terça-feira, 23 de outubro de 2018

As damas do guéridon ou um retrato da minha trisavó

Fotografia da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)
Continuo nos meus trabalhos de identificação das personagens de um velho álbum de fotografias, datado mais ou menos entre 1860 e 1900 e que terá sido formado, pelo meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio. Normalmente parte-se para uma tarefa desta natureza, com o entusiasmo de um arqueólogo prestes a entrar numa câmara funerária há muito esquecida, sentido que vamos finalmente a dar um rosto a personagens, dos quais conhecíamos apenas os nomes nas genealogias e reviver o seu círculo de amizades e parentesco, mas acabamos muitas vezes desapontados e melancólicos, pois muitas fotografias não estão identificadas e aquelas damas e cavalheiros respeitáveis, desaparecidos do mundo dos vivos há muito, muito tempo, persistem em manter os seus segredos.
 
Um pormenor do retrato da minha trisavó
Contudo, com a ajuda de um bom amigo, o Manel, e alguma paciência, através da comparação sistemática de todas as fotografias deste álbum, conseguimos encontrar alguns denominadores comuns e desvendar um ou outro segredo.

A primeira fotografia do referido álbum é a de uma senhora elegantemente trajada de escuro e que eu reconheci como a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão. Apesar de até bem pouco tempo só se conhecer uma única imagem dela, identifiquei-a imediatamente pelos seus grandes olhos claros e pela postura do corpo, uma certa tendência a curvar o corpo para a frente, evidenciando o ventre. Porém, no verso da fotografia, não há uma data, uma dedicatória ou nome do atelier fotográfico, para percebermos que momento da sua vida a câmara capturou. Como a Maria do Espírito Santo nasceu em 1856 e nesta imagem ainda parece estar na flor da vida, talvez a fotografia tenha sido tirada em meados da década de 70 ou início da década de 80 do século XIX.
 
Uma jovem elegante desconhecida

 
Um pormenor do retrato
Avançando pelo álbum fora, o Manel e eu encontrámos mais duas fotografias de jovens elegantes, mais ou menos da mesma época e que tem um factor comum com o retrato da minha trisavó, para além de pertencerem ao mesmo meio social obviamente. Todas as três posaram para o fotógrafo junto a uma pequena mesa decorada com passamanaria, ou um guéridon, nome francês pelo qual ficaram conhecidas essas mesinhas, destinadas a suportar objectos ligeiros, decorativos ou não e que proliferam na decoração de interiores da segunda metade do século XIX. As três seguram sempre um livrinho, que parece ser um daqueles livros de missa, editados em Paris e luxuosamente encadernados, demonstrado assim às madrinhas, às primas, às tias e aos potenciais candidatos a noivos, que eram jovens elegantes, instruídas, mas não em demasia e sobretudo devotas. Há de facto nestas fotografias, uma intenção e uma mensagem.
A segunda jovem elegante desconhecida
 
 
Um pormenor do retrato da segunda jovem elegante desconhecida
Na prática, como a mesinha é a mesma nas três fotografias e nas duas últimas, o nome do estúdio está identificado, descobrimos que a fotografia da minha trisavó foi feita no T. A. Pacheco, Photographia Transmontana, profissional que abriu o seu atelier em 1873, em Vila Real, na Rua de Santo António. As três damas, que certamente eram do mesmo meio social e se conheciam, foram ao mesmo estúdio fotográfico em Vila Real.
 
O autor das três fotografias é T. A. Pacheco de Vila Real, Trás-os-Montes
  
Alguma bibliografia, que refere o fotografo  T. A. Pacheco:
 
História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997 / António Sena. - 1ª ed. - Porto : Porto Editora, 1998

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Dois álbuns fotográficos de carte-de-visite do século XIX: memórias da família Montalvão

O primeiro álbum, formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio.
 Soube da existência destes álbuns fotográficos de carte-de-visite, no site http://www.queirozportela.com, meramente por acaso quando pesquisava sobre fotografias antigas da minha família materna e fiquei absolutamente encantado. Mais tarde, fui encontrando muitos destes álbuns à venda por tuta-e-meia nas feiras de velharias, uns vazios, outros ainda com as fotografias lá dentro e ficava sempre com coração apertado, pensando como é que as pessoas eram capazes de se desfazer das fotografias antigas dos seus antepassados. Era como se tivessem condenado aquelas crianças vestidas à marujo, os jovens militares com uniformes garbosos e as damas e os cavalheiros respeitáveis ao perpétuo esquecimento. O Francisco Queiroz dá a seguinte explicação para esse fenómeno, quando os velhos da família morrem e já não há ninguém que consiga reconhecer as pessoas retratadas, os mais novos retiram uma ou outra fotografia de algum antepassado, que ainda consigam identificar e desfazem-se do álbum.

