sexta-feira, 16 de julho de 2010

As alminhas do Purgatório em azulejos

Há uns bons 4 ou 5 anos passei por Óbidos, que é sempre aquela terra que nos faz esquecer que o património arquitectónico é mal tratado em Portugal e vi umas alminhas do século XVIII lindas, numa daquelas casas antigas. O Manuel fotografou-a e fiquei com a imagem em arquivo (foto superior), pensando sempre que um dia conseguiria comprar por um bom preço na feira-da-ladra um azulejo ou painel de azulejos das alminhas, num daqueles golpes de sorte, que acontecem 10 em 10 anos. Mas, como dizem os franceses, Hélas!, pois essas oportunidades raramente surgem e lá fiquei eu a sonhar com alminhas para a minha casa.

Depois, um dia a caminho da Feira-da-ladra, na Rua de S. Vicente descobri, que uma antiga farmácia, que eu conhecia do tempo em ali morei, era agora uma oficina de cerâmica especializada em réplicas de faiança e azulejos antigos, mas também recriações contemporâneas destas duas artes, que em Portugal foram absolutamente fervilhantes. A dona da oficina, a Cristina Pina é uma simpatia e as visitas à loja dela tornaram-se motivo para amena cavaqueira sobre azulejaria e faiança. A Cristina descreve os processos químicos com que restaura, ao mesmo tempo que nos mostra como se invertem os mesmos processos para dar um ar envelhecido às peças. Numa dessas conversas descobrimos que adorávamos as alminhas do Purgatório e então ofereci-me para lhe dar a minha fotografia para ela executar uma réplica, um dia que tivesse tempo.

Foi passando o tempo e fui-me também interessando pelo significado das alminhas do Purgatório e do que queriam dizer as siglas que as acompanhavam: PNAM.

As alminhas existem espalhadas por quase todo o País e encontram-se normalmente em encruzilhadas e às saídas das terras. Representam umas alminhas no meio das chamas e são acompanhadas pelas siglas PNAM.

Segundo uma certa ideia não confirmada, o culto das alminhas terá tido origem em rituais pagãos, nomeadamente nos deuses das encruzilhadas, os Lares Compitales dos romanos, que se acreditava protegerem os viajantes.

No entanto, o dogma que dá origem a este culto, de que existia um purgatório onde ficavam a arder as almas pecadoras, mas não o suficiente para irem direitas para o inferno, só foi definido na Contra-Reforma, em particular depois do Concílio de Trento, em 1563. Mas o que é mais curioso neste culto é que se acreditava, que pela oração dos fieis se podia alterar este estado de coisas e fazer transitar as almas do Purgatório para o céu.

Não há afinal uma relação directa entre os Lares Compitales dos romanos e as Alminhas do Purgatório. Uns são deuses que protegem os caminhos e os viajantes, outros são objectos de culto em que os vivos intercedem pelos mortos através da oração. As Alminhas serviam para as pessoas se lembrarem que esta vida é um caminho e como tal, quando passavam junto destas, paravam para orar pelos que no purgatório esperam que o arcanjo São Miguel os leve para o céu, conforme se pode ler nas inscrições características:

- Ó vós que ides passando / Lembrai-vos de nós que estamos penando / P.N.A.M.;
- Pelas almas do Purgatório / Padre Nosso / Avé Maria;
- Nós penamos e vós zombareis / Mas lembrai-vos que em breve como nós sereis.


A relação entre os culto aos deuses Compitales e as alminhas talvez seja precisamente a ideia de caminho e de viagem. O primeiro culto protegia uma viagem mais prosaica de um ponto até o outro da terra e o segundo culto era relativo a um caminho no além.


O culto das Alminhas aparece muitas vezes associado a S. Miguel arcanjo (imagem superior da colecção da Sociedade Martins Sarmento), o anjo do arrependimento e da justiça, representado muitas vezes com uma balança, onde se vêem alminhas a serem pesadas. O grande especialista em iconografia cristã, Louis Reaud afirma que esta forma de representar S. Miguel foi introduzida na arte pelos cristãos egípcios, que mais não fizeram, do que reproduzir a imagem do Deus Anúbis. Acreditava-se que S. Miguel podia resgatar e transportar as almas do Purgatório.



S. Miguel Arcanjo com a balança para pesar as almas. Museu de Alberto Sampaio, Guimarães


Finalmente, Nossa Senhora do Carmo, com o seu escapulário é outro culto associado às alminhas, conforme se pode ver no painel do Museu Nacional do Azulejo, inv 6111 . Recorria-se à Virgem que podia interceder pelas almas penadas, sobretudo se envergasse o escapulário, que se julgava ter virtudes especialíssimas. Por exemplo, os membros das confrarias carmelitas acreditavam que se envergassem o escapulário na hora da morte seriam resgatados do Purgatório por Nossa Senhora do Carmo, logo após o seu falecimento.

Em suma, rezando um Padre-nosso, Ave-maria (PNAM) cada vez que se via um destes painéis de azulejos resolvia-se o problema das alminhas penantes.

