sábado, 18 de junho de 2011

Uma faiança sumptuosa de Cifka



A segunda seguidora anónima já me enviou há uns tempos imagens de uma peça verdadeiramente sumptuosa, uma taça assinada por Wenceslau Cifka, mas como conhecia muito pouco sobre a obra deste senhor fui deixando o e-mail pendurado na minha caixa do correio, esperando uma qualquer inspiração divina para escrever sobre o tema.

Essa inspiração chegou-me quando me passou pelas mãos o catálogo de uma exposição realizada no Museu do Azulejo Cifka: uma obra cerâmica. Lisboa: IPM, 1993 e a partir do que li nesta publicação fiquei decidido a escrever sobre esta figura tão ímpar da vida portuguesa, que assinou a taça da nossa amiga.


O Cifka nasceu em 1811, na Boémia, na actual República Checa e veio para Portugal por ocasião do casamento do rei D. Fernando com D. Maria II, ao que parece na qualidade de caçador, mas talvez devidos às suas qualidades pessoais, rapidamente se tornou em conselheiro artístico do Rei D. Fernando, que como toda a gente sabe foi um amante das artes, um coleccionador e um protector do património cultural português.

A primeira actividade que Cifka desenvolveu foi como fotografo, tendo aberto um dos primeiros estúdios fotográficos em Lisboa: Em 1865 começou a interessar-se por cerâmica e a partir de 1870 passou a produzir regularmente peças neste suporte, actividade que continuou até 1884, ano em que morreu

Prato inv 8398 do Museu Nacional de Arte Antiga de Inspiração Renascença, decorado com grotescos

Cifka não tinha propriamente uma fábrica. Executava os seus modelos artesanalmente em casa e depois mandava-os cozer à Fábrica de Cerâmica Constância, às Janelas Verdes. A sua produção é escassa, não tinha objectivos lucrativos e o grosso das peças foi comprada pelo próprio Rei D. Fernando. Este artista moldava peças por mero gosto e interesse artístico. As suas obras são meramente decorativas, nunca utilitárias e o melhor exemplo desse carácter não funcional da sua produção são os violinos em faiança que não tocam, como o exemplar do Museu Nacional de Arte antiga, que aqui mostro.

Violino em faiança assinado por Cifka. Museu Nacional deArte Antiga

São peças sumptuosas, destinadas a decorar interiores luxuosos e de ornamentação sobrecarregada ao gosto de Napoleão III, como os Palácios da Pena, Ajuda ou das Necessidades-


Cifka tinha como muitos homens do século XIX; um gosto eclético, embora tendesse mais para um certo revivalismo do renascimento. Inspirava-se na majólica italiana dos séculos XV e XVI, nos motivos grotescos desse mesmo período e na cerâmica de Palissy, mas como além de ceramista foi um dos maiores coleccionadores de gravura em Portugal, inspirava-se também em estampas barrocas ou neoclássicas.


Terrina do Museu de Cerâmica à moda de Palissy
Este artista checo terá sido talvez a primeira pessoa a introduzir em Portugal a moda da cerâmica decorada com cobras, lagartos e couves, que tinha aparecido em França há poucos anos, inspirada na obra do ceramista Bernard Palissy (1510 - c. 1589). 


Travessa de Cifka feita segundo a moda de Palissy

Segundo esta teoria, que não é certa, só mais tarde, Manuel Mafra introduziu esta decoração com animais e vegetais em relevo, que se tornou com Rafael Bordalo Pinheiro uma imagem de marca da cerâmica das Caldas. No entanto, é mais provável, que os dois ceramistas tivessem tomado conhecimento com este revivalismo em simultâneo. Em todo o caso Wenceslau Cifka será certamente um dos pais da célebre louça das caldas, que os estrangeiros tanto apreciam quando cá vem e que os portugueses de classe média tendem a torcer o nariz em sinal de desaprovação.

Napoleão passando revista às suas tropas
A taça que a segunda seguidora misteriosa nos enviou é característica do estilo sumptuoso de Cifka, sempre com alusões ao passado e inspirado em gravuras e quadros célebres. Representa ao centro o nascimento de Napoleão, nas bordas retratos de Napoleão, das suas duas mulheres, Josefina e Maria Luísa, do filho e ainda da irmã, Paulina Bonaparte, que ao que parece era um verdadeiro esteporzinho.


