segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vieiras no telhado de uma casa de Estremoz


Tal como muitos dos leitores deste blog que nasceram nos anos 50 e 60, fomos habituados a ouvir dizer mal de Portugal. Era comum comparar Portugal com os países desenvolvidos e concluir que os portugueses eram os mais estúpidos, os nossos monumentos não se comparavam com as grandes catedrais de França ou de Itália e estávamos amaldiçoados por um destino, que nos condenava para sempre ao subdesenvolvimento e au mau gosto. Achava-se sinceramente que isto era um fado e ensinava-se às criancinhas no Liceu, que os males descritos nos romances de Eça de Queiroz eram os mesmos de hoje e que não havia nada a fazer, senão esperar por um qualquer ditador, que devolvesse a Portugal a grandeza do tempo dos Descobrimentos.

Confesso-vos que esse discurso nunca me convenceu muito, mesmo quando ainda era adolescente e não dispunha de argumentos definidos para os combater. Hoje então borrifo-me para o discurso decadentista e gosto das coisas portuguesas e creio convictamente, que devemos conservar o nosso património cultural e natural, ainda que não seja igual ao da França ou lhe falte o génio de Itália, mas também poucas mais culturas no mundo atingiram o nível de realizações artísticas italianas e não é lícito compararmo-nos com aquele país.

As telhas em forma de concha numa rua de Estremoz
Todo arrazoado vem a propósito de um telhado de uma casa dos finais do XIX ou princípios do século XIX, em Estremoz. As telhas são em forma de conchas, mais exactamente vieiras e emprestam um toque encantador a este prédio. São estes pormenores com que a arquitectura dos finais do XIX, princípios do XX é muito rica, que tornam a sua preservação nas nossas cidades importante, ainda que lhe falte o brilho da Arte Nova de Paris ou do estilo Sucessão de Praga. Enfim, cada qual deve conservar o que tem e não cair no profundo mau gosto de achar que se deve destruir só porque não é igual ao que existe na Alemanha ou Reino Unido.

Termino com o poema de Miguel Torga, a Pátria, que traduz igualmente a minha forma de me identificar com Portugal.

Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga da terra
Debruada de mar.

22 comentários:

  1. Que bonito, Luís!!!
    Mais palavras para quê?
    Um grande abraço

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  2. Olá Luís
    Lindo, amei.
    Gosto das casas com estes avançados nos telhados revestidos no caso a vieiras de cerâmica, outras por lousa ou ardósia em forma arredondada, em telha, ainda outras em lata como em Lisboa vi agora uma série delas abaixo do castelo...esqueci-me da máquina ...

    Partilho consigo este gosto pelo nosso Portugal e pela arquitetura e património.Conheço pouco da europa, só de filmes. Só sei qundo saio estou mortinha para voltar.
    Beijos
    Isabel

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  3. Olá Luís
    As sua palavras não necessitam de resposta ou comentários. As imagens dizem tudo. Para quê procurar lá fora o que temos dentro do País, muitas vezes sem comparação em mais lugar nenhum. Temos um património riquíssimo que precisa de ser descoberto, visto e dado a conhecer.
    Muito obrigada e bem haja.
    Abraços
    if.

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  4. Olá Luis,
    Como brasileiro devo com certa vergonha testemunhar que por aqui também se cultivou por muitas décadas uma lusofobia. E é uma coisa anterior aos anos 1950/60, como você descreveu por aí. Talvez se explique (mas não justifique) o fato de termos sido colônia portuguesa, e com a independência, a consequente lusofobia.
    E pior do que isto, reconheço em nós, brasileiros, também esse espírito de achar que somos uma nação fadada ao fracasso, ao segundo plano, que nada realiza de espetacular.
    É uma pena que seja assim em Portugal e no Brasil, pois isto é que permite que nossas culturas e patrimônios sejam sem protesto destruídos pelo poder público ou privado. Este espírito é que faz não existir estudos adequados e aprofundados sobre nossas histórias, em particular a história das artes e ofícios.
    Eu acho que tanto portugueses quanto os brasileiros exageram quando dizem que não temos nada espetacular em nosso países em termos de arquitetura e realizações artísticas, mas mesmo que se for assim, em relação ao passado, não podemos condenar pro causa disto nosso futuro!
    E uma coisa que se deixa de lado, talvez o maior patrimônio português e brasileiro, além de uma lingua linda, rica e musical, seja o nosso espírito amistoso, afável, o gosto pela prosa, pela boa companhia. E isso sem falar na rica literatura, da variada e emocional música.
    Bom, poderia me alongar, mas aqui é o seu blog!
    E muito fico feliz em um dia ter achado este espaço, onde os portugueses amam as coisas portuguesas, e de longe posso dar uma espiada nas minhas raízes.
    Boa sorte ao novo governo de Portugal, espero em breve ver este país cheio de orgulho e felicidades.
    abraços!

