quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Willow Pattern: uma história de amor contada num prato


Prato Willow Patern de Sacavém
Fabricado pela primeira vez em Inglaterra por Thomas Minton em 1790, o Willow Pattern foi um padrão extremamente popular naquele país e foi produzido por mais de 100 anos pelas casas Royal Worcester, Spode, Adams, Wedgwood, Davenport, Clews, Leeds e Swansea.

O padrão do Salgueiro ou Chorão influenciou as oficinas cerâmicas portuguesas, que produziram uma versão ingénua deste motivo, erradamente é designada por Miragaia, e que com mais propriedade se deveria conhecer por cantão popular (ver post de 1 de Outubro de 2009)


O Chorão de Massarelos
Contudo, o Willow Pattern foi também fabricado em Portugal em versões muito próximas do original. Sacavém, Massarelos e a Fábrica de Alcântara produziram-no e tornaram muito popular este motivo em Portugal. Possuo um prato de Sacavém com uma marca datada de 1905 e outro da Fábrica de Massarelos datado de entre 1873-1878.

No Brasil o padrão do Salgueiro foi também produzido com sucesso em versões fiéis ao original inglês ou em variantes mais populares, mas também mais criativas, conforme se pode ver no blog do Fábio Carvalho, http://porcelanabrasil.blogspot.com/, um brasileiro apaixonado pela cerâmica, que é seguidor deste blog.

Uma vez que este padrão é tão importante para as lusas paragens, resolvi então meter mãos à obra e traduzir para a língua do nosso tio Luís de Camões a história completa do padrão do chorão, que retirei do site http://www.thepotteries.org/patterns/willow.html.

Era uma vez um Mandarim que tinha uma filha muito bonita chamada Koong-se. O Mandarim tinha um secretário, o Chang, que enquanto tratava das contas do seu Senhor apaixonou-se pela bela Koong-se. Esta paixão foi muito mal vista pelo pai da moça, que achava o seu secretário um pobretanas indigno da filha.

O pobre Chang acabou por ser despedido e o severo pai mandou construir uma cerca em volta da sua casa, para impedir que os dois apaixonados se encontrassem. A infeliz Koong-se ficou circunscrita a passear-se no jardim e junto à borda de água. Um dia, encontrou uma concha e lá dentro um poema e uma pérola, que certo dia tinha dado ao seu amado. Koong-se percebeu então que o seu amor não andava longe dali.

Ao mesmo tempo, a jovem soube com horror que tinha sido prometida em casamento a Ta-jin, Duque e guerreiro afamado. Ainda mais em pânico ficou quando soube que o Duque estava prestes a chegar, trazendo consigo jóias preciosas para celebrar o noivado


Depois do banquete dado em honra de Ta-jin, Chang penetrou na casa vestido de criado e consegui chegar ao quarto da rapariga. Abraçaram-se e resolveram fugir imediatamente. O Mandarim, o Duque e os convidados tinham comido e bebido tanto que o casal conseguiu escapar sem ninguém dar por eles. Contudo, o pai da moça viu-os no último minuto e persegui-os ao longo da ponte.
Os jovens amantes conseguiram escapar e refugiaram-se na casa duma criada, que o Mandarim tinha despedido por ter facilitado os encontros da filha com o Chang. Uma vez que Koong-se tinha dado as suas jóias a Chang, o pai, que era também magistrado, passou a perseguir o rapaz como ladrão, prometendo executa-lo quando o apanhasse.

Uma noite, os espiões do mandarim relataram-lhe que estava um homem suspeito escondido numa casa junto ao rio. Foram mandados guardas prende-lo. Chang saltou para a torrente furiosa e a Koong-se convenceu-se que ele se tinha afogado. Dias mais tarde, quando os guardas voltaram a fazer uma rusga na casa. Enquanto a criada os distraia os capangas do Mandarim, Chang reapareceu com o seu barco e fugiu com a moça para um local seguro

Chegaram a uma ilha distante e passados muitos anos Chang tornou-se um escritor famoso. Tendo tido conhecimento da existência de Chang, o Mandarim ordenou aos seus guardas que o matassem. Chang suicidou-se com uma espada e a infeliz Koong-se ateou fogo à casa, deixando queimar-se viva lá dentro.
A morte dos dois comoveu os deuses, que resolveram transforma-los em duas pombas, eternamente voando juntas no céu.
Para rematar e a título de curiosidade, os brasileiros conhecem a interpretação mais popular deste padrão pelo delicioso nome de azul pombinho