Recentemente estive num almoço da família Montalvão e uma prima minha, a Ana Vasques presenteou-me com dois álbuns destes, com fotografias da família, tiradas mais ou menos entre 1860 e 1902. Fiquei absolutamente maravilhado ao folhear as suas páginas e foi como se centenas de pessoas mortas e esquecidas há muito tempo ganhassem novamente vida.
Um aspecto do álbum de José Rodrigues Liberal Sampaio
Mas, convém explicar o que se entende por retrato carte-de-visite, antes de apresentar os álbuns propriamente ditos. A carte-de visite é uma fotografia de retrato, que mede normalmente 9,5 x 6 cm, colada sobre um cartão, semelhante aos de visita, com a dimensão de 10,3 x 6,5 cm. Apareceu em França em 1854, correspondendo a uma técnica nova, que permitia a realização de oito clichés a partir da mesma placa de vidro, tornando a fotografia mais barata e desde essa data conheceu um enorme sucesso por toda a Europa, tendo o seu apogeu durante o último quartel do século XIX.

Com as fotografias mais baratas tornou-se hábito na sociedade europeia, oferecer aos amigos, aos pais, aos padrinhos, aos condiscípulos da universidade ou à pessoa amada um retrato carte-de-visite, que podiam conter uma dedicatória no verso. Todos esses retratos eram coleccionados em álbuns, que também se divulgaram durante a segunda metade do século XIX. Os álbuns eram encadernados luxuosamente e o seu interior era formado por páginas de cartão duro, dispondo de umas janelinhas, decoradas com picotado ou com um arco de volta perfeita por cima, sendo que as fotos eram enfiadas nas ditas janelinhas por uma fenda existente no topo da página. Além de conterem retratos, esses álbuns são em si um verdadeiro retrato da rede social de cada família, da importância dos seus conhecimentos, da posição ocupada na hierarquia da sociedade e também uma fonte para a história da moda e mesmo da psicologia.
O padre José Rodrigues Liberal Sampaio, no momento da sua formatura. Foto de J. M. Santos, Phot. Conimbricense
Relativamente aos álbuns da minha família, o primeiro está em bom estado de conservação e muito provavelmente foi formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), pois reconheci nas legendas a lápis de algumas das fotografias, a sua letra cursiva e miudinha. Muito significativamente o álbum abre com duas fotografias da sua amada, a minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902), a fidalga com a qual manteve uma relação ilícita e da qual resultou o nascimento o meu bisavô.
Um retrato desconhecido da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902),
Uma das fotografias da Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão não a conhecia de todo, e da segunda só possuía uma cópia digital, e aos anos que tentava averiguar do paradeiro da prova em papel original junto do meu pai e do meu irmão e afinal estava aqui, arquivada e esquecida neste álbum.
 
Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902),


Depois há uma sucessão de damas, crianças, clérigos e cavalheiros, que tenho dificuldade em identificar e finalmente muitas fotografias dos seus condiscípulos, do curso de direito de Coimbra, os finalistas de 1891. Grosso modo, as fotografias datarão entre 1860-1891.
Fotografia de António José Machado. As legendas das imagens estão identificadas com a letra cursiva, mas miudinha de Liberal Sampaio
A letra cursiva, mas miudinha de Liberal Sampaio
 
O segundo álbum, que está em muito mau estado de conservação, com a lombada inteiramente desprendida das capas, foi certamente constituído pelo meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965), pois grande parte do álbum é formado por fotografias dos seus condiscípulos do curso de Direito de Coimbra, finalistas do ano lectivo de 1901-1902 e quase todas elas tem dedicatórias e estão assinadas.
O segundo álbum, formado por José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965),
É praticamente o retrato de uma geração inteira de estudantes de direito de Coimbra e alguns deles certamente ter-se-ão distinguido na política, na literatura, na administração ou no jornalismo, aqui na capital, ou no Porto, ou tornaram-se individualidades ilustres em cidades e vilas da província. Estas imagens são também uma fonte de estudo para os fotógrafos coimbrões daquela época.
 
