma a uma, todas de rara beleza
    A mais bela?
    Todas!
    Indubitavelmente compactuo o mesmo gosto pelo Sto António, pelo ar ingénuo e doce de ser Santo, mas a mim não me parecer Santo.
    Até o Cristo é divinal sob aquela madeira negra com incrustações a prata,o sangue a escorrer, mexeu comigo
    Ando um bocadito para a nostalgia...
    Perdi-me a olha-lo,exalou-me vontade de lhe tocar, para o sentir.

    Tive a sorte de ver o post acabadinho de fazer...ontem
    Naquele momento,entrei em transe...
    Tal beleza, exasperou-me
    Tal o descontrole que senti
    Não consegui comentar...
    Por mais vontade, não fui capaz!

    Grandes ajudas na localização dos Santos.
    Incondicionais, do Humberto, Carlos Félix e da própria Câmara de Chaves.
    Aqui deixo o meu Bem Haja de agradecimento pelo carinho, empenho, dedicação, patriotismo, amor às tradições e amor fiel às raízes do Outeiro Seco, que eu sem conhecer, sinto também já fazer parte...um nikito, muito pela sumptuosidade das pedras e do glamur que só o Luís,sedutor, amante de história e arte tão bem nos relata e nos oferece gratuitamente amantes da sua leitura sensível, franca, cheia de afectos, tal possível e incrível na redescoberta de novos sentimentos, apagados que estavam no tempo.

    Finalmente encontraram-se os Santos, tantos e tão únicos!

    Aos descobridores os meus sinceros parabéns.
    Prefaciando as palavras do pai do Luís, o Sr Montalvão , as pessoas do Outeiro Seco são uma gente especial.
    Palavras para quê?
    Só com gente desta estirpe é possível construir o futuro!
    Beijos
    Isabel

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  3. Realmente as imagens são muito interessantes e ainda bem que não foram vandalizadas e estão postas a recato de antiquários ou "dealers" menos escrupulosos.
    A primeira N. Sra da Conceição parece ter algum parentesco com o Santo António, têm ambos algo de naif que me encanta.
    Os meus parabéns não só a ti, que fizeste com que alguma coisa acontecesse, mas também às forças de Outeiro Seco e Chaves, que, encarnados nas figuras dos Senhores Humberto e Carlos Félix, o primeiro, dinâmico, o segundo, previdente, contribuiram para completar o espólio religoso perdido desse edífico, que, ainda que na sua decandência, me parece algo mágico.
    O teu post parece-me muito completo com trabalho de investigação por detrás que é óptimo. Parabéns mais uma vez.
    Quanto à tua identificação da Sta. Rosa de Lima, não sei porquê, mas estou um pouco reticente sobre esta hipótese.
    Quanto ao tipo de madeira de que é feita a cruz do Cristo, será muito provável que se trate de pau-santo. Seria natural que assim fosse, até para fazê-la corresponder à magnificência da imagem em marfim.
    Mas não consigo identificar de forma peremptória o tipo de madeira a partir das fotografias.
    Que bonitos exemplares da nossa arte sacra tradicional!!!!!!
    Manel

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  4. Maria Gabela

    Obrigado, pelo seu comentário. Já agora diga-nos de que Igreja se tratavava? em Luanda? Benguela?

    Fiquei curioso. Velhas capelinhas são sdempre do meu agrado.

    Abraço

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  5. Isabel e Manel

    Os santos são lindos e constituíram, uma descoberta estupenda do Humberto e tenho andado tão feliz esta semana por causa deste achado, que nem calculam. Eu sei que nada disto perturba o inevitável caminho para a destruição total que o Solar toma, mas o facto de se reconstituir ainda que virtualmente o espaço da capela parece-me muito bom.