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  5. Caro Luís
    Tem razão no que diz.Várias gerações de portugueses cresceram a ouvir falar mal de Portugal e isso talvez, tivesse a ver com uma certa forma de contestação ao regime político da época.
    Nunca tinha visto em Portugal, este tipo de decoração. Em Espanha,sim é frequente encontrar-se a vieira como motivo de decoração dos grandes edifícios, incluindo igrejas. Penso que está relacionado com os Caminhos de Santiago.
    Um abraço
    Maria Paula

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  6. Muito obrigado Maria Andrade

    Receio andar-me a tornar um moralista, mas a coisa escapou-me naturalmente, porque chateia-me continuarem-se a demolir continuadamente prédios da época do exemplar fotografado, pelo menos aqui em Lisboa, que deveria dar o exemplo

    Abraços

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  7. Maria Isabel

    Desafio-a a andar sempre com a máquina fotográfica na bolsa e a fotografar esses telhados bonitos, que vê durante esses passeios e depois mostra-los nos seu blogues

    Beijos

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  8. If

    Obrigado. Uma amante de Ratinhos como a If faz parte de um grupo de pessoas que não tem vergonha de um certo lado mais camponês ou doméstico da nossa cultura. É um lado que temos que assumir de forma natural e a faiança dos ratinhos é um exemplo, que esse lado mais rural é fascinante e intemporal

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  9. Caro Fábio

    As modernas culturas portuguesas e brasileiras foram formadas durante o século XIX, numa época em que o poderio das nações do Norte estava a atingir o seu apogeu. A revolução Industrial estava no pico e a Grã-Bretanha dominava o mundo. Criou-se então a ideia da decadência dos povos latinos. Mais, ainda nos finais do século XIX começaram a surgir as teorias rácicas, que iriam ter consequências funestas nos anos 30 40 do século XX e começou-se a falar numa raça latina, inferior aos anglo-saxónicos ou aos alemães, condenada pela sua própria estrutura física ao subdesenvolvimento. A única saída para esses pobres povos do Sul seria entregarem-se nas mãos de um grande homem, fosse ele um Franco um Salazar ou um Getúlio Vargas, para serem conduzidos a um certo patamar de glória.

    Há que sacudir com vigor esses fantasmas com vigor e acreditarmos que não estamos presos a um destino fatal de raça inferior e que a nossa arte, arquitectura ou pintura é interessante e devemos gostar delas, mas de forma objectiva e sem fanfarronices nacionalistas. Enfim, só me apetece terminar outra vez com o poema do Torga.

    PS. Adorei o seu comentário

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  10. Maria Paula

    As vieiras são de facto um dos símbolos de Santiago e houve vários "caminhos portugueses", mas o prédio parece-me de uma época em que o fervor das peregrinações a Santiago já tinha arrefecido. No entanto...

    Vou fazer umas pesquisas sobre esta casa

    Abraços

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  11. É interessante que quer em Estremoz quer em Sousel aparecem estas vieiras como elementos decorativos de fachada, e quem sabe, talvez noutros locais que ainda não tenha descoberto nesta zona ... com tempo lá chegarei.
    Manel

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  12. Luisy, I stumbled upon your Blog. I could not find a translator but I did enjoy the photos of the buildings you posted today. Would like to be able to read about them and other things you post. If you know a way I can get it into English let me know. I very much enjoy looking at older buildings. It is all a nice diversion form here at Lake Michigan. Jack

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  13. Hello There Jack,
    You could try this:
    http://translate.google.com.br/translate?js=n&prev=_t&hl=pt-BR&ie=UTF-8&layout=2&eotf=1&sl=auto&tl=en&u=http%3A%2F%2Fvelhariasdoluis.blogspot.com%2F2011%2F06%2Fvieiras-no-telhado-de-uma-casa-de.html&act=url
    As you would see, you can use Google translator to read any blog in english. Ok, it´s far from perfect, but it's getting better everyday.
    I can at least have a fair idea about what we are talking about here.
    Gonna check your blog now!
    Cheers!
    Fábio

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  14. Oi Luis,
    Em função do post do Jack, eu coloquei há um tempinho a ferramenta de tradução do Google no meu blog. Acho que a Maria Andrade fez a mesma coisa.
    É bem fácil, e amplia muito o alcance de nossos devaneios.
    abraços!

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  15. Viva Luís,

    Não posso concordar mais com as suas palavras.
    Mas também eu me estou nas tintas para uma certa classe de deslumbrados, imaginando que nisto consiste a epifânia do "ser civilizado", a grandiosidade, a elegância, a cultura está em qualquer coisa que possa estar para lá das fronteiras estabelecidas desde o século XIII.
    Como diria o Eça, "manda vir modelos do estrangeiro - modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente lhe falta o sentimento de proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e civilizado."
    Temos os deslumbraduzinhos, os só deslumbrados e os verdadeiramente deslumbrados. As doses de estupidez são sempre proporcionais!

    Abraço

    C.