O segundo álbum é formado maioritariamente por fotografias dos seus condiscípulos do meu bisavô, do curso de Direito de Coimbra, finalistas no ano lectivo de 1901-1902. Verso da Carte-de-visite oferecida ao meu bisavô por  M. Marques Braga
 
Claro, há também fotografias da sua mãe, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, desconhecidas da família e que de facto permitem-nos ver que era uma bela mulher, bem como de outros parentes, cuja identificação ocupa-me os pensamentos todo o santo dia, pois nem sempre estes retratos de carte-de-visite, contem dedicatórias no verso. O álbum terá sido muito manuseado e por isso se encontra num estado de conservação tão sofrível. Segundo consta na tradição familiar, o meu bisavô permaneceu a vida inteira muito ligado aos tempos de Coimbra, frequentando assiduamente os encontros de antigos condiscípulos e era natural que folheasse repetidamente o álbum, para matar saudades ou para o mostrar a antigos colegas de curso de passagem por Chaves ou Vidago, quando aí iam a banhos.
Finalistas do Curso de Direito de Coimbra, 1902
Enfim, estes álbuns e a identificação das suas personagens ocupam o meu pensamento de forma quase obsessiva e terei que trabalhar neles, para que as figuras da genealogia familiar, deixem de ser apenas um assento de baptismo e ganhem um rosto, uma expressão e uma alma. Voltarei certamente a este assunto aqui no blog.
 
Alguma bibliografia e links consultados:
 
 
 
História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997 / António Sena. - 1ª ed. - Porto : Porto Editora, 1998.
 
Um novo olhar sobre o país: Emílio Biel e A arte e natureza em Portugal / Paulo Ribeiro Baptista http://www.academia.edu/13986453/Um_novo_olhar_sobre_o_pa%C3%ADs_Em%C3%ADlio_Biel_e_A_Arte_e_Natureza_em_Portugal

domingo, 30 de setembro de 2018

Nove anos de velharias do Luís ou meia-noite em Paris

Imagem de um blog virado para o passado
Quem vier parar a este blog por acaso, entrando aqui às cambalhotas, através de uma pesquisa no Google, pensará que eu sou um homem muito mais virado para o passado que o presente. Mas, em todas as épocas históricas há sempre gente nostálgica do tempo que já passou. O Woody Allen realizou um fime, Midnight in Paris, em que um argumentista americano com pretensões a escritor, visita a capital francesa esperando encontrar qualquer coisa do ambiente frenético dos anos 20, em que Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Jean Cocteau, Picasso e tantos outros animavam a vida cultural da cidade. Numa noite, em que o protagonista bebeu de mais, é transportado como por um passe de mágica para os anos 20, onde conhece todas aquelas personagens fantásticas, que sempre admirou através dos livros e dos filmes. Apaixona-se então por uma rapariga linda, desempenhada por Marion Cotillard, que servia de modelo a Picasso. Porém, a jovem é uma nostálgica da Belle Époque e apenas sonha viver nos finais do século XIX. Há novamente um passe de mágica e o protagonista, na companhia da bela Marion Cotillard viajam novamente no tempo, até à Belle Époque, onde travam conhecimento com Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin, e Edgar Degas, que sonhavam viver no Renascimento. Enfim, a Marion Cotillard decide ficar  no século XIX, o protagonista volta ao tempo presente, o século XXI, envolve-se uma jovem parisiense vendedora de discos antigos e aproveitando a experiência única da sua viagem ao passado e dos conselhos literários de Gertrude Stein publica um romance sobre um homem, proprietário de uma loja de velharias, que é um enorme sucesso.


Uma velharia que não envelheceu o suficiente para ser uma antiguidade ou uma peça de museu

Além de uma belíssima homenagem a Paris e ao seu passado grandioso como centro das artes e da cultura na Europa, é um filme muito interessante sobre o fascínio pelo passado, que em todas as épocas existiu e que é em si um impulso da criação artística.

Tal como o protagonista de Midnight in Paris, também neste este blog, ao longo de nove anos usei o passado como motivo inspirador, para criar qualquer coisa de muito pessoal, que partilho com uma pequena comunidade de amantes da história, da arte e das coisas antigas.

