terça-feira, 28 de junho de 2011

Vinhais por Alfredo de Andrade


 Não tenho bem uma terra. Nasci em Timor e fui criado em Lisboa num bairro incaracterístico. A sensação de ter uma terra, de pertença a qualquer lugar recebi-a dos meus pais. Chaves e Outeiro Seco são dois sítios cheios de carga histórica para minha família, mas afectivamente estou mais ligado às paisagens de Vinhais, a terra das férias maravilhosas na infância, aquelas montanhas desertas, onde já se anuncia o Norte da Europa.

Foi em virtude dessa afeição aquela vila transmontana, que, noutro dia, ao desfolhar o belíssimo álbum de desenhos de um arquitecto, que eu desconhecia inteiramente, Alfredo de Andrade, descobri encantado dois desenhos sobre Vinhais, executados em 1880.



As duas imagens são um testemunho histórico comovente, pois todo o casco histórico da vila, a partir das últimas décadas do século XX foi alterado, estragado e demolido e em seu lugar ergueram casas novas, que poderiam estar perfeitamente na Brandoa, um bairro construído clandestinamente às portas de Lisboa nos 60 e 70.

Nestes desenhos encontramos o velho burgo medieval, construído em xisto, as casas com grandes varandas em madeira de castanho e a Igreja e a Torre do Castelo a dominarem o conjunto, que apresenta um ar aconchegado, para proteger a população dos frios e do inimigo espanhol, que está a uns poucos quilómetros dali. Vinhais defendia a estrada entre Chaves e Bragança e durante a Guerra da Restauração (1640-1668) a vila foi cercada pelos espanhóis, comandados por um tal general Pantoja, um homem ferocíssimo, a julgar pelos documentos da época, que pilhou e queimou tudo o que estava fora das muralhas.

O autor dos desenhos, Alfredo de Andrade (1839-1915), fez quase toda a sua vida em Itália. Estudou arquitectura e artes e fez carreira naquele país, chegando a Superintendente dos Monumentos do Piemonte, Liguria e Pavia. Nesta função projectou e organizou o restauro de vilas, palácios e castelos e entre 1882-1884 foi responsável pela concepção e execução do borgo medioevale del Valentino, uma espécie de pastiche de uma aldeia histórica do Piemonte, destinada a uma daquelas grandes exposições internacionais que o século XIX tanto apreciou.

Alfredo de Andrade era pois um homem que gostava de história, edifícios antigos e andava por todo o lado acompanhado de um estojo de desenho, para captar qualquer pormenor arquitectónico ou paisagem que o encantasse. Foi por isso sensível à beleza que o burgo medieval de Vinhais apresentava em 1880, numa viajem que fez ao norte de Portugal. Ele que estava habituado às obras primas da arquitectura italiana, encantou-se com a pequena e esquecida vila de Vinhais.




Estes desenhos servem-me como imagens afectivas, que me transportam para um passado que já não existe. Mas, também publico-as aqui, porque tenho talvez a ingénua esperança, de que um dia reapareçam arquitectos no espírito de Raul Lino e num futuro próximo voltem a construir casas tradicionais em Vinhais e na Terra Fria do Nordeste.

Os desenhos deste artista radicado em Itália, foram reunidos e publicados pelo filho, Rui Andrade, num álbum, intitulado Arquitectura de Alfredo de Andrade, em 1961 e do qual só infelizmente só tive acesso ao primeiro volume.

22 comentários:

  1. Olá Luis,
    Gostei do seu post.
    Possivelmente conhece a fundação "Fondzione Alfredo d`Andrade" em Italia.
    Tenho uma residência perto de Vinhais e por isso conheço bem a cidade. Como teria lá chegado? Vou procurar a resposta.
    Gostei, para terminar a alusão a Raul Lino.
    Um abraço
    Jmalvar

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  2. Olá Luís,
    Desculpe as gralhas e imprecisões no meu post anterior, mas perto das duas horas da manhã...
    De facto existe uma fundação com o seu nome:"Fondazione Alfredo d`Andrade", em Itália.
    Porque tenho uma residência perto de Vinhais e porque vejo muito interesse, vou procurar investigar. Como teria lá chegado?
    Mais uma vez não quero terminar sem deixar de sublinhar a sua alusão a Raul Lino.