15 comentários:

  1. Majestoso o quadro romântico citado. Magnânimo, diria.A sua descrição como sempre uma delícia, no desejo intrínseco de investigar, explicar, a verdadeira razão do tema escolhido, fazendo crescer o fascínio no leitor.Também tenho alguns exemplares deste motivo Chorão.Com tonalidades diferentes de azul.Em porcelana do Cantão tenho 4 pratos comprados nas feiras.Muito mais caros, são no entanto magníficos, e ainda tenho uma grande travessa inglesa com o mesmo motivo.Quando tiver tempo vá à descoberta de algumas das minhas velharias, que apenas valem por serem minhas, pouco ou nada aprenderá por certo com a descrição que rara ou nenhuma, deixo tal tarefa para quem como o Luis y só sabe fazer e muito, muitíssimo, bem mesmo.

    ResponderEliminar
  2. Adorei ver os Willows portugueses! O seu post sobre o "cantão popular" foi por mim descoberto justamente quando pesquisava sobre o Willow, pois há talvez 2 ou 3 semanas vi em um filme uma mesa posta com serviço Willow, e fiquei obcecado em montar um pequeno jogo neste padrão para meu uso. Uma fábrica brasileira (Oxford) ainda tinha este padrão em catálogo em 2000.
    Tenho algumas peças Willow inglesas e brasileiras antigas, mas estas não coloco em uso pois além do risco de quebrar, são de faiança, o que sabemos não é o mais higiênico, ainda mais de pois de tantas décadas!
    Já consegui para mim 4 xícaras fabricadas em 1997, e agora quero bule, açucareiro, mantegueira, pratos, etc.
    Enfim, por conta desta paixão renovada pelo Willow, cheguei ao seu (ótimo!) blog, que agora acompanho fielmente, publiquei também algumas coisas sobre o padrão no meu blog, em seguida uma amiga dona de brechó, estimulada pelos meus posts, fez também um sobre o padrão no blog dela, agora este seu novo post... acho que estamos incendiando novamente o desejo pelo padrão!
    O mais curioso é que descobri que na coleção que será lançada este ano por esta fábrica de louça aqui no Brasil (Oxford), a decoração Willow retornará, para atender uma demanda de mercado pelo padrão que ainda existe !! Em 2010 ainda há pessoas desejosas de comprar um serviço Willow!! Parece-me então que este desejo pelo Willow está pelo ar. Será mais um destes momentos de escapismo, quando as coisas não estão bem pelo planeta, corremos para nos refugiar na nostalgia?
    Este padrão eu aprecio desde pequeno, pois na casa de minha avó paterna havia um jogo grande, até com sopeira octogonal com pegadores em formato de cabeça de porcos, que para mim sempre foram misteriosos e encantadores. Este jogo era japonês, que minha avó ganhou de uma amiga dela, vizinha de porta, quando esta foi obrigada a deixar o Brasil, por ocasião da 2a Guerra Mundial.
    Infelizmente este jogo foi se quebrando ao longo das décadas de uso, e quando minha avó morreu, as poucas peças restantes foram espalhadas pela família, e eu não consegui nenhuma, pois ainda não me preocupava com isso na época.
    Enfim, já escrevi demais! Acho até que vou desenvolver isso aqui como um novo post em meu blog!
    abraços!

    ResponderEliminar
  3. Caro Fábio

    Muito obrigado pelo seu comentário, de que gostei imenso.

    É realmente curioso que no Brasil tenham retomado a produção do willow. Sabe, julgo que essa retoma é sintomática do fascínio permanente que a China exerce há mais de dois mil anos na arte Ocidental. Desde o tempo do Império Romano que o Ocidente vive fascinado com a China. Primeiro com as sedas e depois com as porcelanas, que a Europa e também as Américas cobiçaram, importaram, copiaram e reproduziram vezes sem conta. Ainda hoje nos sentimos fascinados com a arte chinesa, bem como com as próprias cópias, que durante centenas de anos andámos a fazer dessa mesma arte.