Muito obrigado a todos os que visitam este blog e deixo-vos com  uma cena de Midnight in Paris, quando o protagonista viaja até à Paris dos anos 20 e entra num Cabaret, onde Josephine Baker canta La Conga Blicoti







quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Uma velha escada em pinho de Riga


A escada em pinho de Riga é dos elementos arquitectónicos, que mais aprecio na casa da minha família materna. É toda ela muito bem construída, ladeada com balaústres e colunas, com degraus não muito altos, espelhos com boa largura e ainda um bom corrimão, de forma a que, qualquer pessoa, mesmo com dificuldades de locomoção, a possa subir e descer facilmente e sem risco de cair. Segundo um dos meus tios me contou, esta escada foi encomendada especialmente para que a minha avó, que tinha problemas nas pernas a pudesse subir sem esforço e em segurança. Coitada, na época em a escada foi encomendada, em 1933, tinha 39 anos e já tinha dado à luz 8 crianças e era natural, que todas essas gravidezes, lhe tenham prejudicado a saúde e lhe custasse subir escadas.
 
Factura da Boa Reguladora relativa à encomenda dos materiais para a construção da escada
Um dos meus primos descobriu há pouco nos papéis de família a factura relativa a esta escada, bem como às outras madeiras, que apetrecharam a casa, os soalhos e os vãos de porta. A factura data de 1933, um ano antes do final das obras de construção da casa e foi emitida em nome do meu avô, materno António da Purificação Ferreira. A empresa que forneceu as madeiras foi nada mais nada menos do que A Boa Reguladora, de Vila Nova de Famalicão, famosa pelos seus relógios de parede e despertadores, que existiam em quase todas casas portuguesas, mas que também se dedicava a actividades que eu desconhecia completamente, como à carpintaria, serração, moagem e ainda tinha uma central de electricidade.
 
 
Nos últimos tempos, a escada ganhou caruncho, problema que não existia antigamente, quando a casa estava habitada o ano inteiro e as lareiras acendiam-se quase continuamente durante todo o ano, fumigando as madeiras e matando assim os xilófagos, o nome científico, que se dá a esses bichinhos antipáticos.

Todos os anos, quando regresso a esta velha casa de família, encero esta escada furiosamente, numa luta sem tréguas contra o caruncho e creio que sobretudo contra o tempo, que ingenuamente tento parar. Talvez acredite que mantendo aquela escada bonita e bem tratada, possa conservar a memória dos que tantas vezes a subiram, da minha mãe com os seus passos apressados ou da minha avó materna, esgotada de tantos partos, dos meus tios que já morreram todos, ou até da minha própria infância e da dos meus filhos.
 
 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Uma vista de Montréal em 1830: travessa da Davenport


A faiança inglesa da primeira metade do século XIX, com suas paisagens e panorâmicas, é qualquer coisa de fascinante. Se muitas das vistas são meramente imaginadas, outras são bem reais, como é o caso desta travessa da Davenport, que retrata a cidade canadiana de Montreal, vista da ilha de Santa Helena.
No canto inferior esquerdo vê-se a âncora, típica marca da Davenport
Esta travessa terá sido produzida mais ou menos entre 1830 e 1840 pela fábrica inglesa de Davenport e inspirou-se numa estampa gravada por R. A. Sproule e W. L. Leney, datada de 1830 e executada a partir de um desenho de Robert Auchmuty Sproule (1799-1845). Este motivo serviu de base para a produção de um serviço inteiro, com pratos, travessas e molheiras, terrinas e tudo o mais.
 
Vue de Montréal à partir de l'île Sainte-Hélène. Estampa gravada por R. A. Sproule e W. L. Leney, datada de 1830 e executada a partir de um desenho de Robert Auchmuty Sproule
A panorâmica de Montréal da Davenport é tão boa, que ultrapassa em qualidade a gravura que lhe serviu de modelo. Nesta última, os barcos que navegam no rio estão dispostos de forma muito certinha, enquanto que, na travessa, o porto de Montreal fervilha de actividade e o tráfico do rio é intenso.
 