Pelo exterior estão retratados vários momentos da vida de Napoleão Bonaparte nomeadamente a sua coroação, Napoleão passando revista às tropas em Waterloo, batalhas e o final em Santa Helena.

a Coroação de Napoleão
Algumas representações são imediatamente reconhecíveis, como a coroação de Napoleão, que tomou como modelo o quadro de David, que está no Louvre.


A coroação de Napoleão por David. Museu do Louvre

Outras são são mais difíceis identificar, como o motivo central, o nascimento de Napoleão.

O nascimento de Napoleão

Vasculhei na Joconde, a base dos museus de França, toda a iconografia referente a Napoleão Bonaparte e não encontrei nada referente ao seu nascimento. Há sim muitas imagens das suas glórias militares ou dos seus momentos de desânimo em Sta. Helena, mas nada sobre o parto do grande conquistador. Por mero acaso, ao fazer uma pesquisa por accouchement naquela base de dados, percebi que Cifka teria usado como modelo para esta cena um quadro do italiano Francesco Furini, muito copiado, que representa a personagem bíblica Raquel, mulher do patriarca Jacob, a dar a luz o seu filho Benjamim, ao mesmo tempo que morre das dores causadas pelo parto. Cifka introduziu na composição um cachorrinho de regaço, para dar o ar galante à cena.

Os trabalhos de parto e a morte de Raquel por Francesco Furini, na Pinacoteca de Munique

No verso, há toda uma explicação das cenas, bem como a assinatura do próprio artista.




Julgo que a taça da nossa amiga é um bom exemplar do estilo de Cifka, feito para o gosto oitocentista, sobrecarregado e sumptuoso.
 

14 comentários:

  1. Olá Luís ,desconhecia Cifka ,mas adorei as peças que mostrou ,assim como a aula de História de Arte. Interessante a influência sobre a obra de Bordalo Pinheiro.
    Bem-haja por partilhar estas belezas e estes conhecimentos
    Abr.
    Quina

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  2. Olá boa tarde.

    Estive a ler o seu excelente post sobre o belíssimo prato produzido por Wenceslau Cikfa, e se o Luís o permitir, gostaria de reforçar a ideia de que a teoria deste artista ser o precursor do Neopalissysmo em Portugal será apenas uma de outras teorias, visto que outras fontes literárias, nomeadamente o catálogo "Manuel Mafra 1829-1905: Mestre na Cerâmica das Caldas" refere o que passo a citar: "Nas Caldas da Rainha, o Neopalissysmo teve em Manuel O Mafra o primeiro cultor, nos anos 60 e 70 do século XIX, a que se seguiram outros ceramistas como José Francisco de Sousa (praticamente contemporâneo de O Mafra) e José Alves Cunha (finais da década de 1860) (...)".

    No entanto, tendo Mafra e Cifka um denominador comum que seria o Rei D. Fernando II que ao que parece facilitava a ambos o acesso às peças da sua colecção, o seguinte parágrafo presente no mesmo livro é bastante pertinente e lança talvez ainda mais dúvidas sobre quem teria sido o primeiro artista a inspirar-se no estilo naturalista nacional: "No ano de 1870 Manuel Cipriano Mafra passou a usar a coroa real na marca, (...) autorizado por D. Fernando II que o designou fornecedor da Casa Real e o convidava a frequentar a corte. (...) Travou contactos com artistas europeus que frequentavam a corte, em especial com Wenceslau Cifka (...) que esteve em contacto com grandes centros artísticos europeus nos quais se inspirou (...).

    Com isto tudo, o que me parece importante salientar é que tanto Mafra como Cifka foram mestres pioneiros da faiança naturalista portuguesa (em minha opinião, o segundo com um trabalho artístico mais refinado, até porque não tinha a pressão da produção em massa), mas parece-me difícil dizer com clareza quem terá sido o primeiro a adoptar o estilo decorativo em causa.