    Só é realmente pena, que hoje em dia os chineses se tenham dedicado quase em exclusivo à produção de baixa qualidade.

    A minha ex-mulher tinha (e julgo que continua a ter) um desses serviços japoneses do willow pattern, com uma história curiosa, passada há uns 40 anos ou mais. Tinha sido comprado em Angola (colónia portuguesa na costa ocidental africana) pelos avós dela e despachado por barco para Portugal, onde estavam os meus sogros. Houve um engano qualquer e a caixa foi parar a Moçambique (outra antiga colónia portuguesa, na Costa Oriental africana). De Moçambique, o caixote foi reenviado outra vez por barco para Portugal. No meio destas confusões todas, roubaram o serviço de café, mas deixaram o serviço de jantar, que devia ser semelhante ao da sua avó. Depois disso, o caixote esteve fechado mais uma dezena de anos e só foi novamente reaberto quando eu e a minha ex-mulher nos casámos.

    Abraços e apareça sempre

    ResponderEliminar
  4. Obrigado Luz Maria

    Desde há uns tempos para cá ando a planear comprar um Cantão verdadeiro. O fim-de-semana passado deixei escapar um na Feira-da-Ladra por um preço muito aceitável, mas o dinheiro não chega para tudo, sobretudo nesta época de crise.

    Sou um conhecedor amador de faiança. Este blog tem funcionado como umas espécie de fichas, ou como diriam os franceses “aide mémoires”, dos conhecimentos que fui juntando aqui e ali, fruto de leituras, pesquisas na Internet, de conversas com o meu amigo Manel (que faz parte do clube de amantes da faiança), ou de visitas a exposições e museus. Claro, cada vez que escrevo qualquer coisa aqui tento ler mais sobre o assunto. Por outro lado e já conversámos várias vezes sobre o assunto aqui no blog, 90 % das peças de faiança não estão marcadas e como não há muitos estudos desenvolvidos sobre cerâmica somos todos uns diletantes na matéria, condenados a dizer “parece-me que é aquilo” ou “parece-me que é aqueloutro”

    Abraços e apreça sempre

    ResponderEliminar
  5. Sim, este padrão é famoso!
    No entanto, desde que via esta cena, pensava sempre no que as personagens podiam transportar nas mãos quando se encontram em cima da ponte, pois as sucessivas interpetrações e reinterpretações destruiram a hipótese de qualquer reconhecimento desses objectos.
    Finalmente, depois de alguma pesquisa consegui perceber que Chang carrega consigo a caixa de jóias que o noivo enganado, o duque Ta-jin, tinha oferecido à noiva (é interessante a incoerência da cena ... mas muito a propósito e de grande petinência, afinal de que iriam eles subsistir no futuro?), que a filha fugitiva, Knoon-se transporta, nalgumas versões, uma roca de fiar, noutras, a "vara da virgindade" (outras eras!) e que, finalmente, o malvado pai, o Mandarim, brande um chicote com que espera castigar os proscritos (depois de casa roubada ...).
    Esta história, parece, não foi criada pelos orientais, mas tratou-se de uma invenção muito conveniente dos ingleses, pois quer a acção quer o seu desfecho está mais adequada à forma de pensar ocidental, cuja efabulação está mais adequada à criação de histórias com ilações que, pretendia-se, deveriam contrariar a realidade nua e crua e dotar de algum romantismo o espírito das gerações mais jovens ("Afinal o amor tudo pode!" Pobre dessa juventude quando cresceu e foi posta perante as evidências ...).
    Todo este drama de amor contrariado está mais próximo do "Romeu e Julieta" de Shakespeare!
    Manel

    ResponderEliminar
  6. Manel
    Obrigado pelo teu comentário, que ajudou a esclarecer melhor a iconografia deste padrão, bem como a perceber que a sua história é uma visão romântica do Oriente.

    Abraços

    ResponderEliminar
  7. Cora Coralina, poeta brasileira, nascida em Goiás, escreveu um livro para crianças chamado O Prato Azul Pombinho. Ela reconta a história, lembra da infãncia e das deliciosas comidas que eram servidas nos pratos zuis pombinhos...

    ResponderEliminar
  8. caro Anónimo ou Anónima

    Muito obrigado pela sua achega. O nome que os brasileiros dão a este padrão é de facto muito póetico, azul pombinho. As crianças adoram pratos com figuras, comem mais depressa e tudo com a pressa de ver aparecer os bonecos no final.

