sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ainda o Solar dos Montalvões: os amores de um padre e de uma fidalga


Debaixo dos tectos esventrados da Capela do Solar de Outeiro Seco está sepultada a minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, cuja história não consta da genealogia oficial da família. Quando a obra Os Montalvões de Timóteo Montalvão Machado foi escrita em 1948, estava-se em pleno Estado Novo, um período em a moralidade era apertada e por isso nem o autor nem as pessoas da família acharam por bem divulgar publicamente um ou outro esqueleto, escondido no fundo dos seus armários. Por outro lado, o livro Os Montalvões limita-se a ser o típico livro de genealogia, um rigoroso enumerado sem fim de nomes e datas, sem narrativa, que omite as histórias mais apaixonantes e nada nos diz sobre o aquelas pessoas mortas há séculos pensaram ou desejaram

A Maria do Espírito Santo nasce em 1856 num berço de oiro. A sua família era fidalga, tinha extensas propriedades, um bonito solar e certamente procurou dar à filha a boa educação necessária, para que a rapariga casasse com um jovem fidalgo da região. A menina terá passado tardes e tardes esquecidas a fazer bordados e rendas com pontos complicados e arrevezados. Em Chaves, onde a família viveria uma boa parte do ano, terá aprendido as primeiras letras e provavelmente um pouco de francês, o suficiente para ler por alto os catecismos, as vidas dos santos e outras obras piedosas publicadas com encadernações luxuosas em Paris. É também muito provável que tenha aprendido piano, pois em Outeiro Seco existia um desses instrumentos musicais, embora não tenha conhecimento se foi comprado no tempo da Maria do Espírito Santo. Chegada à juventude, a Maria do Espírito Santo é uma jovem prendada, chique como se diria então e um óptimo partido na região Flaviense.

Órfã de pai aos 4 anos, a Maria do Espírito Santo quando chega aos 21 anos, em 1877 está praticamente sozinha, no grande casarão de Outeiro Seco. A irmã Henriqueta tinha morrido em 1873, a mãe em 1874, e o irmão António Vicente, que é militar está fora. No solar, resta apenas um meio irmão, que é padre, e que sendo filho natural, terá certamente um estatuto de inferioridade em relação a ela e um outro irmão o Miguel, um leitor voraz, que nunca casou e que acabou por morrer louco e que nós imaginamos como um ser frágil, talvez dependente do amor e da protecção da irmã. Portanto, em 1877, a Maria do Espírito Santo está mais ou menos sem nenhum chaperon a vigiar os seus passos, as suas idas à igreja ou as espreitadelas discretas à janela.

Encontra-se desde algum tempo em Outeiro Seco um padre, que devia ser para a época, uma personagem marcante. Já tem 31 anos, chama-se José Rodrigues Liberal Sampaio e é um pregador famoso. Há quatro anos, em 1873 foi nomeado por alvará de D. Luís “pregador da sua Capela Real”, título honorífico, que leva a que seja convidado a proferir sermões em várias igrejas pelo país fora e que as pessoas acorram a ouvir as sua homílias. Na época a sermonária era uma arte bem considerada e muitos clérigos chegavam a publicar os seus sermões e alguns deles são hoje ainda considerados génios literários, como por exemplo o Bossuet em França ou o nosso Padre António Vieira.
Seja com o for o José Liberal Sampaio deve ter encantado a jovem fidalga com a sua oratória, com o seu poder de comunicação e também com a sua cultura, ela que deveria estar habituada a marialvas, que pouco mais saberiam falar além da caça e de patuscadas. A fisionomia do padre com o seu queixo a denotar uma força de carácter invulgar, também terá impressionado a jovem.

Ele claro, encantou-se com juventude, a fortuna e o elevado estatuto social da jovem, até porque, embora se saiba pouco das suas origens, o nascimento dele não deve ter sido nada de especial, senão a família teria certamente guardado memória do pedigre ilustre do seu antepassado.