Há cerca de duas ou três semanas, depois de uma longa espera, o Manel passou pela oficina da Cristina Pina a S.Vicente e a minha réplica do azulejo de Óbidos estava pronta. A cópia está tão bem feita, que o azulejo apresenta a superfície ondulada e bolhas estaladas como os antigos vidrados. As alminhas já encontraram lugar na parede da minha sala e todos os dias me recordam que somos meros passageiros em trânsito num mundo abandonado por Deus.

14 comentários:

  1. Ficou linda a reprodução!! Nunca vi soube destas alminhas aqui pelo Brasil, e fiquei agora curioso em saber se as cidades onde a azulejaria portuguesa ainda sobrevive teriam alguma coisa similar.
    abs!
    Fábio

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    1. No Brasil, irá encontrar representações do culto as alminhas as cidades relacionadas diretamente a tradição portuguesa. Por exemplo: No barroco mineiro. Representações das alminhas queimando e algumas sendo salvas por São Miguel. Um belo trabalho do Aleijadinho é a portada da igreja de Bom Jesus, situado em Ouro Preto, na rua Alvarenga, bairro Cabeças. Em pedra sabão..

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    2. Caro Anónimo

      Muito obrigado pelas suas informações.

      Se eu pudesse ir ao Brasil certamente que visitaria as cidades barrocas de Minas Gerais. Toa a gente que lá vai volta encantado.

      Um abraço

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  2. Caro Luís
    Lindo o original, e perfeita a réplica!
    Cá pelo Norte, os azulejos que decoram as alminhas não são tão bonitos, nem tão inocentes como o que mostra.Policromados,parecem-me mais recentes, e são frequentes as representações de adultos ardendo em plenas chamas, com expressões faciais revelando dor. Elemento comum é também uma entidade divina,que parece aguardar todas almas sofredoras. São demasiado realistas.A alminha que mostra é muito suave.Estas diferenças estarão relacionadas com a intensidade de convicções religiosas das regiões? Ou dever-se-á somente à sensibilidade do artista?
    Um abraço para si
    Maria Gabela

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  3. Olá Luís
    Reviver as "Alminhas"
    Típicas na minha terra, por lá se encontram semeadas como diz à entrada, saída e encruzilhadas de caminhos
    Tive a oportunidade de há 2 anos ver uma exposição de fotografia das existentes no concelho de Alvaiázere
    Uma delícia, todas iguais, todas diferentes, sempre com a imagem forte dos laranjas na imitação das chamas do Purgatório
    A caminho da minha casa rural no meio de pinhais havia uma capelinha de Almas que por alargamento da estrada teve de ser mudada de local, agora mais visível em frente ao antigo sítio preservando assim a tradição
    Nesta em particular tenho recordações vividas com a minha avó materna enquanto caminhantes para a igreja ou para a paragem da carreira
    Recordo as ladainhas infernais que com ela repetia em voz alta, aquela avó era muito beata
    Ah, quanto à sua réplica...que dizer!
    Adorável, parabéns à sua autora Cristina Pina, um perfeccionismo em reprodução de azulejos
    O pior?
    Senti uma frenética inveja deste azulejo com ar ingénuo, doce com a menção das siglas...que desconhecia e confesso também sempre me intrigaram
    Posso perguntar?...quando o seu olhar bate no azulejo sente o mote de rezar o Padre Nosso e a Avé Maria?
    Gosto de ser marota...
    Aprecio imenso esse seu lado imaginativo
    Inacreditável a sua façanha, só possível em mestre que adora azulejaria
    Onde será que o colocou?
    Concerteza, o verei num dos próximos capítulos
    Deslumbrante!
    Beijos
    Isabel
    Beijos
    Isabel

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  4. Caro Fábio.

    Na altura em que fiz alguma pesquisa na Internet sobre as Alminha, encontrei um artigo muito bem escrito por uma senhora brasileira, Adalgisa Arantes Campos, da Universidade Federal de Minas Gerais, intitulado “São Miguel, as Almas do Purgatório e as balanças: iconografia e veneração na Época Moderna”, http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos07/campos01.htm, que explica que o culto das alminhas só por si nunca foi muito popular no Brasil. Em sua substituição, nas igrejas brasileiras do século XVIII abundam imagens dedicadas ao arcanjo S. Miguel, que como vimos tem também a função de ajudar as almas do purgatório a passarem para o céu. No entanto, o artigo da referida senhora, incide sobretudo sobre o estado de Minas Gerais e eu sei pouco sobre história do Brasil para dar sentenças sobre a matérias. Talvez nas cidades do Norte do Brasil, existam alminhas em azulejos.

    Abraço

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    1. Este ano, 2014, prof. Adalgisa lança o livro: As irmandades de São Miguel e as Almas do purgatório, pela editora C/Arte.
      :D

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  5. Cara Maria Gabela

    Sei que há diferenças de religiosidade entre as várias regiões do Pais. Tradicionalmente, pensa-se os Alentejanos são pouco crentes, que se limitam a ir a igreja para fazer os actos mais elementares, como casar, baptizar e enterrar. Mas não sei se isso não será uma consequência directa da exploração que os camponeses alentejanos sofreram no Século XX e passaram desde então a olhar os padres como uns tipos aliados dos grandes proprietários. Também não sei se essa falta de religiosidade dos alentejanos teve reflexo na arte da região.