    Um abraço
    Jmalvar

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  3. Caro Joaquim

    O livro de Rui Andrade sobre o seu pai não nos dá muitos esclarecimentos sobre as viagens do pai. Sei que apesar de radicado em Itália, Alfredo de Andrade não cortou os laços com a pátria e vinha cá muitas vezes em férias. O primeiro volume deste álbum apresenta desenhos de Lorvão, Ceia, S. Marcos, Óbidos, Castelo de Trancoso, Vinhais, Bragança e Castro de Avelãs feitos entre 1867-1880 e a maioria das outras imagens são referentes a monumentos italianos. Há também alguns projectos para o Rossio e frente ribeirinha que creio que nunca sairam do papel.

    Alfredo de Andrade mandou também construir uma grande casa para si e a família, em Barbacena (1893-1915), a Fonte d'Alva, que ainda hoje existe e que apresenta uma arquitectura muito italiana.

    Desconhecia a existência da Fundação em Itália, como quase tudo acerca deste homem tão interessante.

    Quanto ao Raul Lino, apesar do mal que disseram dele, fazia umas casas bem bonitas, adequadas à região onde construia e mais ainda lançou uma moda por todo o País, que no geral deu resultados aceitáveis.

    Aliás, em França e na Alemanha continuam a a construir casas segundo as tradições arquitectónicas locais e não sei porque é que nós não fazemos o mesmo.

    Muito obrigado e um abraço

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  4. Olá Luís,
    Porque acordei cedo e tive tempo pesquisei e fui percebendo a dimensão e o desconhecimento que temos desta figura notável.
    Do que li, entre outros, encontrei alguém que investigou: Lucília Verdelho da Costa,"Alfredo de Andrade 1839-1915" e que tem um bom,trabalho.
    Interessou-me particularmente porque para além da pintura, aulas de desenho notabilizou-se como arquitecto de restauro de edifícios antigos.
    Porque me tenho visto a braços com um restauro de um edifício desses(já vão cinco anos)e porque me confrange a destruição do que ainda resta das muitas ruinas de tantos e nobres edifícios no Portugal medieval e profundo que é Trás-os-montes,este absorveu-me por completo.
    Acrescentaria para terminar que Alfredo de Andrade é um caso actualísssimo para o que hoje está a ocorrer no nosso país.
    Também descobri que era amigo pessoal do rei D.Carlos e muito ligado à causa monárquica.
    Teve um filho Ruy Brocchi d´Andrade também muito ligado à causa monárquica e que foi uma personalidade notável.
    Penso que para compreender a passagem pelas nossas terras, Luís, talvez por alguém ligado aos Viscondes de Vinhais, Morais Sarmentos ou por qualquer outra, porque pela dos Morais Soares-Vilartão ainda não investiguei.
    Nas temáticas/encontros que penso, num futuro próximo,desenvolver no Solar de Vilartão, uma delas é ligada à arquitectura.

    Um abraço
    Jmalvar

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  5. Olá Luís.
    Imagino o prazer que lhe deu descobrir estas imagens mais do que seculares do casario de Vinhais, já que lhe está tão ligado por origens familiares e memórias de infância. Eu adoro ver imagens antigas das terras a que estou ligada – Condeixa, Coimbra, Anadia, Curia,… - e por vezes compro postais antigos destas localidades. Também gosto de comprar revistas do século XIX e princípio do XX – Revista Popular, Passatempo, Ilustração Portuguesa, Branco e Negro - onde se encontram imensas fotografias e gravuras de terras portuguesas. Imagens de Lisboa encontram-se, claro, em todas elas, mas Coimbra também aparece muito e há muitas terras do interior e muitas transmontanas que também se encontram naquelas páginas. Há dias encontrei numa Branco e Negro de 1897 um extenso artigo sobre a “Real Fábrica da Vista Alegre”, com ilustrações.
    Não conhecia o nome e a obra desse arquiteto com quem partilho o apelido, mas pelos vistos foi uma figura notável e afinal tão pouco conhecida. Infelizmente acontece a muitos no nosso país…
    Um abraço