Davenport
O porto fervilha de actividade e ao fundo vislumbra-se a recém inaugurada catedral de Notre-Dame
Com efeito, a imagem desta travessa surpreendeu um momento da história de Montreal particularmente activo e próspero. Durante a primeira metade do século XIX, Montreal passa de uns modestos 9 mil habitantes para cerca de quarenta mil habitantes, tornando-se a maior cidade do Canadá. Uns cincos anos antes de a gravura ter sido impressa, em 1825, tinha sido aberto o canal de Lachine, que permitiu contornar os rápidos do Rio de São Lourenço, junto aquela cidade canadiana. Também nesse mesmo ano, mais a sul, os americanos construíram o canal Érié, que ligou o lago com o mesmo nome ao Hudson e ao porto de Nova Iorque. Montreal passou a contar com duas ligações fluviais ao atlântico e o tráfico do porto tornou-se intenso. Barcos a vapor, como aquele que é aqui mostrado, da British America asseguravam a ligação entre Québec e Montréal. A prosperidade era tão grande que em 1830 a cidade resolve erguer uma nova catedral, a igreja de Notre-Dame, construída em estilo neogótico e que vemos aqui representada, apesar de nessa época, as torres ainda não estarem terminadas. A cidade ganhou tanta importância, que entre 1842 e 1849 foi capital política e administrativa do Canadá.
Vapor da British America, que assegurava a ligação entre Québec e Montreal
Foi também entre 1800-1850, que Montréal deixou de ser uma cidade exclusivamente francófona e católica, em resultado do enorme fluxo de emigrantes, provenientes da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda. Começaram então os conflitos entre as duas comunidades, a francesa e a inglesa, com os irlandeses católicos a aliarem-se aos franceses, também eles apostólicos e romanos. Todos estes problemas entre francófonos e anglófonos e entre católicos e protestantes culminaram na destruição do parlamento em 1849 e na consequente passagem de Montréal para Toronto da capital administrava e política do Canadá.
 
Vista de Montréal a partir do monte de Santa Helena, tirada nos nossos dias. Foto www.alamy.com
Hoje, passados quase duzentos anos, da produção desta travessa, a vista de Montréal a partir do monte de Santa Helena continua a ser um dos temas preferidos dos postais ilustrados e de todas as fotografias panorâmicas da cidade. Só que entretanto Montréal encheu-se de arranha-céus e mal se vê a catedral de Notre-Dame.
 
Alguns links consultados:
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Serviço de café da Schafer & Vater: da fábula às sufragistas


Este curioso serviço de café está na casa da minha família materna no Norte. As suas peças parecem figurantes de algum filme de animação da Disney, tendo por tema a Alice no país das maravilhas ou a Bela e o monstro. Talvez por essa razão tenha encantando várias gerações de meninas, que se entretiveram a inventar histórias com os bules, as leiteiras e as chávenas, reprodução de caras femininas de várias idades.

Personagens da Bela e do Monstro da Disney
Recordo-me da minha irmã contando às suas filhas qualquer coisa acerca de um passeio da mãe bule acompanhada das suas filhas pequenas, as chávenas  e talvez tivesse havido mesmo uma mais desobediente, que se afastou das restantes e se quebrou, como a na fábula da panela de ferro e da panela de barro. Já não me recordo bem dessas histórias, mas o que é certo é que a leiteira do serviço está realmente quebrada.


Este ano resolvi fotografar o serviço e tentar apurar qualquer coisa de mais concreto acerca dele e quem estas senhoras e meninas em loiça realmente representam. Através de uma pesquisa de imagens no google, combinada com palavras chave rapidamente encontrei dois ou três serviços à venda iguais, com identificação do fabricante. O serviço foi fabricado pela Schafer & Vater, firma alemã sedeada na Turíngia, em Volkstedt-Rudolstadt e cuja actividade decorreu entre 1890 e 1962. Esta Schafer & Vater produziu mais ou menos de tudo um pouco, mas destacou-se sobretudo pelas suas peças de louça divertidas e insólitas. A suas manufacturas são sempre de muito boa qualidade, com um grão fino, textura aveludada, já que a fábrica disponha de importantes minas de caulino nas imediações.
 Schafer & Vater produziu louça divertida e insólita.
Este serviço terá sido provavelmente fabricado nos primeiros anos do século XX e relativamente ao seu significado, o portal dos antiquários WorthPoint, indica tratar-se de uma caricatura das sufragistas, as mulheres, que lutavam pelo direito ao voto, enchendo os cabeçalhos dos jornais nessa época. O serviço está pintado em verde (Green), branco (White) e violeta (Violet), que correspondem às iniciais do moto das "sufragettes" Give Women Votes!