    Por outro lado, a arte sacra dos século XVII e XVIII é mais imaginativa, delirante que a do século XIX. Será que essas alminhas de que fala não serão já do século XIX, época em que a arte religiosa perde o fôlego e é dominada pele pieguice e o mau gosto?

    Mas a sua pergunta é pertinente, Por vezes há diferenças regionais na arte que continuam por explicar e ficarei atento ás diferenças entre alminhas ao sul e ao Norte do Tejo ou do Douro

    Abraços

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  6. Cara Isabel

    Obrigado pelos seus elogios, que me fazem quase corar.

    Apesar de gostar dos dourados e dos estilos Luís XV e XVI a arte mais ingénua encanta-me na mesma medida e as alminhas são um bom exemplo desse meu gosto pelo popular.

    Escusa de ter inveja do meu azulejo. A Cristina Pina já fez mais réplicas e pô-los à venda na sua loja/ oficina e pode comprar um igual ao meu. O artista que fez estas alminhas morreu há mais de 200 anos e portanto a obra já não está sujeita a direitos autorais. Aliás recomendo-lhe uma visita ao atelier da Cristina Pina ali perto da Feira-da-Ladra, na rua de S. Vicente, fronteira ao largo do mesmo nome, pois a Isabel gostando de faiança como gosta, certamente perderá a cabeça naquela casa. Além de restauro, a Cristina Pina faz réplicas das antigas mangas ou canudos de farmácias, dos pratos com aranhões do século XVII e de azulejos, e muito embora não seja barata, não é de todo exorbitante.

    Não sou de todo crente. Tenho apenas medo da solidão, do infortúnio e da morte, mas não recorro a nenhuma identidade divina para me encontrar consolo. Mas gosto de arte sacra e de todos os significados complexos que ela encerra

    Beijos e mais uma vez obrigado pelas suas palavras

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  7. Ficou muito bem o azulejo. Até parece que nasceu ali mesmo!
    Ainda que o original seja lindo de morrer, este não fica atrás!
    Esta artesã, Cristina Pina, é mais do que isso mesmo, pois a sua criatividade inspirada pelos modelos tradicionais, transporta-nos para outras dimensões.
    Sempre que por lá passo perco-me na cavaqueira com aquela senhora tão sabedora do seu ofício, mas dotada de grande humildade.
    Confesso que também já vou guardando uma quantidade de peças compradas na oficina da Cristina Pina. Aquela oficina é um perigo para a minha bolsa!
    Manel

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  8. Pôcha!Parabéns!Q idéia legal de blog!Olha ele apareceu quando eu estava procurando fotos de S.Miguel Arcanjo no google,Arcanjo que gosto muuuito!Mais eu achei o máximo fazer um blog de velharias das viagens!Cara,devia chamar:
    Riquezas antigas em descoberta,pois é isso q são...Ah!Enviei convites aos meus amigos para entrarem no seu blog.Eu tenho 1 tbém,bem diferente,entre:
    http://dicasparasairdadepressao.blogspot.com/
    abraços e as bençãos de S.Miguel p/ vc.

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  9. Cara Leila

    Muito obrigado pelo seu comentário e fico contente por ter encontrado a informação que pretendia no meu blog. Tenho muitos seguidores brasileiros e é muito engraçado conhecer as opiniões do outro lado do Atlântico.

    Irei espreitar o seu blog

    Abraços

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  10. Também eu sou devota das Alminhas do Purgatório. Levei quatro anos à procura de nichos no meu Concelho - uma peregrinação que me marcou para a vida - e que deu um Livro publicado pela Autarquia Vieirense com o títlo:"As Alminhas no Concelho de Vieira do Minho". Li com atenção e entusiasmo esta sua história e fiquei a saber que os portugueses levam para onde residem esta tradição que só em Portugal floresceu. Muito belo este culto! Entrei aqui por acaso e gostei muito destes testemunhos e da História do seu painel que é lindo! Parabéns! :)

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    1. Cara Ermelinda

      A devoção às Alminhas do Purgatório deu origem a painéis de madeira, azulejo ou estampas verdadeiramente encantadores pela sua ingenuidade. Já publiquei no blog várias imagens de Alminhas do Purgatório, que me encantam sempre. Pode consulta-los na lista do lado direito, assuntos tratados no blog, na rubrica "azulejos: registos alminhas do purgatório".

      Embora não seja crente, simpatizo com o significado do culto das alminhas do purgatório, que é manter uma ligação entre os vivos e os mortos. Afinal de contas esse objectivo é partilhado pela história, que procura igualmente uma ligação entre o passado e o presente, essencial a todas as comunidades humanas.

      Julgo que a Ermelinda fez um trabalho meritório ao recolher as alminhas existentes do seu Concelho e publicar o resultado em livro, pois talvez muitas delas dentro de 10 ou 20 anos já não existam.

      Obrigado e um abraço

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