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  16. Lindo ,Luís , o seu texto e o poema de Torga . Nem sabe quanto eu adoro este jardim à beira -mar plantado .Sempre tive orgulho de ser portuguesa e nunca achei o nosso país inferior fosse a quem fosse . Ainda hoje , em cada dia ,surge sempre algo que me faz pensar : "é verdade , somos mesmo bons !!"
    Ab.
    Quina

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  17. Caro C

    já sentia falta dos comentários do meu seguidor monárquico preferido.

    Os textos que escrevo neste blog são minha modesta forma de lutar contra esses espírito que desvaloriza património ou que pretende deitar fora pela janela todo o que é antigo, tradicional ou histórico. O C sabia por exemplo que durante este governo a Torre do Tombo perdeu o seu nome e passou a chamar-se direcção-Geral dos arquivos? Porque motivo se abandonou um nome com 800 anos de história?

    Enfim, temos que reagir e citando a Yourcenar "há que viver, de maneira a fazer do mundo um lugar um pouco menos escandaloso"

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  18. Cara Idanhense

    Muito obrigado pelo seu comentário estimulante.

    Abraços

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  19. caro Fábio

    Obrigado pela ajuda que deu dando indicações ao nosso visitante estrangeiro. Já uma vez coloquei o google translator e o resultado foi tão calamitoso, que o tirei logo de seguida. Talvez eu escreva com muitas expressões idiomáticas, para os textos resultarem bem em traduções automáticas.

    Em todo o caso, aborrece-me ver o senhor interessado no meu blog e não puder satisfazer o interesse dele. Tentarei instalar essa coisa novamente.

    um abraço

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  20. Dear Jack

    I’m very happy for your interest at my blog. Usually I write about Portuguese tiles, pottery, engravings, antiques and old family memoires.

    I will try to install the Google translator in my blog, but the results are usually very poor

    Sorry for my English. I’m don’t fell confortable writing in English
    Cu

    Luís

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  21. Viva Luís,

    Para mim será sempre a Torre do Tombo. Foi na Torre do Tombo que quase em lágrimas de tanta emoção vi pela primeira vez a Bula Manifestis Brobatum, foi na Torre do Tombo que folhei, com reverência quase santa, cada documento que tive de consultar durante o curso. Subir aquelas escadas em direcção "ao passado" foi sempre um enorme prazer. E aqui nem me podem acusar de anti-modernista, porque o edifício é contemporâneo, de linhas muito bem concebidas.
    A criatura que no Ministério da Cultura, claro que com muito pouca cultura, resolveu deixar a sua marca alterando o nome à instituição, nunca lá entrou, e não sei se pior ainda que nunca lá ter entrado, provavelmente considera que "Tombo" terá qualquer relação com o acto de perder o equilíbrio!!!!!
    Com o que realmente me sinto incomodado
    é partilhar a nacionalidade com estas criaturas! Pena se ter perdido o antigo e bom costume da expatriação!!!!!

    Abraço

    C.

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  22. Olá Luís,
    Tenho seguido o seu blog com muito interesse e apreciei " Vieiras no telhado...".
    Recordei entretanto o desabafo de alguém do outro lado do imenso Atlântico, que a imensidão não apagou mas que nos questiona e inquieta a nossa ainda nobre alma Lusitana.
    Parece-me que temos encontrar remédio comum para tal maleita comum.

    Um grande abraço
    Jmalvar

    P.S. Aqui vai, do Presidente da Casa de Portugal em Teresópolis- Rio de Janeiro.

    Como matar seu Clube


    Não freqüente o clube, mas quando for lá, procure qualquer coisa para reclamar. Quando comparecer a qualquer evento, encontre falhas no trabalho do organizador. Nunca aceite uma tarefa. Lembre-se de que é mais difícil criticar do que realizar.

    Se a diretoria pedir a sua opinião sobre assunto, responda que nada tem a comentar e depois espalhe, na conversa do bar, como deveriam ser as coisas. Não faça mais do que o absolutamente necessário e afirme que o clube está dominado por um grupinho. Não leia os comunicados e aviso. Eles nada publicam de interessante mesmo. Se perguntado, afirme que não recebeu.

    Se for convidado para qualquer cargo, recuse alegando falta de tempo e depois critique: “... essa turma quer é ficar para sempre nos cargos...” Quando tiver divergências com um diretor, procure vingar-se no clube. Ameace abrir processo e envie cartas aos sócios, dizendo o que você pensa da atual diretoria.

    Sugira, insista e cobre a realização de eventos, mas quando eles forem realizados, não compareça. Se os seus pontos de vista não forem adivinhados pela diretoria, afirme que suas idéias são ignoradas.

    Após toda essa colaboração espontânea, quando acabarem os eventos, os comunicados, as reuniões, o lazer e todos as demais atividades, enfim, quando o clube morrer, estufe o peito e afirme com orgulho: “EU NÃO DISSE”


    Publicado no boletim informativo da Casa de Portugal de Teresópolis – em Janeiro/2007
    (Texto de autoria de Djalma Ferreira, ex-comodoro do Rio Yatch Clube)

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