    Talvez um dia, Sta Rita, advogada das causas impossíveis e padroeira da capela, faça um milagre, reconstrua a casa e os santos possam voltar a velar pelo eterno sono da minha trisavó que ali está sepultada. (Sou ateu, mas hoje estou óptimista e disposto a acreditar na Santa Rita)

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  6. Luís
    A Santa Rita de Cássia, é uma das minhas Santas predilecta a que sou devota.
    A quem falo todos os dias.
    Escuta-me
    Tem dias que me ajuda muito
    Tenho uma fé nela só igualável ao S. Judas Tadeu.
    Também não sou muito de leis e regras de igreja.
    Mas sempre gostei de me recolher em oração com eles.
    Tanta paz me transmitem e esperança.
    Tocou-me ao sentimento dizer que está disposto a acreditar na Santa Rita...
    Que mudança!
    Estamos sempre a mudar, porque estamos vivos.
    Isabel

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  7. Luís
    Obrigada pelo seu interesse.
    A igreja a que me refiro, fica numa pequena povoação ( Boa-Entrada),a sete quilómetros de uma cidade chamada Gabela,no distrito do Quanza-Sul.Vou tomar a liberdade de lhe enviar para o seu mail, duas fotos da igreja; uma actual e outra, talvez, mais velha do que eu.
    Maria Gabela

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  8. Cara Maria Gabela

    Envie por favor para montalvao.luis@gmail.com

    abraços

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  9. ola eu sou pedro pires eacho que este tesouro e muito valioso

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  10. Que optimas peças!!!

    Caro Luis, só tenho uma duvida... Quem é o actual proprietario do Solar?

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  11. Cario Teixeira

    o proprietário do Solar é a Câmara Municipal de Chaves!

    Abraço

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  12. Como está Luis?

    Logo vi, que para estar nessas condiçoes só podia ser (Res) publica...

    É um desperdicio uma casa senhorial estar nesse estado.

    O recheio da casa foi roubado?
    Sei que o Luis tem algumas peças, e na sua familia tem existe quem tenha..

    Percebi que as imagens da capela estão seguras..
    Mas tb percebi que se não for feito nada está a ser deitado fora o nosso patrimonio arquitectonico.. Mas é só a população flaviense que se queixa...

    Gostava que o Luis viesse a Leiria. O centro historico esta a ser TOTALMENTE modernizado!!
    Até a antiga calçada esta a ser removida, em frente á casa de Eça aqui em Leiria, está a terra a mostra!
    As casas do centro são constantemente vandalizadas..
    Eu vou-lhe enviar imagens de Solares e casas do centro historico. Apresentei um trabalho sobre o centro historico na escola, mas ninguem se mexe.. Já pedi para se aproveitarem os edificios para museus ou escolas privadas... Não sei.. Mas esta tudo a cair..


    Obras de conservação e restauro têm de ser feitas enquanto pessoas como o Luis cá estiverem para contar a historia! É por ve o degredo em que se está a tornar o centro historico de Leiria que quero tirar um curso de conservação e restauro.


    Luis, saudosos cumprimentos

    Flávio Teixeira

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  13. Caro Flávio Teixeira

    O recheio da casa foi dividido entre os herdeiros, isto é a minha avó paterna e os seus seis irmãos. A biblioteca foi vendida a um alfarrabista e o recheio da capela foi abandonado e graças a Deus, hoje está nos dois museus de Chaves.

    Caro Flávio. Escrever no blog, que exige algum trabalho de pesquisa, responder aos comentários, ir aos blogs dos vizinhos redigir mais comentários e ainda fazer posts com o que alguns seguidores me mandam, pois por vezes é um material tão bom, que não resisto a escrever sobre eles tira-me o pouco tempo disponível

    Porque não tenta o Fábio escrever sobre o centro de Leiria (região que conheço mal)? Agarre na máquina fotográfica e tire fotografias a torto e a direito e pesquise sobre essas casas. Vai ver que tem sucesso. Espreite o http://ruinarte.blogspot.com/ para se inspirar.

    Abraços e continue a aparecer por cá

    Luís

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