Afinal estas figuras femininas não ilustraram uma história qualquer infantil, mas antes as senhoras do movimento sufragista, que no início do século XX manifestaram-se ruidosamente na rua, punham bombas, faziam greves da fome e houve mesmo uma delas, que se matou atirando-se para debaixo das patas do cavalo do rei.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Terrina de faiança portuguesa: motivo País

 
Sempre tive uma grande paixão pelo motivo País, que a Fábrica de Miragaia introduziu e celebrizou em Portugal, mas está série decorativa aparece raramente nos mercados de velharias e quando surge é vendida a preços muito altos. Depois de muitos anos a procurar este padrão decorativo em todas as bancas e estendais nas feiras de velharias, só consegui comprar um único covilhete. Por essa razão, no passado Sábado, quando vi esta terrina com o motivo País a um preço razoável, não hesitei e comprei-a de imediato, apesar do seu sofrível estado de conservação.

A série País corresponde ao segundo período de laboração da fábrica de Miragaia (1822-1850) e tomou esta designação junto das pessoas porque no início do século XIX, País ainda era sinónimo de paisagem. Por exemplo, no século XVII, um pintor de paisagens era denominado por pintor de países
 
A série País inspirou-se no padrão denominado View in Fort Madura da fábrica Inglesa Herculaneum, como se pode ver nesta imagem,  com duas terrinas lado a lado, a primeira da Herculaneum e a segunda portuguesa, da chamada série País
A série País foi inspirada num padrão denominado View in Fort Madura da fábrica inglesa Herculaneum, do qual Miragaia fez uma adaptação simplificada, segundo um gosto popular, mas ao qual não falta o seu charme.
A minha terrina não está marcada
O problema é que a minha terrina não está marcada e sabe-se que pelo menos três fábricas nortenhas copiaram este motivo, Santo António de Vale da Piedade, Alto da Fontinha e ainda Viana. As imitações de Viana são relativamente fáceis de distinguir das outras, pois os azuis são mais clarinhos e o motivo decorativo é adaptado de forma mais livre. Contudo as peças de Santo António de Vale da Piedade e Alto da Fontinha são difíceis de distinguir das de Miragaia para os olhos de um leigo.
É difícil distinguir Miragaia do Alto Fontinha. Imagem retirada de "A colecão de faiança do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015"
Existiam relações muito próximas entre Miragaia e as duas últimas fábricas. Entre 1824 e 1833 a Fábrica de Santo António de Vale da Piedade esteve alugada à família de Rocha Soares, patrões de Miragaia e depois do encerramento desta última em 1850, muitos dos seus operários e mestres transitaram para Santo António de Vale da Piedade. Quanto à fábrica do Alto da Fontinha (1837-1860) vendeu na década de quarenta as suas produções num depósito na Rua da Esperança, pertença da família de Rocha Soares. Depois do fecho da Fábrica de Miragaia, a Fontinha contratou um oficial, antigo empregado daquela fábrica. Estas relações de proximidade explicam porque é que é que as três fábricas fabricaram este padrão praticamente em simultâneo, ou ainda porque é que a Fontinha e Santo António do Vale da Piedade terão continuado a produzir a série País, depois do fecho de Miragaia.
As pegas são muito características
Relativamente à minha terrina, a pintura parece-me um bocadinho trapalhona, relativamente às peças que vemos de Miragaia nos museus ou nos catálogos de exposições. Por outro lado, no catálogo da exposição Fábrica de Louça de Miragaia, de 2008, não é reproduzida nenhuma terrina com este modelo de pega.

No blog, Arte Livros e Velharias, a nossa amiga Maria Andrade, publicou duas terrinas iguais a esta, a primeira sem marca tal como a minha e a segunda marcada Santo António de Vale da Piedade. A Maria Andrade referiu ainda que no catálogo Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998 consta uma terceira terrina igual a esta, mas marcada Miragaia.
Terrina marcada Miragaia. Imagem retirada de Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998
Em suma, aparecem terrinas iguais a esta com marcas de Miragaia, Santo António de Vale da Piedade e outras pura e simplesmente sem marca nenhuma. Sendo assim, a minha terrina tanto poderá ter sido fabricada por Miragaia entre 1822-1850, como também, no mesmo período ou até numa data mais tardia por Santo António do Vale da Piedade ou ainda, quem sabe, se pela fábrica do Alto da Fontinha.
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:

- A colecão de faiança do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015
- Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional do Azulejo, 2008
- Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998
http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2011/08/duas-terrinas-com-pronuncia-do-norte.html
http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2013/08/de-novo-fabrica-de-santo-antonio.html