Claro, uma coisa leva à outra e a jovem, que não tinha pais severos a vigia-la acabou por engravidar. Dizem as más línguas que o Liberal Sampaio terá seduzido a jovem por motivos interesseiros. Não me parece que sendo padre pudesse aspirar a beneficiar da fortuna da rapariga, além de que, o amor é sempre simultaneamente uma conquista e uma armadilha. Seja como for, em Maio de 1878 nasce o José Maria, meu bisavô, que é apenas perfilhado pela mãe. O Liberal Sampaio é padrinho da criança, o que nos leva a pensar que não se limitou a fazer o filho e a fugir.

Não sabemos exactamente o que aconteceu depois, nem qual era a natureza da sua relação, mas a 1882, 4 anos depois, a minha trisavó volta a ser mãe. Depois disso também não conhecemos os termos da sua relação. Viveriam juntos? Encontrar-se-iam em segredo?

Em todo o caso o Liberal Sampaio não descurava os seus deveres de pai. Em 1885, estando em Coimbra a cursar Direito e Canônes, recebe o filho José Maria, que tem então 7 anos, para o acompanhar nos estudos. Vivem juntos nessa cidade até ao ano 1891, quando o Liberal Sampaio regressa e passa a exercer advocacia em Chaves. Desconhecemos se manteve a relação com a Maria do Espírito Santo.

Entretanto, o que se passa com ela nestes anos é um ponto de interrogação. As mulheres deixam sempre poucos testemunhos do que foram. A Yourcenar dizia que nunca escreveria sobre uma mulher, porque ela tem tantas máscaras, uma familiar, uma pública e ainda outra como amante que é impossível discernir e adivinhar o seu verdadeiro Eu. O que é certo é que deveria ter uma personalidade forte, pois em 1902, quando morre, deixa expresso que seria ser enterrada na capela da casa, o que deve ter sido foi uma bronca das valentes, pois desde 28 de Setembro de1844 estavam absolutamente proibidos os enterramentos dentro das igrejas. O próprio pároco deixou bem expresso no seu livro de óbitos que o corpo da senhora foi conduzido para a capela particular, sem eu a acompanhar ou autorizar.

Este acontecimento terá sido muito relevante, pois três dias depois da morte da Senhora, o Liberal Sampaio perfilha o seu filho (O segundo filho desta união morreu criança). E a partir desta altura percebemos pelas entrelinhas, que está a viver no solar com o filho e a família, que este entretanto formou. Em 1911, durante as incursões de Paiva Couceiro e a na consequente caça aos monárquicos refugia-se num quarto secreto do solar. Os netos conhecem o avô pelo carinhoso petit nom de Lili e o meu pai, que já não o conheceu, ainda se lembra de ouvir falar no quarto que o Lili ocupava no Solar (ver seta na planta). Posa também com a família em retratos conjunto cheios de uma respeitabilidade algo burguesa.

O Lili com o filho, a nora e os netos

À laia de conclusão, poderemos avançar que estas histórias de bastardia eram muito comuns no século XIX e os amores ilícitos eram tolerados, desde que se mantivessem num determinado nível de descrição e estes meus dois trisavôs não enfrentaram e desafiaram a sociedade como a Ana Plácido e o Camilo Castelo branco o fizeram, alguns anos antes. Em todo o caso, talvez por ser mais banal que o escândalo provocado pelo autor do Amor de Perdição, o caso da Maria do Espírito Santo e do Liberal Sampaio é mais exemplificativo de como se vivia o amor fora do casamento, em Portugal, na segunda metade do Século XIX

3 comentários:

  1. Olá LuisY,Adorei o seu post.Sem me querer tornar ridícula, não posso deixar de salientar o prazer que a sua leitura me dá, o pior é que se está a tornar viciante, sabia? Muito pela atitude, forma aberta, simples e séria na medida certa, de cariz romântica na descrição factual tipo prosa Quirosiana, consegue transportar-me para os ambientes descritos que por momentos passam a ser meus também.Sabe que lhe digo? Vá explorar o site da Camara de Chaves e descobrir através do pelouro da cultura a agenda para o concurso de novos autores com livros inéditos. Forte possibilidade de ser seleccionado, a Câmara publica o livro e geralmente nas festas faz-se a apresentação com sessão de autógrafos. Gostava de lá estar presente para me autografar o meu exemplar e sentir o mesmo há coisa de 25 anos quando o Dr Hermano Saraiva me escreveu uma dedicatória . Está lançado o desafio! Afinal já tem um manacial temático e diverso sobre o Solar dos Montalvões,faltará por certo acrescentar o que ainda não fez sobre a àrvore genealógica que o seu pai iniciou, também escrever sobre as suas muitas aventuras por lá vividas em férias e sobretudo lançar um grito de revolta por o imóvel apesar de camarário estar completamente ao abandono a pedir intervenção urgente antes que seja tarde. Afinal onde está o Feder e outras parcerias para ajudar na reabilitação do solar, da quinta e torná-la viva, em pousada, turismo rural, lúdico, ou outro.Gostou da ideia? Claro que tem tempo para a conjecturar na sua cabeça, mas repare, está quase feita, é só dar corda aos dedos e escrever, escrever.Para terminar esta longa resenha, corroboro na integra o pensamento que introduziu acima e passo a citar novamente "A Yourcenar dizia que nunca escreveria sobre uma mulher, porque ela tem tantas máscaras, uma familiar, uma pública e ainda outra como amante que é impossivel discernir e adivinhar o seu verdadeiro Eu." Pois é! Sentia este pensamento mas não o conseguia escrever de forma tão perceptível.Fiquei mais rica culturalmente.
    Um abraço
    Maria Isabel

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  2. Os seus comentários são muitíssimo encorajadores. De facto, tenho descoberto através deste blog que gosto de escrever. No passado, expressei a minha criatividade através do desenho.

    A Marguerite Yourcenar é de facto uma escritora com uma capacidade de perceber e desvendar a alma humana excepcionais. As histórias familiares que conto neste blog são vagamente inspiradas na forma como ela escreveu as suas próprias memórias de família, um dos livros mais bem escritos, que eu já li. Para fazer a trilogia familiar (I Souvenirs pieux; II Archives du Nord; III Quoi? L'éternité) a Yourcenar teve previamente que fazer uma genealogia, mas como só conseguiu obter as datas de morte e nascimento dos antepassados, resolveu assumidamente inventar o resto, baseando-se para isso nos amplos conhecimentos de História e da alma humana que tinha e o resultado, foi um romance excepcional e simultaneamente um ensaio de história, muito mais inspirado que a maioria dos manuais académicos. Claro, além das ideias excepcionais, a Yourcenar escrevia com uma precisão e um simplicidade notáveis vindas da tradição do classicismo francês.

    Abraço e apareça sempre

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  3. Gostei muito do que escreves sobre esta tua trisavó. Uma pessoas que me teria encantado encontrar e conhecer, pelo arrojo com que parece ter mandado às urtigas as convenções, e por não ter deixado que a sua vida fosse deitada em mãos alheias (isto sou eu a recriar o que não consigo saber de fonte segura!).
    Talvez tenha vivido a compasso de remorsos e solidão, pelo ostracizada que deve ter sido, ou mesmo, até talvez não tenha sido ela a formar e dirigir o rumo dos acontecimentos, mas eles formaram-se a si mesmos, obedecendo ela aos desmandos que tais comportantos devem ter despertado não só nas famílias de algo que a rodeavam, como na restante população do sítio, que adivinho cheia de religiosidade algo fanática.
    É interessante conjecturar a esta distância, mas que a vida da senhora não deve ter sido fácil lá isso não deve.
    Teve como alívio o desafogo económico com que vivia.
    Mas deveria ter sido perfeitamente fabuloso encontrar os diários (se é que a senhora os mantinha!) desta tua trisavó. Na sua falta apetece recriá-los!
    Manel

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