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  6. Tal como tu não tenho igualmente uma terra, e também nasci numa ilha situada nos confins da então considerada "África portuguesa" - a Ilha de Moçambique. Guardo poucas memórias dada a pouca idade com que de lá saí, mas tão pouco me habituei a considerar Portugal como "a minha terra", onde tenho andado de um lado para o outro sem me enraizar em qualquer sítio. Tenho família espalhada pelo mundo, como deve acontecer com 80 a 90% dos portugueses, viajo por vezes para os conhecer, e ficam por aí as minhas iniciativas para encontrar as minhas raízes, que não têm a haver necessariamente com um local ou pessoa em especial.
    Houve tempo que este despojamento e desenraizamento me fizeram alguma impressão, tanto mais que estava rodeado de pessoas que falavam e referiam as suas memórias como elementos preponderantes para a formação da sua personalidade. Hoje não mais. Ganhei até algum gosto por este despojamento e desenraizamento e tenho alguma vontade de dizer como Sócrates (passe a presunção) que "não sou nem ateniense nem grego, mas um cidadão do mundo" ... tal situação não me sucederá, mas continua a ser um objectivo daqueles que se vislumbram, mas não se alcançam.
    Quanto aos desenhos, são um deslumbre, e, tal como tu, não conhecia este artista, por isso um grande agradecimento por no-lo teres trazido.
    Tenho um prazer especial por este tipo de desenho e um dos meus primos, igualmente arquitecto, Luís Rosa, dedicou algum tempo da sua vida a executar desenhos a tinta-da-china de edíficios marcantes da história do Brasil, os quais foram posteriormente publicados em livro. Dele possuo um desenho de Paraty, que guardo com muito carinho e pelo qual nutro um apreço muito especial.
    Manel

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  7. Caro Joaquim

    Muito obrigado pelas informações prestadas. Fiquei com curiosidade em consultar o estudo que a Lucília Verdelho da Costa escreveu sobre o Alfredo Andrade. Tenho muito boa impressão dela como autora. Gostei imenso do texto que fez para a exposição "Amar o outro Mar, a pintura de José Malhoa". Além de que tive o prazer de a conhecer pessoalmente.

    Curioso falar em Morais Sarmento. A mãe da minha trisavó, era Morais Sarmento, uma tal Henriqueta.

    Abraços

    Luís

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  8. Maria Andrade

    A obra deste arquitecto foi uma surpresa e só mostra como nós os portugueses acabamos por conhecer mal figuras tão curiosas e interessantes da nossa cultura.

    Ler, consultar e desfolhar revistas antigas é um prazer. Além dos textos e das imagens há os anuncios publicitários do passado que são uma delícia. Tb partilho o prazer de procurar imagens antigas das terras, aliás, esse gosto é comum a muita gente e explica o extaordinário sucesso dos livros da Marina Tavares Dias.

    Abraços

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  9. Caro Manel

    Embora não tendo terra, os meus olhos estão sempre cheios com as montanhas de Vinhais, os castanheiros e a casa de Souto Covo. Sinto que estão lá as minhas raizes e que é de lá que veio o meu tom de pele, o meu nariz ou um certo carácter de bicho do mato montanhês.

    É uma questão afectiva e sentimental. Sinto que quando estiver velho e mentalmente diminuído hei-de falar muito de Vinhais.

    Naturalmente isto não quer dizer que não saiba apaixonar-me por outros sítios do País, como o Alentejo ou os Açores.

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  10. Olá Luís
    Venho atrasada e apetece-me tomar o jeito do seu último comentário...no imediato li-o como se fosse um soneto
    Encantada fiquei com as palavras certas ditas com alma aferrolhado a chave d'oiro...
    "apaixonar-me por outros sítios do País, como o Alentejo ou os Açores"

    O post é fabuloso pela amostragem de Vinhais, onde estão as suas raízes,complementado e enriquecido por alguns comentadores. Extraordinário.

    Bom fim de semana por cá ou Alentejo
    Em qualquer uma...boa feira
    Beijos
    Isabel

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  11. Luís ,permita-me que lhe agradeça assim como a todos os que aqui participam , pelos ensinamentos que me trazem.
    Ab.
    Quina

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  12. Eu também gosto muito de aqui vir. Já o tenho escrito outras vezes. Obrigada pelas coisas tão interessantes que partilha com aqueles que visitam o seu blogue.
    Cumprimentos.
    emília reis

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  13. Caro Luís
    Nem sabe como me tocou a primeira frase deste post! "Não tenho bem uma terra". Quase como eu! Eu,com a agravante de geneticamente ser uma manta de retalhos :)
    Também que tive adoptar uma terra. Metia-me uma tremenda impressão, não ter uma terra, para onde me escapulir, naqueles períodos, em que a maioria das pessoa regressa às origens!Sim,porque ir para o Porto, pendurar-me num quarto esquerdo,não é ir para a terra:)Hoje já não me importo.Por um lado, regresso à minha terra todos os dias,espreitando a janela do computador, por outro, prefiro sentir, que garanti ao meus filhos uma terra, onde eles possam regressar se a vida os obrigar a ir para longe.
    Mas estou um pouco piegas e isso não vale.

