quinta-feira, 27 de maio de 2010

Crucifixo

Comprei este crucifixo na feira-da-ladra por um preço muito em conta, a uma rapariga da minha idade, que curiosamente trabalhamos juntos na mesma Universidade. Vinte anos passaram e a vida deu-nos rumos distintos, ela tornou-se vendedora de velharias e uma das figuras características na feira-da-ladra e eu…enfim…tornei-me um funcionário qualquer. Em todo o caso, ela faz-me sempre bons preços e já lhe comprei umas quantas peças, entre as quais este crucifixo com uma bela peanha em talha dourada, o corpo numa madeira simples e uma aplicação em chumbo, toda rendilhada representando todos os elementos ligados à crucificação, como por exemplo, o escadote, os pregos, o galo, a Nossa Senhora da Conceição e por aí fora. Só lhe falta o Cristo propriamente dito. Quando a comprei sobrava apenas um bracinho, que não aproveitei.

Debaixo da orientação do Manel, que sabe muito de restauro, a aplicação em chumbo que estava preta e sem leitura foi limpa, a madeira foi desinfestada da bicharada com cuprinol, mantendo a peça envolta em película aderente durante uma semana. Tapei-lhe os buracos do bicho com cera e o dourado foi avivado com uma cera cor de ouro velho, que os douradores costumam usar para patinar a talha, que fica demasiado brilhante, depois da aplicação da folha de ouro. Eu teria avivado ainda mais o dourado, mas o Manel que não é tão barroco como eu, travou-me e talvez o resultado seja muito bom, pois mantém o ar envelhecido.

Embora a talha barroca sugira o século XVIII, julgo tratar-se mais duma peça do século XIX, que acusa o peso que o gosto do barroco exerceu durante tanto tempo nas artes e no gosto portugueses. Em todo o caso aquele rendilhado em chumbo dá-lhe um certo ar indo-português que me encanta.


Estes crucifixos faziam parte da chamada devoção doméstica. Eram colocados em oratórios, maquinetas ou pura e simplesmente numa mesa, coberta por um bonito pano ou pela inevitável renda (era necessário dar uso aos metros e metros de renda que sem parar as Senhoras faziam antigamente) e as pessoas deviam rezar piedosamente perante crucifixos, hábito estranho para a maioria de nós, que estamos cada vez mais descristianizados.

Como não tenho espaço em casa, o meu crucifixo foi posto na parede e é mais umas das dúzias de objectos, que traduzem o horror ao vazio que constitui a minha casa

2 comentários:

  1. Olá Luís
    Admirável o seu gosto peculiar por crucifixos
    Já antes aqui disse, que sempre os achei muito nus, nunca me despertaram muito interesse
    Porém os seus são de inegável beleza
    Este, então sem o Cristo, exala uma atenção inexplicável, muito pelo rendilhado a chumbo, a fazer lembrar prata,no contraste da madeira e do pé soberbo em talha dourada
    Um encanto de exemplar, altivo!
    Confesso, o seu "olho clínico" lá isso é verdade
    Muito bom gosto, eu sou mais distraída, vagueio nas feiras à procura de tudo e de nada, com o pensar a quilómetros da essência, a própria feira!
    Beijos
    Isabel

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  2. Sem o Cristo consegue-se ver melhor o trabalho espantoso do rendilhado que constitui a parte metálica.
    É muito belo o trabalho, e limpá-lo deu algum trabalho para não danificar qualquer pequena porção do intricado da peça, pois ela vive através do detalhe (como dizia Frank Lloyd Wright, "God is in detail").
    E a madeira estava tão suja de montes de anos de fuligem de velas, gordura das mãos que o tocaram e da sujidade natural do ambiente! Não foi necessário fazer quase nada, estava lá tudo, foi só limpar! Os dourados ... bem, é necessário conter-te! hehehe
    Manel

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