    Um abraço e volte sempre

    ResponderEliminar
  9. Graças ao Fábio da Porcelana Brasil, site que eu adoro e estou sempre a fuçar, e também a esse blog maravilhoso fiquei sabendo que a Oxford-Biona relançou o padrão blue willow. Comprei um aparelho de 30 peças que chegou ontem!! É muito bonito! As xícaras poderiam ter um desenho mais antiguinho, mas são bonitas, estampadas por dentro... Recentemente comprei uma travessa grande do fim do século XIX ou início do XX, uma pequena, dois pratos de sobremesa, sendo que um deles é da São Caetano dos anos 30 ou 40, fábrica de louças brasileira da minha predileção, um prato fundo e um pires. Com eles fiz uma composição na parede e ficou muito legal.Comprei uma pequena molheira também.Fui a uma livraria e comprei o livro de Cora Coralina que coloquei em cima da mesinha da sala. Minha vida está toda azul pombinho!!! E eu quero é mais...Abraços Luís.

    ResponderEliminar
  10. Caro Jorge Santori

    Um dos resultados mais interessante deste blog é a enorme adesão dos irmãos brasileiros, coisa que me deixou surpreso, pois há uma ideia feita, de que no Brasil ninguém gosta de coisas velhas ou antigas. E com efeito, é uma ideia preconcebida, pois imensa gente do seu País comenta este blog e tem-me fornecido informações preciosas sobre a faiança e azulejaria portuguesa, que foram exportadas para o Brasil em largas quantidades, durante todo o século XIX.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  11. Ideia feita em Portugal???? Aqui não há nenhuma ideia feita que portugueses só gostam de velharias. As pessoas inteligentes e sensíveis sabem dar valor ao que é bom, velharias ou não.As burras, só gostam de vidro e aço e suas casas são frias. Isso vale pra qualquer lugar. O ruim é a nova geração, uma gente que nem eu sei se se deve chamar de gente, que tem horror a tudo o que é antigo e se desfaz de móveis e objetos que herdaram ou mesmo jogam tudo fora, no lixo.Eu amo coisas antigas, pois têm alma e história.E o que eu achar no lixo por aí-eu pego e o faço reviver.abraços.

    ResponderEliminar
  12. Boa noite Luis como está ?

    Penso que em tempos , li no seu blogue uma questão que colocou relativamente ás datas correspondentes aos carimbos das fábricas de louça, e á sua veracidade atribuída pelos estudiosos destas questões. Deparei-me com o mesmo problema, relativamente a uma caneca de António José de Almeida da fábrica Massarelos. Caso possa ajudar nessa explicação, ou se haverá algum equívoco da minha parte , agradeço.
    Sei que o seu blogue é uma referência nesta área, por isso esta minha questão.

    http://tesourosdoutraera.blogspot.pt/search/label/Massarelos

    Cumprimentos e obrigado . Amandio Marecos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Armando

      Consultei o catálogo "Fábrica de Massarellos Porto: exposição de fábrica de louça de Massarellos: 1736-1936. - Lisboa. IMPM, 1998" e a autora do texto sobre as marcas da fábrica, Margarida Rebelo Pinto, atribuí a marca referida com as iniciais ECP ao período entre 1904 e 1912, correspondendo à constituição da Empresa Cerâmica Portuense. Portanto a caneca terá sido feita num período bem mais tardio.

      Com efeito, julgo que ainda as marcas portuguesas não estão ainda bem definidas. O meu pai tem uma caneca com a bandeira da monarquia, com a marca entre 1912-1936, o que não me convence inteiramente. Seria mais lógico ter sido produzida até 1910, mas não tenho maneira de contrapor o que vem nos livros.

      Um abraço

      Eliminar
  13. Boa noite, Luis!
    Acabei de comprar uma pequena travessa azul pombinho, Willow, com aparência de antiga. No verso há apenas o número 1 gravado, nada mais. Alguma ideia de datação? Grato.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro André Gil

      Por via de regra esses números não se reportam a fabricantes, mas sim aos tamanhos ou aos padrões decorativos usados em cada fábrica.

      Abraço

      Eliminar