    Desconhecia por completo o arquitecto Alfredo de Andrade e a sua obra. Ainda bem que chegaram até nós estes desenhos que mostra.É através de registos como estes, que vamos tendo a triste noção de como preservamos tão pouco o nosso património.
    Um abraço
    Maria Paula

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  14. Maria Isabel

    Obrigado pelas suas simpáticas palavras.

    Ter uma terra é algo que todos nós sentimos a necessidade, talvez por ainda termos todos um bocadinho alma de camponeses. A maioria de nós há uma ou duas gerações atrás ainda vivia no campo.

    Beijos

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  15. Obrigado pelo seu comentário, cara Quina

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  16. Emília Reis

    É um prazer sentir que o escrevo é agradável ou útil para os outros. Isso incentiva-me a ir lendo e pesquisando.

    Abraços

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  17. Maria Paula

    Talvez por se aproximarem as férias, tenha tido esta necessidade de falar de terra ou talvez porque a minha família esteja em vias de perder uma velha casa na província, à qual estou muito ligado.

    Tratamos mesmo muito mal o património. Ainda pensei colocar umas imagens do Vinhais moderno, tiradas do mesmo local em que Alfredo de Andrade se sentou para desenhar, mas eram demasiado horríveis e não me apeteceu estragar o post com horrores, nem chatear os meus simpáticos seguidores com casas modernas e feias.

    Abraços

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  18. Olá Luís!

    Já fiz algumas reconstruções e sempre acontece o mesmo, sempre que olho só me recordo do que foi antes.
    Ficou melhor!..., diz quem comenta... e pode...,mas para mim o anterior é eterno.
    É verdade que o que precisava de ser perseverado foi o que se alterou. Também foi verdade que foi preciso intervir.Daí que tire sempre muitas fotografias.
    Sugeria antes, para não nos poluir, em vez do
    "Vinhais Moderno",Luís,seria cobrir nos locais de "Andrade" telas com os seus desenhos.
    Quem sabe se...
    Quanto mais investigo Alfredo D`Andrade mais me surpreendo com ele e com este País.
    Figura marcante na sua época não coube nele e menos ainda na sua época e só num País à deriva deixa o que ele tem de melhor à deriva.
    Obrigado Luís pelo seu post.

    Jmalvar

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  19. Olá Luís! Boa tarde.
    Sou uma Vinhaense nascida em Bragança e fiquei muito surpreendida com os desenhos que apresenta deste autor. Sendo eu arquitecta nunca tinha ouvido falar neste homem " Alfredo de Andrade. Encontro-me na fase final da minha tese de Mestrado "Reabilitação Urbana e Conservação do Património Arquitectónico", e a minha dissertação é dedicada a Vinhais isto seja todo o meu trabalho está relacionado com o centro histórico desta Vila. Os desenhos que apresenta coincidem bastante com as fotografias existente dessa época.Caso o Luís possa e concorde e caso tenha mais informação sobre Vinhais ao nível de imagens ficaria-lhe bastante agradecida. Caso tenha o livro ou seja o álbum e se não fosse abusar da sua confiança gostaria de vê-lo, pois irei acrescentar esta informação ao meu trabalho. Não me alongo mais. Gostaria muito de falar consigo e caso seja possível, deixo-lhe o meu contacto.Com os melhores cumprimentos
    Helena Pires de Lima Pacheco
    helena.g.pires@gmail.com
    Obrigada e até breve.

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  20. Belíssima descrição que acompanha esta interessante perspectiva do Centro Histórico de Vinhais. Do conjunto de desenhos da autoria de Alfredo de Andrade, sobre Vinhais, faz parte, também, um do pelourinho antes de ser demolido (1870/1880) e ainda na sua localização original. O mesmo desenho foi publicado pelo Pe. Firmino Martins, no vol. II do Folklore do Concelho de Vinhais, em 1939.

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  21. Caro Anónimo

    Muito obrigado pelo seu simpático comentário.

    Tive acesso ao desenho do pelourinho, mas não o publiquei. Estava mais interessado em mostrar como era o burgo de Vinhais no passado e como a sua arquitectura era interessante. Se a tivessem conservado, Vinhais poderia ser uma espécie de Óbidos transmontana e ter centenas de turistas por dia.

    Quando vou à vizinha Puebla de Sanabria, cujo casco histórico está impecavelmente conservado, penso sempre que Vinhais foi assim no passado e medito naquilo que a vila transmontana poderia ser se o desprezo pelo passado e a ignorância não tivessem desfigurado de forma irremediável.

    Um abraço e volte sempre a este blog

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