    As minhas desculpas pelo comentário alargado.

    MercadorVeneziano

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  3. Caro Mercador

    Não tem que pedir desculpa por estar bem informado e por ter feito um comentário muito pertinente e de que gostei muito.

    Com efeito não se conhece com segurança quem começou a produzir loiça à moda de Palissy. Como acontece com as modas é muito natural que mais que uma pessoa tenha a mesma ideia na mesma altura que outra, ou que um ou mais individuos tenham tido acesso a uma mesma fonte e sejam em simultaneo pioneiros de uma qualquer tendência no mesmo país.

    abraços

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  4. Olá Luis,
    Tem aqui um post riquíssimo em texto e imagens a complementar devidamente uma peça única, de excepcional qualidade.
    Muitas das peças de Cifka não são mera cerâmica artística, são verdadeiras obras de arte sobre cerâmica e os violinos são um bom exemplo disso. São mais apropriadas para ambientes muito sofisticados e luxuosos, já num patamar diferente da maioria das peças que aqui temos apreciado.
    Os meus parabéns à sua segunda seguidora pela aquisição desta excelente peça.
    Penso que as incursões que Cifka fez no estilo neo-Palissy terão sido uma questão de experimentalismo e até pode ter sido ele, entre outros, a dar a conhecer essa novidade em Portugal. Pode até ter mostrado peças a Manuel Mafra nos contactos que estabeleceram por intermédio do rei D. Fernando II.
    No entanto, continuo a achar que o Mafra, que nas várias exposições internacionais em que participou também deve ter assimilado as tendências da moda europeia em cerâmica, foi o verdadeiro introdutor do estilo neo-Palissy em Portugal, no sentido em que iniciou a sua produção numa escala já semi-industrial ou mesmo industrial e ajudou a formar o gosto por este tipo de peças, vindo a ter como digno continuador Raphael Bordalo Pinheiro.
    Na sequência do post que fiz sobre Manuel Mafra (http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2011/01/folha-ceramica-de-manuel-mafra.html), em que também contei com um inestimável contributo do Mercador Veneziano, vim a adquirir o catálogo da exposição a que ele se refere e também aí baseio as minhas convicções acerca deste assunto.
    São sempre muito empolgantes e inspiradoras estas partilhas de opiniões, o que lhe agradeço por ter a capacidade de as suscitar.
    Abraços

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  5. cara Maria andrade

    Alterei um pouco o texto do blog, de modo a sublinhar a ideia que provavelmente Manuel Mafra e Cifka tomaram conhecimento em simultaneo com a cerâmica de Palissy.

    Muito obrigado a si e ao mercador pelas sugestões, que tornaram o post mais correcto

    Abraços

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  6. Caro Luís
    Só hoje arranjei um bocadinho de tempo para ler com atenção este post sobre Wenceslau Cifka, do qual pouco sabia. Agradeço-lhe mais uma vez a óptima oportunidade desta aprendizagem contínua.

    Agradeço também à sua seguidora, a partilha que tem vindo a efectuar das suas magníficas peças.
    Abraços
    Maria Paula

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  7. cara Maria Paula

    Eu também pouco sabia deste artista checo e a amabilidade da nossa amiga em enviar-me esta taça, fez-me procurar informações sobre o Cifka e ainda aprendi alguma coisa sobre a gênese da loiça das caldas. Estes blogs são uma forma de exercitarmos as mentes.

    Abraços

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Caro Luís, me saberá disser se ele tem descendentes na Checoslováquia? era muito importante para mim saber.
      Obrigada...

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  8. Este homem é um espetaculo.
    Assinado: Cifka 1999

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  9. Caro Anónimo

    Cifka é com efeito um caso à parte na faiança portuguesa

    Um abraço

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  10. Sou Ceramista e amam-te de antiguidades e também do Cifka. Gostaria de lhe enviar uma fotografia, para onde o posso fazer?

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  11. Parabéns pelo seu blogue. Excelente trabalho!

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    1. Cara Magda

      Obrigado pelas palavras simpáticas e seja bem-vinda a este blog.

      O meu endereço de e-mail encontra-se indicado no perfil.

      Um abraço

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